Josefina Madeira . 9

No mês de julho, não havia grandes trabalhos a fazer na adega. Era o período das limpezas e manutenções, na preparação das vindimas do fim de verão.
Revisão e lubrificação de prensas, lavagem de lagares e cubas, ocupavam o Natércio e o Cândido durante várias semanas. Estes dois eram os efetivos da adega, além do Francisco.
Também era necessário arranjar pessoal para as vindimas, previstas, este ano, para a segunda semana de setembro. Necessitavam de contratar pessoal temporário, que angariavam nas aldeias vizinhas. Não era fácil, com a concorrência dos outros produtores e a crescente emigração. Nos últimos anos, depois da guerra, a industrialização estava a atrair famílias inteiras para a periferia das grandes cidades. Alguns até já estavam a sair para o estrangeiro. Francisco tentava que não faltassem os mesmos de sempre, mas tinha de testar sempre nova gente, para colmatar as falhas crescentes. Estes trabalhadores de curto prazo costumavam ser aldeões microprodutores, com a sua pequena horta, vinha, pomar e animais, nas redondezas, de onde tiravam o sustento diário. Nas grandes safras, como vindimas e podas, disponibilizavam-se para o trabalho contratado nas quintas grandes, equilibrando o seu pecúlio. Normalmente, vinha a família toda. Também havia um pequeno exército de indiferenciados, gente muito pobre, que vivia em condições quase desumanas mesmo para padrões de país atrasado, a maior parte analfabetos e com problemas graves de álcool. Era a mão de obra de carga, cestos ao ombro, monte acima, monte abaixo.

Sebastian estava a verificar a escala de trabalhos, confirmar o que já estava feito, o que estava em curso, e o calendário até fim de agosto.
Em tempos idos, a lista e sequência de trabalhos era por tradição e transmissão oral. Fazia-se o que sempre se tinha feito, da mesma maneira e sequência. Mas já há mais de trinta anos que William Richardson contratara um engenheiro francês, de Bordéus, para modernizar processos e racionalizar métodos. Foi uma pequena revolução.
Adotaram-se métricas, testes, análises, medidas de higiene, além de novas técnicas para a efetiva melhoria do vinho. Também fez intervenções nas vinhas, com alterações na condução das videiras e inovações na poda, bem como análise sistemática dos solos e sua regularização química. Após esse trabalho de consultadoria e intervenção, ficaram sempre ligados a esse acompanhamento numa base de prestação de serviços. Tinha sido Manuel, o falecido marido da D. Maria, que tinha acompanhado a implementação destas inovações, muito jovem, como ajudante do velho e desconfiado feitor. Depois, passou-se por um período conturbado, de alguma estagnação, coincidente com a guerra, em que a quinta foi mantida com o conhecimento, experiência e trabalho árduo de William, até que o jovem Francisco, apoiado por um dos franceses que viera com o outro de Bordéus e que entretanto se radicara em Portugal com um gabinete de consultadoria vinícola, continuou os métodos e processos deixados escritos por Manuel.
Agora, desde a morte de William, há meia dúzia de anos atrás, John e George confiavam plenamente no trabalho de adega de Francisco. E tinham de confiar. Estavam longe, não tinham conhecimentos, e, na verdade, não tinham grande vocação para a produção e para a lavoura em particular. Mas mais do que a desonestidade, receavam a ineficiência do processo e possíveis perdas de qualidade. Sabiam que em teoria a produção estava bem idealizada e indicada, mas precisavam de um controlo dos métodos. Sebastian tinha-lhes surgido como o indivíduo certo, na altura certa. Tinha o perfil.

Ao fim da manhã, a disposição de Sebastian já era outra. Francisco, mesmo com a sua falta de jeito abrutalhada, revelava-se competente. Sabia o que fazia, era organizado, percebia os processos químicos, entendia os efeitos e as causas, mostrava raciocínio, não eram só rotinas.
Josefina não percebia as perguntas mais técnicas, mas a intuição dizia-lhe que as questões de Sebastian não eram fáceis. A distensão de Sebastian indicava que as respostas eram satisfatórias.

Na hora do almoço chegou José, o homem das vinhas.
Era um tipo totalmente diferente de Francisco. Magro e seco, cabelo claro, olhos azuis e faces rosadas, de poucas palavras. Não o viam sorrir, parecia algo triste, mas não era mais do que timidez.
A maneira como se apresentou caiu particularmente bem a Sebastian. Aproximou-se, tirou o boné, segurou-o com as duas mãos, apresentou-se dirigindo a palavra primeiro a Josefina, sem aperto de mãos e sem mostrar os dentes.
Parecia um homem modesto. Bom trabalhador, pelas descrições e informações que dispunham. O trabalho, da parte que Sebastian podia aferir, era bem feito, conforme confirmara nas vinhas, com as suas descrições pormenorizadas. A produção era acima da média de outros produtores, esticando ao máximo o que poderia sair daquelas plantas, algumas já com décadas de vida. Trabalhava com dois efetivos, o Raul e o João, que nesse dia estavam de folga. Aliás, José também estava de folga. Tinham trabalhado os três, durante quinze dias sem parar, fins de semana e tudo, a aplicar calda bordalesa na quinta toda. Tinha havido relatos de ataques de oídio em quintas perto, e o tratamento preventivo era inadiável.
O trabalho de vinha era completamente diferente do de adega. Os ritmos e o calendário é imposto pela natureza e pelos elementos. Tem períodos de calmaria, de vigilância do crescimento do vegetal, e outros de grande azáfama, porque todos os milhares de pés necessitam da mesma atenção, ao mesmo tempo.
Francisco brincava com isso. Dizia que José não era calado. Estava, era, habituado a falar com as videiras, na língua delas. Seria. Aparentemente elas ouviam-no e gostavam.

Pela hora do almoço, Maria fez-lhes uma surpresa. Apareceu na adega com um panelão de feijoada, embrulhado em jornais para não arrefecer, e Alzira trouxe uma giga à cabeça, com toalha, pratos, talheres, broa de milho e um tacho de arroz. Estenderam a toalha na mesa de apoio ao trabalho, arranjaram bancos corridos e Francisco foi buscar uma caneca de tinto.
Era uma prática que William tinha, no seu tempo, sempre que vinha à quinta. Sebastian recordou-se com uma ponta de emoção. Várias vezes almoçou na adega com o pessoal, nos três anos que lá passou. Agora encarnava esse princípio.
Foi um almoço animado. Sebastian descontraiu-se e chegou a elogiar e agradecer o trabalho de Francisco e José. Josefina apercebeu-se que eles, os dois, estavam visivelmente satisfeitos. Gostavam que os patrões lhes dessem atenção, fossem visitar, controlar e criticar ou apreciar. Para eles, Sebastian era o patrão. Bastava ser inglês.

De tarde, Sebastian voltou a ser Sebastian. Havia cestos, caixotes de madeira e caixas de cartão mais ou menos dispersos ao fundo do armazém, pousados ao calha, à espera de serem necessários. Exigiu que fossem empilhados e ordenados por tamanhos.
Mangueiras e tubos devidamente enrolados. Não queria nada no chão, perigoso e desordenado.
Ao fim do dia, quis chão varrido e passado com água de mangueira, naquele dia e sempre.

“-Última coisa! A casa de banho não tem sabão, toalha lavada, nem papel higiénico. Não interessa quanto custa. É só requisitar com os pedidos que fazem à sede, e vem de barco.
Eu quero esta adega sempre em condições para receber a Raínha, sem aviso.”

