Encontro-te todos os dias, à mesma hora, no mesmo sítio. Vens a puxar a mala, a olhar para o telemóvel. Segues as instruções do mapa, mas não encontras o hotel. Vens cansada e saturada. Calor, viagem longa, bagagem pesada. Não me vês nem me conheces. Nunca nos encontramos. Não sabes de mim, o meu nome, nem sabes que eu existo. Mas será que eu existo? Vivemos em tempos diferentes, em mundos diferentes, suspeito que em dimensões diferentes. Todos os dias, à mesma hora, passas por mim, ouço-te a voz, sinto-te o perfume, não me vês, não me sentes, não sabes de mim. Estendo-te a mão, mas nem sei se braços tenho. Passas. Sei quem és, de onde vez, o que queres, para onde vais, o que fazer de ti, mas não te chego.
No fundo do porão escuro, mal cheiroso e barulhento, aguardavamos o desembarque de pé, virados para o enorme portão, agarrados às malas, choro de crianças nervosas, conversas e chamamentos em várias línguas na excitação da chegada. Sentíamos as manobras do barco sincronizadas com as operações do motor – arranca, pára, inverte, vira. Tinham-nos chamado para descer ao porão ainda estavamos fora do porto, para agilizar a saída e entrada de novos passageiros, motas e carros, para o serviço de ferrys ser rápido o suficiente para justificar o nome Jet. Além de proporcionar viagem rápida, de poltrona em salões climatizados com enormes janelas de vidro escurecido com vista para o cruzamento com outros navios e contorno de pequenas e grandes ilhas, no caminho, não se podia perder tempo nas cargas e descargas. Condutores dirigiram-se para os carros e passageiros amontoaram-se junto ao portão de rampa por onde tinham entrado. Todos se calaram quando a sirene de alarme e luzes amarelas de aviso, intermitentes, e o ruído grave do motor elétrico do enorme portão metálico que se abria com o ranger de metal pesado, ainda o navio manobrava, mostrando a primeira frecha de luz solar da esquerda à direita, de uma ponta à outra, da traseira do porão do barco.
A luz intensa inundou-nos com as pesadas portas traseiras a baixar. Coloquei os óculos de sol com a emoção de Richard Dreyfuss e François Truffaut a abrir-se o portal extraterrestre na Torre do Diabo, no encontro imediato de terceiro grau, mas agora o et era eu. Primeiro o calor, o azul do céu, a luz do sol, o portão a descer, a sirene, o amarelo intermitente do piscar. Em vez do cais surge uma enorme baía do azul intenso, o único, do Egeu. O portão pára de abrir pouco antes de chegar à horizontal. Um tripulante salta para cima dele agilizado pela rotina e grita instruções para o operador algures no convés, por cima de nós, enquadrado pelo cenário, em camadas, de azul celeste, sem nuvens, castanho claro de terra pintada de vegetação rasteira e o azul escuro do Egeu. Os motores diesel aceleram para a rotação do navio e a paisagem começa a rolar como um cenário teatral. Mais montes, céu e azul do mar. Primeiras casas, mais ou menos isoladas, brancas, muito brancas, pintadas de fresco. Desde a primeira vez que cá vim, convenci-me que eles passam as noites a retocar o branco das casas, para nos surpreender pela manhã. Moínhos, sempre os moínhos. Finalmente o cais. Polícias a orientar ruidosamente os carros algo desordenados, apitos, gritos e ordens, autocarros, buzinas, todo o tipo de motoretas a furar, e passageiros rodeados de malas a esperar vez para subir a rampa, na azáfama do grande momento da chegada do ferry da grande cidade.
Palos, a bela Palos que sempre me conforta de memórias quentes nos longos invernos de trabalho frios e escuros. Ainda não decidi se quero viver ou morrer aqui, mas alimento o espírito nessa doce indecisão.
Quero aceitação sem recompensa Quero ensinamentos sem roteiros Quero acrescentar sem tirar Quero receber sem exigir Quero dar sem ter Quero coragem para os medos Quero força contra a preguiça Quero humildade para combater a vaidade Quero energia para enfrentar obstáculos Quero saber tudo sabendo que nunca saberei o suficiente
Um dia vou-me esquecer de ti. Não porque não sejas importante, mas, sabes, não me posso lembrar de tudo ao mesmo tempo. Não é que tenha outras prioridades. Não tenho. És a minha prioridade. Mas a minha cabeça já não é a mesma. Esqueço-me das coisas. Às vezes acordo de noite a pensar num discurso para ti. Não te quero acordar e perco o sono, com a preocupação de não me esquecer. O pior é que adormeço e esqueço mesmo. Passo o dia amargurado com a lamentar as reflexões perdidas. Outras vezes, quando acendo a luz e as escrevo, ao ler, depois, pela manhã, não me lembro de as ter escrito. Parecem-me escritas por outra pessoa. É estranho. Acho que penso em coisas demais ao mesmo tempo, e baralho-as. Ou então uso grupos de neurónios diferentes, consoante a hora do dia, e só por coincidência o grupo leitor é o escritor. Um dia vou-me esquecer de ti. Só me vou lembrar de ti para sempre se o sempre não durar muito, porque a eternidade é esquecimento.
“O dia de descanso nacional era agora passado no country club, um Valhalla de silenciosos relvados de golfe, aspersores sibilantes e crianças aos gritos a brincar na piscina coberta, mas Ferguson raramente acompanhava os pais naquelas viagens de quarenta minutos até Blue Valley, dado que domingo era o dia em que treinava com as suas equipas de baseball, futebol e basquetebol – mesmo nos domingos em que não havia treino. Visto ao longe, não havia nada de errado com o golfe em si, e sem dúvida que se podia arranjar argumentos a favor dos cocktails de camarão e das sanduíches de três andares, mas Ferguson tinha saudades dos seus hambúrgueres e taças de gelado de menta com pepitas de chocolate, e quanto mais se aproximava do mundo o que o golfe representava, mais aprendia a desprezar golfe – não tanto o desporto em si, talvez, mas seguramente as pessoas que o praticavam.”
