Felicidade

Felicidade também é gestão de espectativas.
O idiota é feliz porque não tem espectativas. Um rebuçado sabe-lhe como um banquete.


Não és idiota, mas às vezes pareces. Não porque não tenhas espectativas, mas porque as tuas são tão altas que nunca as vais atingir, por falta de talento, mas também porque não acontece aquela conjugação espetacular de astros, tão necessária, que só tu, na tua cabeça, achas possível.

O Tomo Mágico

Quando nasceu, as folhas ainda estavam por separar, esperando pacientes alguma lâmina que as pudesse ir separando gentilmente. Só na capa, dura, havia sido aposto um carimbo de baixo relevo que dizia “milagre”. Mais nenhuma página tinha qualquer escrito. À disposição estava material de escrita, de desenho, de pintura, de fotografia e vídeo. Para lá do horizonte da capa havia uma gigante vaga em aberto, lembrando um vasto formulário com espaços por preencher. Pela lombada percebia-se que muito conteúdo ali seria confiado. Não era só um livro, era um tomo: muitos o antecederam, tantos outros se lhe seguiriam.

A ânsia de começar a história era tanta que, mesmo antes de saber escrever, espalhou sorrisos, mãozitas e sons amorosos que buscavam colo. Experimentou o conforto que só o berço dos braços consegue embalar. Adormeceu em dias de tempestade aninhada na tranquilidade oferecida pelos que a amavam, sonhando em tons de rosa e de algodão doce. À medida que crescia era a traquinice que assinava os capítulos e as partidas que pregava aos outros ficavam gravadas nas páginas do diário, tal como os bordados e lavores, que eram desenhados com mestria pela agulha, ficavam cosidos para a vida em almofadas, toalhas e paninhos para os tabuleiros do chá. Contra a vontade secreta dos pais, cresceu de forma ágil e (diziam todos) demasiado veloz. A beleza de garota ficou-lhe sempre presente nos olhos brilhantes. Bastava fitá-los para se encontrar neles a leveza de uma petiz feliz, aos saltos, que lançava beijinhos para as – na altura ainda rudimentares – máquinas fotográficas. A pressa trouxe-lhe uma menina-mulher com ganas de escrever pelo seu punho os episódios das suas temporadas. Imaginou-os, sonhou-os e desejou-os com tanto pormenor que estes se transformaram em desenhos, que se transformaram em pinturas, que se transformaram em quadros, que se transformaram em exposições itinerantes que saltaram para a vida real em magníficas tonalidades pastel. Escreveu o seu guião quase todo no feminino, o género com que se sentia realizada e que lhe permitia seguir viagem por entre partos de alegrias e orgulhos. Maravilhosas narrativas encheram as páginas do seu exemplar que o era duplamente: “um exemplar-exemplar”, que testemunhava os seus sorrisos calados e ufanos por tantas conquistas. Nem nos seus melhores sonhos de algodão doce imaginou tão doce conto. Era tanto o que ia escrevendo e descrevendo. Acontecia tudo muito depressa e a um ritmo tão feliz…Escreveu tudo o que queria e como queria. Pontuou cada boa surpresa com vários pontos de exclamação! Deixou as interrogações apenas para a adolescência, fase que deles sempre depende para avançar sem reticências…Com o tempo começou a abrir e fechar aspas para citar aqueles que “lá atrás” havia contestado e abria e fechava parêntesis para o desabafar consigo mesmo (como era possível estar a repescar argumentos que foram usados por outros com ela, para serem agora usados por ela com outros?).

A história estava escrita. Muito bem escrita. Mas estava cansada de tanto manuscrever. Respirou de alívio quando viu que só lhe restava mais uma página. “Que bom”, pensou com alívio, “não havia mais nada que quisesse acrescentar”. O seu tomo estava perfeito e pronto a ser tomado por outro. Agora descansava, colocada com carinho junto à história da família, e sorria de cada vez que a desfolhavam para, nas memórias, com ela rirem e chorarem. Era lembrada e isso renascia-a.

