“Na minha idade, uma mulher bela não chega”
(Jep Gambardella)
Escolas, hospitais, indústria, emigração e tv
Estamos a moldar um novo país. Novo, em relação aos últimos 30 anos, mas não muito diferente do passado.
Portugal é desigual.
A centralidade de Lisboa tem 4 ou 5 séculos, acentuada pelo comércio e administração colonial, da Índia do século XVI, Brasil do século XVIII e Angola do século XX, quando tudo passava pelas margens ribeirinhas do Tejo. Lisboa foi uma capital imperial tão desigual, no seu país, como foram e são, à sua escala, Paris e Londres.
O problema que nos distingue de França ou do Reino Unido é que este país, centralizado em Lisboa, estagnou e está num beco sem saída. Não é eficiente, não cresce, não dá soluções. Lisboa parece a Paris caduca e arrogante do Ancien Régime.
Na idade média, perante a estagnação e sobrepopulação do entre Douro e Minho, o fluxo migratório foi de norte para sul. Quase todos os portugueses a sul do Mondego são descendentes de minhotos.
Do final do século XVIII à primeira metade do século XX, o fluxo foi para Brasil. As dezenas de milhões de brasileiros com apelido português são descendentes de gente no norte.
Na segunda metade do século XX, a emigração do norte virou para França e Alemanha.
Estas vagas migratórias foram válvulas de escape sociais, equilibraram a demografia e permitiram a afluência de grandes massas de dinheiro remetidas pelos emigrantes.
A criação da EFTA (Associação Europeia de Comércio Livre), de que Portugal é membro fundador, a par da Suiça, Reino Unido, Noruega, Suécia, Dinamarca e Áustria, desde 1960, veio revolucionar definitivamente o tecido socioeconómico do norte de Portugal, com a instalação e criação de toda uma rede de empresas exportadoras.
Com mais ou menos sobressaltos, avanços e retrocessos, a economia do norte começou a descolar dos ciclos internos e decisões arbitrárias do poder central. Nas alturas de maior aperto, como durante a troika ou na pandemia, a economia nacional sustenta-se no sector industrial exportador, concentrado a norte com algumas honrosas excepções a sul, como a Autoeuropa.
O século XX trouxe uma novidade: a rádio e a televisão. Ao poder e administração central, viemos juntar uma nova centralidade informativa e cultural. Como quem não passa na rádio e televisão, não existe, concentramos a nossa elite nos poucos quilómetros quadrados do distrito de Lisboa. Aos políticos e governantes, juntamos intelectuais, artistas, agentes culturais, jornalistas, comentadores políticos e desportivos, e toda uma fauna que não sobrevive sem aparecer na tv.
O impacto nos costumes, diluição de sotaques, centralização do pensamento, foi e está a ser brutal.
Chegamos a 2023 e é publicado mais um ranking das escolas secundárias. Invariavelmente, as melhor classificadas são a norte e são privadas.
As razões são múltiplas e variadas, e até se pode alegar ilegalidades, mas há um padrão que é necessário estudar: o norte liberal, empreendedor, individualista, corajoso e desenrascado, procurou soluções para a ineficiência e centralismo do ministério da educação, e parece ter encontrado forma de preparar melhor os alunos.
Paralelamente, constatou-se que os hospitais públicos a norte, dentro da sua autonomia, encontraram formas de se gerir e organizar muito mais eficientes do que os do sul. Ao ponto de um governo socialista criar um organismo, de gestão do SNS, sediado no Porto.
Não me parece que os profissionais de saúde do norte sejam melhores. Acho que os resultados surgem porque há autonomia e um saudável distanciamento do centralismo dos ministérios.
Outra grande alteração no século XXI, que ninguém previu, é a vulgarização da internet e dos canais de streaming. Mais uma década, ou duas, e já ninguém vai ver notícias e conteúdos nos canais habituais, centralizados em Lisboa.
Um exemplo interessante é que com a vulgarização da vídeo conferência (zoom, teams, etc), os comentadores televisivos deixaram de ter de se deslocar aos estúdios. De um momento para o outro, o país descobriu que há pensamento nas universidades do Minho, Évora ou Trás-os-Montes.
Portugal está a mudar muito depressa mas o padrão é sempre o mesmo e está cá há séculos. O povo encontra sempre uma saída.

– Prontos, entregamo-mos à mercê, qual condenado, para confessar e revelar os nossos maiores embaraços, erros, medos e fraquezas. Desvalorizamo-nos e já não nos importamos.
– Levanta-te e vai mas é trabalhar!
Temos guardado um génio que se mostra num brilho dos olhos, num gesto brusco, num esgar, no tremer de voz, quando estamos no bordo do precipício, frágeis, desvalorizados e já não nos importamos.
Só alguns o vêem.
Revelei-te o mais íntimo de mim com o inconfessado desejo que te apaixonasses.
Tive medo que fugisses, que te aproveitasses da minha fragilidade, que usasses o meu corpo.
Não contava que adormecesses.
