O sentido do espaço

Há uma distinção clara entre o Portugal do norte e o outro, do sul, que, longe de provocar qualquer atrito ou assomo de regionalização, enriquece a diversidade cultural e reforça a identidade de um país moderno, com características próprias, maduras, perfeitamente identificáveis, no caldo cultural da sociedade globalizada do século XXI.
Existe muito pensamento e múltiplos estudos sobre este tema, mas eu, por preguiça e por falta de conhecimento e competência para recorrer a outras fontes, provavelmente mais ricas, detalhadas e recompensadoras, valho-me dos clássicos e acessíveis trabalhos de dois dos que julgo serem os pioneiros e mais importantes vultos a abordar a questão, Orlando Ribeiro e José Mattoso.
Orlando Ribeiro aborda, inicialmente, a questão geográfica quando identifica a importância do sistema montanhoso Montejunto-Estrela, a cordilheira que divide Portugal diagonalmente, de Sintra à Guarda. Quem cruza atentamente os poucos quilómetros de Sintra para Cascais, a Serra de Aire pela A1 ou de uma vertente para outra da Serra da Estrela, maravilha-se com a sensação de passar de um clima atlântico, celta, rude e antigo, para outro mediterrânico, ameno, sofisticado, deliciosamente manhoso. A cultura tem matriz diferente, a agricultura e alimentação varia, a etimologia e sotaques marcam uma fronteira bem definida. Tudo porque os ventos atlânticos são barrados nestas montanhas, não humedecendo e arrefecendo a amenidade mediterrânica do sul.
José Mattoso escreve, depois, do ponto de vista historiográfico, com vasta referência e apoiando-se também no prévio trabalho do geógrafo Orlando Ribeiro, acrescentando ao conhecimento o estudo dos fluxos migratórios e a consolidação política nos primeiros dois séculos da nacionalidade, o período comumente conhecido por Reconquista.

Perdoem-me esta longa introdução, mas julgo importante para apresentar e tentar explicar o ponto onde quero chegar, mais um pequeno e delicioso detalhe da diversidade cultural portuguesa.
Já todos nós, os mais antigos, pelo menos, de um tempo sem gps nem smartphone, passámos pela experiência de pedir informações ou orientações, a populares em passeios pelo interior profundo, denso e labiríntico do norte de Portugal, e receber um chorrilho de pormenores impossível de apontar e memorizar, sermos metralhados com a sucessão de lugares, freguesias, a descrição de cruzamentos com fontes e cruzeiros, casas, pontes e tudo o que o nosso orientador se recordar. Eu acabo por perguntar sempre, então é para ali, não é?
A sul é tudo diferente. Qualquer orientação passa por um vago apontar numa direção, na vasta e aberta paisagem, e o inevitável é já ali, mesmo referindo-se a algumas dezenas de quilómetros.

Isto, que já faz parte do anedotário nacional, tanto do norte como do sul, surgiu-me perfeitamente identificado e explicado por José Mattoso, no seu incontornável “Portugal – Identificação de um país”, no período que reproduzo aqui:

“Quantificar, datar por referência a padrões neutros e eis o que estava totalmente fora dos hábitos da gente Norte, fossem senhores ou vilãos. Situar-se no espaço também não estava nos seus hábitos, a não ser por referência a montes, onde estavam os castelos dos senhores, ou a rios, que serviam de fronteiras. Para os das cidades e gente do Sul, que não esqueciam neste ponto as tradições culturais moçárabes, situar-se no espaço significava orientar-se em relação aos pontos cardeais. Por isso, a maioria dos documentos que, a sul de Coimbra, indicam as confrontações das propriedades, as distribui a oriente, a ocidente, a «avrego» e a aguiam.”

De Portucale a Portugal

“É sabido como se formou o nome do Estado português: de uma pequena cidade junto da foz do Douro e na sua margem direita, por onde se fazia passagem entre ambos os lados do río. Cales, Cale, depois Portucale, isto é, o porto de Cale ou Cale que era porto, como ainda hoje se chama a outros lugares ao longo do mesmo rio que, pelo carácter montanhoso da sua bacia, foi aquele onde até mais tarde persistiu a importância do tráfico fluvial. Povoado insignificante na época romana (locus, civitas), citânia como tantas outras que coroavam os cabeços do Noroeste da Península Ibérica, deveu a sua fortuna à passagem da via romana que ligava Olisipo a Bracara, onde dominava o obstáculo mais importante que ela encontrou no seu caminho. Nos confins da Galaecia e da Lusitania, na faixa litoral de trânsito que aqui constitui a beira-mar, perto da costa mas ao abrigo do rio, a despeito das suas margens alcantiladas, era um “porto”, isto é, um passo obrigatório entre as terras que jaziam ao norte e ao sul do Do e a saída natural de uma extensa bacia navegável entre serranias de mal andar. É de crer que em todo o Ocidente, do Algarve ao Cantábrico, não houvesse, depois de Olisipo, passo fluvial mais importante; seria também, entre o estuário do Tejo e os recessos das rias galegas, um dos cais mais seguros e acessíveis.