Continue reading “O Tomo Mágico”

Saída de Emergência

Todos os dias passava naquele corredor e lia, naquela porta, saída de emergência.


Todos os dias questionava-se o que seria uma emergência. Seria o desespero que sentia, a injustiça que o castigava, a falta de vontade, o desprezo que lhe votavam, o monotonia das suas rotinas, aquelas luzes brancas no tecto alto, as paredes frias e duras, o vazio?


E para onde seria a saída? Para um corredor como este, com outras injustiças, monotonias e vazios, diferente mas igualmente desesperante, ou seria para uma sala confortável, recebido com bebidas quentes e palmadinhas nas costas? O mais certo é que fosse apenas um salto no vazio, com um paraquedas que podia nem abrir.


Continuou a fazer o mesmo corredor, toda a vida, com o consolo de ter uma Saída de Emergência, para quando viesse a emergência que não sabia como era, com uma saída que não fazia ideia para onde.

A minha viola

A viola da minha vida tem várias cordas. Não sei quantas são. São todas diferentes. Tenho grossas e tenho finas. Deviam de estar por ordem mas sou um trapalhão. Se calhar a ordem é mesmo assim, estão como devem estar, e eu é que tenho a mania.

Estico a corda, a frequência sobe, o som fica mais fino. Pia mais fino.
Se desapertar o esticador, alivio tanto que deixa de tocar. Resolvo o assunto com moleza.
Se esticar demais, arrebento a corda e magoo-me.

Não sei tocar, só faço barulho, mas mexo e remexo como se soubesse afinar as cordas da vida.

Viver

Viver é romper. O próprio acto de nascer é um rompimento. Morrer é o outro.
Passamos a vida a negá-lo numa busca incessante de conforto e normalidade, por via do direito e da economia, que mais não é do que o direito valorizado e quantificado, de uma vida em comunidade respeitadora, monótona, segura e previsível. Almejamos viver no rebanho, cercados, alimentados, orientados por uma qualquer entidade terrena ou etérea, real ou imaginária, ou uma simples ideia, como a Lei, quando a nossa verdadeira natureza é exploratória ou, diria mesmo, explosiva. Cada indivíduo é um universo de consciência e vontade, só limitado pela sua fraqueza natural e princípios éticos e morais que, esses, não me atrevo a questionar. Se calhar caímos no direito natural, o direito outra vez, mas essa discussão não é para mim.
Quando confrontados com os verdadeiros actos da vida, com calma e serenidade, tempo para pensar e digerir, sentimos o efeito regenerador, a renovação, a reforma que instintivamente negamos por preguiça ou comodidade.
E o que é nascer? Nascer não é só sair das entranhas da mãe. Isso é um acto violento e doloroso, marcante, é certo, mas também efémero. Nascer também é todo o processo de anos de desenvolvimento e aprendizagem até à formação completa da consciência adulta. Só um indivíduo adulto que acompanhe e oriente este processo compreende a empresa de criação de uma pessoa, da criança até à entidade autónoma, capaz de se cuidar e cuidar de outros, num ciclo que se renova.
Morrer também não é fechar olhos num último suspiro. Esse é o outro acto violento e efémero, chocante mas que, quem fica, supera num misto de negação e aceitação, consoante a sua personalidade, relacionamento e circunstância do momento.
Morrer é enfrentar a degradação física, o caminho sem retorno, a dor e esforço, a partilha, aceitar a humilhação e reconhecer a nossa incapacidade, numa entrega humilde mas digna.

Instintivamente, fugimos destas responsabilidades e, invariavelmente, buscamos apoio na religião, no Estado ou no dinheiro, consoante o credo, convicção ou disponibilidade. No fundo, queríamos viver só naquele pequeno intervalo da vida sem responsabilidades, infantil, em que estamos bem, já não temos de cuidar de uns e ainda não temos de cuidar dos outros.
Lamento, mas isto é muito mais complicado. Mas também muito mais interessante. Viver.

Design a site like this with WordPress.com
Get started