Voltaram para casa ainda o sol ía alto. Sebastian pouco mostrava mas estava satisfeito. Tinha gostado do trabalho dos seus homens. Mostravam-se competentes, com vontade de aprender mais e sem receio de serem avaliados. Isso era sinal de confiança no seu próprio trabalho.
Mas Sebastian via sempre mais à frente.

“-Isto vai precisar de alterações. A agricultura não segura esta população. O trabalho dos indiferenciados vai ser todo mecanizado, de certeza, mas vai ser cada vez mais difícil arranjar mão de obra para as podas e para as vindimas. Vamos ter de saber como os outros estão a resolver este problema, em França e Itália. Se calhar pagam melhor. De certeza. Mas não sei se conseguimos cobrar mais aos clientes, para pagar melhor aos trabalhadores. Os franceses e os italianos vendem muito bem para os Estados Unidos, mas lá nem sabem que temos vinhas. Os americanos pagam caro pelo vinho que bebem, e apreciam.
Nós conseguimos vender alguns vinhos caros em Inglaterra mas o nosso custo de produção é muito superior aos franceses. Produzimos menos quantidade por hectare e o trabalho nos socalcos é muito mais difícil.
Tenho de estudar uma estratégia para apresentar a John e George.”

Josefina estava encantada com o raciocínio de Sebastian, enquanto caminhavam para casa. Tinha uma mente inquieta, reparava em tudo. Questionava-se, não dava nada por garantido, antecipava problemas, procurava respostas, imaginava sempre soluções.

“-Os americanos são quem tem dinheiro. Vai ser preciso trazê-los aqui, dar-lhes o vinho a provar, mostrar-lhe as vinhas. O melhor é virem de barco. Fazerem a viagem que nós fizemos. Dormirem nos quartos da casa, comerem os jantares preparados por Maria, apresentar-lhe o Francisco e o José. Criar-lhes uma emoção, contar-lhes uma história, convencê-los que sempre que abrirem uma das nossas garrafas em Nova Iorque vão reviver a viagem inesquecível que fizeram aqui.
Mas precisamos de fazer com que a viagem seja inesquecível. Não sei bem como. E não pode ser inesquecível pela falta do papel higiénico na adega.”

Josefina não conteve a gargalhada.
“-E hoje contas-me onde aprendeste assim tanta coisa?”
“-Sim. Depois de jantar. Hoje estou falador”, disse a sorrir.

Josefina enrubesceu quando se apercebeu que o tratou por tu, em português. Ele não pode ter deixado de notar a familiaridade, mas manteve-se impassível, como sempre.

Josefina Madeira . 8

Pouco deveria passar das seis horas da manhã, quando Sebastian bateu à porta de Josefina. Ela dormia profundamente. Tinham-se deitado tarde e custara-lhe a adormecer. O cansaço do dia anterior prejudicara-lhe o sono, mas, mais do que isso, tinha sido pela excitação do serão.
Sebastian parecia-lhe agora uma pessoa diferente.
Não estava surpreendida. Ela já não se surpreendia com ele.
Ele parecia que sabia sempre mais, ou que tinha vivido sempre mais alguma coisa. Lidava com isso com a naturalidade que só os experientes, curiosos e serenos têm. Não se enervava, encarava um desafio como uma lição. Queria saber. Raramente respondia “não sei”. O que não sabia ia aprender e estudar. O que não se pudesse saber, teorizava e procurava uma explicação possível, para testar e comprovar mais tarde. Um racional, prático e metódico, com uma imaginação prodigiosa.
Mas aquele serão marcou-a também de outra maneira. Percebera uma tristeza, um vazio, uma mágoa, que ele não dissera mas agora ela sabia que tinha sentido. Ele era mais complexo do que parecia. Tinha medos e hesitações que não demonstrava. Não tinha medo de pessoas, do trabalho ou das dificuldades. Vivia bem com o desconforto ou privações, não era preguiçoso. Era afetuoso, amigo, simpático, parecia bem com todos e com a sua vida, mas tinha momentos de isolamento e silêncio. Naquele serão, ela presenciara a verbalização do seu pensamento. Mais do que as palavras ditas foi a forma como falou, o sentimento que pôs nas palavras. Uma história simples, mas que não é assim tão simples, contada por quem não está bem com o mundo, nem com ninguém.
A experiência de vida de Josefina não lhe permitia fazer juízos sobre a vida de um homem mais velho e experiente, embora ainda jovem. A sensibilidade dela, que lhe permitiu perceber a densidade da personalidade de Sebastian, poderia tomá-la de vaidade ou excesso de confiança, na maturidade que não tinha, até iludi-la no convencimento de uma igualdade, proximidade e intimidade que ela, no fundo, sabia não existir.
Ele estava tão longe dela como na véspera, ou na semana anterior, mas o saber cada vez mais dele, o conhecer, o aprofundar, aumentava-lhe a curiosidade e o fascínio.

Quando desceu à cozinha, Sebastian estava de volta dos papéis, como sempre, e com a caneca de café fumegante na mão.
Maria mandou-a sentar, enquanto preparava o pequeno almoço. Mais uma vez, Josefina embaraçou-se. Era uma miúda, empregada de armazém, filha da lavadeira e do sapateiro, sem pretender ser mais do que é, aqui tratada como uma senhora importante, da cidade. A modéstia fazia-a saber que não era por ela, mas sim por Sebastian, mas, mesmo assim, o transbordar da consideração por ele até ela, desta maneira, só era possível pela importância que ele tinha para Maria, para os primos e para a William Richardson & Co. E ele impunha esse transbordo, de alguma forma.
O menino era mesmo especial.

Sebastian mal olhou para ela. Estava envolto nas plantas da adega e do armazém que trouxera com ele. Ele estudara todo o processo de produção e armazenagem, com plantas, esquemas, tabelas e quadros.
Quando entrasse na adega, saberia mover-se de olhos fechados entre lagares, cubas, prensas e bombas, saberia a disposição dos equipamentos e dos fluxos de material. No armazém, saberia a disposição dos lotes e as quantidades declaradas no inventário. Também saberia quantas pessoas trabalhavam em cada local e os nomes próprios de cada um.
Exactamente o mesmo método que lhe permitiu circular pelas vinhas, sem se perder, para confirmar as qualidades e disposições dos socalcos.
Se tudo não se encontrasse como levava na memória ou nos seus apontamentos, alguém se daria muito mal. Não admitia falhas de informação e era implacável com os erros por desleixo ou omissão. Ele não se intrometia na gestão da produção mas a informação tinha de ser fidedigna. Dela dependia a gestão e eficiência de todo o negócio.
Dizia que todos os erros têm de ser justificados. A incompetência serve de justificação, porque pode ser aferida e julgada, mas a ignorância é imperdoável. “Se não sabe, invente!”, era o seu grito de guerra.

Sairam de casa às sete horas em ponto. Ainda estava escuro, não estava ninguém na adega, nem sequer tinham a chave da porta.
Sebastian dizia que queria ver o nascer do sol, mas na realidade queria ver as pessoas a chegar, quem era o primeiro, de onde vinham, como se deslocavam, a rotina da abertura, a disposição. Pequenos pormenores de organização, informações que podiam fazer a diferença para tomar decisões dramáticas, se necessário.

