Temos guardado um génio que se mostra num brilho dos olhos, num gesto brusco, num esgar, no tremer de voz, quando estamos no bordo do precipício, frágeis, desvalorizados e já não nos importamos.
Só alguns o vêem.

Retardados

Tenho inveja da segurança dos retardatários. A descontração de chegar ao trabalho com as tarefas já distribuídas, só ter para comer o que já foi rejeitado, sentar no lugar que mais ninguém quer, apostar no único treze que sobrou, encarar a censura de quem nos espera, arriscar dar com a porta já encerrada, não é para mim.

Mitos e ditos portugueses

Há um dito muito interessante do povo português, referindo-se a acontecimento ou monumento anterior à nacionalidade, que é dizer é do tempo dos mouros.
Lendas com castelos dos mouros, reis mouros ou princesas, chegaram ao século XX referindo-se indistintamente a episódios, construções ou ruínas visigóticos, romanos e até dolmens e antas neolíticos, além, naturalmente, dos próprios mouriscos.
Com a crescente escolarização, e com a ajuda dos filmes de Hollywood, foi-se distinguindo o legado romano, como Conímbriga ou o Templo de Diana, mas a confusão mantém-se até com a popular creditação romana das medievais pontes românicas.

No século XXI acontece um fenómeno idêntico, mas, neste caso, relativo ao século XX.
Os portugueses desconhecem a guerra da Indochina e da Argélia, nos anos 50, e a reaccionarismo francês que quase provocou uma guerra civil numa potência europeia; a crise do Suez de 1956, quando França e Reino Unido pretenderam recolonizar o Egipto; a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, com intervenção de tropas federais nos estados do sul e polícia a escoltar miúdos negros nas escolas mistas, que culminou com a morte de Martin Luther King, em 1968; a política pública de esterilização forçada de pessoas com baixo QI, na Suécia, nos anos 60; a brutal segregação e genocídio dos indígenas canadianos, nos anos 50; o mesma na Austrália, pela mesma altura; as violentas lutas estudantis em França e na Califórnia, em 1968, contra a sociedade conservadora; divórcio consentido em Itália só em 1970; voto feminino instituído na Suíça só em 1971; choque petrolífero de 1973 que estourou o modelo económico global surgido no pós-guerra e criou brutais tensões inflacionistas; o tunisino guilhotinado, em Marselha – o último condenado à morte em França, em 1977, pena abolida em Portugal havia mais de cem anos.
Na perspectiva dos portugueses, com o seu enorme ego colectivo, o período de 1960 a 1990, que compreende a revolução pop no Reino Unido, independências das colónias europeias, levantamentos universitários, e acaba com as quedas do bloco soviético, de Pinochet e do apartheid, já nos anos 90, período que revolucionou o mundo, resume-se à madrugada do 25 de Abril.
Mesmo no caso português, o primeiro abalo já havia surgido com o início da guerra em Angola e invasão do Estado da Índia, em 1961, e a normalização só aconteceu trinta anos depois , com a revisão constitucional de 1989, já na CEE, com o reestabelecimento de regras económicas idênticas às dos outros regimes livres ocidentais.
Vivemos a ilusão de que, em 24 de Abril de 1974, Portugal vivia nas trevas e que o mundo já era todo  progressista, perdendo o enquadramento histórico de 30 anos fundamentais na história humanidade.
Tudo o que refere a uma época, estilo ou hábito anterior à revolução social dos anos 60, ao colonialismo ou reaccionarismo em geral, é do tempo do Salazar ou, mais prosaicamente, do tempo do fascismo.

Quarenta e quatro

Uma ou duas vezes por ano, fazia a visita de cortesia que se deve ao nosso melhor cliente. Era sempre um almoço num local bom e discreto, daqueles que só os homens mais ricos das terras pequenas conhecem.

