Ítaca

“Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestregónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestregónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria – nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.”

Konstantínos Kaváfis
Tradução de Jorge de Sena
(Obrigado A.)

Abnegação


“Não sejas abnegado, não gosto, fica-te mal”, disseste-me secamente quando, mais uma vez, te cedia o melhor lugar.
“Não sejas abnegado” ficou-me horas na consciência. Fui procurar a definição exacta. Conheço a palavra mas não me lembro de a ter usado uma única vez. Abnegação, auto-sacrifício altruísta, acto de renunciar a algo em benefício de outra pessoa.
Percebo a tua relutância. Numa relação entre iguais, rejeitas qualquer tipo de paternalismo ou cavalheirismo sexista que só distorce a saudável e necessária camaradagem entre pares. Concordo. Neste sentido, abnegação, aparentemente uma diminuição do indivíduo perante o outro, também é uma forma de superioridade, humilhação, criação de um ascendente, como se dissesse “eu sou tão bom que até te cedo o lugar à janela, porque janelas é o que eu tenho mais”.

Mas abnegação tem outro sentido. Abnegação também é a acção ou o acto de renunciar a algo, em benefício de um objetivo maior, do bem-estar ou das necessidades de um grupo.

Sempre que fui abnegado em função de um grupo, da família à sociedade em geral, contribuí para o bem estar de todos, inclusive do meu. É certo que, se tivesse feito valer os meus direitos ou vantagens, nesses momentos, teria obtido mais valor ou conforto para mim próprio, mas secaria tudo à volta, qual onanista na torre de marfim do deserto. Não me arrependo.

Comigo, vais sempre à janela, a desfrutar da paisagem. Os teus olhos vão ser os meus olhos, o teu conforto vai ser o meu conforto, a tua felicidade vai ser a minha felicidade.

Coletivite

Andava com sintomas há já uns anos, mas adiava todos os verões o check-up prometido. Não precisava da palavra de um especialista para saber que o tempo só lhe estava a agravar a situação. Nem era só o tempo, mas também o espaço. Tinha dificuldade em encaixar-se. Não encontrava posição para a “coluna reta”. A verticalidade contrastava com as escolioses mundanas e de cada vez que lhe era pedido dobrar a espinha, as dores eram insuportáveis. Para além disso, tinha o coração deslocado: congenitamente veio situado ao pé da boca, o que lhe arrancava suspiros, para além das muitas palavras que não conseguia evitar dizer. Má sorte a sua quando, a acrescer a isto, os pés resolviam não ajudar e se fincavam juntos, obstinados e renitentes. E mais o raio dos pulsos, que se mantinham firmes. Tudo piorou quando uma vez lhe disseram que “não tinha estômago” para grande parte das situações que a vida lhe colocava diante. Como poderia então esmoê-las se não tinha um dos mais importantes órgãos do aparelho responsável pela digestão? Estava confuso e a pensar se necessitaria de medicação. Olhou para as mãos e serviu-se delas metendo-as na massa. Tentaria substituir os remédios pelo trabalho, considerando aqueles sabotadores deste. Acusaram-no, por isto, de ter maus fígados. O seu fado ameaçava-o agora com uma cirrose. A solução? Fazer dos ouvidos, moucos. Tudo aquilo estava a criar-lhe problemas no queixo, que lhe caía a cada diagnóstico. Queria fazer vista grossa de todas as suas mazelas, aceitando uma cegueira que lhe desse algum descanso mental, mas sentiu uma corda no pescoço, um nó na garganta, que só encontrou alívio quando se deixou deformar pela “coletivite”, uma inflamação aguda dos valores da ordem social que mata, mas só lentamente…

O estado de nós

Os Estados são criações humanas, artificiais, e, como tal, refletem as qualidades, os defeitos, os anseios e os riscos das relações individuais.

Quando os Estados têm de partilhar o mesmo espaço geográfico ou económico, partilhar recursos, riscos e oportunidades, dialogar e interagir por obrigação, surgem tensões que se acumulam continuamente.

As relações entre as pessoas, a longo prazo, são como os conflitos de baixa intensidade. Tensos, estáticos, pacientes e por vezes mortais.

Trapézio

A vida é um trapézio e cada um nasce com o seu. Mais alto ou mais baixo, com rede ou sem rede, frágil ou robusto.
Quando somos jovens, ensaiamos os nossos números, garbosos, com as lantejoulas a resplandecer os focos da atenção. Os mais destemidos arriscam e quando falham caem na rede tecida desde a nascença. Algumas redes são bem robustas, familiares, mas não são para todos. Há quem não tenha rede de todo e, chegando lá acima, arrisca uma queda fatal à primeira falha.
Os mais fortes sobem mais alto, os outros nem tanto. Alguns, frágeis ou medrosos, nem saem do chão.
A rede, em média, dura tanto como nós, mas é um corpo estranho. A duração é estatística, pode acabar no primeiro dia ou viver eternamente. Como o Euromilhões – é quase impossível sair a mim, mas sai sempre a alguém.
Continuo a fazer os meus números. Já caí na rede várias vezes e tive de voltar a subir a corda a pulso.
Os reflexos já não são os mesmos. Já não coordeno exatamente o fecho das mãos com o impacto na barra, mas, para já, vou sempre emendando. Um dia vou falhar e a rede pode já não estar lá.
Nesse dia, despeço-me esperando ter agradado ao meu querido público.

