4. Passado

Aquele que eu fui morreu em dois mil e treze.
A culpa não foi de ninguém. Foi uma daquelas combinações aleatórias que nunca deveria ter acontecido. Estava tudo bem e de um momento para o outro tudo mudou, o emprego acabou, a carreira desapareceu, a família desfez-se, o fogo da vida apagou-se.
Aos quarenta e cinco anos, experiente, com responsabilidades, sou largado num mundo em crise, com o encerramento da empresa onde trabalhava e com os concorrentes também a despedirem. Já não tinha idade para emigrar e a única solução era sujeitar-me a trabalho desqualificado ou reaprender outra profissão, outro ofício, perder rendimento, aceitar mudar de vida, provavelmente mudar de casa.
Um homem sem trabalho já é um drama, um homem a perder o comboio da carreira é o início de um longo processo de decadência. Rotinas, amigos e pequenos orgulhos desaparecem. As conversas soam vazias e gabarolas de vencedores de jogos com regras que já não me interessam. O mundo pequenino das pessoas pequeninas, que eu também fora, desapareceu. Dei por mim a olhar à volta triste por mim e por eles.
Acabei por perder a família numa sucessão rápida de incompreensões e desentendimentos. No momento mais tenso fui incompreendido. Fui atiçado quando precisava de abrigo, acusado de inação, e senti-me incapaz de reagir e explicar. Procurei paz e conforto, ser querido, e refugiei-me nos braços de outra que afinal eu também não queria. Desgastei-me numa dupla traição de um homem, perdido, carente, sem defesa e já sem passado.
Posto fora, larguei tudo. O meu filho nunca mais me falou e diz que não precisa de mim. A mãe tem rendimento, património, prestígio e estatuto, para descartar um falhado da vida que desrespeitou o sacramento e manchou o seu nome.
Planeei tudo metodicamente. Uma saída de cena rápida, indolor, discreta e suficientemente dúbia e acidental, como uma viragem de página para os poucos que se importavam. Um pequeno incómodo rapidamente ultrapassado com flores descartáveis e palavras de circunstância.
Eu não fazia sentido, não entusiasmava, era um embaraço para os herdeiros, uma decadência de pessoa. Nada mais interessava.

Por um acaso da vida, que já vos contei ali atrás, o diretor de uma das revistas mais importantes e populares do setor automóvel encontrou um engenheiro metalúrgico fornecedor de peças, com experiência a lidar com as exigências e fraquezas dos fabricantes, autodidata de estratégia comercial internacional, devorador durante décadas de todas as publicações técnicas, acompanhando o estado da evolução, interessado o suficiente por história, política e economia internacional para saber o nosso lugar e caminho, com o cinismo crítico, temperado pela vida, suficiente para não se excitar com novidades propagadas por modas, solitário e cansado da vida, sem necessidade de sorrir nem agradar para viver.
Pierre diz agora que confia na objectividade e honestidade das minhas análises, e que aprecia a métrica e ritmo da minha escrita. Não sei, perguntem-lhe a ele. Eu faço o que posso.
Ele nem sabe que eu já não conduzo, nem sequer carros de aluguer. Zanguei-me com os automóveis; com o risco e violência de mais de uma tonelada de aço a rolar a cem quilómetros por hora, dirigida por um tipo sem talento nem formação, distraído a falar ao telemóvel, com as paisagens verdes violadas por asfalto, betão, redes, sinais, publicidade e permanente ruído de camiões. Zanguei-me com as cidades transformadas em circuitos urbanos. Só tenho carta para os testes que me convidam e pagam.
Todos os meses, uma equipa técnica de cinco jovens engenheiros desloca-se, a convite das marcas ou de motu proprio, requisitando veículos, para fazer testes e ensaios a novos modelos ou versões. Num circuito fechado, numa estância de verão, no inverno, ou de ski, no verão, monta-se um verdadeiro laboratório de mecânica, acústica, análise de gases de escape, volumetria, dinâmica, resistência, iluminação. Pilotos profissionais levam os carros aos limites. Pierre faz questão que eu esteja presente. Quer a minha opinião sobre o que os outros não dizem: conforto, infotainment, ergonomia, facilidade e prazer de condução, assistência em viagem. Durante um dia inteiro faço centenas de quilómetros, simulo todas as situações, avarias e reclamações. Faço um relatório privado para Pierre. As minhas observações aparecem normalmente no fim do artigo, sem assinatura. Sou bem pago para isso. É única razão para ainda renovar a carta de condução.
O sucesso aparece quando e onde menos se procura. Trabalho, conhecimento, talento, por esta ordem, são essenciais, mas sem a ponta de sorte que inesperadamente nos coloca no sítio certo no momento certo, nada acontece. Não é tudo por acaso, não é um meteorito que cai do céu mesmo em cima da nossa cabeça. É sair, procurar, falar, incomodar, mostrar, até que alguém repare e nos reconheça o valor.
O mais certo é que nunca aconteça mas sem trabalho, conhecimento, talento, promoção e demonstração, nunca a sorte há-de dar connosco.
Mais vale cair em graça do que ser engraçado.