O Sr. Armando era um verdadeiro caso de sucesso,  case study, como dizem os estrangeirados. Formação de escola comercial em horário noturno, no tempo em que se começava a trabalhar com a quarta classe, casou muito novo. Vida modesta, ainda com filhos pequenos, chega antes dos trinta anos à chefia do escritório da fábrica onde trabalhava, desde sempre, nos frenéticos anos oitenta em que tudo acontecia. Mercados abriram, CEE, novos bancos privados sedentos de crescimento, inundação de fundos europeus, dinheiro a fluir, tudo se exportava e tudo se importava, íamos ser ricos, íamos ser definitivamente europeus de primeira.
Os donos da empresa do Sr. Armando já tinham bastante idade. A empresa era sólida mas com instalações velhas e equipamento obsoleto. Não havia sucessão familiar. Um dos sócios não tinha filhos. Apenas um sobrinho pouco capaz e menos ambicioso, que por lá arrastava orgulhosamente papéis, a coberto do poder avuncular. O outro sócio tinha uma filha, professora primária, julgo, solteira e com consumições de sobra, segundo dizia, no seu dia a dia, para se estar a meter em decisões de barco tão grande.
O empurrão foi dado por um novo gerente do balcão do banco com quem mais lidava – os patrões deixavam esse trabalho de despacho financeiro para o braço direito, Armando. Depois de ganhar alguma confiança, falou do impasse em que se encontravam. Concorrência espanhola, necessidade de inovação e investimento, mercados a abrir, mas os sócios sem vontade nem incentivo para progredir.
– “Porque é que você não compra isto aos seus patrões? Tem o nosso apoio”. Disparou o jovem bancário. Eram da mesma idade.
Nessa noite nem dormiu. Não era assunto que nunca tivesse sonhado, mas cresceu num mundo em que nada se faz sem o empurrão da família. E dessa só poderia esperar a marrada do Joel, o bode cobridor do rebanho do modesto e trabalhador senhor seu pai.
O jovem Armando percebeu que estava perante a oportunidade da vida dele. Conhecia o negócio como ninguém, onde comprar, onde vender, quanto custa, até como fazer. Anos de trabalho, doze horas por dia, pelo menos. Não tinha jeito para vendas, mas tinha uma relação muito próxima com Paulo, das vendas. Mais jovem do que ele, cheio de vontade, dinâmico, falava inglês, já com resultados, de fácil entrada em todos os clientes.
No dia seguinte, saiu mais cedo do trabalho, alegando uma diligência de cobrança, e, ao fim da tarde, foi falar com o Dr. Ribeiro, advogado da terra, ainda aparentado da mulher, para perceber como havia de montar o negócio. Passou a noite em claro, a fazer as suas contas, no dia seguinte acertou com o banco, e pediu para falar com os patrões.
Foi um choque. Armando propôs comprar o negócio pelo valor do imóvel, libertando de imediato os sócios de qualquer responsabilidade.
” – Nem pensar, é de borla, isto é um abuso”.
” – Tudo bem”, responde Armando, “Então saio hoje mesmo, porque tenho proposta de emprego e tenho de olhar pela família”.
Não saiu, mas o bluff funcionou e no final da semana estava tudo tratado.

Voltemos ao dia da visita, para não vos maçar com mais detalhes de negócios passados.
O Sr. Armando falava de pé com um indivíduo grisalho, entroncado, de blazer, barba rala, cinquenta anos talvez. Nunca o tinha visto. Acenou-me como quem manda aguardar.
Aguardei entretido, a falar com o Dr. Carlos, da contabilidade, sportinguista ferrenho, que ainda hoje não sabe que sei tanto de futebol como de séries espanholas da Netflix.

” – Rui, importa-se que o Vítor almoce connosco?”, pergunta-me o Sr. Armando, depois de atravessar toda a sala, em passo largo e decidido, atrelando com dificuldade o que fiquei a saber chamar-se Vítor.
Como é que eu havia de discordar. A visita era de cortesia e nunca tinha hipótese de pagar na terra dele, quanto mais escolher mesa ou convidados.
“- Siga-nos! Vou no carro dele e depois venho consigo”.
Meteram-se por uns quelhos para mais um dos tais bons sítios para registar no gps.
O almoço correu bem. Vítor era fornecedor de embalagens, de madeira, cartão e metálicas. Conversa fácil, bom trato, pouca confiança comigo. Estive calado quase todo o tempo.
Conforme combinado, Vítor saiu mais cedo, rapidamente, para um qualquer compromisso.