“-A quinta tem dois responsáveis técnicos, o Francisco e o José.
O Francisco trata de tudo o que tem a ver com a adega e o armazém daqui. Recolhe as uvas, rala para o lagar, pisa, prensa, cuida da fermentação, dos tempos, das agitações. Trata das correções química, segundo o estipulado pelo laboratório. Bombeia para as cubas, armazena em pipas e reserva-as no armazém. É o vinificador, é o homem da adega.
O José é o homem das vinhas. Prepara os terrenos, planta, poda, aduba, trata e colhe nas vindimas.
Eles reportam aos meus primos, que, agora, decidiram mandar-me fazer o levantamento e controlo da situação.
Não gosto nada disto mas tenho de fazer o que mandam os chefes.
Não percebo nada de vinhas nem de vinificação. Pareço um fiscal.
Mas não interessa se é vinho, algodão ou carvão. Os procedimentos estão padronizados e têm de ser seguidos
A minha função é verificar se estão a fazer segundo as regras estipuladas, se registam os atos e os movimentos, se o que relatam é exatamente o que aconteceu aqui, se está tudo o que dizem, no sítio certo.”

Josefina mal conseguia acompanhar o raciocínio. Estavam de pé, à porta da adega, enquanto raiava a madrugada. Eram quase sete e meia e ainda não tinha aparecido ninguém. Sebastian parecia tenso. A juventude e responsabilidade pesavam.
Os patrões tomavam conta da promoção e vendas, viajavam e recebiam clientes, usavam a quinta para lazer e receção de convidados, mas receavam estar a desleixar a produção.
A competência e empenho de Sebastian, demonstradas no armazém, levara-os a confiar-lhe uma auditoria à quinta.

“-Onde é que aprendeu tanta coisa?”, perguntou Josefina, num elogio simpático para tentar desanuviar.

Sebastian não sorriu. Olhou em frente durante longos segundos.

“-É uma história, para contar mais logo ou amanhã. Não tem segredos mas é longa. Ou talvez não. Para mim é longa e inacabada.”

Josefina não compreendeu a resposta, mas não teve coragem de se esclarecer. Nem tempo. Já tinha surgido uma carrinha de caixa aberta, no topo do estradão de terra, a levantar pó nas curvas iluminadas pela primeira luz da manhã.

“-Bom dia!”
“-Bom dia!”

Um homem com pouco mais de trinta anos, moreno, cabelo e olhos pretos, monocelha, cara larga, a esforçar um sorriso de dentes grandes, que lhe ficava mal, dirigiu-se a Sebastian, de mão esticada.

“-Sr. Sebastian, sou Francisco Simões, o encarregado da adega.”
“-Muito gosto.”
“-Seja bem vindo e espero que esteja tudo de…”. Francisco ia continuar a falar, de olhos postos em Sebastian, quando este o interrompeu.
“-Apresento-lhe Josefina Madeira, minha assistente e futura responsável pelas auditorias à adega e vinhas.”

A Josefina, gelaram-lhe as entranhas, à inesperada apresentação, quando já se sentia transparente, como era habitual no trabalho entre homens. Mas não se descompôs, saudando com uma pequena vénia com a cabeça, sem esticar a mão.
Francisco ficou indeciso, tão surpreendido como ela. Manteve o mesmo sorriso aparvalhado. Se já tinha de lidar com o catraio inglês, magro, trinta centímetros mais alto do que ele, tinha agora de responder a uma miúda com metade da sua idade, ou menos, quase tão alta como o inglês. Bem, não era tão alta mas tinha de olhar bem para cima, para ela também.

“-Quem abre a porta? Tem chave?
“-Sim, sim. Sou que quem abre a porta todos os dias.”
“-Vamos lá! Faça de conta que eu não estou aqui. Tudo normal, dê início ao trabalho, eu vou observando e depois falamos. Temos tempo. Se eu tiver dúvidas pergunto. Depois vou precisar de muita informação sua, mas só mais logo.”

Francisco abriu o portão grande, para o logradouro, onde tinha parado a sua carrinha, acendeu luzes e dirigiu-se para um pequeno gabinete envidraçado.
Entretanto chegaram dois indivíduos, a pé, a entrar receosos e curiosos.
“-Bom dia Natércio, bom dia Cândido. Não me conhecem. Sou Sebastian Coleman. Esta senhora é Miss Josefina Madeira, minha assistente. Estamos cá para saber das vossas dificuldades e anseios, para, se for o caso, informar a gerência e aconselhar melhores práticas de trabalho.”

Josefina divertir-se-ia com a situação se não fosse a tensão que se sentia no ar. A atitude de Sebastian era desconcertante. A colocação de voz, o sotaque carregado e o surpreendente vocabulário. Natércio e Cândido não terão percebido tudo, mas não tiveram dúvidas sobre quem mandava e o que pretendia.
Josefina adorou o título de Miss. Sempre quis ser Miss.

Josefina Madeira . 7

Pelo meio da tarde, já subiam o último cerro por onde passava o estradão que ligava à vila. As pernas de Josefina estavam naquele ponto em que pesam, mas mal se sentem.

“-Agora só falta descer até lá baixo pela estrada. Vai ser rápido. Depois, descansar até ao jantar”.

O rápido dele era muito relativo. Ainda pararam duas vezes para nova observação, medição, fotografias e longos apontamentos. Enchera quase dois blocos com textos, números, esquemas, mapas.
Fotografara cachos, folhas, socalcos, montes, paisagem. Mudou de rolo três vezes.

Passaram pelas portas da adega e do armazém. Bateu, mas já não estava ninguém por lá.
“-Amanhã vimos para aqui.”

Sebastian foi direto ao terraço virado ao rio. Maria colocara lá dois cadeirões e uma mesa de apoio, de verga, com almofadas, que, àquela hora do dia, já estavam na sombra da casa. A porta de correr para o salão estava meio aberta.
“-Vou só lá cima pousar o saco e venho já para baixo.”
“-Sim. Também vou”
Quando Josefina desceu, Sebastian estava sentado na cadeira, com Maria de pé, a pousar um tabuleiro com uma caneca e dois copos.
“-Menina Josefina! Tem aqui uma limonada acabadinha de fazer.”
Josefina hesitou, embaraçada com o tratamento a que não estava habituada, mas sentou-se e serviu-se, depois dele. Estava cansada e água com limão iria saber mesmo bem.
D.Maria retirou-se e Sebastian ficou a olhar o rio, com o copo na mão, sem dizer palavra.
Durante longos minutos só ouviam a água no rio e alguns pássaros. Josefina estranhava. Sebastian era falador, contava histórias, ensinava muito, e agora estava ali, como se a ignorasse. Ela não se atrevia a interromper o silêncio.

“-Vivi nesta casa. Já cá não vinha há treze anos. Tudo mudou para mim, na minha vida, mas isto está na mesma. Até Maria.”

Josefina queria saber mais coisas, mas ele falava sem tirar os olhos da paisagem. Tentava não mostrar, mas estava comovido. Não olhava para ela. Serviu-se da limonada sem desviar o olhar. Ela já lhe conhecia estes momentos de isolamento.

