No mês de julho, não havia grandes trabalhos a fazer na adega. Era o período das limpezas e manutenções, na preparação das vindimas do fim de verão.
Revisão e lubrificação de prensas, lavagem de lagares e cubas, ocupavam o Natércio e o Cândido durante várias semanas. Estes dois eram os efetivos da adega, além do Francisco.
Também era necessário arranjar pessoal para as vindimas, previstas, este ano, para a segunda semana de setembro. Necessitavam de contratar pessoal temporário, que angariavam nas aldeias vizinhas. Não era fácil, com a concorrência dos outros produtores e a crescente emigração. Nos últimos anos, depois da guerra, a industrialização estava a atrair famílias inteiras para a periferia das grandes cidades. Alguns até já estavam a sair para o estrangeiro. Francisco tentava que não faltassem os mesmos de sempre, mas tinha de testar sempre nova gente, para colmatar as falhas crescentes. Estes trabalhadores de curto prazo costumavam ser aldeões microprodutores, com a sua pequena horta, vinha, pomar e animais, nas redondezas, de onde tiravam o sustento diário. Nas grandes safras, como vindimas e podas, disponibilizavam-se para o trabalho contratado nas quintas grandes, equilibrando o seu pecúlio. Normalmente, vinha a família toda. Também havia um pequeno exército de indiferenciados, gente muito pobre, que vivia em condições quase desumanas mesmo para padrões de país atrasado, a maior parte analfabetos e com problemas graves de álcool. Era a mão de obra de carga, cestos ao ombro, monte acima, monte abaixo.
Sebastian estava a verificar a escala de trabalhos, confirmar o que já estava feito, o que estava em curso, e o calendário até fim de agosto.
Em tempos idos, a lista e sequência de trabalhos era por tradição e transmissão oral. Fazia-se o que sempre se tinha feito, da mesma maneira e sequência. Mas já há mais de trinta anos que William Richardson contratara um engenheiro francês, de Bordéus, para modernizar processos e racionalizar métodos. Foi uma pequena revolução.
Adotaram-se métricas, testes, análises, medidas de higiene, além de novas técnicas para a efetiva melhoria do vinho. Também fez intervenções nas vinhas, com alterações na condução das videiras e inovações na poda, bem como análise sistemática dos solos e sua regularização química. Após esse trabalho de consultadoria e intervenção, ficaram sempre ligados a esse acompanhamento numa base de prestação de serviços. Tinha sido Manuel, o falecido marido da D. Maria, que tinha acompanhado a implementação destas inovações, muito jovem, como ajudante do velho e desconfiado feitor. Depois, passou-se por um período conturbado, de alguma estagnação, coincidente com a guerra, em que a quinta foi mantida com o conhecimento, experiência e trabalho árduo de William, até que o jovem Francisco, apoiado por um dos franceses que viera com o outro de Bordéus e que entretanto se radicara em Portugal com um gabinete de consultadoria vinícola, continuou os métodos e processos deixados escritos por Manuel.
Agora, desde a morte de William, há meia dúzia de anos atrás, John e George confiavam plenamente no trabalho de adega de Francisco. E tinham de confiar. Estavam longe, não tinham conhecimentos, e, na verdade, não tinham grande vocação para a produção e para a lavoura em particular. Mas mais do que a desonestidade, receavam a ineficiência do processo e possíveis perdas de qualidade. Sabiam que em teoria a produção estava bem idealizada e indicada, mas precisavam de um controlo dos métodos. Sebastian tinha-lhes surgido como o indivíduo certo, na altura certa. Tinha o perfil.
Ao fim da manhã, a disposição de Sebastian já era outra. Francisco, mesmo com a sua falta de jeito abrutalhada, revelava-se competente. Sabia o que fazia, era organizado, percebia os processos químicos, entendia os efeitos e as causas, mostrava raciocínio, não eram só rotinas.
Josefina não percebia as perguntas mais técnicas, mas a intuição dizia-lhe que as questões de Sebastian não eram fáceis. A distensão de Sebastian indicava que as respostas eram satisfatórias.
Na hora do almoço chegou José, o homem das vinhas.
Era um tipo totalmente diferente de Francisco. Magro e seco, cabelo claro, olhos azuis e faces rosadas, de poucas palavras. Não o viam sorrir, parecia algo triste, mas não era mais do que timidez.
A maneira como se apresentou caiu particularmente bem a Sebastian. Aproximou-se, tirou o boné, segurou-o com as duas mãos, apresentou-se dirigindo a palavra primeiro a Josefina, sem aperto de mãos e sem mostrar os dentes.
Parecia um homem modesto. Bom trabalhador, pelas descrições e informações que dispunham. O trabalho, da parte que Sebastian podia aferir, era bem feito, conforme confirmara nas vinhas, com as suas descrições pormenorizadas. A produção era acima da média de outros produtores, esticando ao máximo o que poderia sair daquelas plantas, algumas já com décadas de vida. Trabalhava com dois efetivos, o Raul e o João, que nesse dia estavam de folga. Aliás, José também estava de folga. Tinham trabalhado os três, durante quinze dias sem parar, fins de semana e tudo, a aplicar calda bordalesa na quinta toda. Tinha havido relatos de ataques de oídio em quintas perto, e o tratamento preventivo era inadiável.
