Fotografar

“Ela descobrira este impulso contrário em si mesma no casamento da prima Charlotte, aquele trabalho gratuito em 1955 que se tinha tornado uma exuberante orgia de três horas e meia de fotografia frenética, à medida que ela girava pela multidão, liberta das restrições da preparação laboriosa e mergulhada num rodopio de composições velozes, uma fotografia a seguir à outra, instantes efémeros que tinham de ser apanhados precisamente naquele momento ou então nunca, parava-se um segundo e a foto desaparecia, e a ferocidade de concentração exigida naquelas circunstâncias tinha-a lançado para uma espécie de febre emocional, como se cada rosto e corpo na sala estivesse a precipitar-se para ela ao mesmo tempo, como se cada pessoa ali estivesse a respirar dentro dos seus olhos, não mais do outro lado da câmara mas dentro dela, uma parte inseparável de quem ela era.”

Paul Auster, “4321”, cap. 2.3

Sobrevivos

“Anos mais tarde, a mãe confessou-lhe que também para ela o início tinha sido menos difícil do que o que veio a seguir.
… Com tantas decisões práticas e urgentes, a tomar, a questão de vender a casa e o negócio em New Jersey, de encontrar uma casa para viver em Nova Iorque, de mobilar essa casa enquanto tratava de pôr Ferguson numa escola adequada, o súbito massacre de obrigações que caiu sobre ela durante os primeiros tempos da sua viuvez tinha sido mais uma distração agradável do que um fardo…
Sem dúvida que ela tinha andado meio louca durante aqueles meses, disse ela, uma maluca alimentada a cigarros, café e impulsos constantes de adrenalina, mas depois de as questões da casa e da escola terem sido resolvidas, o furacão amainou e então parou completamente, e ela caiu num longo período de pensamento e reflexão, dias horríveis, noites horríveis, um tempo de torpor e indecisão em que pesava as possibilidades e tentava, a custo, imaginar onde queria que o futuro a levasse…”

Paul Auster
4321, cap. 2.3

O que tu queres sei eu

“Só progrides se eu te saltar à espinha”.
Esta violência foi descrita num relato na primeira pessoa, na antena de uma rádio nacional, por uma professora universitária, figura pública, descrevendo uma situação passada nos primeiros anos da sua vida na academia.
Disse que não apresentou queixa. Conseguiu progredir e seguiu carreira. Mais de vinte anos depois, não é difícil, para quem for do meio, identificar o fraco autor do dito.
Ouvi isto há cerca de dois anos.
Esta semana, voltei a ouvir uma expressão parecida, outra vez relatada na primeira pessoa, descrevendo uma situação em contexto laboral. O lamento de uma mulher que está a sofrer, arranja forças para avançar, não quer passar vergonhas e também não quer pôr nome ao autor. Fica na dúvida se é assim mesmo, se tem de ser.
Não tem de ser.

O problema do assédio, do avanço não consentido, tem várias vertentes e manifestações.
– o caso clinico, do predador irracional, que pode resvalar rapidamente para a violência. Necessita de intervenção policial e tratamento médico, com reabilitação ou não.
– o exercício de poder amoral, comummente nas baixas chefias e de muita proximidade, do pequeno domínio, que leva ao abuso e assédio moral ou sexual. Eram histórias correntes nas grandes confecções do norte. As chefias superiores, sindicatos e comissões de trabalhadores têm especial responsabilidade no controlo e prevenção, impondo-se na forma como se criam equipas e se dispõem locais de trabalho.
– a dependência emocional ou económica, em casa ou no namoro, que levam ao abuso. São os mais difíceis de detetar e combater. A vítima esconde e nega quase sempre.
– nas relações comerciais assimétricas, ou com trabalhadores independentes, em que há grande dependência económica de quem contrata ou dá serviço. O problema é idêntico ao da relação laboral mas é pior, por ser desregulamentado.
– os problemas causados pelas diferenças culturais, com repercussão a longo prazo, das migrações de povos com outros princípios, vivências e religiões. Merecem investigação mas a propagação destes relatos também está a ser incentivada com objetivos políticos.
– entre pares, por falta de civismo e educação, quando, quem avança acha que não tem consequências, julga mal e pensa que está a perder a oportunidade, ou, pior ainda, acha que se não avançar fica mal visto pela(o) visada(o). É a interiorização cega do estava mesmo a pedi-las.

A situação menos grave mas mais difícil de combater é esta última.
Não acontece num ambiente de dependência económica ou hierárquica, mas emana da própria cultura da sociedade, de uma menorização do intelecto e da crescente objetificação e sexualização do corpo, cada vez mais exposto na publicidade e redes sociais. Corpo delas e deles.

Escrever

“Quando escrevo não sou descritivo, nem crítico, muito menos autobiográfico. Imagino saídas onde não existiam e imponho barreiras nas passagens por onde avancei, decisões que podia ter tomado ou que seriam tomadas por outro que estivesse no meu lugar. O resultado é uma realidade alternativa que esteve muito perto de acontecer, ou talvez não.”
(JP)

Realidade?