É sabido também como, a pouco e pouco, este nome de cidade passou, com os progressos da Reconquista, a significar o território que se organizou em torno do seu aro até abranger uma grande circunscrição administrativa, um condado constituído com todos os domínios cristãos do Ocidente ao sul do Minho (antes do Lima). Terra portucalis, territorio Portugal ou simplesmente Portugal, confinou primeiro com outros territórios de “cidades” Braga, Lamego, Viseu, mais tarde Coimbra e Seia, acabando por englobá-los a todos sob a designação comum. Foi debaixo deste nome que o condado se fez reino e que este se alargou principalmente para o sul, incorporando no território nacional, durante os cinco primeiros reinados, em pouco mais de um século, quase dois terços da sua extensão.”

in “Portugal e o Algarve: Singularidade de um nome de Província – De Portucale a Portugal”, Orlando Ribeiro

D. Jaime Cabeça de Vento

Todas as manhãs, D. Jaime Cabeça de Vento saía montado no seu cavalo, para a ronda diária por seus domínios.
Agora demorava mais porque havia anos que herdara, de um tio que não conhecera, um casal afastado, empoleirado no alto de um monte com boas vistas. Continuava indeciso se lhe chamaria Monte da Boavista ou Casal do Fim do Mundo. Para já, não o preocupava, os caseiros eram modestos e trabalhadores, mas um dia teria de resolver que lhe fazer. Era distante e não era contíguo ao seu domínio senhorial. Pelo meio havia uma propriedade, uma charneca sem cultivo, dominado por um Paço construído em granito azul, guardado por um escudeiro com cara de mau, Sancho de seu nome.
Sancho era de poucas falas, nunca lhe ouvira uma palavra sequer, quando se cruzavam, ele mal erguia os olhos. Caçava todas as madrugadas, vários coelhos, lebres e galinholas que, ao raiar do dia, já levava para lá da pesada porta.
De quem seria este Paço tão bem guardado?
Diziam que era de uma princesa leonesa, outros diziam que era moura, que não saía por ser pouco de ir à igreja. Uns diziam chamar-se Urraca, outros Joana. Mesmo nada sabendo, D. Jaime sentia-se observado quando passava para o Fim do Mundo.
Alguém o olhava por entre as ameias da torre mais alta. D. Jaime habituou-se a cumprimentar essa figura que nunca soube se não viveria apenas na sua imaginação.
Um dia, os caseiros do Fim do Mundo deixaram o monte, foram para terras mais férteis, mas D. Jaime Cabeça de Vento nunca o vendeu, cedeu ou entregou ao rei. Ficou devoluto mas serviu sempre de pretexto para a volta matinal até ao Monte da Boavista, para a sua conversa imaginária com a amada Princesa do Castelo Azul.

Felicidade

Regularmente surgem rankings dos países mais felizes do mundo, mas raramente se explica e discute como se afere a felicidade colectiva. Tanto assim que se julga que os finlandeses, no seu país triste e soturno, só são felizes porque são ricos, e que os parvos dos portugueses não são mais felizes porque não apreciam devidamente o maravilhoso país de sol, praia e paisagem que têm.

Esta interpretação popular é errada e induz uma arbitrariedade que sabota a real percepção da felicidade colectiva. Os finlandeses não são ricos por sorte, por herança ou por acção divina. São-no por implementação de medidas concretas, sistemáticas, palpáveis e controláveis. Por outro lado, os portugueses lutam diariamente com agressões contra si, contra a sociedade e contra o ambiente e paisagem, mesmo que indirectas e negligentes.
Na verdade, um dos sentimentos mais recompensadores é o de concretização de um objectivo, alcançado após planeamento e trabalho, enquanto nascer num país ensolarado não requer particular esforço.