Hoje percorro os mesmos lugares, terras, cidades, praias, jardins, hotéis que o outro homem percorreu até 2013, como se seguisse os passos de um morto com curiosidade mórbida, invejoso do que foi e do que poderia ter sido. Não é saudade. Na verdade, aquele era outro homem que ficou lá trás. Passo à porta de casa, que hoje é habitada por estranhos, e revejo todos aqueles momentos. As gargalhadas, os sustos, o amor, as alegrias, as novidades, mas também o chumbo no fim. Revejo os lugares como quem revê um filme. Ele tinha bom gosto e era bem guiado.

Estou a escrever três livros. Quem diria?
Os três são biográficos e nenhum conta a história da minha vida. Têm saltos e episódios parcialmente vividos por mim. Nenhum começa como eu comecei, passa pelo que eu passei nem termina como eu sei que vou terminar, mas contam o que eu me orgulho, os medos que tive, parte do que fiz e o que queria ter feito, quase tudo inventado. Na minha cabeça, vive comigo todos os dias.
A minha mais fiel e discreta leitora, a quem mostro o que escrevo, nem sempre responde ou comenta. É a única voz que ouço e deixo que me oriente. Já lho disse, mas julga, sinceramente, que estou a brincar.
Há muitos anos, quando lhe apresentei a minha noiva, comentou discretamente, entre dentes, “Tinhas de arranjar uma flausina”. Incomodou-me a franqueza rude que fiz por esquecer. Achei que era despeito e ciúmes. Ela não era a mais bonita, sabia dos meus gostos simples e da minha fraqueza por carinhas larocas.
Todos os dias ouço aquelas cinco palavras, sussurradas ao vento entre o bater das ondas.

3. Instalação

As Cíclades são o meu algarve, da mesma maneira que o Algarve foi o algarve das gerações anteriores até à montagem espaventosa dos anos noventa e seguintes que destruiu quase tudo que não estava protegido, e continua. As Cíclades são o meu conforto quando procuro sossego, calor, águas cálidas, tranquilidade, paisagens, praias, gente boa, sem casinos, sem golfe, sem autoestradas, sem construção civil, nem trânsito.
Consegui reservar o meu quarto de hotel para todo o mês de setembro. Não discuti o preço, também não sou eu que pago. Disse para onde queria ir e alguém, de Paris, tratou e pagou. A despesa está dentro do orçamento de produção que Pierre me atribuiu. Não sei qual é o limite, mas sei que um mês num pequeno hotel, na ponta de uma ilha remota, está perfeitamente compreendido. Temos o acordo tácito de que só escrevo fora de casa. Para escrever doze artigos, um por cada edição mensal, pagam-me doze semanas por ano, num qualquer sítio à minha escolha, todas seguidas ou alternadas, como der mais jeito. Mas só o alojamento. Viagens, alimentação e extras são por minha conta.

Chego a Pollacka, de táxi, por uma estrada serpenteante a descer em direção ao mar. O porto de pesca à esquerda e o casario amontoado num pequeno promontório, à direita, a proteger as embarcações dos ventos de norte.