Retardados
Tenho inveja da segurança dos retardatários. A descontração de chegar ao trabalho com as tarefas já distribuídas, só ter para comer o que já foi rejeitado, sentar no lugar que mais ninguém quer, apostar no único treze que sobrou, encarar a censura de quem nos espera, arriscar dar com a porta já encerrada, não é para mim.
Mitos e ditos portugueses
Há um dito muito interessante do povo português, referindo-se a acontecimento ou monumento anterior à nacionalidade, que é dizer é do tempo dos mouros.
Lendas com castelos dos mouros, reis mouros ou princesas, chegaram ao século XX referindo-se indistintamente a episódios, construções ou ruínas visigóticos, romanos e até dolmens e antas neolíticos, além, naturalmente, dos próprios mouriscos.
Com a crescente escolarização, e com a ajuda dos filmes de Hollywood, foi-se distinguindo o legado romano, como Conímbriga ou o Templo de Diana, mas a confusão mantém-se até com a popular creditação romana das medievais pontes românicas.
No século XXI acontece um fenómeno idêntico, mas, neste caso, relativo ao século XX.
Os portugueses desconhecem a guerra da Indochina e da Argélia, nos anos 50, e a reaccionarismo francês que quase provocou uma guerra civil numa potência europeia; a crise do Suez de 1956, quando França e Reino Unido pretenderam recolonizar o Egipto; a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, com intervenção de tropas federais nos estados do sul e polícia a escoltar miúdos negros nas escolas mistas, que culminou com a morte de Martin Luther King, em 1968; a política pública de esterilização forçada de pessoas com baixo QI, na Suécia, nos anos 60; a brutal segregação e genocídio dos indígenas canadianos, nos anos 50; o mesma na Austrália, pela mesma altura; as violentas lutas estudantis em França e na Califórnia, em 1968, contra a sociedade conservadora; divórcio consentido em Itália só em 1970; voto feminino instituído na Suíça só em 1971; choque petrolífero de 1973 que estourou o modelo económico global surgido no pós-guerra e criou brutais tensões inflacionistas; o tunisino guilhotinado, em Marselha – o último condenado à morte em França, em 1977, pena abolida em Portugal havia mais de cem anos.
Na perspectiva dos portugueses, com o seu enorme ego colectivo, o período de 1960 a 1990, que compreende a revolução pop no Reino Unido, independências das colónias europeias, levantamentos universitários, e acaba com as quedas do bloco soviético, de Pinochet e do apartheid, já nos anos 90, período que revolucionou o mundo, resume-se à madrugada do 25 de Abril.
Mesmo no caso português, o primeiro abalo já havia surgido com o início da guerra em Angola e invasão do Estado da Índia, em 1961, e a normalização só aconteceu trinta anos depois , com a revisão constitucional de 1989, já na CEE, com o reestabelecimento de regras económicas idênticas às dos outros regimes livres ocidentais.
Vivemos a ilusão de que, em 24 de Abril de 1974, Portugal vivia nas trevas e que o mundo já era todo progressista, perdendo o enquadramento histórico de 30 anos fundamentais na história humanidade.
Tudo o que refere a uma época, estilo ou hábito anterior à revolução social dos anos 60, ao colonialismo ou reaccionarismo em geral, é do tempo do Salazar ou, mais prosaicamente, do tempo do fascismo.
Maresia da semana
Quarenta e quatro
Uma ou duas vezes por ano, fazia a visita de cortesia que se deve ao nosso melhor cliente. Era sempre um almoço num local bom e discreto, daqueles que só os homens mais ricos das terras pequenas conhecem.
O Sr. Armando era um verdadeiro caso de sucesso, case study, como dizem os estrangeirados. Formação de escola comercial em horário noturno, no tempo em que se começava a trabalhar com a quarta classe, casou muito novo. Vida modesta, ainda com filhos pequenos, chega antes dos trinta anos à chefia do escritório da fábrica onde trabalhava, desde sempre, nos frenéticos anos oitenta em que tudo acontecia. Mercados abriram, CEE, novos bancos privados sedentos de crescimento, inundação de fundos europeus, dinheiro a fluir, tudo se exportava e tudo se importava, íamos ser ricos, íamos ser definitivamente europeus de primeira.
Os donos da empresa do Sr. Armando já tinham bastante idade. A empresa era sólida mas com instalações velhas e equipamento obsoleto. Não havia sucessão familiar. Um dos sócios não tinha filhos. Apenas um sobrinho pouco capaz e menos ambicioso, que por lá arrastava orgulhosamente papéis, a coberto do poder avuncular. O outro sócio tinha uma filha, professora primária, julgo, solteira e com consumições de sobra, segundo dizia, no seu dia a dia, para se estar a meter em decisões de barco tão grande.
O empurrão foi dado por um novo gerente do balcão do banco com quem mais lidava – os patrões deixavam esse trabalho de despacho financeiro para o braço direito, Armando. Depois de ganhar alguma confiança, falou do impasse em que se encontravam. Concorrência espanhola, necessidade de inovação e investimento, mercados a abrir, mas os sócios sem vontade nem incentivo para progredir.