O trabalho de vinha era completamente diferente do de adega. Os ritmos e o calendário é imposto pela natureza e pelos elementos. Tem períodos de calmaria, de vigilância do crescimento do vegetal, e outros de grande azáfama, porque todos os milhares de pés necessitam da mesma atenção, ao mesmo tempo.
Francisco brincava com isso. Dizia que José não era calado. Estava, era, habituado a falar com as videiras, na língua delas. Seria. Aparentemente elas ouviam-no e gostavam.
Pela hora do almoço, Maria fez-lhes uma surpresa. Apareceu na adega com um panelão de feijoada, embrulhado em jornais para não arrefecer, e Alzira trouxe uma giga à cabeça, com toalha, pratos, talheres, broa de milho e um tacho de arroz. Estenderam a toalha na mesa de apoio ao trabalho, arranjaram bancos corridos e Francisco foi buscar uma caneca de tinto.
Era uma prática que William tinha, no seu tempo, sempre que vinha à quinta. Sebastian recordou-se com uma ponta de emoção. Várias vezes almoçou na adega com o pessoal, nos três anos que lá passou. Agora encarnava esse princípio.
Foi um almoço animado. Sebastian descontraiu-se e chegou a elogiar e agradecer o trabalho de Francisco e José. Josefina apercebeu-se que eles, os dois, estavam visivelmente satisfeitos. Gostavam que os patrões lhes dessem atenção, fossem visitar, controlar e criticar ou apreciar. Para eles, Sebastian era o patrão. Bastava ser inglês.
De tarde, Sebastian voltou a ser Sebastian. Havia cestos, caixotes de madeira e caixas de cartão mais ou menos dispersos ao fundo do armazém, pousados ao calha, à espera de serem necessários. Exigiu que fossem empilhados e ordenados por tamanhos.
Mangueiras e tubos devidamente enrolados. Não queria nada no chão, perigoso e desordenado.
Ao fim do dia, quis chão varrido e passado com água de mangueira, naquele dia e sempre.
“-Última coisa! A casa de banho não tem sabão, toalha lavada, nem papel higiénico. Não interessa quanto custa. É só requisitar com os pedidos que fazem à sede, e vem de barco.
Eu quero esta adega sempre em condições para receber a Raínha, sem aviso.”
Voltaram para casa ainda o sol ía alto. Sebastian pouco mostrava mas estava satisfeito. Tinha gostado do trabalho dos seus homens. Mostravam-se competentes, com vontade de aprender mais e sem receio de serem avaliados. Isso era sinal de confiança no seu próprio trabalho.
Mas Sebastian via sempre mais à frente.
“-Isto vai precisar de alterações. A agricultura não segura esta população. O trabalho dos indiferenciados vai ser todo mecanizado, de certeza, mas vai ser cada vez mais difícil arranjar mão de obra para as podas e para as vindimas. Vamos ter de saber como os outros estão a resolver este problema, em França e Itália. Se calhar pagam melhor. De certeza. Mas não sei se conseguimos cobrar mais aos clientes, para pagar melhor aos trabalhadores. Os franceses e os italianos vendem muito bem para os Estados Unidos, mas lá nem sabem que temos vinhas. Os americanos pagam caro pelo vinho que bebem, e apreciam.
Nós conseguimos vender alguns vinhos caros em Inglaterra mas o nosso custo de produção é muito superior aos franceses. Produzimos menos quantidade por hectare e o trabalho nos socalcos é muito mais difícil.
Tenho de estudar uma estratégia para apresentar a John e George.”
Josefina estava encantada com o raciocínio de Sebastian, enquanto caminhavam para casa. Tinha uma mente inquieta, reparava em tudo. Questionava-se, não dava nada por garantido, antecipava problemas, procurava respostas, imaginava sempre soluções.
“-Os americanos são quem tem dinheiro. Vai ser preciso trazê-los aqui, dar-lhes o vinho a provar, mostrar-lhe as vinhas. O melhor é virem de barco. Fazerem a viagem que nós fizemos. Dormirem nos quartos da casa, comerem os jantares preparados por Maria, apresentar-lhe o Francisco e o José. Criar-lhes uma emoção, contar-lhes uma história, convencê-los que sempre que abrirem uma das nossas garrafas em Nova Iorque vão reviver a viagem inesquecível que fizeram aqui.
Mas precisamos de fazer com que a viagem seja inesquecível. Não sei bem como. E não pode ser inesquecível pela falta do papel higiénico na adega.”
Josefina não conteve a gargalhada.
“-E hoje contas-me onde aprendeste assim tanta coisa?”
“-Sim. Depois de jantar. Hoje estou falador”, disse a sorrir.
Josefina enrubesceu quando se apercebeu que o tratou por tu, em português. Ele não pode ter deixado de notar a familiaridade, mas manteve-se impassível, como sempre.