O hotel fica ao fundo da rua estreita, sem saída, que divide a povoação a meio, junto à igreja, que, na extremidade, abre o seu terreiro sobre o mar. Uma casa de dois andares e aspecto novo mas modesto, com poucas janelas para a rua. A entrada é por uma pequena porta, em arco de pedra, para um corredor estreito, junto às escadas para os andares superiores. Passo pela portaria, na lateral, por baixo e a seguir às escadas, e chego a uma ampla varanda em socalcos, com sofás e mesas de verga, cortinas brancas esvoaçantes, aberta sobre o quebra mar, onde fizeram uma pequena plataforma de cimento e escada metálica, para ir-se a banhos. A planta do edifício é em forma de quarto de círculo, entre casas, pequeno na entrada mas aberto ao mar nas traseiras

“- Bem vindo, Rui. Espero que tenha feito boa viagem agradável.
O seu quarto já está preparado.”

Eleni conhece-me doutra vida. Nunca fez perguntas mas sei que sabe tudo. Tem a particular qualidade, de quem sabe receber bem, de nunca passar o limite da intimidade familiar ou profissional. É importante saber os gostos, alergias, horários e vícios dos clientes, mas nunca, nunca se deve perguntar pelos ausentes, pelo sucesso ou pela saúde, exceto se o próprio puxar o tema. E, mesmo assim, com extremo cuidado. Se o cliente quiser intimidade fica em casa. E se quiser intimidade fora de casa, há locais mais apropriados para isso.

O meu quarto é no segundo andar, réplica miniatura do terraço térreo, virado a nascente, para o mar e para as ilhas desabitadas com discretas praias, em frente, que visitei à vela noutros tempos.

A rotina dos dias é muito simples.
Acordo pelas seis da manhã, antes do sol nascer mas já a anunciar-se, e desço silenciosamente, de calções, chinelos e toalhão na mão, guiado por pequenas luzes de presença no pavimento, até ao exterior virado ao mar. Não há ninguém a pé, os outros hóspedes ainda dormem e Elleni ainda não chegou. A porta da rua está fechada, mas o terraço está todo aberto ao vento. A temperatura mínima não desce dos vinte graus e o vento permanente faz de ar condicionado natural.
Mergulho no mar e dou algumas braçadas para equilibrar a temperatura. O ar exterior está a vinte graus e o mar está a vinte e cinco, mas sinto frio. Estranho esta sensação de frio, por mais que me lembre que o ar é um excelente isolante térmico.
Demoro a sair. O céu clareia em raios de rosa e nuvens dispersas. As leves ondas embalam-me. Mergulho, abro os olhos no escuro, nado de costas, afasto-me e aproximo-me. Lembro-me de que se me desse um treco e desaparecesse nas águas, alguém ia inventar uma conspiração, com base na displicência com que larguei chinelos e toalhão no chão, à volta do jornalista maldito que enfrentou e desacreditou poderosos lóbis industriais.
Saio, passo-me por água doce no pequeno chuveiro, enxugo-me e subo ao quarto. Calções secos, t-shirt e chinelos; pequeno almoço de iogurte, fruta e café na copa de apoio. Sento-me na mesa da varanda, encostado à direita para proteger, a mim e ao ecrã do portátil, da luz do sol nascente. Trabalho ininterruptamente até ao meio dia, só com pequenas pausas para comer, até que a temperatura sobe de vez e o ângulo do sol já não permite proteção sem guarda-sol.
Em termos de trabalho, os primeiros dias são quase perdidos em análise, raciocínio e pesquisa na internet. Neste caso específico, tenho de rever os relatórios e contas dos últimos três anos, de cada um dos três grupos alemães fabricantes de automóveis; ler os seus planos estratégicos, publicados para acionistas; rever legislação ambiental europeia e prazos de implementação de medidas; previsões económicas para os principais mercados; demografia e migrações; mercado energético; notícias tecnológicas e muita atenção à política, do que se diz e não diz, e possibilidade de guerras comerciais. O resto é talento e intuição.
Na hora do almoço, volto a comer algo ligeiro no quarto, fruta e uma sande, e saio para ir para a praia.
Gosto de apanhar o autocarro, misturado com autóctones e jovens turistas, para as praias mais distantes e exóticas, onde não há música nem raquetes. Vou para uma diferente, todos os dias, e repito na semana seguinte pela ordem que me apetecer no momento. Passo lá a tarde, entre banhos, sol e dormitar. Ao fim do dia mando um WhatsApp com o pin do Google Maps do sítio onde estou para Vasilis, o taxista de Pollacka. Ele responde-me passado uns minutos com um código de quatro dígitos – hora e minutos a que chega. Pode ser logo a seguir ou uma hora depois, depende do que anda a fazer e por onde. Nunca falha. E volto ao hotel com ele.
À noite, escolho um dos pequenos restaurantes junto ao porto. Fico bem com tomate, pepino, beringela, queijo feta, iogurte, atum grelhado, chocos fritos, peixe, melancia, tudo escrito com deliciosos nomes gregos, Spanakopita, Kolokythokeftedes, Souvlaki, Yemista, Dolmadakia.

