Consequência

Todos os meus atos têm consequências e um ato é o resultado de uma ação, de um consumo de energia, de geração de calor, trabalho, criação de movimento, aumento de potencial ou, simplesmente, desperdício.
Posso aquecer-te, impulsionar-te para mim, elevar-te o potencial, mas o mais provável é que, pela terceira lei Newton, provocada, reajas com um valente estalo na cara, quando eu só queria causar boa impressão e preservar-te, no bom princípio da conservação de Lavoisier.

Galata

Gálata era um subúrbio de Constantinopla, que os genoveses adquiriram com um tratado em 1267, com Bizâncio.

No século XIII, império bizantino, herança do império romano do oriente, era uma potência terrestre bem instalada e fortificada, mas não tinha força naval para controlar e dominar os seus vastos domínios marítimos, do mediterrâneo oriental. Paralelamente, as repúblicas italianas – Veneza, Ragusa (Dubrovnik) e Génova – possuíam poder naval, militar e comercial, mas não eram fortes o suficiente para conquistar uma potência terrestre como Bizâncio e, provavelmente, nunca pensaram nisso.
Com vantagens mútuas, Bizâncio e Génova assinaram um tratado, em que Génova protegia as rotas marítimas bizantinas e em troca estabelecia um entreposto comercial na margem norte do Corno de Ouro, mesmo em frente a Constantinopla e ao Bósforo.
Em muitos aspectos, foi uma das primeiras colónias modernas, um protótipo para os portos de tratados das futuras potências imperiais.
No século XVI, os portugueses em Cochim e os ingleses em Hong Kong, fizeram o mesmo tipo de tratados, com indianos e chineses, usando o seu poder naval para garantir vastos interesses comerciais, sem necessidade de conquistas territoriais.

Gênova manteve Gálata até a conquista otomana de Constantinopla, em 1453. Seu império comercial entrou rapidamente declínio logo depois, mas muitos de seus marinheiros foram para o serviço de Espanha e Portugal, onde ajudaram a construir novos impérios numa escala ainda maior. O mais famoso desses marinheiros terá sido Cristóvão Colombo.

Gálata é o actual bairro de Galatasaray, famoso pelo seu clube de futebol, e continua a ser a zona mais moderna e cosmopolita de Istambul.
O seu ex-líbris é a torre de Gálata, construída pelos genoveses em 1348.

Confiança

Lembrou-se das longas viagens de mota em que ela quase adormecia, com o queixo encostado nas costas dele; da descontração das centenas de quilómetros a sono solto e respiração pesada, a seu lado, no banco do pendura; do seu olhar tenso e decidido antes de se lançarem no bungee jumping; da firmeza do abraço, na queda livre antes de abrir o paraquedas; da mão apertada quando escapavam da tentativa de assalto, no meio das férias distantes; das lágrimas vertidas compulsivamente, no aperto do terror da doença; da tranquilidade com que se despiu e se entregou pela primeira vez; da alegria eufórica com que festejaram os sucessos; dos planos de vida imaginados no relvado, sob lua cheia, numa noite de verão.

Nada disto aconteceu, senão na cabeça dele. Não têm passado, nem terão futuro, mas, no acaso da vida, naquele momento, naquele instante, a eternidade foi deles quando ela disse sem hesitar: Confio, confio em ti!

Abrigo

Bondosa, disponível, esforçada, atenta, sempre pronta a ajudar, nunca regateou tempo e trabalho para o bem dos outros. Família, colegas e amigos habituaram-se à segurança do cuidado e palavras amigas, da refeição quente sempre disponível para mais um, do abrigo para qualquer momento. Ninguém discutia a sua disposição porque isso não era assunto: estava lá, como sempre esteve.
Não repararam que sempre que falhava o agradecimento era como se cortassem mais uma fatia fininha da sua pessoa, insignificante mas também definitiva. Sempre que faltava o reconhecimento, desaparecia mais um pouco dela, como quem corta fiambre na máquina elétrica.
Um dia disse basta. Indignaram-se porque descobriram que afinal aquela pessoa bondosa, aquele poço infindável de virtude e beneficência, era tão egoísta e caprichosa como qualquer rafeiro comum e, pior ainda, não tinha tido a sinceridade de se mostrar ao mundo, ocultando-se numa abnegação hipócrita.
Não perceberam nada. Não perceberam que, muito pelo contrário, ela tinha desistido das pessoas porque sentia a culpa da sua própria fraqueza. Não conseguira mudar nada, não conseguira mudar os outros. Mantinham-se todos egoístas e oportunistas, cada um por si e ninguém por todos.
Quando a sua energia se esgotou, ela morreu como sempre viveu: esquecida, sem reconhecimento, sem a vida cheia e activa que os outros tinham, com os intervalos em que recuperavam e retemperavam no abrigo da sua casa.

O terceiro lado

A vida tem três lados. O profissional, o familiar e o outro.
O profissional é o racional, necessário, imprescindível, o calculista. Dá trabalho, requer atenção, planeamento, aturar pessoas , enfrentar poderes, nem sempre agradável. Como ganhas a vida.
O familiar é o abrigo, proteção, bem estar, emoção, tranquilidade. Parceiro, filhos, pais, amigos chegados, lar, animais domésticos, estabilidade, descanso, sossego. Onde te proteges.
Depois há o outro, o do sonho, da imaginação, do gosto. Pode ser viver o futebol, ver televisão, conviver no café, fazer desporto, cinema, museus, monumentos, passear na natureza, viajar, cuidar de animais, jardinagem, estudar, promover animações, ajudar colectividades, solidariedade, pintar, esculpir, filosofia, história, política, escrever, literatura, ouvir música, compor, ou simplesmente dormir.
Só me interessa o teu outro lado. Se me interessar.

Todos os homens já foram meninos

Quando vi o Paulo, com cara de menino, todo satisfeito, pela manhã, no seu camião de quarenta e quatro toneladas de aço e madeira, lembrei-me das vezes que ele sonhara com isso, quando brincávamos na praia, sob o sol do meio dia daquele tempo em que pouco se ligava a protetores, com seu camiãozito de plástico, cabine azul e caixa castanha, transportando preciosas conchas, na extensa subida da rebentação até à primeira barraca, que estava sempre desocupada vai-se lá saber porquê, vibrando os lábios com o som grave do poderoso motor diesel que ressoava na sua cabeça.
Ainda lhe acenei, da minha burguesa berlina alemã, mas ele nem se apercebeu de mim, concentrado na sua responsabilidade de levar estas novas conchas para outra barraca mais além, e roí-me de inveja da sua felicidade, neste mundo de ambições baças, planeamentos fajutos e grandes esquemas de papel de embrulho.

The Man Machine

Armando entusiasmava-se com os outros, interessava-se, preocupava-se e cuidava, mas era só se fosse solicitado ou estimulado para reagir. Quando se lhe dirigiam diretamente ou faziam algo que lhe chamasse a atenção, acionava o seu mecanismo social-afectivo e brilhava na fatuidade do momento, com evidentes vantagens pessoais, profissionais e políticas. Mas se estivesse distraído e descontraído, deixava-se ficar absorto, não se emocionava. Isso provocava imensas contrariedades com os mais próximos. Não estava preparado para perceber o seu redor, espontaneamente.
Era o melhor amigo dos menos amigos e quase um desconhecido para os de casa.
Será que sonhava com ovelhas elétricas?

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