Progresso

Gostamos de ler escritos que dizem aquilo que gostamos de ler, como se fosse o nosso coro mas com mais elegância porque para desafinados já bastamos nós, a confirmar e selar tudo o que já pensamos numa repetição endógena e confortável de dizer bem do nosso grupo, clube ou partido, a massajar-nos o ego certificando as nossas prévias escolhas e decisões, mas desconcertamo-nos quando um pensador, no seu melhor fato literário, mostra-nos o que nunca havíamos lido nem sequer entendido até aí, com uma clareza humilhante, fazendo-nos a ganhar novos mundos, novos territórios, com esforço como os holandeses ao mar, não combatendo o nosso velho pensamento mas simplesmente acrescentando-lhe volume e perspectiva.

Primos

“Era estranho estar tão próximo de uma rapariga, descobriu Ferguson, sobretudo uma rapariga que ele não tinha qualquer vontade de beijar, o que era uma forma inaudita de amizade para ele, tão intensa como qualquer amizade que tivera com um rapaz e no entanto, dado que Amy era uma rapariga, havia uma tonalidade diferente nas suas interações, uma vibração rapaz-rapariga mesmo abaixo da superficie que era todavia diferente da vibração que ele sentia com Rachel Minetta, ou Alice Abrams, ou qualquer das outras raparigas por quem teve paixonetas e que beijou quando tinha treze anos, uma vibração sonora em contraste com a vibração suave que sentia com Amy, uma vez que supostamente era prima dele, um membro da sua própria família, o que queria dizer que não tinha o direito de beijá-la ou sequer pensar em beijá-la, e tão grande era a interdição que nunca passou pela cabeça de Ferguson contrariá-la, sabendo que tal ato teria sido altamente indecoroso, ou mesmo profundamente chocante, e embora Amy o atraísse cada vez mais à medida que via o corpo dela desabrochar na frescura intensa da sua feminilidade adolescente, não bonita da forma como Isabel Kraft era bonita, talvez, mas apelativa, viva nos seus olhos como nunca nenhuma rapariga tinha sido para ele, Ferguson continuou a resistir à vontade de quebrar o código de honra familiar. Então eles fizeram catorze anos, primeiro Amy em dezembro, seguida de Ferguson em março, e de súbito ele deu por si a habitar um corpo novo que já não dominava, um corpo que produzia ereções espontâneas e muita falta de ar, a fase da masturbação inicial na qual nenhum pensamento que não fosse um pensamento erótico lhe cabia no crânio, o delírio de se tornar um homem sem os privilégios de ser um homem, tumulto, consternação, caos incessante por dentro, e sempre que ele olhava para Amy agora, o seu primeiro e único pensamento era quanto queria beijá-la, o que pressentiu que começava a acontecer também com ela sempre que olhava para ele. Uma sexta-feira à noite em abril, com Gil e a mãe dele num jantar qualquer no centro, ele e Amy estavam sozinhos no apartamento do sexto andar a discutir o termo kissing cousins, que Ferguson admitia não compreender completamente, visto que parecia evocar uma imagem de primos a beijarem-se educadamente na bochecha, o que não parecia certo, de algum modo, dado que esse tipo de beijo não era um beijo genuíno, e logo porquê kissing cousins quando as pessoas na cabeça dele eram apenas primos normais, e então Amy riu e disse, Não, palerma, o que kissing cousins significa é isto, e sem dizer mais nada inclinou-se para Ferguson no sofá, abraçou-o e deu-lhe um beijo na boca, que depressa se tornou um beijo que lhe estava a entrar pela boca, e a partir desse momento Ferguson decidiu que não eram realmente primos, afinal.”

Paul Auster, 4321, cap. 2.3

Tycho Inn

Cratera Tycho

Já te disse que gostava de viver na lua? Queria viver numa casa com uma varanda enorme, com vista para a cratera de Tycho – depois digo-te quem foi Thyco Brahe. Sabes que tinha de ter marquise, não sabes? Lá não há ar, a varanda não pode ser aberta. Marquise não é bonito, mas é como tem de ser. Seria uma casa subterrânea, para proteger das radiações solares, na encosta da cratera, com uma janela de vidro, enorme, aberta sobre a paisagem. A cratera tem oitenta e seis quilómetros de diâmetro, mal se consegue ver o outro lado.

Da minha varanda veria sempre a tua casa, a Terra fixa no céu, a rodar sobre o seu eixo, e ver os continentes, todos, todos os dias de vinte e quatro horas. No teu inverno é quando é mais bonito. A Antártida fica virada para mim durante seis meses, de setembro a março. O branco do gelo, a brilhar ao sol, quase me ofusca.

Vou guardar um cadeirão para ti, ao lado do meu. Sei que gostas de lareira, mas ainda tenho de pensar onde vou arranjar a lenha. Quando quiseres, podes vir ter comigo. Avisas, e eu vou-te esperar ao Lunaporto, com um ramo de flores. Flores cultivadas por mim num vaso de rególito – é assim que se chama a terra da Lua, sabes? – regadas com água reciclada da respiração e da urina. Não te enojes, a urina é água com sais, tal como a água do mar. Basta destilar.

De vez em quando pegamos no rover e vamos dar um passeio ao Mar das Nuvens, que é lá perto. Não tem água, nem tem nuvens, mas fazemos de conta e passeamos de mão dada.