Em menos de três semanas, mandei o trabalho para o Pierre. Foi um artigo para três meses. Eles vão editá-lo e dividi-lo em três, são bons nisso. Pierre deve estar divertidíssimo. O artigo é suficientemente ácido e polémico para provocar ameaças de retirada de publicidade. Vão retirar mesmo, mas o sucesso editorial vai trazê-los de volta. E vão pagar mais caro, como novos anunciantes.

Sentei-me ao serão, na minha varanda, virado para o Meltemi, o vento norte das Cíclades, quente e seco. De maio a setembro sopra todas as semanas, por vezes durante vários dias, e chega a atingir cinquenta quilómetros por hora. Assusta e perturba os forasteiros.
Hoje era dia de Meltemi. Relaxou-me.

2. Tarefa

Chego e não tenho ninguém à espera. É natural, não informei nem pedi. Saio pelo meio de familiares que aguardam ou que se despedem e homens – são sempre homens, ainda estamos longe da paridade – com folhas A4 com nomes manuscritos ou nas mais variadas letras e dimensões disponíveis no Word. Táxis fazem fila para servir marcações prévias, alguns com já três ou quatro serviços previstos. Autocarro da carreira que dá a volta à ilha também já aguarda na paragem e vai encher-se num instante de mochilas e malas de viagem.
Atravesso a rua e sento-me na primeira linha da esplanada em frente ao porto. Nestes momentos há sempre lugares. Toda a gente que fazia horas, pela chegada do banco, levantou-se para embarcar, despedir-se dos familiares, receber a visita ou regresso de quem partiu, ganhar mais uns cobres com o atendimento aos turistas. O assento ainda estava quente. Peço um café frappé.
Por um táxi para o norte, para Pollacka, a cerca de dez quilómetros daqui, vou ter de esperar mais de uma hora, pelo retorno, depois de abrandar o rodopio do despachar gente para os quatro cantos da ilha. Também podia ter marcado, mas o que eu tenho mais é tempo e não quero pagar sobretaxa de reserva.
Vou ficar a beber o meu café gelado, organizar os meus pensamentos e aguardar que os primeiros taxistas regressem e parem para fumar o cigarro da sossega à minha frente.

Recebi o mail de Pierre Müller dias antes.
“Salut Rui, j’espère que tu vas bien
Veux ta réflexion sur l’industrie allemande. Resteront-ils aux avant-postes où rencontreront le plus de difficultés? Quelles solutions proposeront pour les battre?
Un boulot comme d’habitude.  Date limite : 20 septembre.
Merci”

