Josefina Madeira . 11

Saíram de casa pelas nove horas, fazendo-se ao caminho pela única estrada, se é que se pode chamar estrada a um estradão de terra ainda que bem cuidado, que dava saída dali para fora, ou de lá para dentro, consoante a vontade ou conveniência, subindo curva à esquerda, curva à direita, repetidas em frustrantes ganchos intercalados por curtas retas de inclinação suave, à maneira de ultrapassar declives, montes e montanhas, com pouco dispêndio de calorias por cada hora percorrida.
O sol, já erguido, aquecia e recuava as sombras dos montes sobre o rio escuro e majestoso, e sobre casa onde já refletia na água corrente do tridente do filho de Poseidon.
Tinham feito aquele mesmo caminho na antevéspera, na volta das vinhas, mas agora parecia diferente, com outra orientação solar. As horas mais bonitas do dia são as primeiras e as últimas, e devem ser vividas e sentidas à sua maneira, na glória promissora da alvorada ou na tranquila melancolia do pôr do sol.

Sebastian parava várias vezes para fotografar, agora não as plantas, mas sim a paisagem. Não parava de falar, a recordar-se dos seus tempos de menino refugiado da guerra. Privilegiado mas, na mesma, menino assustado.
Parecia que falava para si, só, num monólogo egoísta. Não aguardava resposta e até parecia que ignorar Josefina, mas, quando os olhares se cruzavam, os olhos dela, curiosos e atentos, incentivava-no no discurso da sua memória.
Para ela, era a continuação da abertura de um mundo cheio e distante, que a fascinava, para mais, da vida de um homem ainda tão jovem, rapaz alto e desengonçado.

William havia-lhe reservado um lugar numa turma do colégio inglês, da cidade, mal soubera que Sebastian vinha pelo Natal. Ainda chegou a lá ir, quase uma semana, no início do segundo período. Não conhecia ninguém, os meninos eram ingleses mas eram diferentes dele. Conheciam-se bem entre si, eram filhos e netos de amigos de William, praticavam equitação, ténis e críquete no mesmo clube, ali perto, mas vestiam roupa muito diferente da dele e até o sotaque estranharam.
Sebastian sempre vivera sozinho, não tinha irmãos nem amigos chegados, nunca fizera grandes amigos na escola de Grosmont. Era tempo de guerra, havia poucos meninos, a mãe não o queria internado num colégio longe de casa. A turma era pequena, de filhos de operários, de ferroviários e de famílias de granjeiros das redondezas.
O que mais gostava era dos longos passeios de bicicleta até ao mar, por caminhos quase vazios, de sobe e desce colinas, da urze e flores silvestres ao vento, do roncar dos aviões a partirem para a guerra, lá longe, do outro lado do mar.

Estranhara a cidade. O céu de inverno era tão escuro e húmido como o dos Moors mas faltava-lhe o espaço e o vento.
A casa de William era grande, de vários andares, ligados por umas escadas de madeira escura, com corrimão trabalhado, que subiam em caracol entre os vários patamares, com um vão largo ao meio que deixava entrar a luz da clarabóia, no telhado, até ao piso de pedra, no rés do chão, Encaixada no meio de outras casas escuras, paredes meias, todas seguidas e de um lado e doutro, a abrir porta, janela e portão de garagem, estreito, diretamente para a estreita e sinuosa rua, de empedrado húmido e escorregadio, em rampa desde a beira-rio até ao jardim lá acima, do colégio e do mercado.
O rés do chão da casa tinha um pequeno hall, para a porta da rua e janela, de onde acedia às escadas. Ao lado ficava a garagem, por onde também se passava por um corredor de serviço, oculto, para o armazém de carvão e mantimentos, nas traseiras, para cozinha, para as caldeiras e para o quarto das criadas. As traseiras abriam para um pequeno pátio.
No primeiro andar, virado para a rua, ficavam o salão de estar e sala de jantar. Soalho de madeira a ranger, tapetes persas, lustres de cristal, espelho na parede, porcelanas em armários de vidro, pratas, candelabros, retratos de família, cortinas pesadas, mesa comprida, doze cadeiras forradas, sofás, mesa de jogo, carrinho de chá, cinzeiros, grafonola e piano. No mesmo piso, para trás, ficava a copa, ligada à cozinha por um pequeno elevador elétrico que fascinava Sebastian.
No segundo andar ficavam os aposentos privados. Duas suítes viradas para a frente e dois quartos para as traseiras, onde dormiu Sebastian.
O terceiro andar não tinha utilização definida. Era de quartos para hóspedes ou arrumos. William usava o da frente, para escritório de casa.

William vivia só, com duas criadas e o motorista, desde que os filhos, John e George, tinham ido para Inglaterra, servir a pátria. As criadas fardavam vestido preto, avental branco e cabelo apanhado. A mais velha era autoritária, falava alto, em português, percebia inglês, quando William lhe dava ordens, mas fingia nunca entender o que Sebastian dizia. A mais nova, nem vinte anos teria, magra, nariz comprido, quase sem queixo, pouco falava. O motorista conduzia o carro do patrão e fazia serviços de expediente na William Richardson & Co. Dormia num quarto das águas furtadas, lá para o quarto andar, para onde passava por uma porta furtiva, no patamar do terceiro andar, para umas escadas íngremes e estreitas. Também era de poucas falas.

Passavam os limites da quinta, marcados por dois imponentes tranqueiros de granito, e começaram a descer para a vila, a três quilómetros a partir dali. Já seguiam na via pública, de polido empedrado, e Sebastian continuava a contar os seus primeiros dias na quinta.

Como se estava a dar mal na solidão da casa da cidade, e como fora quase adotado por Maria, naqueles poucos dias que por lá passavam, William decidiu deixar a formação escolar para mais tarde, e privilegiar a estabilidade emocional, por algumas semanas ou meses, para consolar a criança longe da mãe e da sua casa.

Maria e Sebastian não falavam a língua um do outro, mas entendiam-se divertidamente entre gestos e desenhos. Ao fim de uns dias, depois de William partir, Maria resolveu levar o menino a passear à vila e passar na escola, por sua iniciativa. Maria sabia que um rapaz de sete anos precisava de escola, mesmo em tempo de guerra, num vale recôndito de um periférico país neutral. Não tinha forma de pedir autorização ou opinião ou, sequer, informar William, tutor legal do miúdo, da sua decisão, mas também achou que a escola não faria mal ao rapaz. Ia-lhe escrever, é certo, mas com a ida e vinda do correio, a resposta chegaria perto do fim do mês.
Maria não sabia como se poderia ensinar um menino estrangeiro no Portugal rural, mas achou que à professora Dulce, que tinha sido sua professora e de bem mais de metade dos habitantes da vila, e das aldeias vizinhas, veterana de várias gerações, não haveria de faltar solução.
Maria levou-o à escola primária da vila, por este mesmo caminho, por esta hora também, num frio dia de sol, de janeiro de 1943.

Na escola, o problema que se pôs é que a professora ainda sabia menos inglês do que Maria, que tinha prática de ouvir as conversas dos patrões e sabia vocabulário de sobrevivência caseiro. Sem comunicação, nada feito. Mas a professora Dulce lembrou-se do improvável anglófilo da terra, o Padre Rogério. Recordara-se de uma receção, na câmara municipal, a propósito da inauguração do coberto do lavadouro público, em que, em conversa, a propósito de literatura, constataram que as individualidades da terra, edil, juiz, professor, médico e padre, conseguiam entabelar conversa rudimentar em francês, mas surpreenderam-se com os dotes linguísticos do padre, que, além do francês da escola e do latim da missa, conseguia ouvir a BBC em direto, na onda curta da telefonia, e traduzir-lhes simultaneamente, em voz alta, as últimas da guerra.
Ficaram a saber que o padre, na juventude, fora missionário em Moçambique, no Tete, interior de confluência das Rodésias, do norte e do sul. O desterro do lugar e a proximidade das colónias inglesas, nesses oito anos, desenvolvera-lhe a fluência em inglês.

Desciam as curvas da estrada, viam a vila, a ponte, os vinhedos a ladear o rio. Nesta meia hora que levavam, não tinha passado qualquer carro ou carroça. Sebastian não se queixava, falava com entusiasmo, mas parecia, a Josefina, que o coxeio dele acentuava-se. Não quis perguntar.

