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Com pressão alta e a baixa temperatura, uma pessoa apresenta-se sólida e fiável, podendo ser uma boa base para um bom relacionamento ou projeto. Baixando a pressão, dando mais liberdade, ou excitando o corpo, por subida da temperatura, amolece e derrete-se, podendo liquidificar-se, deixando de ser possível segurá-la entre mãos. Prosseguindo a descompressão e subindo a temperatura, vaporiza-se e perde-se no ar.
O processo inverso também é possível. A pessoa mais vaporosa pode ser solidificada e contida, desde que suficientemente comprimida e arrefecida.

Faz sentido se traduzir pressão por amor e temperatura por insensatez.

Entre lençóis

A matéria escura que existe no universo sente-se mas não se vê. Está lá, deforma o espaço-tempo, mas é transparente e não emite nem reflete luz.
É como estar deitado na cama e tapar com um enorme lençol, dos pés à cabeça. Se alguém se deitar por cima do lençol, a nosso lado, é sentido, empurra-nos, apalpa-nos, deforma o colchão, mas não há forma de ser visto.
Pela interação das galáxias, em larga escala, estima-se que no universo haja cinco vezes mais matéria escura do que a nossa visível. É muita gente em cima do lençol.
Se eu tivesse tempo escrevia uma história com universos paralelos e manifestações paranormais, entre lençóis.

5. Palos

Não tinha por que voltar. Ninguém me esperava. Estava no melhor sítio para viver.
Depois de dois dias sem rotina nem disciplina, decidi escrever mais alguns capítulos dos meus livros. Precisava de tempo e repouso.
– Olá Eleni. Queria ficar mais algum tempo. Tenho quarto?
– Claro que sim, Rui. Quantos dias?
– Até ao Natal… Do próximo ano.
– Perfeito.

Entrando em outubro, as temperaturas do ar e da água pouco baixaram. O céu manteve-se sem nuvens, o vento amainou. Só os dias se alteraram, mais curtos. Os turistas quase desapareceram, a ilha ficou entregue a pouco mais do que os seus cinco mil habitantes.
Mantive o hábito do mergulho matinal, mas atrasei o despertar uma hora. Amanhecia mais tarde. Continuei a escrever na varanda do quarto. O sol e o calor do meio dia já não me incomodavam como dantes. O sol não se erguia tão alto, não tinha a mesma intensidade, e a sombra da parede lateral era mais longa. Conseguia escrever até depois das três da tarde, quando corria bem, com água, fruta, bolachas, sandes, sumos e café.

Com menos turistas, o serviço de autocarros foi bastante reduzido. As frequências passaram para menos de metade. Já não podia confiar na disponibilidade à saída de Pollacka. Com o fim das férias, Vasilis passou a ter contratos fixos de transporte de crianças, idosos e doentes, que lhe ocupavam grande parte do dia, além dos poucos visitantes que ainda apareciam. Garantia-me o regresso ao hotel, ao fim do dia, mas estava por minha conta e risco para a ida para as praias, ou outros destinos, ao princípio da tarde. Chegou a propor emprestar-me a sua velha scooter, mas recusei. Já não tenho idade para esfolar joelhos.
Eleni resolveu-me o problema. Havia uma rede de distribuidores de víveres, consumíveis variados e combustíveis, que cobria toda a ilha. Eram seus fornecedores e amigos, passavam no hotel, com os seus pequenos furgões, de manhã cedo ou depois do almoço. Eu nunca sabia qual deles ia passar, depois de eu estar pronto para sair, muito menos sabia para onde iam seguir. Dependia das necessidades e pedidos dos seus clientes. Diverti-me com a roleta dessa boleia, de ir parar aleatoriamente a qualquer ponta da ilha. As hipóteses não eram muitas, é certo, a ilha é pequena, mas nunca sabia para que lado ia. Gostei do jogo.
Ao fim do dia, para voltar, recorria a Vasilis, da forma habitual, por WhatsApp. Com os dias mais curtos, com o pôr do sol já antes das sete horas, voltavamos mais cedo a Pollacka. O meu serviço costumava ser o último de Vasilis. Fora do verão, raramente trabalhava à noite.