“-Meninos! Vou servir o jantar às sete e meia.”
D.Maria interrompeu o silêncio quando Josefina já sentia o desconforto da brisa do rio. Os dias eram quentes, mas os montes e o rio arrefeciam o ar rapidamente, depois do pôr do sol.
Já eram quase sete horas, Josefina levantou-se. Precisava de tratar das suas roupas, queria saber com D. Maria onde lavar, como fazer.
Veio com ela para dentro.
O jantar já cheirava deliciosamente na cozinha.
“-A menina é minha convidada. Não faz nada. Faça o favor de me dar o que precisa que nós, amanhã, tratamos de tudo, e fica pronto ao final do dia.
A Josefina é convidada do menino Sebastian”, disse com um genuíno e rasgado sorriso.
Josefina insistiu, mas foi em vão. Foi ao quarto buscar as roupas que necessitava lavar e entregou a Maria.

Carne de vaca estufada com cenouras, ervilhas, e arroz branco. Pelos vistos era o prato preferido de Sebastian. Ele não o escondia. Serviu-se três vezes. Tanto que, no fim, foi ao salão buscar vinho generoso, para ajudar à digestão, num copo de pé alto. Ofereceu-lhe mas ela não quis. Nunca tinha provado mas sabia bem os efeitos nos imprevidentes.
Elogiaram o jantar e agradeceram, despediram-se de Maria e Alzira, que ficaram na cozinha, e foram para o terraço, com o compromisso de deixar tudo bem fechado, quando fossem dormir. Elas, quando saíssem, iriam pela porta da cozinha, nas traseiras.
Levaram as camisolas pelas costas, para prevenir os frescos do rio.

“-Vim para cá no outono de mil novecentos e quarenta e dois, pouco depois de fazer sete anos.”

Sebastian começou a falar, com o pequeno copo de vinho na mão, sentado na mesma cadeira do fim de tarde, a olhar para o rio, sob o céu estrelado, sem que Josefina lhe tenha perguntado nada. Como se se justificasse de tudo o que não dissera. Como se percebesse todas as dúvidas dela. Como se compreendesse que o estatuto dela não permitia fazer perguntas. E não permitia mesmo, pelas regras do trabalho, de género, de classe social e até de diferença de idades.

“-Vivia com a minha mãe em Grosmont, North Yorkshire.
O meu pai morreu em Al Alamein, em outubro desse ano. A minha mãe decidiu trabalhar na fundição do meu avô e dos meus tios. Era preciso ajudar no esforço de guerra.
Fundiam peças pesadas para máquinas, barcos e construção, componentes para locomotivas, carruagens e caminhos de ferro. Metalurgia pesada. Durante a guerra, começaram a produzir o que o governo pedia, de dia e de noite. Com os homens mobilizados, precisavam todo o tipo de mão de obra. A minha mãe, como sabia conduzir, foi guiar camiões.”

Aconchegou a camisola nos ombros.

“Eu não tinha com quem ficar. Durante semanas fiquei só, em casa, dias seguidos, com a minha bicicleta. Percorri milhas e milhas naquele tapete de flores rosa-púrpura. E o mar, aquele mar. Os penhascos sobre o mar. Passava dias inteiros sem ver ninguém. A brisa, o cheiro, os pássaros, o sol do fim de tarde a espreitar entre nuvens, o mar, eu e a minha bicicleta. A minha mãe não sabia que eu passava os dias fora de casa, naquele outono de quarenta e dois.
Um dia levo-te aos moors, North Yorkshire Moors.”

Fez uma pausa.
Estavam no escuro da noite, iluminados pelas estrelas.

“-Onde é Al Alamein?”, perguntou Josefina.

Levou o copo à boca mais tempo do que o necessário para beber.

“-É no Egito, perto de Alexandria.
Meu pai chamava-se Gerald Coleman. Era capitão do 1st Battalion, The Rifle Brigade.
Estavam cercados pelos alemães da Afrika Korps, mas avançaram, sob fogo pesado, e conseguiram romper o cerco. Foi o início da recuperação. Deixaram de recuar e só pararam em Berlim, três anos depois.
O meu pai morreu em combate, na primeira noite da batalha, quando romperam o cerco. Dizem que ia à frente dos homens, a apontar o caminho.
Madrugada do dia vinte e quatro de outubro de mil novecentos e quarenta e dois.”

Outra longa pausa

“Recebemos uma carta de condolências assinada pelo rei, meses depois. E uma condecoração póstuma, no fim da guerra.”

Olhou as estrelas.

“-A minha mãe foi muito abaixo. Quis ir trabalhar imediatamente, para se ocupar. Também tinha medo de uma invasão ou outra loucura de Hitler. Queria proteger o filho. Portugal era neutral.”

Sebastian pausava as palavras. Como se falasse só para si. Parecia que estava falar pela primeira vez.

“Os Richardson são nossos primos. Estão em Portugal há muitos anos. Durante a guerra, os meus primos John e George, foram mobilizados para Inglaterra, para serviços de apoio à tropa. O pai deles, que era viúvo, ficou só, a tomar conta do negócio.
John vinha visitar o pai, no Natal de 1942. A minha mãe, sabendo disso, pediu que me trouxesse com ele. Ela tinha medo e pouco tempo para mim, com o trabalho
Arranjou autorizações e documentos, e vim cá passar o Natal.”

Josefina queria saber mais, fazer perguntas, mas continha-se

“-Quando cheguei, não me dei bem em casa do primo Wiliam, na cidade.
Era tudo muito austero. Casa grande, escura, vazia, fria, pessoal sisudo. Não gostei nada.
Em janeiro, depois de John voltar a Inglaterra, ele pegou no carro e viemos passar uma semana aqui.
Ia ser uma semana. Foram quase três anos.”

Saboreou o vinho outra vez e vestiu a camisola. Josefina imitou-o.

“-Eu não sabia uma palavra de português. Era uma quinta portuguesa mas não muito diferente da nossa cottage em Grosmont. Campo, animais, estrume, humidade.
Fui recebido por Maria. Praticamente adoptou-me como o filho que ela nunca teve. Era viúva. O marido dela tinha morrido novo, mais ou menos quando eu nasci.
Quando cheguei, Wiliam quis que eu ficasse no quarto ao lado do dele, naqueles por cima das escadas, os deles. Um quarto enorme, decoração pesada, cheio de retratos. Tive medo. A primeira noite foi um terror. Não dormi, chorei, mas não pedi ajuda. A casa faz barulhos. Parece assombrada. Eu era muito pequeno, tinha saudades da minha mãe.
No dia seguinte, Wiliam perguntou-me se tinha dormido bem e não consegui esconder. Confessei que tive medo, não conseguia dormir sozinho. Ele não me disse nada, era de poucas palavras, mas nesse dia perguntou a Maria se podia fazer companhia à criança.
Assim na segunda noite, Maria ficou comigo até adormecer. Foi assim, todos os dias, até eu voltar para casa, no fim da guerra.”

Apontou para o caminho para a adega.

“-Maria morava na casa do caseiro. Onde vive agora, embora já não haja caseiro. Nesses três anos, viveu comigo aqui. Dormia no quarto onde estás agora. É o quarto dela. É o especial, para pessoas especiais.
Ela é que diz. Não sei.”

Se não estivesse escuro, Josefina teria-o visto sorrir, depois de lhe terem escorrido lágrimas com as recordações.

“-Mas só dormi naquele quarto, dos primos, mais uma noite
O William confiava muito na Maria. Ela percebeu que eu precisava de um quarto de criança e, então, pediu-lhe para arranjar o quartinho da torre.
Os meus primos, os tios antes deles, e outros, talvez, usavam a torre, em miúdos, como quarto de brincadeira. O quarto dos brinquedos era a torre do castelo, na imaginação das crianças.
Sobe-se pela escada de caracol. Depois mostro-te.
Maria pôs lá uma cama, arranjou a seu gosto, e fez o meu quarto, o meu castelo. Das janelas mais altas, vigiava tudo e Maria vigiava-me as escadas. Sentia-me seguro.”