O Sr. Armando baixou a voz e começou a falar em tom grave.
“- O Vítor é bom rapaz, conheço-o há muitos anos mas já vai no quarto casamento”.
Eu sorri nervosamente. E daí? Pensei.
“- Não consegue assentar a vida dele. Tem muitas qualidades, é trabalhador, sério, esperto, óptimo profissional. Trabalha por conta própria, sabe mesmo do que faz e resolve todos os meus problemas, por preço em boa conta, mas está sempre atrapalhado. Estou sempre a ajudá-lo, dou-lhe preferência, sempre, mas já desisti de saber o nome do fornecedor, sempre a mudar.
Sabe porquê, não é? Já vai no quarto casamento”.
Anuí. Como podia discordar? Casado há meia dúzia de anos, não estava em posição nem com estatuto para debater o tema.
“- Pois é, Sr. Armando. Isso dá muita instabilidade”.
“- Sabe, Rui, estou casado há quarenta e quatro anos. A minha mulher é o meu esteio. Só ao fim de muitos anos, estando bem, ganhamos intimidade e comunhão. Até lá, é um misto de festa e excitação, quando não dá logo para o torto. Ganha-se confiança. Nem sempre se é feliz. É preciso gerir silêncios e temperar os excessos. Muita paciência. Mas só assim, fiz o que fiz, construí o que construí, e volto para casa como se fosse a primeira vez. A minha casa de sempre, o meu lar. Todo o resto é descartável, faz-se de novo”.

Não sei se percebi bem o que me disse, mas já passaram muitos anos e nunca mais esqueci.

Arrependimento

És um monta cargas de arrependimentos acumulados ao longo da vida. Do mal que fizeste, a ajuda que não deste, um esquecimento, a mentira piedosa, a pequena traição, a conta por pagar, um convite que não aceitaste, outro que não fizeste, a promessa não cumprida, uma amizade deixada lá atrás, aquela desilusão provocada, o favor não compensado, o discreto oportunismo, pequenos pecadilhos de vulgar mortal.
No fim, quando carregares a balança do último juízo, virtudes num prato, pecados no outro prato, verás descontado os anos de sofrimento de arrependido, mas não serás absolvido.

Caixa negra

A meia idade é isso mesmo, estar a meio do que já começou há muito. Se estamos a meio, do que já começou há meia vida, é porque já está tudo iniciado e só falta escrever a segunda metade do nosso livro. Nas segundas metades dos livros, conhecemos bem as personagens, sentimos aquele conforto de já os tratarmos por tu, temos os nossos preferidos, queremos castigar os vilões e sofremos ao adivinhar o fim dramático que o autor parece querer arranjar para se distinguir da novela de cordel.
A primeira parte do livro está cheia de primeiras coisas. Primeira casa, primeira escola, primeiros amigos, primeiros amores, primeiras experiências, primeiros desgostos, primeiros entusiasmos, primeiras desilusões, primeiro emprego, primeiros pecados, primeiro casamento, primeiro filho, primeiro tudo, ou quase tudo, porque alguns nunca chegam a ter tudo. Depois vem a segunda parte, que é como a dos livros, que eu já descrevi acima e não vos quero maçar com a repetição da ideia.

Parece monótono. Monotonia é confortável para os que gostam de ir sempre aos mesmos cafés, à mesma hora, as mesmas conversas, os mesmos trajectos, o mesmo dia de ir ao supermercado ou ao cinema, reclamam do emprego de sempre que nunca tiveram coragem de largar, almoço de domingo, sofrem quando os filhos saem de casa mas recuperam a passear os netos. Somos assim. Quase todos.