Um dia, quando chegavamos, convidou-me para lhe fazer companhia num café com amigos, que se repetiu nos dias seguintes. Vasilis e Giorgios eram os únicos que falavam inglês suficiente para manter conversa. Giorgios era um pescador reformado que adaptou o seu velho barco para passeios turísticos de verão. Já o tinha visto, semanas antes, a manobrar habilmente o seu velho Nissan Micra, em cima do cais, quando trazia, manhã cedo, mantimentos e bebidas para abastecer o barco para os clientes do dia. Era uma figura. Barrigudo, grande e entroncado, tatuagens nos braços, sempre de t-shirt justa e um lenço ao pescoço, de poucos sorrisos, com a sua voz gutural, contava sempre uma história divertida dos seus tempos de pesca, das peripécias com turcos nos vários anos que serviu, em jovem, na marinha de guerra grega, ou, as melhores, com os turistas que lhe saem em sorte, a cada dia.
Outro dos habituais convivas de fim de tarde era o padre. O adro da igreja era mesmo ao lado da pequena esplanada do café. Da primeira vez, já estavamos sentados, vi-o a apagar as luzes, fechar a igreja e a dirigir-se para nós, com as suas longas barbas brancas. Vasilis rapidamente foi buscar duas cadeiras e colocou-as a meu lado. Exagero, pensei, o padre não era assim tão gordo. Ergueu ligeiramente a batina, para não repuxar, sentou-se e pousou o camelauco, o chapéu negro cilíndrico dos padres ortodoxos, na cadeira vaga, como se despisse momentaneamente a solenidade ortodoxa. Sentado, a batina parecendo um casacão preto, e sem o camelauco, tornava-se mais divertido e descontraído, um velhote simpático, de longas barbas brancas. Pelo menos assim me parecia.
Eu bebia café frappé. Vasilis também, porque estava de prontidão no táxi. Giorgios bebia ouzo, com gelo e água, e depois de repetir a dose já se notava o efeito. O padre bebia sumo de romã, engarrafado, diluído em água. Apercebi-me que, para ele, a bebida já vinha na bandeja, aberta e servida no copo, ao arrepio das normas hoteleiras. Com todos os outros clientes, a garrafa era aberta junto à mesa, onde diluiam o sumo de romã em água. Imaginei um pacto de silêncio, mantido por todos, sem questionar. Também me calei. Giorgios não seria o único a beber ouzo naquela mesa.
Após beber o sumo, o padre tornava-se mais falador. Com a ajuda da tradução de Vasilis, fiquei a saber que se chamava Elias, padre Elias, e fiquei a saber muito mais, nos vários fins de tarde que partilhamos na mesa do café virado para o pequeno porto de Pollacka.
Na ilha de Palos há cento e quarenta e quatro igrejas e capelas, todas construídas viradas para poente, brancas, com a bandeira azul e branca, símbolo da ortodoxia grega, hasteada bem alto, quase todas oferenda de privados, dentro de terrenos privados, algumas tão pequenas que não terão mais de dois metros quadrados. As dos cumes dos montes são todas dedicadas a Santo Elias, numa curiosa coincidência com o nome do padre que me fez julgar perceber mal.
Elias é nome de profeta, um dos profetas do Livro dos Reis, do Antigo Testamento.
O profeta Elias, depois santo, contemplava e meditava enquanto adorava e orava a Deus. Esta interpretação das escrituras, pelos primeiros teólogos da Igreja, fez surgir a tradição de monges eremitas, silenciosos e contemplativos, que se instalaram também nos cumes de Palos, em proximidade ao céu, eremitério, contemplação, silêncio, erudição e oração.
As capelas e igrejas dedicadas a Santo Elias são tantas como os cumes e montes de Palos, mas muito longe, em número, das cento e quarenta e quatro do total. Disse-me o padre Elias que todas as outras são dedicadas a um único santo, São Nicolau, padroeiro dos marinheiros e mercadores. O mesmo São Nicolau, amigo das crianças, que originou o mito do Pai Natal, e também padroeiro dos estudantes, festejado nas festas nicolinas de Guimarães, acrescentei eu.