Sebastian fazia este caminho todos os dias, de bicicleta, para ir para a escola.
Nos primeiros dias, Maria foi com ele a pé, levá-lo e trazê-lo, cinco quilómetros para cada lado, de manhã cedo e a seguir ao almoço. Depois, com a resposta por carta, de William, viera a aceitação da solução de escola local, mas com a ordem de que Jerónimo, o velho feitor, levasse e trouxesse o menino na camioneta da quinta.
Sebastian não queria andar com Jerónimo, não gostava dele, e convenceu Maria a deixá-lo ir de bicicleta. Passou a ser o segredos deles, o primeiro. Fizesse chuva ou fizesse sol, Sebastian ia de bicicleta para a escola. Quando chovia, levava uma capa de chuva e botas de borracha, de trabalho da quinta. Nunca se molhava e sentia a liberdade que teve no Yorkshire.

Caminhavam por entre vinhas, na descida para a vila. O declive deste lado era mais suave. Via-se o rio, a ponte, o casario de um lado e do outro, a igreja, a escola, na pequena quadrícula paralela ao rio, de avenida marginal, rua de trás, terceira rua quase descampada, que era a continuação da estrada para o concelho seguinte, e quatro transversais, uma das quais ligava a estrada nacional à ponte, passando pela pequena praça do município, de calçada e jardim, em torno do pelourinho. A vila desenvolvera-se na pequena porção de terra plana, entre o rio e o início do monte ensocalcado.

Naquele primeiro dia, aguardaram o fim da escola, ao princípio da tarde, e foram os três procurar o padre. Estava em casa. Respondeu-lhes de uma das janelas e mandou-os entrar. A porta estava aberta.
Esperaram uns minutos que se arranjasse. Era uma casa modesta, térrea, austera, encostada às traseiras da igreja. Entrava-se para uma pequena sala, de paredes brancas, recém pintadas, com uma mesa de jantar e quatro cadeiras, do lado direito, um sofá de dois lugares puído, do outro lado, e um pequeno aparador com portas de vidro de correr, onde se viam algumas chavenas de café, de serviços diferentes. Enquanto esperavam, Sebastian distraia-se com pormenores. Estava nervoso. Nunca tinha estado na casa de um padre. A mãe era católica mas não era muito de missas. Lembra-se de ter ido com ela algumas vezes à igreja católica de Saint Hedda, em Egton Bridge, a mais perto de casa deles. Era grande e bonita, velas, vitrais e imagens de santos. Contava as chávenas e os pequenos desenhos de flores, cinzelados no vidro. Desviava o olhar do crucifixo de madeira que enchia a parede. Não enchia pelo tamanho, era pequeno, mas era o único acidente nas quatro paredes muito brancas. De madeira escura, com um Cristo de latão polido a olhar o chão, em sofrimento. Sempre sofrera com as imagens dos mártires da igreja. Ouvira as histórias do sofrimento voluntário e tinha vontade de pegar naquelas imagens e levá-las com ele, libertá-las. Tivera pesadelos com um Saint Sebastian que vira na igreja, um santo com o nome dele, novo, cara de miúdo, despido e amarrado, espetado com setas, a chorar lágrimas de sangue. Aquele Cristo crucificado também sofria. Contava as chávenas, quase todas diferentes. Quantas diferentes?
O padre entrou. Não vinha de batina, como esperava, mas de casaco cinzento sobre uma camisa preta e gola clerical branca. As calças também eram pretas. Parecia mais um pastor anglicano. Se o visse na rua, não diria que era padre. Todo ele era civil. A postura, a roupa, o corte de cabelo. Era simpático.
Falavam entre si. Sebastian não percebia que diziam. Por duas vezes o padre pousou-lhe a mão na cabeça, sem olhar para ele. A certa altura falaram no nome dele. O padre deu um passo atrás, para o ver melhor, e falou-lhe em inglês, com ligeiro sotaque:
“-Olá, Sebastian! És o meu novo paroquiano?”

O padre Rogério, a professora Dulce e Maria foram os responsáveis pelo bom período que Sebastian passou lá, naqueles dois anos e meio no Portugal rural, em tempo de guerra mundial.
Combinaram um plano especial de estudos. Estudos em tempo de guerra, estudos para um pequeno refugiado.
Sebastian passava as manhãs na escola primária. Aprendeu a fazer contas como adição, subtração, multiplicação, divisão, mas também frações e geometria. Nas ciências, aprendeu os princípios de biologia, física e química. Da história de Portugal, mal percebia os textos, mas a professora Dulce teve o cuidado de cruzar a cronologia portuguesa com a história universal e as datas inglesas mais importantes. Da geografia, adorou as montanhas, rios, linhas de caminho de ferro, tanto da metrópole como das colónias. E começou a aprender português.
Comia na escola a merenda que Maria lhe preparava e ia ter com o padre Rogério, à igreja ou a casa. O padre nem sempre podia estar com ele mas deixava-lhe sempre leituras e trabalhos. Iniciou-o nos clássicos e falavam de tudo, de sociedade, cultura, até política em tempo de guerra. Era viajado, estudou em Roma, passou anos em África, tinha histórias caricatas e interessantes sobre tudo e todas as situações. Era claramente anti-nazi e anti-fascista e ficara impressionado com a história de Sebastian, sua mãe e o destino trágico de seu pai, em El Alamein.
O padre tinha uma biblioteca reduzida, mas interessante, fascinante para um miúdo curioso. Primeiro apresentava as obras, enquadrava o tema e a história, alertava para que alguns pontos importantes, liam alguns capítulos juntos, em voz alta, e depois Sebastian corria na bicicleta para casa, sobe e desce, com pressa de ler mais e desvendar o que vinha a seguir.
O primeiro que leram foi “The Jungle Book” de Rudyard Kipling. Sentiu-se Mowgli, criado na selva, por lobos, amigo do urso Baloo, da pantera Bagheera e do tigre Sheere Khan.
Depois leram “Ivanhoe” de Walter Scott. Sebastian entusiasmou-se com a Inglaterra do século XII, a luta do saxão Sir Wilfred of Ivanhoe pela restauração de Richard The Lionheart, contra a opressão dos normandos, a descrição dos torneios, e o amor proibido de Lady Rowena.
Leram vários livros, revistas, jornais, ouviam rádio, falavam de política, da guerra, da sociedade, do futuro. Estas tardes em inglês formavam o jovem Sebastian e mantinham o contacto com a sua cultura natal. A sua cabeça andava pelo mundo todo. Na rádio, ouviam os discursos de Churchill, os relatos do desembarque em Itália, da guerra no Pacífico e na Rússia, enquanto o padre mostrava as terras num velho mapa-mundi.

William ficou preso aos negócios, na cidade, sem a ajuda dos filhos, que estavam em Inglaterra, e só voltou à quinta pela Páscoa de 1943. Não estava muito preocupado, pois ia sendo informado pelas cartas semanais de Maria, relatando o dia a dia da criança, onde ela juntava umas folhas escritas em inglês do menino, a quem William respondia da mesma forma. Ela não sabia o que eles se correspondiam mas não deveria ser lamentos e más notícias, a ver pelo contentamento do rapaz e pela simpatia das palavras que o patrão lhe dirigia.

No dia do nono aniversário de Sebastian, o padre Rogério disse que não tinha mais livros em inglês mas tinha chegado a altura de dar o grande passo. Pousou em cima da mesa um velho volume de capa dura. Sebastian pegou, abriu, eram poemas e não conseguiu ler nenhum.
“-Esta é a obra fundamental da nossa civilização. A Eneida, de Virgílio. Não é obrigatório ler no latim original, mas é a única versão que tenho. Vais aprender latim ao mesmo tempo que vais seguir Eneias, desde a derrota de Tróia, quando enfrentou Aquiles e foi salvo da morte por Poseidon, até à fundação de Roma. Está aqui tudo o que sabemos e conhecemos, neste nosso mundo, como o destino, o dever, o nacionalismo, a coragem, a perseverança e a conexão entre os deuses e os mortais. E vais aprender a ler na verdadeira língua da sabedoria.”

“-Tu falas latim, como os padres?”, perguntou Josefina com admiração.
“-Claro que não”, respondeu divertido, “mas sei ler quase tudo. Abre-nos as portas do passado. Ainda vou aprender grego, quando tiver tempo, depois do vinho.”

Josefina Madeira . 10

“-Foi na fábrica do seu pai que aprendeu estas coisas, de gerir negócios?”

Foi assim de rompante que Josefina entrou na conversa do serão, junto ao rio, que já se tornava um hábito, como qualquer ato se torna hábito quando se repete com agrado e conforto, mesmo que seja só pela segunda vez, na repetição do lugar, do momento, os cadeirões confortáveis, o rio, o agasalho, com emoção e satisfação.

“-A fábrica não era do meu pai. O meu pai não era de Grosmont.”