Os factores chave que afetam o bem estar e qualidade de vida das pessoas estão bem identificados, em muitos estudos e publicações internacionais, e sabemos que é o cumprimento e satisfação destes objectivos e necessidades que influenciam significativamente a felicidade colectiva.
Não pretendendo ensinar a missa ao vigário, se eu fosse político, com responsabilidades nacionais ou locais, e não meramente político no sentido ateniense de cidadão, meditaria nas minhas acções e atentaria cuidadosamente em cada um dos seguintes pontos:

1) Condições sócio-económicas. A prosperidade económica geral de um país, incluindo o nível de rendimento, emprego, desigualdades e acesso a serviços básicos, tem um impacto significativo na felicidade das pessoas. Mais do que discutirmos anualmente a distribuição, por Orçamento Geral do Estado, de riqueza, que não sabemos se temos, deveríamos marcar já um objectivo de riqueza para daqui a vinte anos – por exemplo, o PIB per capita actual da Finlândia, e determinar o crescimento anual necessário para o atingir. A discussão das medidas a tomar, com vista a esse enriquecimento, seria muito mais proveitosa do que a disputa anual de migalhas entre ministérios e grupos de pressão.

2) Saúde e bem estar: Acesso a serviços de saúde adequados, incluindo cuidados médicos, prevenção de doenças e qualidade do sistema de saúde, pode afetar o bem-estar físico e emocional de uma população, contribuindo para sua felicidade. O SNS deve ter um sistema que permita monitorizar devidamente a qualidade de serviço prestado, da neonatologia aos cuidados paliativos, para que quando surge uma notícia de atraso ou deficiência num serviço, já esteja devidamente identificado e com implementação de medidas previamente pensadas. Isto é perfeitamente exequível, com um sistema de gestão da qualidade, mas duvido que o seja se for gerido centralmente, no actual esquema macrocéfalo, e sem contratação de privados.

3) Relacionamentos e apoio social: A qualidade dos relacionamentos interpessoais, como família, amigos e comunidade, desempenha um papel crucial na felicidade das pessoas. O apoio social, o sentimento de pertença e a qualidade dos vínculos sociais podem influenciar diretamente o bem-estar emocional. Esta deverá ser um dos factores em que os portugueses mais se destacam. Curiosamente é uma área em que o poder político tem poucas, ou nenhumas, responsabilidades.

4) Educação e desenvolvimento pessoal: Acesso a uma educação de qualidade e oportunidades de desenvolvimento pessoal influencia directamente a felicidade de uma população, não apenas pelo acumular de conhecimento e formação, mas por aumentar a satisfação geral e o sentimento de propósito. Este é o tão propagado elevador social que parece que continua emperrado, por falta de reconhecimento da classe docente e pela ausência de soluções de ensino profissional.

5) Ambiente social e cultural: O clima social, a estabilidade política, a liberdade pessoal, a segurança e o respeito aos direitos humanos são factores que podem influenciar a felicidade de uma população. Um ambiente seguro, inclusivo e respeitoso tende a promover o bem-estar e a felicidade das pessoas.
O clima de crispação promovido por discussões parlamentares estéreis, a dúvida permanente acerca da competência e honestidade de um governante, a sensação que os atrasos na justiça são propositados para beneficiar alguns, a insegurança percepcionada da pequena criminalidade nas cidades, a falta de decisão sobre a localização de um mero aeroporto, os acidentes rodoviários e o descontrolo na gestão do trânsito, o caos nos transportes públicos, e tantas outras pequenas irritações, contribuem para a tensão geral que se vive. Precisamos de paz, serenidade e silêncio.

Sentir-se satisfeito com a vida, ter objetivos significativos e um senso de propósito pessoal estão associados à felicidade. O sentimento de realização, a autodeterminação e a capacidade de encontrar significado nas atividades diárias podem contribuir para a felicidade individual e coletiva.
Quem nos governa tem obrigação de marcar metas e objetivos concretos, em vez de ideias vagas. Tem de governar em vez de ocupar lugar.

La Grande Bellezza


Jep Gambardella é um escritor e jornalista frustrado que decide voltar a escrever, numa Roma extravagante, bela, superficial e decadente.

Jep reflete sobre a vida e vazio existencial das festas, relacionamentos fúteis, hedonismo, superficialidade de pessoas que não lhe trazem felicidade. Questiona a sua existência e sente necessidade de explorar algo mais autêntico, profundo e significativo. Decide voltar a escrever, redescobrir a paixão pela literatura, explorar a criatividade, expressar ideias e reflexões por meio da escrita.