Durante vários dias e semanas, falamos de muitas outras coisas, futebol, política, do tempo, das temperaturas começarem a baixar, da pouca consideração que têm pelas elites de Atenas, do campeonato português que conhecem melhor do que eu. Giorgios fartou-se de elogiar o jogador Podence, na sua passagem pelo seu Olympiacos do coração, mas eu surpreendi-os quando disse o nome de quatro jogadores gregos que passaram pelo Benfica. Karagounis e Katsouranis, ainda do Euro 2004, o Mitroglou do penteado esquisito, e o melhor nome de sempre de guarda redes, Odisseas Vlachodimos. Para eles passei a ser o benfiquista. A partir daí, tive todas as informações do campeonato português, resultados e transferências, em primeira mão, que agradecia e fingia apreciar.

Estes momentos de descontração e convívio, nestas semanas de outono, fizeram-me bem. Alguns minutos por dia, às vezes uma hora, a falar de religião, política, futebol ou do tempo, aprender muito com ilhéus de um mar que já foi o centro do mundo e agora é a fronteira do ocidente.

A escrita começou a correr melhor, nesta terra abençoada por Santo Elias, profeta da contemplação e do silêncio, e por São Nicolau, padroeiro dos amantes do mar, cristianização popular de Poseidon.

Pensar, escrever, caminhar, nadar, mergulhar e navegar.

Eleni
Nunca satisfiz a curiosidade que tinha sobre Rui. É escritor mas não sei o que escreve. É português mas escreve em francês, para franceses. Gosta de mim e da minha ilha de uma forma quase comovedora. Não pergunta, não interfere, passa o mais discreto que pode, contempla tudo.
A última vez que o vi foi num serão no início de novembro. O hotel estava quase vazio e nessas alturas Rui sentava-se na sala grande, virado ao mar. Via as estrelas, as luzes de Chora, do outro lado do canal, os ferrys muito ao longe, e olhava o telemóvel. Nunca lhe fiz perguntas, mas sei que procurava fotos e histórias de uma pessoa. Encontrava-as e via-as com sentimento, nunca percebi se de saudade, amargura ou ansiedade. Acho que ele próprio não sabia. Não era trabalho. Também não sei se era uma pessoa do passado ou de agora, se passada ou com futuro, mas era uma pessoa importante para ele.
Nesse dia algo aconteceu. Leu o que alguém publicou ou lhe escreveu, alegrou-se, trocou várias mensagens com aquela cara de idiota que se tem a sorrir para um telemóvel, levantou-se, veio ter comigo, acertou as contas do hotel e surpreendeu-me com um beijo na face. Saiu nessa madrugada.
No ano seguinte, no final de agosto, mandou-me um e-mail:
“Olá Eleni
Estou bem
Obrigado por tudo”
E lá aceitei a marcação, para setembro, daquele casal de velhotes suecos que tanto insistia. Nesse outono tive saudades daqueles serões silenciosos e contemplativos, a ouvir as ondas a bater nas pedras, a farejar o vento. Com o Rui.

(fim)

4. Passado

Aquele que eu fui morreu em dois mil e treze.
A culpa não foi de ninguém. Foi uma daquelas combinações aleatórias que nunca deveria ter acontecido. Estava tudo bem e de um momento para o outro tudo mudou, o emprego acabou, a carreira desapareceu, a família desfez-se, o fogo da vida apagou-se.
Aos quarenta e cinco anos, experiente, com responsabilidades, sou largado num mundo em crise, com o encerramento da empresa onde trabalhava e com os concorrentes também a despedirem. Já não tinha idade para emigrar e a única solução era sujeitar-me a trabalho desqualificado ou reaprender outra profissão, outro ofício, perder rendimento, aceitar mudar de vida, provavelmente mudar de casa.
Um homem sem trabalho já é um drama, um homem a perder o comboio da carreira é o início de um longo processo de decadência. Rotinas, amigos e pequenos orgulhos desaparecem. As conversas soam vazias e gabarolas de vencedores de jogos com regras que já não me interessam. O mundo pequenino das pessoas pequeninas, que eu também fora, desapareceu. Dei por mim a olhar à volta triste por mim e por eles.
Acabei por perder a família numa sucessão rápida de incompreensões e desentendimentos. No momento mais tenso fui incompreendido. Fui atiçado quando precisava de abrigo, acusado de inação, e senti-me incapaz de reagir e explicar. Procurei paz e conforto, ser querido, e refugiei-me nos braços de outra que afinal eu também não queria. Desgastei-me numa dupla traição de um homem, perdido, carente, sem defesa e já sem passado.
Posto fora, larguei tudo. O meu filho nunca mais me falou e diz que não precisa de mim. A mãe tem rendimento, património, prestígio e estatuto, para descartar um falhado da vida que desrespeitou o sacramento e manchou o seu nome.
Planeei tudo metodicamente. Uma saída de cena rápida, indolor, discreta e suficientemente dúbia e acidental, como uma viragem de página para os poucos que se importavam. Um pequeno incómodo rapidamente ultrapassado com flores descartáveis e palavras de circunstância.
Eu não fazia sentido, não entusiasmava, era um embaraço para os herdeiros, uma decadência de pessoa. Nada mais interessava.