Sebastian fez uma pausa. Parecia que estava a pensar no que dizer, como se não se lembrasse exatamente como tinha sido ou lhe tinham contado, mas, na realidade estava indeciso sobre o rumo da história. Ou melhor, sobre o ramo da história: se o da via materna, se o da paterna.
A história pesava-lhe, não no orgulho dos feitos dos antepassados, ou na vergonha dos registos de maldades e traficâncias, que todas as famílias com passado têm, mas pelo que lhe ensinava no testemunho do reviver de consequências que se repetem, por gerações, na ignorância de erros de causas passadas.

“- O meu tetravô, Arthur Thompson, era um modesto proprietário rural. As charnecas são terreno pobre e barato. Tinha gado e cultivava alguns cereais, além da forragem para os animais. Já há algumas gerações que sabiam que vivam sobre um monte de pedra preta. Quando se faziam escavações, em trabalhos na terra, poços ou minas, a poucos metros de profundidade aparecia a pedra preta. Sabiam bem que era hulha, boa para o inverno. Traziam uma carrada dessas pedras escuras e luzidias e tinham aquecimento para a noite toda. No verão, às vezes, havia problemas, com fogueiras e queimadas. Alguns filões afloravam à superfície e incendiavam-se. Também podia ser espontâneo. Não era perigoso, o fogo era muito lento, muito localizado e sem chama, mas também era persistente. Não se consegue apagar com água. Só abafando com terra e demorava dias, a fumegar, até apagar a brasa.
Ouvi estas histórias dezenas de vezes, da minha avó. Eu nunca vi estes incêndios. Agora já não há hulha à superfície.”

“-Isso é estranho. Montes a arder por dentro.
Já não arde? Conseguiram tapar a hulha toda?”, perguntou Josefina.

“-Tapar? Não!
Escavamos, gastamos e vendemos quase toda!”, disse Sebastian, a sorrir.
“-Grosmont é muito perto de Whitby. Na altura, Whitby era um pequeno porto de pesca. Tinham estaleiros, faziam os seus próprios barcos e pescavam. O principal sustento era a caça da baleia. Estavam ligados ao mundo pelo mar, de barco, e por pequenos e tortuosos caminhos de terra pelos moors, onde chegavam até Middlesbrough e York, a cavalo e de charrete. Mas a Inglaterra estava a mudar muito depressa, com o carvão e a máquina a vapor.
Em 1835 surgiu a Whitby and Pickering Railway, a W&P, que pretendia ligar o porto de Whitby a York e à rede de caminho de ferro nacional, até Leeds e todo o país. As linhas foram construídas atravessando as terras dos Thompson, que negociaram da melhor maneira. Mas o grande negócio foi a exploração da hulha para a florescente indústria. O velho Arthur, de granjeiro a barão do carvão, ficou rico em pouco tempo.
Em 1840, a W&P teve de furar um monte para escavar um túnel, nas terras de Arthur. De centenas de homens a trabalhar nessa obra, que vieram de outras paragens, com suas famílias, estabelecendo-se em casas de madeira improvisadas, nasceu uma pequena cidade, que lá ficou, depois dos trabalhos, no progresso do caminho de ferro. Começou por se chamar Tunnel, prosaicamente, mas foi rebatizada de Grosmont, em 1895. Os Thompson, agora, também eram landlords.
Por essa altura, nas escavações do túnel, descobriram, também, terras ricas em minério de ferro. Ferro e carvão é a base da metalurgia. Em 1910, o meu avô funda a Thompson, Foundry & Iron Works. Durante a Grande Guerra, ganhou bom dinheiro a fabricar peças para navios, tanques e canhões.
A Thompson era tão conhecida que, em 1940, foi o primeiro alvo da Luftwaffe, no North Yorkshire. Pouco se estragou, recuperaram rapidamente, mas esse bombardeamento causou grande impacto na cidade. A minha mãe nunca mais me deixou aproximar da fábrica. Tinham um vigia permanente, a olhar os céus. Sempre que se aproximavam aviões, tocava a sirene e fugiam todos para o campo.
Ela vivia em pânico, com a ideia da guerra chegar até ali, um desembarque e invasão dos alemães. Boatos, havia muitos. Uma vez, fizemos a mala à pressa porque diziam que os alemães estavam em Whitby e já havia combates de rua. Afinal era uma rixa de bêbados, com pancadaria. No fim, para comemorar o alívio, acabou tudo no pub, com muitos cânticos mas sem porrada.”

Fez uma pausa, como se a organizar as ideias.
Josefina já não se surpreendia.

“- Acho que foi a primeira vez que entrei num pub. Fui com a minha mãe. Também estavam lá outros miudos. Tinha seis anos. Com essa idade não podia, mas nesse dia valeu tudo. Parecia que tínhamos ganho a guerra, numa invasão que nunca existiu.”

A memória fez-lhe reviver a sua maior paixão.

“-Os aviões passavam constantemente sobre as nossas cabeças. Havia dois aeródromos da Royal Air Force muito perto, em Linton-on-Ouse e Wombleton. De lá saíam bombardeiros carregados de bombas para a Noruega, Holanda e Alemanha. Eu gostava de ver a escolta que os Spitfire faziam aos Lancaster. Uma vez cheguei a ver dois Spitfire a perseguir um Messerschmitt, sobre o mar, em frente a Robin Hood’s Bay. O alemão fugiu.”

Pôs-se de pé, sem olhar para Josefina.
Quando estava nestas memórias, nunca a olhava nos olhos. Como se estivesse outro mundo.

“-Sempre quis ser piloto de Spitfire.
No fim do colégio, com dezassete anos, apresentei-me na RAF para ser piloto. Não me aceitaram. Meio a brincar, meio a gozar, fui rejeitado logo no primeiro dia, alegando que com 1,90 m não conseguiam fechar a carlinga do Spitfire.
Era grande de mais para caber num avião de caça.”

Ficou calado bastante tempo, sério.
Parecia que recordava algo duro.

Após longos minutos, foi Josefina que falou.
“- Deve ter sido giro, nascer em Grosmont, crescer nos moors, com esse passado e recordações.”
“-Recordações de lá, tenho muitas. De miúdo, antes de vir para cá, e depois, nas férias, dos dez aos dezessete.
Quando voltei a Inglaterra, em 1945, a minha mãe mandou-me para um colégio interno, como acontecia a todos os miúdos da minha condição.
Tive de fazer um exame especial, porque tinha passado três anos em Portugal, longe da guerra e das escolas inglesas. Mas tudo correu bem, estava bem preparado.”

Virou-se para ela.

“-Amanhã temos folga do trabalho. Vamos visitar o padre Rogério. Maria disse-me que ele ainda está por cá. Não precisamos de levantar tão cedo.
Agora vamos dormir. Preciso de descansar.”

Pegaram nas almofadas dos cadeirões, para as guardar, e diirigiram-se para a porta envidraçada de correr, que acedia ao salão.
Ele parou à entrada.

“-Eu não nasci em Grosmont.”
Fez uma pausa teatral.
“-Nasci no Cairo, em 1935. Mas isso só conto amanhã.”

Josefina Madeira . 9

No mês de julho, não havia grandes trabalhos a fazer na adega. Era o período das limpezas e manutenções, na preparação das vindimas do fim de verão.
Revisão e lubrificação de prensas, lavagem de lagares e cubas, ocupavam o Natércio e o Cândido durante várias semanas. Estes dois eram os efetivos da adega, além do Francisco.
Também era necessário arranjar pessoal para as vindimas, previstas, este ano, para a segunda semana de setembro. Necessitavam de contratar pessoal temporário, que angariavam nas aldeias vizinhas. Não era fácil, com a concorrência dos outros produtores e a crescente emigração. Nos últimos anos, depois da guerra, a industrialização estava a atrair famílias inteiras para a periferia das grandes cidades. Alguns até já estavam a sair para o estrangeiro. Francisco tentava que não faltassem os mesmos de sempre, mas tinha de testar sempre nova gente, para colmatar as falhas crescentes. Estes trabalhadores de curto prazo costumavam ser aldeões microprodutores, com a sua pequena horta, vinha, pomar e animais, nas redondezas, de onde tiravam o sustento diário. Nas grandes safras, como vindimas e podas, disponibilizavam-se para o trabalho contratado nas quintas grandes, equilibrando o seu pecúlio. Normalmente, vinha a família toda. Também havia um pequeno exército de indiferenciados, gente muito pobre, que vivia em condições quase desumanas mesmo para padrões de país atrasado, a maior parte analfabetos e com problemas graves de álcool. Era a mão de obra de carga, cestos ao ombro, monte acima, monte abaixo.