O que começara como uma brincadeira de bêbados, tornara-se um caso sério e a minha principal fonte de rendimento.
Conheci Pierre numa festa particular, no Algarve, em Julho 2012, em que eu estava como quase penetra, a reboque de amigos comuns, e comecei uma divertida discussão sobre vinho e a valia dos Riesling e dos Verdes. Pierre era pequeno produtor na Alsácia e eu puxava das minhas origens minhotas, a favor dos meus brancos.
A conversa deriva dos vinhos para os automóveis, quando, a propósito de inovação, Pierre desdenha de deambulações futuristas, com desdém e cinismo, e dá o exemplo de Elon Musk, como valoroso mas fora do mundo da indústria e seu financiamento,
Eu tinha conduzido um Tesla Roadster, semanas antes, em Inglaterra, e estava a par do lançamento do Modelo S, nesse mesmo ano. Durante longos minutos descrevi-lhe porque achava que a Tesla tinha todas as condições para desenvolver carros modulares, baratos, sem manutenção, de construção simples, movidos com baterias de telemóvel Panasonic, bem concebidos, com o peso centrado no chão, e com acesso a toda a tecnologia futurista de comando autónomo da Space X. E estavam na Califórnia, o melhor sítio do mundo para contratar cérebros e obter financiamento.
E disse-lhe mesmo, que se eu tivesse um milhão de dólares, investia-os todos em ações da Tesla e ficaria multimilionário em poucos anos.
Respondeu com uma gargalhada.
No fim, com a conversa meio entramelada mas sem perder compostura, com a confiança solta pelo álcool, trocamos cartões, e descubro, para meu espanto, que estivera a discutir estratégia da indústria automóvel com Pierre Müller, diretor da La Voiture, uma das maiores e mais conceituadas revistas do setor, do mundo.
Na semana seguinte, recebi um e-mail todo tutoyant a convidar-me para escrever um texto sobre o assunto Tesla, para possível publicação antes do final do ano. Achei piada ao desafio, escrevi e enviei. Foi corrigido e adaptado, com o meu conhecimento e autorização, publicado, fez polémica, e ainda hoje é falado pela premonição e pela fortuna que não ganhei, nem ninguém, além de Musk.
Depois disso, escrevo artigos, trimestralmente, sobre a indústria, tendências e até desporto automóvel. A decadência japonesa, a pressão coreana, a dependência governamental de franceses e alemães, os erros de Sergio Marchionne, o isolamento americano, deslocalização de produção, a China produtora e cliente, elétricos, híbridos e convencionais, as trapalhadas no WRC e como os americanos criaram o definitivo circo na F1. Os artigos são tão longos que os dividem em dois, três e quatro partes, em publicações mensais. Têm ótimos editores para isso.
A minha vida deu uma grande volta e já está a ser proposto o lançamento em livro.

O primeiro taxista chegou à praça, saiu do carro e acendeu um cigarro. Sentado, fiz-lhe sinal e apontei para o meu café. Assentimos cumplicemente.

Turista

Encontro-te todos os dias, à mesma hora, no mesmo sítio. Vens a puxar a mala, a olhar para o telemóvel. Segues as instruções do mapa, mas não encontras o hotel. Vens cansada e saturada. Calor, viagem longa, bagagem pesada. Não me vês nem me conheces. Nunca nos encontramos. Não sabes de mim, o meu nome, nem sabes que eu existo. Mas será que eu existo? Vivemos em tempos diferentes, em mundos diferentes, suspeito que em dimensões diferentes. Todos os dias, à mesma hora, passas por mim, ouço-te a voz, sinto-te o perfume, não me vês, não me sentes, não sabes de mim. Estendo-te a mão, mas nem sei se braços tenho. Passas. Sei quem és, de onde vez, o que queres, para onde vais, o que fazer de ti, mas não te chego.

1. Reencontro

No fundo do porão escuro, mal cheiroso e barulhento, aguardavamos o desembarque de pé, virados para o enorme portão, agarrados às malas, choro de crianças nervosas, conversas e chamamentos em várias línguas na excitação da chegada. Sentíamos as manobras do barco sincronizadas com as operações do motor – arranca, pára, inverte, vira.
Tinham-nos chamado para descer ao porão ainda estavamos fora do porto, para agilizar a saída e entrada de novos passageiros, motas e carros, para o serviço de ferrys ser rápido o suficiente para justificar o nome Jet. Além de proporcionar viagem rápida, de poltrona em salões climatizados com enormes janelas de vidro escurecido com vista para o cruzamento com outros navios e contorno de pequenas e grandes ilhas, no caminho, não se podia perder tempo nas cargas e descargas. Condutores dirigiram-se para os carros e passageiros amontoaram-se junto ao portão de rampa por onde tinham entrado.
Todos se calaram quando a sirene de alarme e luzes amarelas de aviso, intermitentes, e o ruído grave do motor elétrico do enorme portão metálico que se abria com o ranger de metal pesado, ainda o navio manobrava, mostrando a primeira frecha de luz solar da esquerda à direita, de uma ponta à outra, da traseira do porão do barco.