Por um acaso da vida, que já vos contei ali atrás, o diretor de uma das revistas mais importantes e populares do setor automóvel encontrou um engenheiro metalúrgico fornecedor de peças, com experiência a lidar com as exigências e fraquezas dos fabricantes, autodidata de estratégia comercial internacional, devorador durante décadas de todas as publicações técnicas, acompanhando o estado da evolução, interessado o suficiente por história, política e economia internacional para saber o nosso lugar e caminho, com o cinismo crítico, temperado pela vida, suficiente para não se excitar com novidades propagadas por modas, solitário e cansado da vida, sem necessidade de sorrir nem agradar para viver.
Pierre diz agora que confia na objectividade e honestidade das minhas análises, e que aprecia a métrica e ritmo da minha escrita. Não sei, perguntem-lhe a ele. Eu faço o que posso.
Ele nem sabe que eu já não conduzo, nem sequer carros de aluguer. Zanguei-me com os automóveis; com o risco e violência de mais de uma tonelada de aço a rolar a cem quilómetros por hora, dirigida por um tipo sem talento nem formação, distraído a falar ao telemóvel, com as paisagens verdes violadas por asfalto, betão, redes, sinais, publicidade e permanente ruído de camiões. Zanguei-me com as cidades transformadas em circuitos urbanos. Só tenho carta para os testes que me convidam e pagam.
Todos os meses, uma equipa técnica de cinco jovens engenheiros desloca-se, a convite das marcas ou de motu proprio, requisitando veículos, para fazer testes e ensaios a novos modelos ou versões. Num circuito fechado, numa estância de verão, no inverno, ou de ski, no verão, monta-se um verdadeiro laboratório de mecânica, acústica, análise de gases de escape, volumetria, dinâmica, resistência, iluminação. Pilotos profissionais levam os carros aos limites. Pierre faz questão que eu esteja presente. Quer a minha opinião sobre o que os outros não dizem: conforto, infotainment, ergonomia, facilidade e prazer de condução, assistência em viagem. Durante um dia inteiro faço centenas de quilómetros, simulo todas as situações, avarias e reclamações. Faço um relatório privado para Pierre. As minhas observações aparecem normalmente no fim do artigo, sem assinatura. Sou bem pago para isso. É única razão para ainda renovar a carta de condução.
O sucesso aparece quando e onde menos se procura. Trabalho, conhecimento, talento, por esta ordem, são essenciais, mas sem a ponta de sorte que inesperadamente nos coloca no sítio certo no momento certo, nada acontece. Não é tudo por acaso, não é um meteorito que cai do céu mesmo em cima da nossa cabeça. É sair, procurar, falar, incomodar, mostrar, até que alguém repare e nos reconheça o valor.
O mais certo é que nunca aconteça mas sem trabalho, conhecimento, talento, promoção e demonstração, nunca a sorte há-de dar connosco.
Mais vale cair em graça do que ser engraçado.

Hoje percorro os mesmos lugares, terras, cidades, praias, jardins, hotéis que o outro homem percorreu até 2013, como se seguisse os passos de um morto com curiosidade mórbida, invejoso do que foi e do que poderia ter sido. Não é saudade. Na verdade, aquele era outro homem que ficou lá trás. Passo à porta de casa, que hoje é habitada por estranhos, e revejo todos aqueles momentos. As gargalhadas, os sustos, o amor, as alegrias, as novidades, mas também o chumbo no fim. Revejo os lugares como quem revê um filme. Ele tinha bom gosto e era bem guiado.