Sebastian estava a verificar a escala de trabalhos, confirmar o que já estava feito, o que estava em curso, e o calendário até fim de agosto.
Em tempos idos, a lista e sequência de trabalhos era por tradição e transmissão oral. Fazia-se o que sempre se tinha feito, da mesma maneira e sequência. Mas já há mais de trinta anos que William Richardson contratara um engenheiro francês, de Bordéus, para modernizar processos e racionalizar métodos. Foi uma pequena revolução.
Adotaram-se métricas, testes, análises, medidas de higiene, além de novas técnicas para a efetiva melhoria do vinho. Também fez intervenções nas vinhas, com alterações na condução das videiras e inovações na poda, bem como análise sistemática dos solos e sua regularização química. Após esse trabalho de consultadoria e intervenção, ficaram sempre ligados a esse acompanhamento numa base de prestação de serviços. Tinha sido Manuel, o falecido marido da D. Maria, que tinha acompanhado a implementação destas inovações, muito jovem, como ajudante do velho e desconfiado feitor. Depois, passou-se por um período conturbado, de alguma estagnação, coincidente com a guerra, em que a quinta foi mantida com o conhecimento, experiência e trabalho árduo de William, até que o jovem Francisco, apoiado por um dos franceses que viera com o outro de Bordéus e que entretanto se radicara em Portugal com um gabinete de consultadoria vinícola, continuou os métodos e processos deixados escritos por Manuel.
Agora, desde a morte de William, há meia dúzia de anos atrás, John e George confiavam plenamente no trabalho de adega de Francisco. E tinham de confiar. Estavam longe, não tinham conhecimentos, e, na verdade, não tinham grande vocação para a produção e para a lavoura em particular. Mas mais do que a desonestidade, receavam a ineficiência do processo e possíveis perdas de qualidade. Sabiam que em teoria a produção estava bem idealizada e indicada, mas precisavam de um controlo dos métodos. Sebastian tinha-lhes surgido como o indivíduo certo, na altura certa. Tinha o perfil.

Ao fim da manhã, a disposição de Sebastian já era outra. Francisco, mesmo com a sua falta de jeito abrutalhada, revelava-se competente. Sabia o que fazia, era organizado, percebia os processos químicos, entendia os efeitos e as causas, mostrava raciocínio, não eram só rotinas.
Josefina não percebia as perguntas mais técnicas, mas a intuição dizia-lhe que as questões de Sebastian não eram fáceis. A distensão de Sebastian indicava que as respostas eram satisfatórias.

Na hora do almoço chegou José, o homem das vinhas.
Era um tipo totalmente diferente de Francisco. Magro e seco, cabelo claro, olhos azuis e faces rosadas, de poucas palavras. Não o viam sorrir, parecia algo triste, mas não era mais do que timidez.
A maneira como se apresentou caiu particularmente bem a Sebastian. Aproximou-se, tirou o boné, segurou-o com as duas mãos, apresentou-se dirigindo a palavra primeiro a Josefina, sem aperto de mãos e sem mostrar os dentes.
Parecia um homem modesto. Bom trabalhador, pelas descrições e informações que dispunham. O trabalho, da parte que Sebastian podia aferir, era bem feito, conforme confirmara nas vinhas, com as suas descrições pormenorizadas. A produção era acima da média de outros produtores, esticando ao máximo o que poderia sair daquelas plantas, algumas já com décadas de vida. Trabalhava com dois efetivos, o Raul e o João, que nesse dia estavam de folga. Aliás, José também estava de folga. Tinham trabalhado os três, durante quinze dias sem parar, fins de semana e tudo, a aplicar calda bordalesa na quinta toda. Tinha havido relatos de ataques de oídio em quintas perto, e o tratamento preventivo era inadiável.
O trabalho de vinha era completamente diferente do de adega. Os ritmos e o calendário é imposto pela natureza e pelos elementos. Tem períodos de calmaria, de vigilância do crescimento do vegetal, e outros de grande azáfama, porque todos os milhares de pés necessitam da mesma atenção, ao mesmo tempo.
Francisco brincava com isso. Dizia que José não era calado. Estava, era, habituado a falar com as videiras, na língua delas. Seria. Aparentemente elas ouviam-no e gostavam.

Pela hora do almoço, Maria fez-lhes uma surpresa. Apareceu na adega com um panelão de feijoada, embrulhado em jornais para não arrefecer, e Alzira trouxe uma giga à cabeça, com toalha, pratos, talheres, broa de milho e um tacho de arroz. Estenderam a toalha na mesa de apoio ao trabalho, arranjaram bancos corridos e Francisco foi buscar uma caneca de tinto.
Era uma prática que William tinha, no seu tempo, sempre que vinha à quinta. Sebastian recordou-se com uma ponta de emoção. Várias vezes almoçou na adega com o pessoal, nos três anos que lá passou. Agora encarnava esse princípio.
Foi um almoço animado. Sebastian descontraiu-se e chegou a elogiar e agradecer o trabalho de Francisco e José. Josefina apercebeu-se que eles, os dois, estavam visivelmente satisfeitos. Gostavam que os patrões lhes dessem atenção, fossem visitar, controlar e criticar ou apreciar. Para eles, Sebastian era o patrão. Bastava ser inglês.

De tarde, Sebastian voltou a ser Sebastian. Havia cestos, caixotes de madeira e caixas de cartão mais ou menos dispersos ao fundo do armazém, pousados ao calha, à espera de serem necessários. Exigiu que fossem empilhados e ordenados por tamanhos.
Mangueiras e tubos devidamente enrolados. Não queria nada no chão, perigoso e desordenado.
Ao fim do dia, quis chão varrido e passado com água de mangueira, naquele dia e sempre.

“-Última coisa! A casa de banho não tem sabão, toalha lavada, nem papel higiénico. Não interessa quanto custa. É só requisitar com os pedidos que fazem à sede, e vem de barco.
Eu quero esta adega sempre em condições para receber a Raínha, sem aviso.”

Voltaram para casa ainda o sol ía alto. Sebastian pouco mostrava mas estava satisfeito. Tinha gostado do trabalho dos seus homens. Mostravam-se competentes, com vontade de aprender mais e sem receio de serem avaliados. Isso era sinal de confiança no seu próprio trabalho.
Mas Sebastian via sempre mais à frente.

“-Isto vai precisar de alterações. A agricultura não segura esta população. O trabalho dos indiferenciados vai ser todo mecanizado, de certeza, mas vai ser cada vez mais difícil arranjar mão de obra para as podas e para as vindimas. Vamos ter de saber como os outros estão a resolver este problema, em França e Itália. Se calhar pagam melhor. De certeza. Mas não sei se conseguimos cobrar mais aos clientes, para pagar melhor aos trabalhadores. Os franceses e os italianos vendem muito bem para os Estados Unidos, mas lá nem sabem que temos vinhas. Os americanos pagam caro pelo vinho que bebem, e apreciam.
Nós conseguimos vender alguns vinhos caros em Inglaterra mas o nosso custo de produção é muito superior aos franceses. Produzimos menos quantidade por hectare e o trabalho nos socalcos é muito mais difícil.
Tenho de estudar uma estratégia para apresentar a John e George.”

Josefina estava encantada com o raciocínio de Sebastian, enquanto caminhavam para casa. Tinha uma mente inquieta, reparava em tudo. Questionava-se, não dava nada por garantido, antecipava problemas, procurava respostas, imaginava sempre soluções.

“-Os americanos são quem tem dinheiro. Vai ser preciso trazê-los aqui, dar-lhes o vinho a provar, mostrar-lhe as vinhas. O melhor é virem de barco. Fazerem a viagem que nós fizemos. Dormirem nos quartos da casa, comerem os jantares preparados por Maria, apresentar-lhe o Francisco e o José. Criar-lhes uma emoção, contar-lhes uma história, convencê-los que sempre que abrirem uma das nossas garrafas em Nova Iorque vão reviver a viagem inesquecível que fizeram aqui.
Mas precisamos de fazer com que a viagem seja inesquecível. Não sei bem como. E não pode ser inesquecível pela falta do papel higiénico na adega.”

Josefina não conteve a gargalhada.
“-E hoje contas-me onde aprendeste assim tanta coisa?”
“-Sim. Depois de jantar. Hoje estou falador”, disse a sorrir.

Josefina enrubesceu quando se apercebeu que o tratou por tu, em português. Ele não pode ter deixado de notar a familiaridade, mas manteve-se impassível, como sempre.