Estou muito longe da sofisticada alta sociedade romana, mas percebi a caricatura do mimetismo social, da idolatria televisiva, dos heróis de cartolina, sucessos fátuos de ruído e excitação induzida, que nos rodeia na política, cultura ou desporto.

A ambiguidade e a subjetividade são fundamentais no filme. O destino de Jep Gambardella fica em aberto, convidando-nos a refletir sobre o real significado e grandeza da vida.

E o que seria a nossa vida sem ambiguidade e subjectividade?
Uma seca.

(Obrigado MJR)

Pelotão

Gosto de apreciar a dinâmica de um pelotão. Tal como um cardume, um bando ou uma manada de búfalos em corrida, um grupo compacto segue na mesma direção, com a mesma velocidade, com tal densidade que a distância entre si é inferior à sua própria amplitude.
O pior lugar para se estar é à frente ou na extrema do lado de onde vem o vento, à mercê dos elementos. A força do ar e a instabilidade do vento aumentam o esforço em quase um décimo. Os adversários solidarizam-se, alternando-se no guiamento em benefício coletivo. As equipas mais fortes colocam-se à frente, em formação tartaruga, protegendo o seu líder do vento, da fadiga e das quedas coletivas, impondo o ritmo mais adequado à tática do momento.
Quando é preciso velocidade, em longas retas planas, destacam-se os leves, ágeis e velozes. Quando é necessário potência para escalar montanhas, os mais fortes tomam a dianteira. Se forçarem, podem destacar-se e entrar em fuga. O grupo tem de reagir rapidamente, respondendo em força ou ignorando, desconfiando da bravata desses audazes.
Nas longas e perigosas descidas, em velocidade, o pelotão alonga-se e estreita-se, correndo o risco de se partir e provocar o caos. As equipas têm de se impor e reorganizar rapidamente.
Um ou outro, dos mais fracos ou lesionados, vai ficando para trás. Se for recuperável, a equipa sacrifica um dos melhores para recuar, ajudar e rebocar, qual lebre, o elemento em falta. Se for um dos fundamentais a avariar, a equipa tenta baixar o ritmo, tamponando a frente. Mas se for descartável, é mesmo largado.

Estas considerações sobre a sociedade também se aplicam ao ciclismo.

Sete

Sete dias de criação, sete pecados mortais, sete virtudes cardeais, sete sacramentos, sete maravilhas do mundo
Sete vidas do gato, sete anões da Branca de Neve, sete anos estuda-se em Hogwarts
Sete noites por cada fase na lua dos firmamentos primitivos

De várias vidas de sete anos, faz-se longa uma vida
Sete, catorze, vinte e um, vinte oito, trinta e cinco
Quarenta e dois, quarenta e nove, cinquenta e seis, sessenta e três, etenta, setenta e sete, oitenta e quatro, noventa e um, noventa e oito…

Sete primeiros por casa, com a mãe, cão, pai, irmão, na ordem infantil dos primeiros amores

Mais sete anos de escola, amigos, medos, desafios e excitações. Exames, castigos, barulho, corridas e encontrões

Aos vinte e um, o destino é nosso, tudo podemos. Somos imortais. Queima-se fitas com bebedeiras. Riscos, tudo certezas

O quarto ciclo, o do vigor e responsabilidades dos vintes. Primeiro trabalho. Segura-se o passado, assegura-se o futuro

Os trinta e cinco são do topo, da experiência e maturidade. Já não se corre o campo todo, gere-se tempos e entradas

Aos quarenta e dois, os primeiros cansaços. Falhas, rugas e brancas. Dúvidas, a passagem, se ficar, se partir

Quarenta e nove de sete vidas já cumpridas. O corpo já não é o mesmo, parece outro. Definitivamente a segunda metade

Do resto, fico a contar o que me deixares, sempre de sete em sete

Preferido

Sabes quando entramos num restaurante, daqueles de comida rápida que toda a gente sabe qual é mas eu não vou dizer o nome porque não fica bem, e vemos afixada a fotografia sorridente do empregado do mês, fardado e penteadinho? É o que eu quero ser. Quero ser o teu preferido. Mas sei que não vais afixar fotografia nenhuma. Vais guardar segredo, até para mim. Eu nunca vou saber, nem ninguém. Vou fazer sempre tudo da melhor maneira. Até ao dia em que me despedes, farta de tanto afinco. Eu nunca saberei se algum dia fui encaixilhado no teu coração, mas vou viver feliz por ter tido oportunidade de te servir.

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