As recordações andavam mais depressa do que as palavras.

“-Cheguei lá, ontem à noite, e ainda é o meu quarto. Está igualzinho a quando eu fui embora. Não houve mais crianças. Os meus primos, John e George, que são mais velhos, nunca casaram nem tiveram filhos. Ficou o meu quarto.”

Estava a ficar tarde. Já eram quase onze horas, pelo relógio dele. Na manhã seguinte tinham de se levantar cedo. Sebastian queria chegar à adega antes de todos, como sempre. Gostava de ver as pessoas a entrar. Dizia que ganhava mais de meio dia de trabalho, com isso.
Recolheram as almofadas dos cadeirões e fecharam bem a porta, como recomendara Maria. Subiram ao primeiro andar, Josefina seguiu para o último quarto do corredor, à direita, e ouviu os passos de Sebastian nos degraus de madeira da escada de caracol, que ainda subia mais um ou dois andares. Ficou curiosa. Ele disse que mostrava.

Josefina deitou-se a pensar na história fantástica que Sebastian contara. Guerra no Egito, orfão de pai, carta do rei, longe da mãe. Estava no quarto de Maria, a guardiã do menino.
Sentia uma convulsão de sentimentos, confusos para os seus verdes treze anos.
Sebastian era um líder, sabia tudo. Duro, autoritário, exigente, mas justo e sempre doce e atento com ela, quase paternal. Mas ela também sabia que não o desiludia. Aprendia rápido. Era fina, como dizia a sua mãe. Não tinha medo ao trabalho e, com ele, aprendia coisas novas, todos os dias. Ele mostrava-lhe um mundo que ela nem sonhava. E contava e explicava-lhe tudo.
Era um irmão mais velho. Ou um tio mais novo, talvez. Faziam dez anos de diferença.

Ele hoje parecera-lhe um menino, como ela nunca tinha visto. Ficou com inveja de Maria, que o deve ter abraçado e consolado tantas vezes.
Também queria abraça-lo.

Adormeceu a sonhar com príncipes e castelos.

Unfinished Sympathy

I know that I’ve imagined love before
And how it could be with you

Really hurt me, baby, really cut me, baby
How can you have a day without a night?
You’re the book that I have opened
And now I’ve got to know much more

The curiousness of your potential kiss
Has got my mind and body aching

Really hurt me, baby, really cut me, baby
How can you have a day without a night?
You’re the book that I have opened
And now I’ve got to know much more

Like a soul without a mind
In a body without a heart
I’m missing every part
I don’t know where this one came from

(Andrew Lee Isaac Vowles / Robert Del Naja / Shara Nelson / Grantley Marshall / Jonathan Sharp / Massive Attack)

Josefina Madeira . 6

Sebastian chegou ao pátio a sorrir para a casa e para a paisagem. Deu a volta ao lago, passando com mão como se alisasse a borda de pedra, chapinhou água para o Tritão, ao passar-lhe pela frente.
“- Vês como não tenho medo de ti?”
“- Que disse?”, perguntou Josefina.
“-Nada, nada… Estava a falar para mim.
Espera aqui que eu já venho.”

Encostou a sua bagagem, um saco grande, cilíndrico de lona verde, à parede húmida do lago, e desapareceu pelo lado esquerdo, para trás da casa.
Josefina ficou, a olhar em volta. O lago ficava em frente a uma porta de madeira azul escura, com um batente de garra de leão amarelo reluzente. Um pequeno telhado envolvido em heras, abrigava a entrada das intempéries. O terraço abria-se para frente da casa e das vidraças das salas de jantar e de estar, viradas ao rio. Josefina imaginava senhoras de vestido comprido, agitando leques, e senhores de casaca, a conversar entre bufaradas de charuto, refrescando-se após o jantar, no ar fresco do rio, como vira nas gravuras de um livro de princesas da professora Amélia. O rio fazia barulhos nos degraus e no cais. Os homens tinham amarrado o barco, mais à frente, e já haviam desaparecido. Um pássaro preto, grande, passou rápido sobre as águas, enquanto o sol desaparecia por trás dos montes altos. Os socalcos lá de cima, na outra margem, ainda estavam iluminados.
Sebastian não aparecia. Não queria ir atrás dele. Ele disse-lhe para esperar.

Estava quase para se sentar na pedra, quando a porta grande se abriu. Sairam Sebastian e D.Maria. Ela era muito mais pequena do que ele. Não que fosse muito baixa, ele é que era grande, mas o contraste aumentava porque vinham abraçados, ou melhor, ela vinha abraçada quase à cintura dele, com a cabeça encostada ao peito.
“-O meu menino, o meu querido menino que eu não via há tantos anos”, dizia D.Maria enquanto erguia os braços para lhe puxar a cara e pespegar mais uma sonora beijoca. Ela estava genuinamente emocionada, enquanto enxugava as lágrimas com um lenço que tirara do bolso do avental. “-Meu querido menino”. Sebastian olhava Josefina como um misto de embaraço e diversão, mas também se notava os olhos marejados, por mais que ele se contivesse.
“-Maria! Esta é Josefina. Ela veio comigo para aprender aqui umas coisas da vinha.”
“-Que alta e bonita”, disse Maria enquanto lhe dava dois beijos repenicados.
“-A D. Maria tem o nome da minha mãe”, ajeitou Josefina para tornear o embaraço do elogio.
“-Ó filha, Marias somos todas”, disse com um sorriso largo. “Vamos para dentro. Está a ficar fresco. Peguem nas vossas coisas!”

O hall abria-se, à direita, por dois degraus, para o salão de estar, Em frente, as escadas de mármore branco subiam até ao piso superior.
“-Vamos lá cima, para vocês se refrescarem da viagem. O jantar está quase pronto.”
As escadas terminavam na frente de um longo corredor de soalho de madeira escura, com uma tapeçaria vermelha, fofa e espessa, presa com ganchos de latão amarelo polido espaçados a cada três metros. As paredes eram revestidas a papel de parede, com flores azuis, em tom pastel, seis portas de cada lado, de madeira da cor do soalho. Entre as portas, pequenos candeeiros de parede imitavam velas em jarros de vidro fosco. A parede, ao fundo do corredor, era uma grande janela de vidro aberta para a encosta de vinha, que ainda deixava entrar a luz de fim de tarde.
Maria seguiu à frente e abriu a última porta do lado direito.
“-A menina Josefina fica aqui. É o meu quarto preferido.”
Josefina virou-se para Sebastian, que sorriu. “-Mas eu pensei que…”
“-Deixa-te estar! Depois conversamos com calma. Agora instalas-te e descansa. Daqui a uma hora temos uma sopa quente para comer. E mais qualquer coisa, se calhar.”
“-Não tenho relógio…”
“-Eu venho chamar-te”.
Deixaram Josefina no meio do quarto, saíram e fecharam a porta. Ela não percebia. Era uma empregada de armazém, que viera uns dias de trabalho, até à quinta, e instalavam-na num quarto de hóspedes, numa casa que lhe parecia um palácio.
O quarto tinha uma enorme cama de casal com uma cabeceira almofadada. Entre os pés da cama e o aparador acedia-se à janela de guilhotina, emoldurada por uma cortina pesada, que dava para o rio, sobranceira ao terraço do rés do chão. Ao lado, um criado mudo, um pequeno armário guarda vestidos e um sofá. Do lado oposto da cama, junto à porta do quarto, outra porta dava para casa de banho. Azulejos brancos de flores azuis, um lavatório de pé, sanita e bidé, e uma enorme banheira de ferro lacado a branco, apoiada em quatro patas de leão de latão amarelo.
Josefima estava incomodada. Pensava que ia dormir num dormitório ou camarata. Nem tinha roupas para aquele ambiente, fosse qual fosse o ambiente. Só trouxera duas mudas de roupa na sua pequena mochila. As da roupa de trabalho, as suas jardineiras.