Estou a escrever três livros. Quem diria?
Os três são biográficos e nenhum conta a história da minha vida. Têm saltos e episódios parcialmente vividos por mim. Nenhum começa como eu comecei, passa pelo que eu passei nem termina como eu sei que vou terminar, mas contam o que eu me orgulho, os medos que tive, parte do que fiz e o que queria ter feito, quase tudo inventado. Na minha cabeça, vive comigo todos os dias.
A minha mais fiel e discreta leitora, a quem mostro o que escrevo, nem sempre responde ou comenta. É a única voz que ouço e deixo que me oriente. Já lho disse, mas julga, sinceramente, que estou a brincar.
Há muitos anos, quando lhe apresentei a minha noiva, comentou discretamente, entre dentes, “Tinhas de arranjar uma flausina”. Incomodou-me a franqueza rude que fiz por esquecer. Achei que era despeito e ciúmes. Ela não era a mais bonita, sabia dos meus gostos simples e da minha fraqueza por carinhas larocas.
Todos os dias ouço aquelas cinco palavras, sussurradas ao vento entre o bater das ondas.

3. Instalação

As Cíclades são o meu algarve, da mesma maneira que o Algarve foi o algarve das gerações anteriores até à montagem espaventosa dos anos noventa e seguintes que destruiu quase tudo que não estava protegido, e continua. As Cíclades são o meu conforto quando procuro sossego, calor, águas cálidas, tranquilidade, paisagens, praias, gente boa, sem casinos, sem golfe, sem autoestradas, sem construção civil, nem trânsito.
Consegui reservar o meu quarto de hotel para todo o mês de setembro. Não discuti o preço, também não sou eu que pago. Disse para onde queria ir e alguém, de Paris, tratou e pagou. A despesa está dentro do orçamento de produção que Pierre me atribuiu. Não sei qual é o limite, mas sei que um mês num pequeno hotel, na ponta de uma ilha remota, está perfeitamente compreendido. Temos o acordo tácito de que só escrevo fora de casa. Para escrever doze artigos, um por cada edição mensal, pagam-me doze semanas por ano, num qualquer sítio à minha escolha, todas seguidas ou alternadas, como der mais jeito. Mas só o alojamento. Viagens, alimentação e extras são por minha conta.

Chego a Pollacka, de táxi, por uma estrada serpenteante a descer em direção ao mar. O porto de pesca à esquerda e o casario amontoado num pequeno promontório, à direita, a proteger as embarcações dos ventos de norte.

O hotel fica ao fundo da rua estreita, sem saída, que divide a povoação a meio, junto à igreja, que, na extremidade, abre o seu terreiro sobre o mar. Uma casa de dois andares e aspecto novo mas modesto, com poucas janelas para a rua. A entrada é por uma pequena porta, em arco de pedra, para um corredor estreito, junto às escadas para os andares superiores. Passo pela portaria, na lateral, por baixo e a seguir às escadas, e chego a uma ampla varanda em socalcos, com sofás e mesas de verga, cortinas brancas esvoaçantes, aberta sobre o quebra mar, onde fizeram uma pequena plataforma de cimento e escada metálica, para ir-se a banhos. A planta do edifício é em forma de quarto de círculo, entre casas, pequeno na entrada mas aberto ao mar nas traseiras

“- Bem vindo, Rui. Espero que tenha feito boa viagem agradável.
O seu quarto já está preparado.”

Eleni conhece-me doutra vida. Nunca fez perguntas mas sei que sabe tudo. Tem a particular qualidade, de quem sabe receber bem, de nunca passar o limite da intimidade familiar ou profissional. É importante saber os gostos, alergias, horários e vícios dos clientes, mas nunca, nunca se deve perguntar pelos ausentes, pelo sucesso ou pela saúde, exceto se o próprio puxar o tema. E, mesmo assim, com extremo cuidado. Se o cliente quiser intimidade fica em casa. E se quiser intimidade fora de casa, há locais mais apropriados para isso.

O meu quarto é no segundo andar, réplica miniatura do terraço térreo, virado a nascente, para o mar e para as ilhas desabitadas com discretas praias, em frente, que visitei à vela noutros tempos.