Eu gosto de ouvir pessoas. Ouvir ideias.
Raramente concordo. Enjoo com o cheiro a pintado de fresco dos velhos jargões; já comprei banha da cobra há muitos anos. Uns com o entusiasmo julgado inovador da juventude, outros com frustração vestida de preconceito conservador. Dão-me sono que não consigo esconder quando tento olhar distraidamente para o relógio. São personagens de outros livros menos interessantes do que o meu.
Mas não é sempre assim. Alguns passam o teste do terceiro encontro.
A primeira conversa é a mais divertida. Quer dizer, nem todas. Alguns nem falam e outros mais valia terem ficado calados. Voltando ao princípio, a primeira conversa é a mais divertida. Quando querem impressionar – e é bom que queiram, senão escusavam de ter saído de casa, mostram o que sabem, o talento, o espírito, os ideais. É óptimo para criar ambiente em festinhas de aniversário.
A segunda conversa é o primeiro exame. Não tem mal se repetirem o número. Haverá outros ouvintes em primeira mão, a quem se dirige a actuação, mas anoto. Ou então surpreendem com novo e complementar discurso. Também anoto.
Do terceiro encontro sai o veredicto. Só aprovo aqueles que fazem parar o tempo; fica tudo por dizer e por ouvir, ao fim de horas que não dei por passar. Dos outros já me esqueci.

Uma personagem de segunda parte já traz um passado, não é um recém-nascido. E não podemos maçar o leitor, eu, com a descrição do passado da personagem de segunda parte. Passado é passado.

Descobrir uma pessoa interessante é como abrir a porta de um quarto e acender a luz. Num instante vês mobília, quadros, livros, roupa. Pela arrumação e decoração tiras o carácter. Sentes o cheiro. O candeeiro é importantíssimo.
Entras, vês, testas as dureza do colchão e a macieza do veludo da cadeira. Abre-te o armário, a estante, mostra-te o que está a ler. Delicia-te.

Aponta para o fundo e diz: ali ao fundo está a minha arca. Fechada. É a caixa negra do meu passado. Não tens nada com isso. Sou a soma de três partes: a que saiu da minha mãe, a que vês no meu quarto e a que fechei na caixa negra do meu passado que nunca te mostrarei.

Foi assim que te juntei para a segunda parte do livro da minha vida.

Sorriso sincero

Eram amigos já há algum tempo. Partilhavam outros amigos, espaços, interesses e vivências, por vezes alguns trabalhos e tarefas. Tudo normal, nesta vida normal de gente normal.

Um dia ela fez-lhe uma pergunta surpreendente:

“- Porque és bom para mim?”

Ele ficou embaraçado com frontalidade e ingenuidade que o deixou sem resposta. Porquê? O quê?

Podia ter sido sincero, que era por interesse, dinheiro e talento, que estava apaixonado, que queria sexo, ela era uma mulher bonita, mas nada disso era verdade, por si só.

Como poderia explicar que ela valia pela alegria, a energia, as histórias, a imaginação. O espírito contagiante que enchia salas era suficiente para a querer, não para ter a seu lado, mas para ter a sorte de lhe ver o sorriso sincero que guardamos para aqueles de quem mais gostamos.

Não sei que resposta lhe deu, nem sei que resposta ela queria ouvir, mas sei que envelheceram perto um do outro. Mas não tão perto como todos os outros julgavam.

Acho que ela nunca o percebeu e ele nunca foi realmente sincero.

Ela talvez quisesse mais, mas não tinha a certeza se era ele. Outros já lhe tinham marcado o passado e tanto desiludido. A alegria, às vezes, era só aparente, de cicatrizes nervosas.

Ele não a queria perder e tudo fez para tudo lhe dar, sem exagerar e nunca a maçar nem desiludir. Por insegurança, talvez.

Arranjaram um equilíbrio que durou toda a vida. Não sei se foram felizes mas olharam-se sempre com o sorriso sincero que guardamos para aqueles de quem mais gostamos.

Vodka Martini

Quero ser o teu Vodka Martini, James, disseste-me ao ouvido, no meio do barulho e das luzes. Percebi cada uma das palavras e sorri como finge o duro de ouvido por simpatia. Dançavas, olhavas-te confiante e fixavas-te em mim, ao ritmo da música, uma e outra vez. Queria dizer qualquer coisa, nunca me faltavam palavras. Era suposto manter a tensão, mas sentia o chumbo a escorrer-me para os pés e a cera a fixar-me o sorriso de mouco.
James, qual James? E já estava de copo na mão.
A charada matou-me. A oportunidade passou.

Shaken, not stirred, ouvi anos mais tarde, Sean Connery, numa reposição de domingo à tarde do eterno double 0 seven.
Naquela noite fiz o papel do frio e contido vilão soviético, mas nunca esqueci o vestido azul de verão que agitavas à minha frente.

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