– “Porque é que você não compra isto aos seus patrões? Tem o nosso apoio”. Disparou o jovem bancário. Eram da mesma idade.
Nessa noite nem dormiu. Não era assunto que nunca tivesse sonhado, mas cresceu num mundo em que nada se faz sem o empurrão da família. E dessa só poderia esperar a marrada do Joel, o bode cobridor do rebanho do modesto e trabalhador senhor seu pai.
O jovem Armando percebeu que estava perante a oportunidade da vida dele. Conhecia o negócio como ninguém, onde comprar, onde vender, quanto custa, até como fazer. Anos de trabalho, doze horas por dia, pelo menos. Não tinha jeito para vendas, mas tinha uma relação muito próxima com Paulo, das vendas. Mais jovem do que ele, cheio de vontade, dinâmico, falava inglês, já com resultados, de fácil entrada em todos os clientes.
No dia seguinte, saiu mais cedo do trabalho, alegando uma diligência de cobrança, e, ao fim da tarde, foi falar com o Dr. Ribeiro, advogado da terra, ainda aparentado da mulher, para perceber como havia de montar o negócio. Passou a noite em claro, a fazer as suas contas, no dia seguinte acertou com o banco, e pediu para falar com os patrões.
Foi um choque. Armando propôs comprar o negócio pelo valor do imóvel, libertando de imediato os sócios de qualquer responsabilidade.
” – Nem pensar, é de borla, isto é um abuso”.
” – Tudo bem”, responde Armando, “Então saio hoje mesmo, porque tenho proposta de emprego e tenho de olhar pela família”.
Não saiu, mas o bluff funcionou e no final da semana estava tudo tratado.
Voltemos ao dia da visita, para não vos maçar com mais detalhes de negócios passados.
O Sr. Armando falava de pé com um indivíduo grisalho, entroncado, de blazer, barba rala, cinquenta anos talvez. Nunca o tinha visto. Acenou-me como quem manda aguardar.
Aguardei entretido, a falar com o Dr. Carlos, da contabilidade, sportinguista ferrenho, que ainda hoje não sabe que sei tanto de futebol como de séries espanholas da Netflix.
” – Rui, importa-se que o Vítor almoce connosco?”, pergunta-me o Sr. Armando, depois de atravessar toda a sala, em passo largo e decidido, atrelando com dificuldade o que fiquei a saber chamar-se Vítor.
Como é que eu havia de discordar. A visita era de cortesia e nunca tinha hipótese de pagar na terra dele, quanto mais escolher mesa ou convidados.
“- Siga-nos! Vou no carro dele e depois venho consigo”.
Meteram-se por uns quelhos para mais um dos tais bons sítios para registar no gps.
O almoço correu bem. Vítor era fornecedor de embalagens, de madeira, cartão e metálicas. Conversa fácil, bom trato, pouca confiança comigo. Estive calado quase todo o tempo.
Conforme combinado, Vítor saiu mais cedo, rapidamente, para um qualquer compromisso.
O Sr. Armando baixou a voz e começou a falar em tom grave.
“- O Vítor é bom rapaz, conheço-o há muitos anos mas já vai no quarto casamento”.
Eu sorri nervosamente. E daí? Pensei.
“- Não consegue assentar a vida dele. Tem muitas qualidades, é trabalhador, sério, esperto, óptimo profissional. Trabalha por conta própria, sabe mesmo do que faz e resolve todos os meus problemas, por preço em boa conta, mas está sempre atrapalhado. Estou sempre a ajudá-lo, dou-lhe preferência, sempre, mas já desisti de saber o nome do fornecedor, sempre a mudar.
Sabe porquê, não é? Já vai no quarto casamento”.
Anuí. Como podia discordar? Casado há meia dúzia de anos, não estava em posição nem com estatuto para debater o tema.
“- Pois é, Sr. Armando. Isso dá muita instabilidade”.
“- Sabe, Rui, estou casado há quarenta e quatro anos. A minha mulher é o meu esteio. Só ao fim de muitos anos, estando bem, ganhamos intimidade e comunhão. Até lá, é um misto de festa e excitação, quando não dá logo para o torto. Ganha-se confiança. Nem sempre se é feliz. É preciso gerir silêncios e temperar os excessos. Muita paciência. Mas só assim, fiz o que fiz, construí o que construí, e volto para casa como se fosse a primeira vez. A minha casa de sempre, o meu lar. Todo o resto é descartável, faz-se de novo”.
Não sei se percebi bem o que me disse, mas já passaram muitos anos e nunca mais esqueci.
Arrependimento
És um monta cargas de arrependimentos acumulados ao longo da vida. Do mal que fizeste, a ajuda que não deste, um esquecimento, a mentira piedosa, a pequena traição, a conta por pagar, um convite que não aceitaste, outro que não fizeste, a promessa não cumprida, uma amizade deixada lá atrás, aquela desilusão provocada, o favor não compensado, o discreto oportunismo, pequenos pecadilhos de vulgar mortal.
No fim, quando carregares a balança do último juízo, virtudes num prato, pecados no outro prato, verás descontado os anos de sofrimento de arrependido, mas não serás absolvido.