Gostamos de ler escritos que dizem aquilo que gostamos de ler, como se fosse o nosso coro mas com mais elegância porque para desafinados já bastamos nós, a confirmar e selar tudo o que já pensamos numa repetição endógena e confortável de dizer bem do nosso grupo, clube ou partido, a massajar-nos o ego certificando as nossas prévias escolhas e decisões, mas desconcertamo-nos quando um pensador, no seu melhor fato literário, mostra-nos o que nunca havíamos lido nem sequer entendido até aí, com uma clareza humilhante, fazendo-nos a ganhar novos mundos, novos territórios, com esforço como os holandeses ao mar, não combatendo o nosso velho pensamento mas simplesmente acrescentando-lhe volume e perspectiva.
“Era estranho estar tão próximo de uma rapariga, descobriu Ferguson, sobretudo uma rapariga que ele não tinha qualquer vontade de beijar, o que era uma forma inaudita de amizade para ele, tão intensa como qualquer amizade que tivera com um rapaz e no entanto, dado que Amy era uma rapariga, havia uma tonalidade diferente nas suas interações, uma vibração rapaz-rapariga mesmo abaixo da superficie que era todavia diferente da vibração que ele sentia com Rachel Minetta, ou Alice Abrams, ou qualquer das outras raparigas por quem teve paixonetas e que beijou quando tinha treze anos, uma vibração sonora em contraste com a vibração suave que sentia com Amy, uma vez que supostamente era prima dele, um membro da sua própria família, o que queria dizer que não tinha o direito de beijá-la ou sequer pensar em beijá-la, e tão grande era a interdição que nunca passou pela cabeça de Ferguson contrariá-la, sabendo que tal ato teria sido altamente indecoroso, ou mesmo profundamente chocante, e embora Amy o atraísse cada vez mais à medida que via o corpo dela desabrochar na frescura intensa da sua feminilidade adolescente, não bonita da forma como Isabel Kraft era bonita, talvez, mas apelativa, viva nos seus olhos como nunca nenhuma rapariga tinha sido para ele, Ferguson continuou a resistir à vontade de quebrar o código de honra familiar. Então eles fizeram catorze anos, primeiro Amy em dezembro, seguida de Ferguson em março, e de súbito ele deu por si a habitar um corpo novo que já não dominava, um corpo que produzia ereções espontâneas e muita falta de ar, a fase da masturbação inicial na qual nenhum pensamento que não fosse um pensamento erótico lhe cabia no crânio, o delírio de se tornar um homem sem os privilégios de ser um homem, tumulto, consternação, caos incessante por dentro, e sempre que ele olhava para Amy agora, o seu primeiro e único pensamento era quanto queria beijá-la, o que pressentiu que começava a acontecer também com ela sempre que olhava para ele. Uma sexta-feira à noite em abril, com Gil e a mãe dele num jantar qualquer no centro, ele e Amy estavam sozinhos no apartamento do sexto andar a discutir o termo kissing cousins, que Ferguson admitia não compreender completamente, visto que parecia evocar uma imagem de primos a beijarem-se educadamente na bochecha, o que não parecia certo, de algum modo, dado que esse tipo de beijo não era um beijo genuíno, e logo porquê kissing cousins quando as pessoas na cabeça dele eram apenas primos normais, e então Amy riu e disse, Não, palerma, o que kissing cousins significa é isto, e sem dizer mais nada inclinou-se para Ferguson no sofá, abraçou-o e deu-lhe um beijo na boca, que depressa se tornou um beijo que lhe estava a entrar pela boca, e a partir desse momento Ferguson decidiu que não eram realmente primos, afinal.”
Já te disse que gostava de viver na lua? Queria viver numa casa com uma varanda enorme, com vista para a cratera de Tycho – depois digo-te quem foi Thyco Brahe. Sabes que tinha de ter marquise, não sabes? Lá não há ar, a varanda não pode ser aberta. Marquise não é bonito, mas é como tem de ser. Seria uma casa subterrânea, para proteger das radiações solares, na encosta da cratera, com uma janela de vidro, enorme, aberta sobre a paisagem. A cratera tem oitenta e seis quilómetros de diâmetro, mal se consegue ver o outro lado.
Da minha varanda veria sempre a tua casa, a Terra fixa no céu, a rodar sobre o seu eixo, e ver os continentes, todos, todos os dias de vinte e quatro horas. No teu inverno é quando é mais bonito. A Antártida fica virada para mim durante seis meses, de setembro a março. O branco do gelo, a brilhar ao sol, quase me ofusca.
Vou guardar um cadeirão para ti, ao lado do meu. Sei que gostas de lareira, mas ainda tenho de pensar onde vou arranjar a lenha. Quando quiseres, podes vir ter comigo. Avisas, e eu vou-te esperar ao Lunaporto, com um ramo de flores. Flores cultivadas por mim num vaso de rególito – é assim que se chama a terra da Lua, sabes? – regadas com água reciclada da respiração e da urina. Não te enojes, a urina é água com sais, tal como a água do mar. Basta destilar.
De vez em quando pegamos no rover e vamos dar um passeio ao Mar das Nuvens, que é lá perto. Não tem água, nem tem nuvens, mas fazemos de conta e passeamos de mão dada.