Os livros são como as pessoas. Há os solenes, os de capa rija, os flexíveis, os de bolso, os ilustrados e chamativos, os rudes e ásperos, os pesados de folhas grossas em contraste com os de papel fino quase transparente, os velhos e desgastados, os que perdem brilho, os maltratados, vincados e sublinhados ou manchadosContinue reading “Os livros são como as pessoas”
Author Archives: Rui Rodrigues
Josefina Madeira . 22
O cargueiro acelerava para norte, deixava o conforto da costa e lançava-se no escuro Atlântico adentro, rompendo as vagas, em sucessivas explosões de espuma. Sebastian agarrava a amurada e olhava o horizonte. Finisterra, fim da terra, fim do mundo romano, terra de Santiago, de Pelayo, dos reis de Leão, de nevoeiro, morrinhas e bruxas, deContinue reading “Josefina Madeira . 22”
Romancista como vocação
“Na vida, todos tivemos uma fase em que queríamos ser cool. Pouco antes de acabar o secundário, tomei a decisão de expressar apenas metade do que sentia. Já não me lembro do que me levou a isso, mas, nos anos que se seguiram, pus a minha teoria em prática. Um belo dia, descobri que meContinue reading “Romancista como vocação”
Josefina Madeira . 21
Acordou com uma ligeira dor de cabeça. Nada a que não estivesse habituado, nem que não se resolvesse. As réguas venezianas da janela, a nascente, filtravam a luz do sol da manhã de verão, refratada nas ondas da cortina branca transparente.Ligeiramente indisposto, mas com uma sensação agradável. Como se estivesse bem, correu bem, passou bem,Continue reading “Josefina Madeira . 21”
Sorte
O amor é forte e atrela promessas e compromissos, possessões e fidelidades. Faz-se dele um problema, mas o verdadeiro é muito simples: é fazer o bem pelo bem, sem estragar, nem esperar nada em troca.O amor é aleatório, inesperado, e nem todos o merecem. Calha em sorte. Alguns têm sorte.
Segredo
Segredos solitários, coletivos, de grupo restrito ou alargado, a dois, pequenos embaraços, grandes ofensas, comerciais, de estado, prescritos ou por descobrir, há de todos os tipos. Alguns são revelados em memórias póstumas, a maior parte é apagada num suspiro final, atormentando o último sobrevivente, cúmplice, e no respeito pelo silêncio dos que já não maisContinue reading “Segredo”
Páscoa
Páscoa é esperança e ressurreição, tempo de primavera e dias grandes, tempo de decidir e pacificar o espírito.Romper nem sempre é rasgar ou partir. Romper também é raiar na madrugada de triste véspera, e florir nos caules nus de fim de inverno.
Um tonto
Não se encontram todos os dias porque ele não lhe quer parecer mal e ansioso, preservando a estabilidade que guarda de si e que julga ser a mostrada aos outros, não suspeitando que, a um olhar mais atento, revela-se um homem sensível e vulnerável, camuflado na presunção de pairar acima de convenções, expondo-se na formaContinue reading “Um tonto”
Josefina Madeira . 20
Josefina divertia-se a ouvir a descrição da vida de várias gerações, passadas e futuras, do século dezanove ao século vinte e um, encadeadas como se o mundo fosse um contínuo temporal de tarefas e desafios, trabalhos herdados e deixados, em que nenhuma se podia gabar do êxito sem se lembrar e agradecer a todas asContinue reading “Josefina Madeira . 20”
Algarve
“A habitação primitiva é um cubo com uma porta e uma janela. Em cima a soteia, para onde se sobe por degraus de tijolos, e muitas vezes sobre a soteia o mirante. Entro num e noutro destes buracos com as telhas assentes em canas. Todos eles reluzem de cal. Dois compartimentos: a chaminé, que éContinue reading “Algarve”