A rotina dos dias é muito simples.
Acordo pelas seis da manhã, antes do sol nascer mas já a anunciar-se, e desço silenciosamente, de calções, chinelos e toalhão na mão, guiado por pequenas luzes de presença no pavimento, até ao exterior virado ao mar. Não há ninguém a pé, os outros hóspedes ainda dormem e Elleni ainda não chegou. A porta da rua está fechada, mas o terraço está todo aberto ao vento. A temperatura mínima não desce dos vinte graus e o vento permanente faz de ar condicionado natural.
Mergulho no mar e dou algumas braçadas para equilibrar a temperatura. O ar exterior está a vinte graus e o mar está a vinte e cinco, mas sinto frio. Estranho esta sensação de frio, por mais que me lembre que o ar é um excelente isolante térmico.
Demoro a sair. O céu clareia em raios de rosa e nuvens dispersas. As leves ondas embalam-me. Mergulho, abro os olhos no escuro, nado de costas, afasto-me e aproximo-me. Lembro-me de que se me desse um treco e desaparecesse nas águas, alguém ia inventar uma conspiração, com base na displicência com que larguei chinelos e toalhão no chão, à volta do jornalista maldito que enfrentou e desacreditou poderosos lóbis industriais.
Saio, passo-me por água doce no pequeno chuveiro, enxugo-me e subo ao quarto. Calções secos, t-shirt e chinelos; pequeno almoço de iogurte, fruta e café na copa de apoio. Sento-me na mesa da varanda, encostado à direita para proteger, a mim e ao ecrã do portátil, da luz do sol nascente. Trabalho ininterruptamente até ao meio dia, só com pequenas pausas para comer, até que a temperatura sobe de vez e o ângulo do sol já não permite proteção sem guarda-sol.
Em termos de trabalho, os primeiros dias são quase perdidos em análise, raciocínio e pesquisa na internet. Neste caso específico, tenho de rever os relatórios e contas dos últimos três anos, de cada um dos três grupos alemães fabricantes de automóveis; ler os seus planos estratégicos, publicados para acionistas; rever legislação ambiental europeia e prazos de implementação de medidas; previsões económicas para os principais mercados; demografia e migrações; mercado energético; notícias tecnológicas e muita atenção à política, do que se diz e não diz, e possibilidade de guerras comerciais. O resto é talento e intuição.
Na hora do almoço, volto a comer algo ligeiro no quarto, fruta e uma sande, e saio para ir para a praia.
Gosto de apanhar o autocarro, misturado com autóctones e jovens turistas, para as praias mais distantes e exóticas, onde não há música nem raquetes. Vou para uma diferente, todos os dias, e repito na semana seguinte pela ordem que me apetecer no momento. Passo lá a tarde, entre banhos, sol e dormitar. Ao fim do dia mando um WhatsApp com o pin do Google Maps do sítio onde estou para Vasilis, o taxista de Pollacka. Ele responde-me passado uns minutos com um código de quatro dígitos – hora e minutos a que chega. Pode ser logo a seguir ou uma hora depois, depende do que anda a fazer e por onde. Nunca falha. E volto ao hotel com ele.
À noite, escolho um dos pequenos restaurantes junto ao porto. Fico bem com tomate, pepino, beringela, queijo feta, iogurte, atum grelhado, chocos fritos, peixe, melancia, tudo escrito com deliciosos nomes gregos, Spanakopita, Kolokythokeftedes, Souvlaki, Yemista, Dolmadakia.

Em menos de três semanas, mandei o trabalho para o Pierre. Foi um artigo para três meses. Eles vão editá-lo e dividi-lo em três, são bons nisso. Pierre deve estar divertidíssimo. O artigo é suficientemente ácido e polémico para provocar ameaças de retirada de publicidade. Vão retirar mesmo, mas o sucesso editorial vai trazê-los de volta. E vão pagar mais caro, como novos anunciantes.

Sentei-me ao serão, na minha varanda, virado para o Meltemi, o vento norte das Cíclades, quente e seco. De maio a setembro sopra todas as semanas, por vezes durante vários dias, e chega a atingir cinquenta quilómetros por hora. Assusta e perturba os forasteiros.
Hoje era dia de Meltemi. Relaxou-me.