Passado uma hora, bateram à porta. Era Sebastian.
“-Pronta? Vamos jantar?”
“-Estou, mas queria saber…”
“-Não te incomodes com nada. Vamos jantar e deitar cedo. Amanhã temos muitos quilómetros para fazer. E depois vemos tudo.”
Josefina percebeu que Sebastian estava deliberadamente a não querer ouvi-la. Depois falariam sobre isso.
“-Ali são os reservados da família e o acesso à torre das crianças.”, disse, a sorrir, apontando para um pequeno alpendre que dava para duas portas e uma escada de caracol, estreita, por cima da escadaria. Eram os quartos por cima do hall e o torreão.
“-Anda! Vamos à sopa.”

Nos rés do chão, junto à entrada, do lado oposto ao salão, um corredor de serviço passava pela casa de banho e dava, diretamente para copa e cozinha.
Na copa estava uma mesa posta para dois. A porta para a sala de jantar estava fechada.
“-Comemos aqui, junto à Maria. Está bem para ti?”
Ele parecia justificar-se. Ela já só encolhia os ombros e olhava para baixo, envergonhada.

Jantaram frango assado no fogão a lenha, com batatas assadas e arroz de forno. Estava delicioso.
“-Era um dos meus pitos”, dizia Maria a sorrir. “-Se sobrar, vou desossar e fazer um bom farnel para vocês, para amanhã.”
Sebastian e Maria passaram o jantar a falar de nomes e de gente que conheciam doutros tempos. Até do padre.
No fim, Josefina preparava-se para levantar e arrumar, mas Maria não deixou.
“-Está aí a chegar a Alzira e arruma e limpa tudo num instante.”
Pouco tempo depois, entrou uma miúda pouca mais velha do que Josefina, que olhou para ela com cara séria. Era uma das ajudantes de Maria, para os trabalhos pesados. Maria tinha um estatuto de cuidar, orientar e cozinhar. Comportava-se como a dona da casa.
“-Agora, dormir! Amanhã, despertar às seis. Eu bato na porta do teu quarto.”

Josefina deitou-se no melhor quarto em que já estivera. Só conhecia o seu de casa, é certo, mas este era o melhor que já imaginara. Não fechou as cortinas. A noite estava escura, sem lua. Queria adormecer a ver o contraste dos montes no céu estrelado.

No dia seguinte, desceu o dia ainda mal despontava. Sebastian tinha-a acordado há pouco mais de meia hora, e já estava sentado à mesa, na copa, com mapas, maços de folhas soltas impressas e um dos seus blocos de apontamentos, com uma caneca de café.
“-Vamos dar a volta à quinta. Vou-te mostrar tudo o que temos e como fazemos. Estás preparada para andar? São sete horas de caminho. Só paramos para beber água e comer.”
Josefina preparava-se para responder e já aparecia D.Maria com um cesto de pão, ovos cozidos, manteiga, queijo, compotas, um jarro de leite e mais café.
“-Bom dia, menina. Não quero que vá para sua casa dizer que a tratamos mal.
Podem comer à vontade. Já tenho ali separado o vosso farnel, com o frango que sobrou do jantar.”
Josefina já só agradecia. Sentou-se a comer.

Às sete em ponto, saíam pela porta da cozinha, para as traseiras da casa que dava diretamente para a vinha. Um longo caminho íngreme subia quase na vertical, entre socalcos.
Sebastian, com as suas calças curtas, meias de cano alto, botas de montanha, camisa branca, chapéu de abas largas e lenço ao pescoço, levava uma mochila com os seus papéis e instrumentos, garrafa de água, e o farnel de D. Maria.
Josefina ia com a sua roupa de trabalho, jardineira, botas, camisa branca, agora percebia a utilidade do chapéu de abas, e um grande lenço branco, emprestado por Sebastian, atado ao pescoço, “-Para o suor, para afastar as moscas e para proteger do sol do meio dia”, dizia ele, e uma sacola a tiracolo, com uma garrafa de água, um bloco de notas e lápis.

A primeira subida, no fresco da manhã, quase derrotava Josefina. A inclinação era bastante acentuada, parecia interminável, mas o pior é que Sebastian parou três vezes. Em cada uma delas olhou as folhas das videiras, observou os pequenos cachos e tomou apontamentos. Quando chegaram ao cimo, a vista era deslumbrante. Banhados pelo sol nascente, estavam num dos pontos mais altos em vários quilómetros. Era um cume careca de onde se via a casa, a adega e os anexos, ao fundo, junto à água, a curva do rio, o cume na outra margem, quase tão alto como este. O monte era quase cónico, com um vale profundo onde corria um riacho, do lado sul para poente, até ao rio, e um estradão de terra, do lado nascente, a serpentear na descida até à adega, a confinar com novas elevações também com vinhedos em socalco.
“-Cada monte, cada encosta, cada socalco, tem uma casta, a sua idade e uma história. Os ventos, as humidades, os orvalhos, tocam cada planta de maneira diferente, consoante a sua disposição em relação ao sol e ao rio. Os nevoeiros matinais e a duração e orientação solar, são fundamentais, a par da qualidade, da química e da irrigação do solo, para a força e fecundidade da planta. Também temos de escolher a casta mais apropriada a cada uma destas condições. Depois é preciso cuidar de cada pé, como o ser vivo independente que é. Podá-lo, penteá-lo, vacinar como uma criança, medicá-lo se necessário. Um bom viticultor conhece cada um dos seus milhares de pés.”
“-Tu conheces cada um deles?”
“-Eu, não. Mas há cá gente que os descreve a quase todos de cor.
Hoje estou a fazer uma vistoria de rotina. Venho confirmar a saúde e a produção do ano”, disse enquanto abria o mapa que tirou da mochila.
“Nós estamos aqui”. Apontou para o centro de um conjunto de linhas de nível quase circulares. “Vamos descer por aqui, atravessar esta pequena ponte, subir lá cima”, e estendeu o braço para o riacho a sul e para o monte a seguir. “Depois vamos descer outra vez, almoçar aqui, numa sombra com água”, seguia com o dedo no mapa e apontava com o braço, como se fosse lá para longe, para trás dos montes. “Cada vinha, cada encosta, tem um nome. Vamos passar por todas. Anda!”