Josefina Madeira . 8

Pouco deveria passar das seis horas da manhã, quando Sebastian bateu à porta de Josefina. Ela dormia profundamente. Tinham-se deitado tarde e custara-lhe a adormecer. O cansaço do dia anterior prejudicara-lhe o sono, mas, mais do que isso, tinha sido pela excitação do serão.
Sebastian parecia-lhe agora uma pessoa diferente.
Não estava surpreendida. Ela já não se surpreendia com ele.
Ele parecia que sabia sempre mais, ou que tinha vivido sempre mais alguma coisa. Lidava com isso com a naturalidade que só os experientes, curiosos e serenos têm. Não se enervava, encarava um desafio como uma lição. Queria saber. Raramente respondia “não sei”. O que não sabia ia aprender e estudar. O que não se pudesse saber, teorizava e procurava uma explicação possível, para testar e comprovar mais tarde. Um racional, prático e metódico, com uma imaginação prodigiosa.
Mas aquele serão marcou-a também de outra maneira. Percebera uma tristeza, um vazio, uma mágoa, que ele não dissera mas agora ela sabia que tinha sentido. Ele era mais complexo do que parecia. Tinha medos e hesitações que não demonstrava. Não tinha medo de pessoas, do trabalho ou das dificuldades. Vivia bem com o desconforto ou privações, não era preguiçoso. Era afetuoso, amigo, simpático, parecia bem com todos e com a sua vida, mas tinha momentos de isolamento e silêncio. Naquele serão, ela presenciara a verbalização do seu pensamento. Mais do que as palavras ditas foi a forma como falou, o sentimento que pôs nas palavras. Uma história simples, mas que não é assim tão simples, contada por quem não está bem com o mundo, nem com ninguém.
A experiência de vida de Josefina não lhe permitia fazer juízos sobre a vida de um homem mais velho e experiente, embora ainda jovem. A sensibilidade dela, que lhe permitiu perceber a densidade da personalidade de Sebastian, poderia tomá-la de vaidade ou excesso de confiança, na maturidade que não tinha, até iludi-la no convencimento de uma igualdade, proximidade e intimidade que ela, no fundo, sabia não existir.
Ele estava tão longe dela como na véspera, ou na semana anterior, mas o saber cada vez mais dele, o conhecer, o aprofundar, aumentava-lhe a curiosidade e o fascínio.

Quando desceu à cozinha, Sebastian estava de volta dos papéis, como sempre, e com a caneca de café fumegante na mão.
Maria mandou-a sentar, enquanto preparava o pequeno almoço. Mais uma vez, Josefina embaraçou-se. Era uma miúda, empregada de armazém, filha da lavadeira e do sapateiro, sem pretender ser mais do que é, aqui tratada como uma senhora importante, da cidade. A modéstia fazia-a saber que não era por ela, mas sim por Sebastian, mas, mesmo assim, o transbordar da consideração por ele até ela, desta maneira, só era possível pela importância que ele tinha para Maria, para os primos e para a William Richardson & Co. E ele impunha esse transbordo, de alguma forma.
O menino era mesmo especial.

Sebastian mal olhou para ela. Estava envolto nas plantas da adega e do armazém que trouxera com ele. Ele estudara todo o processo de produção e armazenagem, com plantas, esquemas, tabelas e quadros.
Quando entrasse na adega, saberia mover-se de olhos fechados entre lagares, cubas, prensas e bombas, saberia a disposição dos equipamentos e dos fluxos de material. No armazém, saberia a disposição dos lotes e as quantidades declaradas no inventário. Também saberia quantas pessoas trabalhavam em cada local e os nomes próprios de cada um.
Exactamente o mesmo método que lhe permitiu circular pelas vinhas, sem se perder, para confirmar as qualidades e disposições dos socalcos.
Se tudo não se encontrasse como levava na memória ou nos seus apontamentos, alguém se daria muito mal. Não admitia falhas de informação e era implacável com os erros por desleixo ou omissão. Ele não se intrometia na gestão da produção mas a informação tinha de ser fidedigna. Dela dependia a gestão e eficiência de todo o negócio.
Dizia que todos os erros têm de ser justificados. A incompetência serve de justificação, porque pode ser aferida e julgada, mas a ignorância é imperdoável. “Se não sabe, invente!”, era o seu grito de guerra.

Sairam de casa às sete horas em ponto. Ainda estava escuro, não estava ninguém na adega, nem sequer tinham a chave da porta.
Sebastian dizia que queria ver o nascer do sol, mas na realidade queria ver as pessoas a chegar, quem era o primeiro, de onde vinham, como se deslocavam, a rotina da abertura, a disposição. Pequenos pormenores de organização, informações que podiam fazer a diferença para tomar decisões dramáticas, se necessário.

“-A quinta tem dois responsáveis técnicos, o Francisco e o José.
O Francisco trata de tudo o que tem a ver com a adega e o armazém daqui. Recolhe as uvas, rala para o lagar, pisa, prensa, cuida da fermentação, dos tempos, das agitações. Trata das correções química, segundo o estipulado pelo laboratório. Bombeia para as cubas, armazena em pipas e reserva-as no armazém. É o vinificador, é o homem da adega.
O José é o homem das vinhas. Prepara os terrenos, planta, poda, aduba, trata e colhe nas vindimas.
Eles reportam aos meus primos, que, agora, decidiram mandar-me fazer o levantamento e controlo da situação.
Não gosto nada disto mas tenho de fazer o que mandam os chefes.
Não percebo nada de vinhas nem de vinificação. Pareço um fiscal.
Mas não interessa se é vinho, algodão ou carvão. Os procedimentos estão padronizados e têm de ser seguidos
A minha função é verificar se estão a fazer segundo as regras estipuladas, se registam os atos e os movimentos, se o que relatam é exatamente o que aconteceu aqui, se está tudo o que dizem, no sítio certo.”

Josefina mal conseguia acompanhar o raciocínio. Estavam de pé, à porta da adega, enquanto raiava a madrugada. Eram quase sete e meia e ainda não tinha aparecido ninguém. Sebastian parecia tenso. A juventude e responsabilidade pesavam.
Os patrões tomavam conta da promoção e vendas, viajavam e recebiam clientes, usavam a quinta para lazer e receção de convidados, mas receavam estar a desleixar a produção.
A competência e empenho de Sebastian, demonstradas no armazém, levara-os a confiar-lhe uma auditoria à quinta.

“-Onde é que aprendeu tanta coisa?”, perguntou Josefina, num elogio simpático para tentar desanuviar.

Sebastian não sorriu. Olhou em frente durante longos segundos.

“-É uma história, para contar mais logo ou amanhã. Não tem segredos mas é longa. Ou talvez não. Para mim é longa e inacabada.”

Josefina não compreendeu a resposta, mas não teve coragem de se esclarecer. Nem tempo. Já tinha surgido uma carrinha de caixa aberta, no topo do estradão de terra, a levantar pó nas curvas iluminadas pela primeira luz da manhã.

“-Bom dia!”
“-Bom dia!”

Um homem com pouco mais de trinta anos, moreno, cabelo e olhos pretos, monocelha, cara larga, a esforçar um sorriso de dentes grandes, que lhe ficava mal, dirigiu-se a Sebastian, de mão esticada.

“-Sr. Sebastian, sou Francisco Simões, o encarregado da adega.”
“-Muito gosto.”
“-Seja bem vindo e espero que esteja tudo de…”. Francisco ia continuar a falar, de olhos postos em Sebastian, quando este o interrompeu.
“-Apresento-lhe Josefina Madeira, minha assistente e futura responsável pelas auditorias à adega e vinhas.”

A Josefina, gelaram-lhe as entranhas, à inesperada apresentação, quando já se sentia transparente, como era habitual no trabalho entre homens. Mas não se descompôs, saudando com uma pequena vénia com a cabeça, sem esticar a mão.
Francisco ficou indeciso, tão surpreendido como ela. Manteve o mesmo sorriso aparvalhado. Se já tinha de lidar com o catraio inglês, magro, trinta centímetros mais alto do que ele, tinha agora de responder a uma miúda com metade da sua idade, ou menos, quase tão alta como o inglês. Bem, não era tão alta mas tinha de olhar bem para cima, para ela também.

“-Quem abre a porta? Tem chave?
“-Sim, sim. Sou que quem abre a porta todos os dias.”
“-Vamos lá! Faça de conta que eu não estou aqui. Tudo normal, dê início ao trabalho, eu vou observando e depois falamos. Temos tempo. Se eu tiver dúvidas pergunto. Depois vou precisar de muita informação sua, mas só mais logo.”

Francisco abriu o portão grande, para o logradouro, onde tinha parado a sua carrinha, acendeu luzes e dirigiu-se para um pequeno gabinete envidraçado.
Entretanto chegaram dois indivíduos, a pé, a entrar receosos e curiosos.
“-Bom dia Natércio, bom dia Cândido. Não me conhecem. Sou Sebastian Coleman. Esta senhora é Miss Josefina Madeira, minha assistente. Estamos cá para saber das vossas dificuldades e anseios, para, se for o caso, informar a gerência e aconselhar melhores práticas de trabalho.”