A luz intensa inundou-nos com as pesadas portas traseiras a baixar. Coloquei os óculos de sol com a emoção de Richard Dreyfuss e François Truffaut a abrir-se o portal extraterrestre na Torre do Diabo, no encontro imediato de terceiro grau, mas agora o et era eu. Primeiro o calor, o azul do céu, a luz do sol, o portão a descer, a sirene, o amarelo intermitente do piscar. Em vez do cais surge uma enorme baía do azul intenso, o único, do Egeu. O portão pára de abrir pouco antes de chegar à horizontal. Um tripulante salta para cima dele agilizado pela rotina e grita instruções para o operador algures no convés, por cima de nós, enquadrado pelo cenário, em camadas, de azul celeste, sem nuvens, castanho claro de terra pintada de vegetação rasteira e o azul escuro do Egeu. Os motores diesel aceleram para a rotação do navio e a paisagem começa a rolar como um cenário teatral. Mais montes, céu e azul do mar. Primeiras casas, mais ou menos isoladas, brancas, muito brancas, pintadas de fresco. Desde a primeira vez que cá vim, convenci-me que eles passam as noites a retocar o branco das casas, para nos surpreender pela manhã. Moínhos, sempre os moínhos. Finalmente o cais. Polícias a orientar ruidosamente os carros algo desordenados, apitos, gritos e ordens, autocarros, buzinas, todo o tipo de motoretas a furar, e passageiros rodeados de malas a esperar vez para subir a rampa, na azáfama do grande momento da chegada do ferry da grande cidade.

Palos, a bela Palos que sempre me conforta de memórias quentes nos longos invernos de trabalho frios e escuros. Ainda não decidi se quero viver ou morrer aqui, mas alimento o espírito nessa doce indecisão.

Quero tudo

Quero aceitação sem recompensa
Quero ensinamentos sem roteiros
Quero acrescentar sem tirar
Quero receber sem exigir
Quero dar sem ter
Quero coragem para os medos
Quero força contra a preguiça
Quero humildade para combater a vaidade
Quero energia para enfrentar obstáculos
Quero saber tudo sabendo que nunca saberei o suficiente

Para sempre

Um dia vou-me esquecer de ti. Não porque não sejas importante, mas, sabes, não me posso lembrar de tudo ao mesmo tempo. Não é que tenha outras prioridades. Não tenho. És a minha prioridade. Mas a minha cabeça já não é a mesma. Esqueço-me das coisas. Às vezes acordo de noite a pensar num discurso para ti. Não te quero acordar e perco o sono, com a preocupação de não me esquecer. O pior é que adormeço e esqueço mesmo. Passo o dia amargurado com a lamentar as reflexões perdidas. Outras vezes, quando acendo a luz e as escrevo, ao ler, depois, pela manhã, não me lembro de as ter escrito. Parecem-me escritas por outra pessoa. É estranho. Acho que penso em coisas demais ao mesmo tempo, e baralho-as. Ou então uso grupos de neurónios diferentes, consoante a hora do dia, e só por coincidência o grupo leitor é o escritor.
Um dia vou-me esquecer de ti. Só me vou lembrar de ti para sempre se o sempre não durar muito, porque a eternidade é esquecimento.

Golfe

“O dia de descanso nacional era agora passado no country club, um Valhalla de silenciosos relvados de golfe, aspersores sibilantes e crianças aos gritos a brincar na piscina coberta, mas Ferguson raramente acompanhava os pais naquelas viagens de quarenta minutos até Blue Valley, dado que domingo era o dia em que treinava com as suas equipas de baseball, futebol e basquetebol – mesmo nos domingos em que não havia treino. Visto ao longe, não havia nada de errado com o golfe em si, e sem dúvida que se podia arranjar argumentos a favor dos cocktails de camarão e das sanduíches de três andares, mas Ferguson tinha saudades dos seus hambúrgueres e taças de gelado de menta com pepitas de chocolate, e quanto mais se aproximava do mundo o que o golfe representava, mais aprendia a desprezar golfe – não tanto o desporto em si, talvez, mas seguramente as pessoas que o praticavam.”

Paul Auster, 4321, cap. 2.4

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