Desceram a encosta. Sebastian parava, tomava notas, fotografava, observava as folhas, media os cachos, alguns chegou a pesá-los, com um pequeno dinamómetro. Atravessaram no riacho, subiram a outra encosta. Sempre com as mesmas rotinas, as mesmas análises e registos.
Quando chegaram ao segundo cume, não tão alto como o primeiro, já apertava o sol do meio da manhã.
“-Paragem técnica”. Sebastian tirou do saco uma bisnaga amarela. “-Australian sunscreen”, e começou a espalhar um óleo castanho nos braços, pescoço e na cara. “Peles claras como as nossas não suportam estes raios solares”.
Josefina não sabia o que era. Nunca tinha visto tal coisa, mas fez o mesmo, quando ele lhe passou a bisnaga. O cheiro era agradável.
Depois tirou o lenço do pescoço e atou-à volta da cabeça, de maneira que lhe caía sobre os ombros. Pôs o chapéu na cabeça e era como se tivesse uma cortina a toda a volta, por debaixo do chapéu. Ficava cómico mas parecia eficaz.
Pegou no dela e fez-lhe o mesmo. Era agradável. Fazia sombra no pescoço e nos ombros, e o ar circulava à volta da cabeça. Só a cara ficava destapada, mas protegida com o perfumado creme australiano.
“-Já foste à Austrália?”
“-Não. Mas gostava de ir para lá fazer vinho. As terras são boas para isso. Queres vir comigo?”
Josefina corou. “Claro que vou!”, respondeu sem mexer os lábios.

Josefina Madeira . 5

Maria não gostou do que viu. A filha, uma criança com treze anos acabados de fazer, a despontar mulher, vestida de homem, de roupas claras e cabelo quase solto, encantada no primeiro dia com um trabalho de rapaz, a lidar com um inglês sabe-se lá com que vícios, embora novo, vá lá.
Maria não era sensível aos mal-dizeres e pior-achares da vizinhança, até porque a sua vida já há muito caíra na má língua e julgamento da rua, mas tinha para si que as mulheres deveriam sempre ser discretas, vestidas de escuro, saia comprida, pernas tapadas, cabelo apanhado e cabeça coberta.
Parecia obra do demo. Um dia de trabalho, veste-se à homem, aprende coisas estranhas, fala inglês, que ela nem imaginava que sabia, vem com a cabeça no ar, infetada de outros ares, e um sorriso tonto que felicidade não haveria de trazer.
Isto não estava bem, mas não tinha alternativa. Que haveria de fazer? Fechá-la em casa? Mandá-la de volta para a pensão? Seja o que Deus quiser, há-de se resolver, e o que lhe pagarem, que não será menos do que ganham as lavadeiras, será sempre bem vindo para compor as contas do fim do mês.
Na manhã seguinte, obrigou-a a prender o cabelo com um puxo bem embrulhado, sem pontas soltas
“-O trabalho pode obrigar-te a andar com calças de homem, mas uma mulher decente só sai à rua com o cabelo bem amarrado.”

Mas o cabelo dela andava cada vez mais solto.

Os dias seguiram-se relativamente monótonos.
Sebastian tratava de burocracia dos papéis, rececionava guias de transporte dos barris desembarcados, destinava-lhes lugar no armazém, preenchia as grelhas de inventário, decidia que pipas iam para engarrafamento consoante os pedidos, atualizava inventário, fazia relatórios para a administração, preenchia livros de registo. Já confiava no trabalho de armazém de Josefina.
Ela verificava tudo, executava ordens e instruía os homens das cargas, nas cordas e nos carrinhos de mão, devolvia os documentos com a confirmação da execução, colocado no lugar ou despachado para expedição. Dava uso ao lápis, escrevia nas grelhas de existência, apontava no bloco o que se justificasse relatar, acendia a lanterna para confirmar os códigos na penumbra do armazém.

Mas ainda não vos disse para que servia o volumoso martelo de madeira que também trazia na sacola.
Tanto no chão como empoleirados em cima um dos outros, os barris assentavam em barrotes de madeira e firmavam-se com cunhas, também de madeira. Com o movimento de carga e descarga, era necessário que as cunhas e barrotes estivessem sempre sob tensão, para que não houvesse folgas e rolamentos dados ao desastre. Tinha de estar tudo bem firme. Um dos cuidados que Josefina tinha de ter era bater nas cunhas, tanto para apertar como para confirmar o aperto. Este foi um dos primeiros conselhos de Sebastian, logo no primeiro dia. Quando Josefina andava de volta das pipas recentemente remexidas, que era quase sempre, todos os dias, batia com o maço. O seu zelo fazia com o toque-toque-toque fosse recorrente.
Toque-toque-toque.

Passou uma semana, duas, o mês de fevereiro, chegou a primavera e o bom tempo. Abrandou o ritmo de engarrafamento. O vinho que envelhecia requeria repouso, e já havia mais espaço para novas chegadas. O que se vendia de garrafas saía do outro armazém, para lá do engarrafamento, e o que saia do de Josefina, era para reposição desse.

O trabalho dela era solitário. Mas quando era em equipa, com o pessoal das cargas, ela dava as instruções, o que não era bem aceite pelos homens. Receber ordens de uma adolescente vestida de homem e que falava a língua dos patrões. Josefina falava cada vez melhor inglês. Tinha jeito para as línguas, já se tinha apercebido a professora Amélia, em bom tempo, mas, agora, ela e Sebastian tinham combinado ensinarem-se mutuamente, a língua um do outro. Corrigiam-se e progrediam rapidamente no vocabulário. O sotaque dele é que continuava um desastre e trocava sempre os géneros. Porque é que um camião de carga é masculino e uma camioneta de passageiros é feminino? E ria-se com a sua própria piada.

Com a primavera, os hábitos e horários de Sebastian também mudaram. Continuava a trabalhar desde muito cedo, e ao fim do dia ainda ficava, quando todos já iam para casa, mas agora, durante o dia, saía por volta das onze horas e só voltava depois das três. Deveria ir almoçar a casa, pensava Josefina. Ela sabia muito pouco dele. Era reservado sobre a sua vida privada. Tão reservado que isso lhe dava cada vez mais confiança. Nunca uma palavra era mal interpretada, não era irónico nem indireto. Exigente, duro quando necessário, estava sempre disponível para a atender, formar e ensinar. Tinha sempre um sorriso para ela. Mas tinha um mundo só dele. Também não era muito íntimo dos primos Richardson. Josefina mal os via. Raramente iam ao armazém. Ficavam pelo escritório, que era ao lado do de Sebastian, mas entravam sempre pela porta principal, diretamente da rua do cais. Eram mais velhos, dois irmãos, com idade para serem pais dele. Andavam sempre bem vestidos, de fato e gravata, sérios e circunspectos. Recebiam muitas visitas, todos estrangeiros. Nesses dias, era quando ela os via. Vinham ver as pipas.

O edifício tinha um armazém no piso térreo, virado ao rio. Servia de garagem para os Richardson e para arrumos temporários. Não era usado para vinho por causa do risco de cheias, que ocorriam com demasiada frequência no inverno. O portão era mesmo ao lado da porta principal. A de acesso ao hall e às escadas que serviam os escritórios da administração, no primeiro andar.
Um dia, ao fim da manhã, Josefina foi ao cais acompanhar uma descarga de pipas para o seu armazém. Fazia confirmações de rotina, de referências e quantidades, quando ouviu um ruído forte de uma mota a acelerar. Virou-se e viu a figura inconfundível de Sebastian, alto de calças curtas, capacete de couro, enormes óculos de proteção, a sorrir-lhe enquanto saía da garagem, numa vistosa e ruidosa mota verde. Ele era surpreendente. Aquela imagem ficou-lhe, até pelo ridículo. Deliciosamente ridículo.