Consequência

Todos os meus atos têm consequências e um ato é o resultado de uma ação, de um consumo de energia, de geração de calor, trabalho, criação de movimento, aumento de potencial ou, simplesmente, desperdício.
Posso aquecer-te, impulsionar-te para mim, elevar-te o potencial, mas o mais provável é que, pela terceira lei Newton, provocada, reajas com um valente estalo na cara, quando eu só queria causar boa impressão e preservar-te, no bom princípio da conservação de Lavoisier.

Galata

Gálata era um subúrbio de Constantinopla, que os genoveses adquiriram com um tratado em 1267, com Bizâncio.

No século XIII, império bizantino, herança do império romano do oriente, era uma potência terrestre bem instalada e fortificada, mas não tinha força naval para controlar e dominar os seus vastos domínios marítimos, do mediterrâneo oriental. Paralelamente, as repúblicas italianas – Veneza, Ragusa (Dubrovnik) e Génova – possuíam poder naval, militar e comercial, mas não eram fortes o suficiente para conquistar uma potência terrestre como Bizâncio e, provavelmente, nunca pensaram nisso.
Com vantagens mútuas, Bizâncio e Génova assinaram um tratado, em que Génova protegia as rotas marítimas bizantinas e em troca estabelecia um entreposto comercial na margem norte do Corno de Ouro, mesmo em frente a Constantinopla e ao Bósforo.
Em muitos aspectos, foi uma das primeiras colónias modernas, um protótipo para os portos de tratados das futuras potências imperiais.
No século XVI, os portugueses em Cochim e os ingleses em Hong Kong, fizeram o mesmo tipo de tratados, com indianos e chineses, usando o seu poder naval para garantir vastos interesses comerciais, sem necessidade de conquistas territoriais.

Gênova manteve Gálata até a conquista otomana de Constantinopla, em 1453. Seu império comercial entrou rapidamente declínio logo depois, mas muitos de seus marinheiros foram para o serviço de Espanha e Portugal, onde ajudaram a construir novos impérios numa escala ainda maior. O mais famoso desses marinheiros terá sido Cristóvão Colombo.

Gálata é o actual bairro de Galatasaray, famoso pelo seu clube de futebol, e continua a ser a zona mais moderna e cosmopolita de Istambul.
O seu ex-líbris é a torre de Gálata, construída pelos genoveses em 1348.

Confiança

Lembrou-se das longas viagens de mota em que ela quase adormecia, com o queixo encostado nas costas dele; da descontração das centenas de quilómetros a sono solto e respiração pesada, a seu lado, no banco do pendura; do seu olhar tenso e decidido antes de se lançarem no bungee jumping; da firmeza do abraço, na queda livre antes de abrir o paraquedas; da mão apertada quando escapavam da tentativa de assalto, no meio das férias distantes; das lágrimas vertidas compulsivamente, no aperto do terror da doença; da tranquilidade com que se despiu e se entregou pela primeira vez; da alegria eufórica com que festejaram os sucessos; dos planos de vida imaginados no relvado, sob lua cheia, numa noite de verão.

Nada disto aconteceu, senão na cabeça dele. Não têm passado, nem terão futuro, mas, no acaso da vida, naquele momento, naquele instante, a eternidade foi deles quando ela disse sem hesitar: Confio, confio em ti!

Abrigo

Bondosa, disponível, esforçada, atenta, sempre pronta a ajudar, nunca regateou tempo e trabalho para o bem dos outros. Família, colegas e amigos habituaram-se à segurança do cuidado e palavras amigas, da refeição quente sempre disponível para mais um, do abrigo para qualquer momento. Ninguém discutia a sua disposição porque isso não era assunto: estava lá, como sempre esteve.
Não repararam que sempre que falhava o agradecimento era como se cortassem mais uma fatia fininha da sua pessoa, insignificante mas também definitiva. Sempre que faltava o reconhecimento, desaparecia mais um pouco dela, como quem corta fiambre na máquina elétrica.
Um dia disse basta. Indignaram-se porque descobriram que afinal aquela pessoa bondosa, aquele poço infindável de virtude e beneficência, era tão egoísta e caprichosa como qualquer rafeiro comum e, pior ainda, não tinha tido a sinceridade de se mostrar ao mundo, ocultando-se numa abnegação hipócrita.
Não perceberam nada. Não perceberam que, muito pelo contrário, ela tinha desistido das pessoas porque sentia a culpa da sua própria fraqueza. Não conseguira mudar nada, não conseguira mudar os outros. Mantinham-se todos egoístas e oportunistas, cada um por si e ninguém por todos.
Quando a sua energia se esgotou, ela morreu como sempre viveu: esquecida, sem reconhecimento, sem a vida cheia e activa que os outros tinham, com os intervalos em que recuperavam e retemperavam no abrigo da sua casa.

O terceiro lado

A vida tem três lados. O profissional, o familiar e o outro.
O profissional é o racional, necessário, imprescindível, o calculista. Dá trabalho, requer atenção, planeamento, aturar pessoas , enfrentar poderes, nem sempre agradável. Como ganhas a vida.
O familiar é o abrigo, proteção, bem estar, emoção, tranquilidade. Parceiro, filhos, pais, amigos chegados, lar, animais domésticos, estabilidade, descanso, sossego. Onde te proteges.
Depois há o outro, o do sonho, da imaginação, do gosto. Pode ser viver o futebol, ver televisão, conviver no café, fazer desporto, cinema, museus, monumentos, passear na natureza, viajar, cuidar de animais, jardinagem, estudar, promover animações, ajudar colectividades, solidariedade, pintar, esculpir, filosofia, história, política, escrever, literatura, ouvir música, compor, ou simplesmente dormir.
Só me interessa o teu outro lado. Se me interessar.

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