Josefina divertir-se-ia com a situação se não fosse a tensão que se sentia no ar. A atitude de Sebastian era desconcertante. A colocação de voz, o sotaque carregado e o surpreendente vocabulário. Natércio e Cândido não terão percebido tudo, mas não tiveram dúvidas sobre quem mandava e o que pretendia.
Josefina adorou o título de Miss. Sempre quis ser Miss.

Josefina Madeira . 7

Pelo meio da tarde, já subiam o último cerro por onde passava o estradão que ligava à vila. As pernas de Josefina estavam naquele ponto em que pesam, mas mal se sentem.

“-Agora só falta descer até lá baixo pela estrada. Vai ser rápido. Depois, descansar até ao jantar”.

O rápido dele era muito relativo. Ainda pararam duas vezes para nova observação, medição, fotografias e longos apontamentos. Enchera quase dois blocos com textos, números, esquemas, mapas.
Fotografara cachos, folhas, socalcos, montes, paisagem. Mudou de rolo três vezes.

Passaram pelas portas da adega e do armazém. Bateu, mas já não estava ninguém por lá.
“-Amanhã vimos para aqui.”

Sebastian foi direto ao terraço virado ao rio. Maria colocara lá dois cadeirões e uma mesa de apoio, de verga, com almofadas, que, àquela hora do dia, já estavam na sombra da casa. A porta de correr para o salão estava meio aberta.
“-Vou só lá cima pousar o saco e venho já para baixo.”
“-Sim. Também vou”
Quando Josefina desceu, Sebastian estava sentado na cadeira, com Maria de pé, a pousar um tabuleiro com uma caneca e dois copos.
“-Menina Josefina! Tem aqui uma limonada acabadinha de fazer.”
Josefina hesitou, embaraçada com o tratamento a que não estava habituada, mas sentou-se e serviu-se, depois dele. Estava cansada e água com limão iria saber mesmo bem.
D.Maria retirou-se e Sebastian ficou a olhar o rio, com o copo na mão, sem dizer palavra.
Durante longos minutos só ouviam a água no rio e alguns pássaros. Josefina estranhava. Sebastian era falador, contava histórias, ensinava muito, e agora estava ali, como se a ignorasse. Ela não se atrevia a interromper o silêncio.

“-Vivi nesta casa. Já cá não vinha há treze anos. Tudo mudou para mim, na minha vida, mas isto está na mesma. Até Maria.”

Josefina queria saber mais coisas, mas ele falava sem tirar os olhos da paisagem. Tentava não mostrar, mas estava comovido. Não olhava para ela. Serviu-se da limonada sem desviar o olhar. Ela já lhe conhecia estes momentos de isolamento.

“-Meninos! Vou servir o jantar às sete e meia.”
D.Maria interrompeu o silêncio quando Josefina já sentia o desconforto da brisa do rio. Os dias eram quentes, mas os montes e o rio arrefeciam o ar rapidamente, depois do pôr do sol.
Já eram quase sete horas, Josefina levantou-se. Precisava de tratar das suas roupas, queria saber com D. Maria onde lavar, como fazer.
Veio com ela para dentro.
O jantar já cheirava deliciosamente na cozinha.
“-A menina é minha convidada. Não faz nada. Faça o favor de me dar o que precisa que nós, amanhã, tratamos de tudo, e fica pronto ao final do dia.
A Josefina é convidada do menino Sebastian”, disse com um genuíno e rasgado sorriso.
Josefina insistiu, mas foi em vão. Foi ao quarto buscar as roupas que necessitava lavar e entregou a Maria.

Carne de vaca estufada com cenouras, ervilhas, e arroz branco. Pelos vistos era o prato preferido de Sebastian. Ele não o escondia. Serviu-se três vezes. Tanto que, no fim, foi ao salão buscar vinho generoso, para ajudar à digestão, num copo de pé alto. Ofereceu-lhe mas ela não quis. Nunca tinha provado mas sabia bem os efeitos nos imprevidentes.
Elogiaram o jantar e agradeceram, despediram-se de Maria e Alzira, que ficaram na cozinha, e foram para o terraço, com o compromisso de deixar tudo bem fechado, quando fossem dormir. Elas, quando saíssem, iriam pela porta da cozinha, nas traseiras.
Levaram as camisolas pelas costas, para prevenir os frescos do rio.

“-Vim para cá no outono de mil novecentos e quarenta e dois, pouco depois de fazer sete anos.”

Sebastian começou a falar, com o pequeno copo de vinho na mão, sentado na mesma cadeira do fim de tarde, a olhar para o rio, sob o céu estrelado, sem que Josefina lhe tenha perguntado nada. Como se se justificasse de tudo o que não dissera. Como se percebesse todas as dúvidas dela. Como se compreendesse que o estatuto dela não permitia fazer perguntas. E não permitia mesmo, pelas regras do trabalho, de género, de classe social e até de diferença de idades.

“-Vivia com a minha mãe em Grosmont, North Yorkshire.
O meu pai morreu em Al Alamein, em outubro desse ano. A minha mãe decidiu trabalhar na fundição do meu avô e dos meus tios. Era preciso ajudar no esforço de guerra.
Fundiam peças pesadas para máquinas, barcos e construção, componentes para locomotivas, carruagens e caminhos de ferro. Metalurgia pesada. Durante a guerra, começaram a produzir o que o governo pedia, de dia e de noite. Com os homens mobilizados, precisavam todo o tipo de mão de obra. A minha mãe, como sabia conduzir, foi guiar camiões.”

Aconchegou a camisola nos ombros.

“Eu não tinha com quem ficar. Durante semanas fiquei só, em casa, dias seguidos, com a minha bicicleta. Percorri milhas e milhas naquele tapete de flores rosa-púrpura. E o mar, aquele mar. Os penhascos sobre o mar. Passava dias inteiros sem ver ninguém. A brisa, o cheiro, os pássaros, o sol do fim de tarde a espreitar entre nuvens, o mar, eu e a minha bicicleta. A minha mãe não sabia que eu passava os dias fora de casa, naquele outono de quarenta e dois.
Um dia levo-te aos moors, North Yorkshire Moors.”

Fez uma pausa.
Estavam no escuro da noite, iluminados pelas estrelas.

“-Onde é Al Alamein?”, perguntou Josefina.

Levou o copo à boca mais tempo do que o necessário para beber.

“-É no Egito, perto de Alexandria.
Meu pai chamava-se Gerald Coleman. Era capitão do 1st Battalion, The Rifle Brigade.
Estavam cercados pelos alemães da Afrika Korps, mas avançaram, sob fogo pesado, e conseguiram romper o cerco. Foi o início da recuperação. Deixaram de recuar e só pararam em Berlim, três anos depois.
O meu pai morreu em combate, na primeira noite da batalha, quando romperam o cerco. Dizem que ia à frente dos homens, a apontar o caminho.
Madrugada do dia vinte e quatro de outubro de mil novecentos e quarenta e dois.”

Outra longa pausa

“Recebemos uma carta de condolências assinada pelo rei, meses depois. E uma condecoração póstuma, no fim da guerra.”

Olhou as estrelas.

“-A minha mãe foi muito abaixo. Quis ir trabalhar imediatamente, para se ocupar. Também tinha medo de uma invasão ou outra loucura de Hitler. Queria proteger o filho. Portugal era neutral.”

Sebastian pausava as palavras. Como se falasse só para si. Parecia que estava falar pela primeira vez.

“Os Richardson são nossos primos. Estão em Portugal há muitos anos. Durante a guerra, os meus primos John e George, foram mobilizados para Inglaterra, para serviços de apoio à tropa. O pai deles, que era viúvo, ficou só, a tomar conta do negócio.
John vinha visitar o pai, no Natal de 1942. A minha mãe, sabendo disso, pediu que me trouxesse com ele. Ela tinha medo e pouco tempo para mim, com o trabalho
Arranjou autorizações e documentos, e vim cá passar o Natal.”

Josefina queria saber mais, fazer perguntas, mas continha-se

“-Quando cheguei, não me dei bem em casa do primo Wiliam, na cidade.
Era tudo muito austero. Casa grande, escura, vazia, fria, pessoal sisudo. Não gostei nada.
Em janeiro, depois de John voltar a Inglaterra, ele pegou no carro e viemos passar uma semana aqui.
Ia ser uma semana. Foram quase três anos.”

Saboreou o vinho outra vez e vestiu a camisola. Josefina imitou-o.