Nos dias seguintes, não teve coragem de fazer perguntas, sobre a mota, sobre ele, sobre a vida dele. Ele falava pouco, já disse, e nunca puxava conversa. Não era casado, mas devia ter noiva. A um rapaz tão bonito, inteligente e bem educado, não lhe faltariam pretendentes. Ele coxeava. Ela questionava-se se seria doença ou acidente. Acidente de mota? No trabalho? Queria saber, era curiosa, mas continuava sem coragem. E podia levar a mal. Ele falava de tudo, mas nunca fez perguntas da vida dela, nem falava da dele. Isso também a fascinava. Esse mistério, que a poderia incomodar ou afugentar, também a atraía. Ele nunca era indelicado, com boas maneiras, próximo, mas sempre a uma distância respeitadora, olhava-a nos olhos com confiança. Parecia um irmão mais velho, ou um tio novo, mas para melhor, sem o amargo e o risco do excesso de familiaridade.

Em meados de julho, aconteceu uma das melhores experiências da vida da jovem Josefina. Sebastian precisava de ir às quintas, às vinhas das terras altas, a montante no rio, combinar todos os procedimentos do pós vindimas que seriam em setembro. Ele não tinha nada a ver com o processo da colheita, mas era necessário prever quantidades e datas para que tudo corresse pelo melhor. As adegas das quintas tinham limitações de espaço, e era necessário conjugar trabalho com as caves de envelhecimento que ele geria.
Sebastian queria que Josefina fosse ver como era. Trataram de tudo antecipadamente, para que não houvesse urgências na ausência de ambos, e marcaram uma semana de trabalho de campo.
Sebastian fez questão de falar com Maria, para obter a sua anuência. Ela não gostou mas que mais podia fazer? Em seis meses, a filha já se tornara numa mulher que ela mal compreendia e já pouca mão tinha nela. Seja o que Deus quiser. O rapaz também é novo, parece atinado, Ernesto diz que é esquisito mas respeitador. Não há-de fazer-lhe mal, com certeza, e ela deve saber defender-se

Partiram num barco a motor, rio acima. Um dos barcos da companhia, que faziam descer o vinho. Aproveita-se o retorno para transportar químicos, ferramentas e produtos diversos. O barco era largo, de fundo chato, para passar nos baixios, uma barcaça de rio. Não era muito grande. Tinha uma pequena cabine, de comando, na traseira, que poderia abrigar passageiros, em caso de intempérie, e dois bancos corridos, com toldo, onde se sentara Josefina. Ela nunca tinha andado de barco. Não haveria problema, prometera-lhe Sebastian, a viagem era tranquila.
A viagem dura o dia inteiro, cerca de oito horas, trazem um farnel para o almoço. Além do piloto, e deles os dois, vêm mais dois homens, dos trabalhos das vinhas, que vieram à cidade e regressam com equipamentos vários, na carga.

A primeira hora foi interessante. A novidade, o casario, pessoas a acenar nas margens, as pontes vistas de baixo, mas depois a monotonia instala-se, na sucessão de curvas sem novidades ritmada pelo bater do motor.
Sebastian seguia de pé, na frente do barco, a observar tudo. Quando a paisagem começou a tornar-se chata para Josefina, ele tirou um pequeno bloco e um lápis da sacola, e começou a escrever. Também desenhava. Ela gostava de olhar para ele. O vento no cabelo claro, os olhos vivos, atenção a tudo. De vez em quando sorria-lhe. Mais à frente, meteu o bloco no bolso de trás das calças e o lápis na orelha, e tirou numa pequena caixa preta do saco. Olhou para ela, mexeu numa botões, e levou-a à frente dos olhos. Era uma máquina fotográfica compacta. Uma Leica IIIf, digo-vos eu. Josefina sabia o que era, mas nunca tinha visto uma máquina fotográfica portátil. Só conhecia a do fotógrafo da avenida, um caixote em cima de umas pernas altas, de quando tiraram a fotografia de família antes dos irmãos partirem.
O sol aqueceu e Josefina deitou-se no banco corrido da sombra do pequeno toldo e adormeceu. Quando acordou, com fome, Sebastian continuava de pé, lá na frente, a escrever e desenhar. Já tinha gasto quase meio bloco. Tirou mais uma foto. Ela não percebia. Parecia tudo igual. Margens com mato, árvores, casas dispersas, uma povoação de vez em quando.
Estava tudo normal. Ela sentia-se segura e confiante com ele.

A meio da tarde a paisagem mudou. Apareceram as primeiras vinhas e algumas imponentes casas de quinta. Apercebeu-se da excitação de Sebastian. Apontamentos, desenhos, esquemas e mais algumas fotos. Agora era mais interessante e já sentia a ansiedade de que iriam chegar a algum lado.
Numa curva larga do rio, para a esquerda, surgiu de repente, na margem direita, uma casa grande. Enquadrada por árvores frondosas, cor de rosa escuro, com janelas altas e telhados vários e pontiagudos, um enorme terraço na frente, com um Tritão a jorrar água pelo tridente para uma fonte redonda, uma escadaria descia até às águas do rio, com um pequeno cais. Era a casa mais bonita que ela já tinha visto. Quase não se via, quando se subia o rio, mas, vista de frente, impressionava.
Às vinhas desciam até perto do rio, em socalcos, tanto de um lado como do outro da casa. Afastado, ligado ao cais e à escadaria, por um estradão calcetado, havia um armazém e o que devia ser a adega.
O barco abrandou e manobrou para acostar. Sebastian deu-lhe a mão, para a ajudar a sair, e rapidamente começou a subir os degraus até ao terraço. Ele andava sempre depressa. Nem parecia coxo.

A casa era a habitação de férias dos Richardson, mas eles só ocupavam parte. Sobranceira ao pátio da frente, havia, no primeiro andar, uma varanda de pedra revestida a heras, com duas enormes portadas. Eram os aposentos privativos da família, que também incluíam o torreão lateral que subia acima do nível do telhado principal, com os quartos de crianças de várias gerações.
No rés do chão, virado ao rio, havia uma sala de jantar com uma mesa enorme rodeada de cadeiras, e outra sala, de estar, com cortinas grossas floridas de azul e amarelo, sofás com almofadas de várias cores separados por mesas baixas e abat-jours, paredes forradas a papel também florido, cobertas de quadros de paisagens românticas, águas paradas e fins de tarde mediterrânicos, espelhos, pratas e vasos, livros, muitos livros, candeeiros de cristais suspensos ao centro, e lareiras nos topos, uma em cada sala, decoradas com o negrume de fogos de invernos frios. Nas traseiras ficava a cozinha, a copa, sanitários e entradas de serviço.
No primeiro andar, além dos aposentos privados, havia um comprido corredor central, que terminava numa janela, com portas para os quartos virados ao rio, de um lado, e para os quartos virados aos socalcos, do outro. Seis de cada lado. Os quartos serviram hóspedes nas recepções que a família deu durante décadas, noutros tempos. Agora era para clientes, em ações comerciais,e alguns eventos.
D. Maria vivia numa das casas da quinta, a cerca de cem metros da principal, a caminho da adega. Era viúva de um antigo feitor que morreu novo. Por lá ficou. Cuidava, guardava e orientava a limpeza e manutenção. Além disso, e mais importante, era uma excelente cozinheira. Conhecia Sebastian desde criança, mas já vos conto essa história.

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