– Tu sabes tudo?
– Não sei nada. Só julgo saber alguma coisa.
– Como assim? Opinas sobre quase tudo, às vezes com sobranceria.
– O que sei agora é diferente do que eu sabia ontem, e do que vou saber amanhã. Sabedoria é absorver e perceber o que se passa à volta, é descobrir todos os dias coisas novas. É a satisfação de reconhecer que ontem estavamos errados. É fluído e transitório.
– Como assim? Há livros escritos há seculos, por grandes génios, com verdades imutáveis. As leis de Newton, escritas no século XVII, são as mesmas que nos permitem viajar, com precisão, por todo o sistema solar, no século XXI.
– Falas de Newton, falas bem. O que ele viu e percebeu revolucionou todo o nosso conhecimento. A quantificação das massas e energia, os equilíbrios estáticos e dinâmicos, a lei da atração universal, abriu as portas para a revolução industrial e para o espaço.
– Então, o nosso mundo está estruturado num conhecimento com séculos, dele e doutros.
– Mas não é o conhecimento final.
– Claro que não. Todas as semanas, os cientistas fazem descobertas formidáveis a acrescentar a séculos ou milénios de sabedoria.
– Não é desse final que eu estou a falar. Eu acho mesmo que Newton pode e deve estar errado.
– Agora estás a ser ridículo e presunçoso.
– O conhecimento da humanidade é como a caverna de Platão. Começámos lá no fundo, na escuridão completa. Comíamos e éramos comidos, pouco mais do que isso. Nessa altura iniciámos o caminho para a entrada da caverna. Sempre a andar de costas, não me perguntes porquê, mas é assim, tenuamente iluminados pela luz da entrada.
– Se é assim há tanto tempo, já devemos estar ao pé da porta.
– Não. Começámos há centenas de milhares de anos e não sabemos quantos milhares ou milhões nos faltam. Mas eu suspeito que nunca vamos chegar à entrada. A caverna não tem fim.
– Não vamos chegar à realidade do exterior?
– Não. Só vemos as sombras da realidade reflectidas na parede. Com o andamento, as sombras tornam-se mais nítidas, mas são sempre sombras. Muda a parede, muda a luz, muda tudo, mas são sempre sombras de uma realidade que nem imaginamos.
– Mas eu estou a olhar para ti. Tu existes, somos realidade.
– Não. Isto é tudo uma grande ilusão. Depois de Newton, descobrimos, com Einstein, que o espaço é curvo para uma dimensão que não vemos, contrai-se com a velocidade, e a passagem do tempo não é constante para todos. Até agora pensávamos que era a massa que distorcia o espaço-tempo, mas, nos últimos anos, descobrimos distorções sem massa. Ou, pelo menos, massa visível e detetável. Chamam-lhe matéria escura. Não fazemos ideia do que é, e está no meio de nós. Também detetamos uma energia antigravitacional em muito mais quantidade do que a força gravitacional do universo. Chamam-lhe  energia escura. Nada disto bate certo.
– Tiras-me o sono.
– Ainda dormes?

Convívio

Não percebi se foi com amargura ou jactância, mas afirmou, algo seriamente, que perdera o hábito e gosto pelo convívio. As conversas já não lhe interessavam, pareciam repetidas, sem surpresas nem entusiasmos. Programas familiares, piqueniques, lanches, idas à praia, já não lhe despertavam emoção. Do churrasco no jardim, só se lembrava do barulho das crianças. Cafés ou esplanadas, com mais de três à mesa, já lhe pareciam um arraial.
Seria cansaço, desânimo ou desalento, pensei. Preparava-me para ajudar, tentar animar, mas eis que muda o tom da conversa.

“- São coisas simples, sabes. Nós somos complexos, necessitamos de agitar as águas, criar. Queremos fazer coisas, o quotidiano não chega.”
Após alguns segundos, a tentar perceber o que me dizia, a olhar olhos nos olhos, lá retorqui:
“- Mas olha que vais sofrer com isso. Não há assim tanto para fazer e precisas de uma base de normalidade, rotina, para acalmar o espírito. Lugares e pessoas estáveis, previsíveis, fazem-nos bem. Confortam.”
“- Mas eu adormeço neste conforto. Preciso de mudar. Preciso de outro conforto.”
“- Vais mudar quando menos esperas.”

A conversa ficou por aqui.
Não sei como está agora. Usou o plural, não sei se majestático ou inclusivo, como me pareceu. Se calhar só queria mesmo o conforto do meu colo.
Saí a tempo.

Maestro

Os sons que ouvimos são uma construção do nosso cérebro, uma ilusão provocada pela vibração dos nossos tímpanos, excercitados pelos movimentos das moléculas de ar, por sua vez agitadas pelas fontes de vibração mais ou menos distantes. É física, é mecânica, são vibrações.

As notas musicais são frequências ordenadas, em que a oitava é o dobro da primeira, a décima sexta é o dobro da oitava, assim, de oito em oito, num crescendo de ciclos de vibração de matéria por segundo. O Dó da oitava central do piano é aproximadamente 261,63 Hz. Quando o ouvimos, os nossos tímpanos vibram 261,63 vezes por segundo. O Dó seguinte tem o dobro da frequência, é mais agudo; o anterior tem metade, é mais grave. As notas intermédias, do Ré ao Si, têm incrementos de frequência de 1/8, em cada uma das oitavas.
O alinhamento, temporização, ritmo e sobreposição das notas em melodias e harmonias,  são música para os nossos ouvidos.

As cordas ou palhetas ao vibrar, agitam as moléculas do ar em ondas que se propagam até aos tímpanos, como uma pedrada agita a superfície do lago em ondas que se propagam até à margem
Um maestro é como um lançador de pedras, umas grandes, outras pequenas, umas mais perto, outras mais longe, a pintar um quadro de ondas cruzadas e sobrepostas, na superfície dum tanque orquestrado.


Por falar em quadro, as cores também são frequências electromagnéticas específicas, que misturadas e arranjadas por um pintor, criam uma ilusão que pode ser-nos agradável aos olhos, mas isto já outra música.

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