2. Tarefa

Chego e não tenho ninguém à espera. É natural, não informei nem pedi. Saio pelo meio de familiares que aguardam ou que se despedem e homens – são sempre homens, ainda estamos longe da paridade – com folhas A4 com nomes manuscritos ou nas mais variadas letras e dimensões disponíveis no Word. Táxis fazem fila para servir marcações prévias, alguns com já três ou quatro serviços previstos. Autocarro da carreira que dá a volta à ilha também já aguarda na paragem e vai encher-se num instante de mochilas e malas de viagem.
Atravesso a rua e sento-me na primeira linha da esplanada em frente ao porto. Nestes momentos há sempre lugares. Toda a gente que fazia horas, pela chegada do banco, levantou-se para embarcar, despedir-se dos familiares, receber a visita ou regresso de quem partiu, ganhar mais uns cobres com o atendimento aos turistas. O assento ainda estava quente. Peço um café frappé.
Por um táxi para o norte, para Pollacka, a cerca de dez quilómetros daqui, vou ter de esperar mais de uma hora, pelo retorno, depois de abrandar o rodopio do despachar gente para os quatro cantos da ilha. Também podia ter marcado, mas o que eu tenho mais é tempo e não quero pagar sobretaxa de reserva.
Vou ficar a beber o meu café gelado, organizar os meus pensamentos e aguardar que os primeiros taxistas regressem e parem para fumar o cigarro da sossega à minha frente.

Recebi o mail de Pierre Müller dias antes.
“Salut Rui, j’espère que tu vas bien
Veux ta réflexion sur l’industrie allemande. Resteront-ils aux avant-postes où rencontreront le plus de difficultés? Quelles solutions proposeront pour les battre?
Un boulot comme d’habitude.  Date limite : 20 septembre.
Merci”

O que começara como uma brincadeira de bêbados, tornara-se um caso sério e a minha principal fonte de rendimento.
Conheci Pierre numa festa particular, no Algarve, em Julho 2012, em que eu estava como quase penetra, a reboque de amigos comuns, e comecei uma divertida discussão sobre vinho e a valia dos Riesling e dos Verdes. Pierre era pequeno produtor na Alsácia e eu puxava das minhas origens minhotas, a favor dos meus brancos.
A conversa deriva dos vinhos para os automóveis, quando, a propósito de inovação, Pierre desdenha de deambulações futuristas, com desdém e cinismo, e dá o exemplo de Elon Musk, como valoroso mas fora do mundo da indústria e seu financiamento,
Eu tinha conduzido um Tesla Roadster, semanas antes, em Inglaterra, e estava a par do lançamento do Modelo S, nesse mesmo ano. Durante longos minutos descrevi-lhe porque achava que a Tesla tinha todas as condições para desenvolver carros modulares, baratos, sem manutenção, de construção simples, movidos com baterias de telemóvel Panasonic, bem concebidos, com o peso centrado no chão, e com acesso a toda a tecnologia futurista de comando autónomo da Space X. E estavam na Califórnia, o melhor sítio do mundo para contratar cérebros e obter financiamento.
E disse-lhe mesmo, que se eu tivesse um milhão de dólares, investia-os todos em ações da Tesla e ficaria multimilionário em poucos anos.
Respondeu com uma gargalhada.
No fim, com a conversa meio entramelada mas sem perder compostura, com a confiança solta pelo álcool, trocamos cartões, e descubro, para meu espanto, que estivera a discutir estratégia da indústria automóvel com Pierre Müller, diretor da La Voiture, uma das maiores e mais conceituadas revistas do setor, do mundo.
Na semana seguinte, recebi um e-mail todo tutoyant a convidar-me para escrever um texto sobre o assunto Tesla, para possível publicação antes do final do ano. Achei piada ao desafio, escrevi e enviei. Foi corrigido e adaptado, com o meu conhecimento e autorização, publicado, fez polémica, e ainda hoje é falado pela premonição e pela fortuna que não ganhei, nem ninguém, além de Musk.
Depois disso, escrevo artigos, trimestralmente, sobre a indústria, tendências e até desporto automóvel. A decadência japonesa, a pressão coreana, a dependência governamental de franceses e alemães, os erros de Sergio Marchionne, o isolamento americano, deslocalização de produção, a China produtora e cliente, elétricos, híbridos e convencionais, as trapalhadas no WRC e como os americanos criaram o definitivo circo na F1. Os artigos são tão longos que os dividem em dois, três e quatro partes, em publicações mensais. Têm ótimos editores para isso.
A minha vida deu uma grande volta e já está a ser proposto o lançamento em livro.

O primeiro taxista chegou à praça, saiu do carro e acendeu um cigarro. Sentado, fiz-lhe sinal e apontei para o meu café. Assentimos cumplicemente.

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