“-Eu não sabia uma palavra de português. Era uma quinta portuguesa mas não muito diferente da nossa cottage em Grosmont. Campo, animais, estrume, humidade.
Fui recebido por Maria. Praticamente adoptou-me como o filho que ela nunca teve. Era viúva. O marido dela tinha morrido novo, mais ou menos quando eu nasci.
Quando cheguei, Wiliam quis que eu ficasse no quarto ao lado do dele, naqueles por cima das escadas, os deles. Um quarto enorme, decoração pesada, cheio de retratos. Tive medo. A primeira noite foi um terror. Não dormi, chorei, mas não pedi ajuda. A casa faz barulhos. Parece assombrada. Eu era muito pequeno, tinha saudades da minha mãe.
No dia seguinte, Wiliam perguntou-me se tinha dormido bem e não consegui esconder. Confessei que tive medo, não conseguia dormir sozinho. Ele não me disse nada, era de poucas palavras, mas nesse dia perguntou a Maria se podia fazer companhia à criança.
Assim na segunda noite, Maria ficou comigo até adormecer. Foi assim, todos os dias, até eu voltar para casa, no fim da guerra.”

Apontou para o caminho para a adega.

“-Maria morava na casa do caseiro. Onde vive agora, embora já não haja caseiro. Nesses três anos, viveu comigo aqui. Dormia no quarto onde estás agora. É o quarto dela. É o especial, para pessoas especiais.
Ela é que diz. Não sei.”

Se não estivesse escuro, Josefina teria-o visto sorrir, depois de lhe terem escorrido lágrimas com as recordações.

“-Mas só dormi naquele quarto, dos primos, mais uma noite
O William confiava muito na Maria. Ela percebeu que eu precisava de um quarto de criança e, então, pediu-lhe para arranjar o quartinho da torre.
Os meus primos, os tios antes deles, e outros, talvez, usavam a torre, em miúdos, como quarto de brincadeira. O quarto dos brinquedos era a torre do castelo, na imaginação das crianças.
Sobe-se pela escada de caracol. Depois mostro-te.
Maria pôs lá uma cama, arranjou a seu gosto, e fez o meu quarto, o meu castelo. Das janelas mais altas, vigiava tudo e Maria vigiava-me as escadas. Sentia-me seguro.”

As recordações andavam mais depressa do que as palavras.

“-Cheguei lá, ontem à noite, e ainda é o meu quarto. Está igualzinho a quando eu fui embora. Não houve mais crianças. Os meus primos, John e George, que são mais velhos, nunca casaram nem tiveram filhos. Ficou o meu quarto.”

Estava a ficar tarde. Já eram quase onze horas, pelo relógio dele. Na manhã seguinte tinham de se levantar cedo. Sebastian queria chegar à adega antes de todos, como sempre. Gostava de ver as pessoas a entrar. Dizia que ganhava mais de meio dia de trabalho, com isso.
Recolheram as almofadas dos cadeirões e fecharam bem a porta, como recomendara Maria. Subiram ao primeiro andar, Josefina seguiu para o último quarto do corredor, à direita, e ouviu os passos de Sebastian nos degraus de madeira da escada de caracol, que ainda subia mais um ou dois andares. Ficou curiosa. Ele disse que mostrava.

Josefina deitou-se a pensar na história fantástica que Sebastian contara. Guerra no Egito, orfão de pai, carta do rei, longe da mãe. Estava no quarto de Maria, a guardiã do menino.
Sentia uma convulsão de sentimentos, confusos para os seus verdes treze anos.
Sebastian era um líder, sabia tudo. Duro, autoritário, exigente, mas justo e sempre doce e atento com ela, quase paternal. Mas ela também sabia que não o desiludia. Aprendia rápido. Era fina, como dizia a sua mãe. Não tinha medo ao trabalho e, com ele, aprendia coisas novas, todos os dias. Ele mostrava-lhe um mundo que ela nem sonhava. E contava e explicava-lhe tudo.
Era um irmão mais velho. Ou um tio mais novo, talvez. Faziam dez anos de diferença.

Ele hoje parecera-lhe um menino, como ela nunca tinha visto. Ficou com inveja de Maria, que o deve ter abraçado e consolado tantas vezes.
Também queria abraça-lo.

Adormeceu a sonhar com príncipes e castelos.

Unfinished Sympathy

I know that I’ve imagined love before
And how it could be with you

Really hurt me, baby, really cut me, baby
How can you have a day without a night?
You’re the book that I have opened
And now I’ve got to know much more

The curiousness of your potential kiss
Has got my mind and body aching

Really hurt me, baby, really cut me, baby
How can you have a day without a night?
You’re the book that I have opened
And now I’ve got to know much more

Like a soul without a mind
In a body without a heart
I’m missing every part
I don’t know where this one came from

(Andrew Lee Isaac Vowles / Robert Del Naja / Shara Nelson / Grantley Marshall / Jonathan Sharp / Massive Attack)

Josefina Madeira . 6

Sebastian chegou ao pátio a sorrir para a casa e para a paisagem. Deu a volta ao lago, passando com mão como se alisasse a borda de pedra, chapinhou água para o Tritão, ao passar-lhe pela frente.
“- Vês como não tenho medo de ti?”
“- Que disse?”, perguntou Josefina.
“-Nada, nada… Estava a falar para mim.
Espera aqui que eu já venho.”

Encostou a sua bagagem, um saco grande, cilíndrico de lona verde, à parede húmida do lago, e desapareceu pelo lado esquerdo, para trás da casa.
Josefina ficou, a olhar em volta. O lago ficava em frente a uma porta de madeira azul escura, com um batente de garra de leão amarelo reluzente. Um pequeno telhado envolvido em heras, abrigava a entrada das intempéries. O terraço abria-se para frente da casa e das vidraças das salas de jantar e de estar, viradas ao rio. Josefina imaginava senhoras de vestido comprido, agitando leques, e senhores de casaca, a conversar entre bufaradas de charuto, refrescando-se após o jantar, no ar fresco do rio, como vira nas gravuras de um livro de princesas da professora Amélia. O rio fazia barulhos nos degraus e no cais. Os homens tinham amarrado o barco, mais à frente, e já haviam desaparecido. Um pássaro preto, grande, passou rápido sobre as águas, enquanto o sol desaparecia por trás dos montes altos. Os socalcos lá de cima, na outra margem, ainda estavam iluminados.
Sebastian não aparecia. Não queria ir atrás dele. Ele disse-lhe para esperar.

Estava quase para se sentar na pedra, quando a porta grande se abriu. Sairam Sebastian e D.Maria. Ela era muito mais pequena do que ele. Não que fosse muito baixa, ele é que era grande, mas o contraste aumentava porque vinham abraçados, ou melhor, ela vinha abraçada quase à cintura dele, com a cabeça encostada ao peito.
“-O meu menino, o meu querido menino que eu não via há tantos anos”, dizia D.Maria enquanto erguia os braços para lhe puxar a cara e pespegar mais uma sonora beijoca. Ela estava genuinamente emocionada, enquanto enxugava as lágrimas com um lenço que tirara do bolso do avental. “-Meu querido menino”. Sebastian olhava Josefina como um misto de embaraço e diversão, mas também se notava os olhos marejados, por mais que ele se contivesse.
“-Maria! Esta é Josefina. Ela veio comigo para aprender aqui umas coisas da vinha.”
“-Que alta e bonita”, disse Maria enquanto lhe dava dois beijos repenicados.
“-A D. Maria tem o nome da minha mãe”, ajeitou Josefina para tornear o embaraço do elogio.
“-Ó filha, Marias somos todas”, disse com um sorriso largo. “Vamos para dentro. Está a ficar fresco. Peguem nas vossas coisas!”

O hall abria-se, à direita, por dois degraus, para o salão de estar, Em frente, as escadas de mármore branco subiam até ao piso superior.
“-Vamos lá cima, para vocês se refrescarem da viagem. O jantar está quase pronto.”
As escadas terminavam na frente de um longo corredor de soalho de madeira escura, com uma tapeçaria vermelha, fofa e espessa, presa com ganchos de latão amarelo polido espaçados a cada três metros. As paredes eram revestidas a papel de parede, com flores azuis, em tom pastel, seis portas de cada lado, de madeira da cor do soalho. Entre as portas, pequenos candeeiros de parede imitavam velas em jarros de vidro fosco. A parede, ao fundo do corredor, era uma grande janela de vidro aberta para a encosta de vinha, que ainda deixava entrar a luz de fim de tarde.
Maria seguiu à frente e abriu a última porta do lado direito.
“-A menina Josefina fica aqui. É o meu quarto preferido.”
Josefina virou-se para Sebastian, que sorriu. “-Mas eu pensei que…”
“-Deixa-te estar! Depois conversamos com calma. Agora instalas-te e descansa. Daqui a uma hora temos uma sopa quente para comer. E mais qualquer coisa, se calhar.”
“-Não tenho relógio…”
“-Eu venho chamar-te”.
Deixaram Josefina no meio do quarto, saíram e fecharam a porta. Ela não percebia. Era uma empregada de armazém, que viera uns dias de trabalho, até à quinta, e instalavam-na num quarto de hóspedes, numa casa que lhe parecia um palácio.
O quarto tinha uma enorme cama de casal com uma cabeceira almofadada. Entre os pés da cama e o aparador acedia-se à janela de guilhotina, emoldurada por uma cortina pesada, que dava para o rio, sobranceira ao terraço do rés do chão. Ao lado, um criado mudo, um pequeno armário guarda vestidos e um sofá. Do lado oposto da cama, junto à porta do quarto, outra porta dava para casa de banho. Azulejos brancos de flores azuis, um lavatório de pé, sanita e bidé, e uma enorme banheira de ferro lacado a branco, apoiada em quatro patas de leão de latão amarelo.
Josefima estava incomodada. Pensava que ia dormir num dormitório ou camarata. Nem tinha roupas para aquele ambiente, fosse qual fosse o ambiente. Só trouxera duas mudas de roupa na sua pequena mochila. As da roupa de trabalho, as suas jardineiras.

Passado uma hora, bateram à porta. Era Sebastian.
“-Pronta? Vamos jantar?”
“-Estou, mas queria saber…”
“-Não te incomodes com nada. Vamos jantar e deitar cedo. Amanhã temos muitos quilómetros para fazer. E depois vemos tudo.”
Josefina percebeu que Sebastian estava deliberadamente a não querer ouvi-la. Depois falariam sobre isso.
“-Ali são os reservados da família e o acesso à torre das crianças.”, disse, a sorrir, apontando para um pequeno alpendre que dava para duas portas e uma escada de caracol, estreita, por cima da escadaria. Eram os quartos por cima do hall e o torreão.
“-Anda! Vamos à sopa.”

Nos rés do chão, junto à entrada, do lado oposto ao salão, um corredor de serviço passava pela casa de banho e dava, diretamente para copa e cozinha.
Na copa estava uma mesa posta para dois. A porta para a sala de jantar estava fechada.
“-Comemos aqui, junto à Maria. Está bem para ti?”
Ele parecia justificar-se. Ela já só encolhia os ombros e olhava para baixo, envergonhada.

Jantaram frango assado no fogão a lenha, com batatas assadas e arroz de forno. Estava delicioso.
“-Era um dos meus pitos”, dizia Maria a sorrir. “-Se sobrar, vou desossar e fazer um bom farnel para vocês, para amanhã.”
Sebastian e Maria passaram o jantar a falar de nomes e de gente que conheciam doutros tempos. Até do padre.
No fim, Josefina preparava-se para levantar e arrumar, mas Maria não deixou.
“-Está aí a chegar a Alzira e arruma e limpa tudo num instante.”
Pouco tempo depois, entrou uma miúda pouca mais velha do que Josefina, que olhou para ela com cara séria. Era uma das ajudantes de Maria, para os trabalhos pesados. Maria tinha um estatuto de cuidar, orientar e cozinhar. Comportava-se como a dona da casa.
“-Agora, dormir! Amanhã, despertar às seis. Eu bato na porta do teu quarto.”

Josefina deitou-se no melhor quarto em que já estivera. Só conhecia o seu de casa, é certo, mas este era o melhor que já imaginara. Não fechou as cortinas. A noite estava escura, sem lua. Queria adormecer a ver o contraste dos montes no céu estrelado.

No dia seguinte, desceu o dia ainda mal despontava. Sebastian tinha-a acordado há pouco mais de meia hora, e já estava sentado à mesa, na copa, com mapas, maços de folhas soltas impressas e um dos seus blocos de apontamentos, com uma caneca de café.
“-Vamos dar a volta à quinta. Vou-te mostrar tudo o que temos e como fazemos. Estás preparada para andar? São sete horas de caminho. Só paramos para beber água e comer.”
Josefina preparava-se para responder e já aparecia D.Maria com um cesto de pão, ovos cozidos, manteiga, queijo, compotas, um jarro de leite e mais café.
“-Bom dia, menina. Não quero que vá para sua casa dizer que a tratamos mal.
Podem comer à vontade. Já tenho ali separado o vosso farnel, com o frango que sobrou do jantar.”
Josefina já só agradecia. Sentou-se a comer.

Às sete em ponto, saíam pela porta da cozinha, para as traseiras da casa que dava diretamente para a vinha. Um longo caminho íngreme subia quase na vertical, entre socalcos.
Sebastian, com as suas calças curtas, meias de cano alto, botas de montanha, camisa branca, chapéu de abas largas e lenço ao pescoço, levava uma mochila com os seus papéis e instrumentos, garrafa de água, e o farnel de D. Maria.
Josefina ia com a sua roupa de trabalho, jardineira, botas, camisa branca, agora percebia a utilidade do chapéu de abas, e um grande lenço branco, emprestado por Sebastian, atado ao pescoço, “-Para o suor, para afastar as moscas e para proteger do sol do meio dia”, dizia ele, e uma sacola a tiracolo, com uma garrafa de água, um bloco de notas e lápis.

A primeira subida, no fresco da manhã, quase derrotava Josefina. A inclinação era bastante acentuada, parecia interminável, mas o pior é que Sebastian parou três vezes. Em cada uma delas olhou as folhas das videiras, observou os pequenos cachos e tomou apontamentos. Quando chegaram ao cimo, a vista era deslumbrante. Banhados pelo sol nascente, estavam num dos pontos mais altos em vários quilómetros. Era um cume careca de onde se via a casa, a adega e os anexos, ao fundo, junto à água, a curva do rio, o cume na outra margem, quase tão alto como este. O monte era quase cónico, com um vale profundo onde corria um riacho, do lado sul para poente, até ao rio, e um estradão de terra, do lado nascente, a serpentear na descida até à adega, a confinar com novas elevações também com vinhedos em socalco.
“-Cada monte, cada encosta, cada socalco, tem uma casta, a sua idade e uma história. Os ventos, as humidades, os orvalhos, tocam cada planta de maneira diferente, consoante a sua disposição em relação ao sol e ao rio. Os nevoeiros matinais e a duração e orientação solar, são fundamentais, a par da qualidade, da química e da irrigação do solo, para a força e fecundidade da planta. Também temos de escolher a casta mais apropriada a cada uma destas condições. Depois é preciso cuidar de cada pé, como o ser vivo independente que é. Podá-lo, penteá-lo, vacinar como uma criança, medicá-lo se necessário. Um bom viticultor conhece cada um dos seus milhares de pés.”
“-Tu conheces cada um deles?”
“-Eu, não. Mas há cá gente que os descreve a quase todos de cor.
Hoje estou a fazer uma vistoria de rotina. Venho confirmar a saúde e a produção do ano”, disse enquanto abria o mapa que tirou da mochila.
“Nós estamos aqui”. Apontou para o centro de um conjunto de linhas de nível quase circulares. “Vamos descer por aqui, atravessar esta pequena ponte, subir lá cima”, e estendeu o braço para o riacho a sul e para o monte a seguir. “Depois vamos descer outra vez, almoçar aqui, numa sombra com água”, seguia com o dedo no mapa e apontava com o braço, como se fosse lá para longe, para trás dos montes. “Cada vinha, cada encosta, tem um nome. Vamos passar por todas. Anda!”

Desceram a encosta. Sebastian parava, tomava notas, fotografava, observava as folhas, media os cachos, alguns chegou a pesá-los, com um pequeno dinamómetro. Atravessaram no riacho, subiram a outra encosta. Sempre com as mesmas rotinas, as mesmas análises e registos.
Quando chegaram ao segundo cume, não tão alto como o primeiro, já apertava o sol do meio da manhã.
“-Paragem técnica”. Sebastian tirou do saco uma bisnaga amarela. “-Australian sunscreen”, e começou a espalhar um óleo castanho nos braços, pescoço e na cara. “Peles claras como as nossas não suportam estes raios solares”.
Josefina não sabia o que era. Nunca tinha visto tal coisa, mas fez o mesmo, quando ele lhe passou a bisnaga. O cheiro era agradável.
Depois tirou o lenço do pescoço e atou-à volta da cabeça, de maneira que lhe caía sobre os ombros. Pôs o chapéu na cabeça e era como se tivesse uma cortina a toda a volta, por debaixo do chapéu. Ficava cómico mas parecia eficaz.
Pegou no dela e fez-lhe o mesmo. Era agradável. Fazia sombra no pescoço e nos ombros, e o ar circulava à volta da cabeça. Só a cara ficava destapada, mas protegida com o perfumado creme australiano.
“-Já foste à Austrália?”
“-Não. Mas gostava de ir para lá fazer vinho. As terras são boas para isso. Queres vir comigo?”
Josefina corou. “Claro que vou!”, respondeu sem mexer os lábios.

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