Porto de abrigo

Qual é o tamanho do maior amor que pode ser servido?
O amor vem em doses pesadas por uma balança ou em tamanhos medidos por uma fita métrica? É servido em pacote ou vendido em separado? Pode levar-se em takeaway ou é para ser consumido na loja? Podemos usar sem moderação ou arriscamos overdoses? Haverá efeitos secundários para a sua sobredosagem? É aditivo? Temos de compensar o seu défice? Necessita de prescrição? Como sabemos qual é a sua medida exata?

Um dia ele disse-lhe a ela: serei para sempre o teu porto de abrigo porque tu és o meu “amor maior”. Ela não sabia o que era isso de abrigo e pouco sabia sobre as dimensões do amor. Como não sabia, confiou. Não que também soubesse alguma coisa sobre as medidas da confiança, mas usou o intuitómetro. Acreditou. Sempre gostara de portos. Eram um dos seus cenários preferidos. Os recantos de águas mansas, onde barquitos convivem com ratos e gaivotas em aparente paz, sempre lhe transmitiram muita calma. Gostou de se imaginar aninhada nessa imagem. Primeiro, viu-se como um barco azul e branco, com bandeiras pequeninas e coloridas a baloiçar ao ritmo dolente da água; mas, depois, vestiu a pele de uma gaivota, como aquela que o Sepúlveda ensinou a voar, que não tinha as amarras do barco, mas servia-se da mesma tranquilidade. Deixou-se ficar muito tempo nesse porto, sem nunca ter quantificado o tal “amor maior”. Sabia que “maior” pressupunha a existência de outros, mas não perdeu tempo em coligir quais seriam todos os amores do seu porto de abrigo.

Um dia ele fez um disparate; desses que são tão insignificantes que nem merecem ser aqui contados. Com medo de ser julgado por essa asneirada, cometeu outra maior: de forma torpe e acobardada sacudiu para ela a culpa da sua tontaria, sacudindo vorazmente as águas do porto onde lhe prometera segurança. Os barcos agitaram-se, chocando uns contra os outros, rasgando madeiras e abrindo fendas, agrilhoados que estavam naquele cais; mas as gaivotas voaram. Voaram para onde a liberdade delas as permitia voar. Do alto, puderam ver melhor todas as proporções. Percebia-se agora que aquele porto fora desenhado e construído à medida de um grande afeto, mas arquiteto algum morre pela sua obra…há um amor que supera qualquer outro: o próprio.

Hipnagogia

Cansado e nervoso da tensão do dia e da sucessão de noites mal dormidas, deitei-me na cama, vestido sobre a roupa, e cruzei os braços sobre a cabeça, procurando alívio na pressão da dor latejante, do pulsar nervoso do cérebro contra o crânio. A cervical doía-me, perra como se faltasse lubrificação. Não conseguia dormir, esgotado, dorido, exausto, tenso.


Deitaste-te ao meu lado, de bruços, pousaste a cabeça no meu ombro direito, encostaste a tua face à minha. Senti a pressão do teu peito contra o meu, o teu braço sobre mim, o calor do teu corpo, o teu cheiro. Confortaste-me em voz baixa, grave, suave e doce.


Não sei quantos minutos dormi. Acordei e já não estavas lá. Nem podias estar – não sabias o caminho, nem como entrar.
Nunca mais vou esquecer o que me disseste, mesmo que não me recorde de uma única palavra.

Paul Auster, “4321”, capítulo 2.2

“Li três livros desde que cheguei”, escreveu ele na última carta, que datava de 9 de agosto, “e achei que eram todos fantásticos. Dois deles foram-me enviados pela minha tia Mildred, um pequeno de Franz Kafka chamado A Metamorfose e um maior de J.D. Salinger chamado À Espera no Centeio. O outro foi-me dado pelo marido da minha prima Francie, o Gary – Cândido, de Voltaire. O livro de Kafka é de longe o livro mais esquisito e difícil de ler, mas eu adorei-o. Um homem acorda uma manhã e descobre que foi transformado num inseto enorme! Parece ficção científica, ou uma história de terror, mas não é. É sobre a alma do homem. À Espera no Centeio é sobre um miúdo do liceu a vaguear por Nova Iorque. Não acontece muita coisa, mas a maneira como o Holden fala (ele é o herói) é muito realista e verdadeira, e não conseguimos evitar gostar dele e desejar que pudéssemos ser amigos dele. Cândido é um livro antigo do século XVIII, mas é emocionante e engraçado, e eu ri alto em quase todas as páginas. O Gary disse que é uma sátira política. Eu digo que é muito fixe! Tens de o ler e os outros também. Agora que os acabei a todos, o que me impressiona é como os três livros são diferentes. Estão todos escritos à sua própria maneira, e são todos muito bons, o que significa que não há apenas uma maneira de escrever um bom livro. No ano passado, Mr. Dempsey estava sempre a dizer-nos que havia uma maneira certa e uma maneira errada – lembras-te? Talvez na Matemática e nas Ciências haja, mas não com os livros. Fazem-se à nossa própria maneira, e se a nossa maneira for uma boa maneira, podemos escrever um livro bom. O mais interessante é que não consigo decidir de qual gostei mais. Seria de pensar que soubesse, mas não sei. Gostei de todos. O que quer dizer, suponho, que qualquer maneira boa é a maneira certa. Fico feliz quando penso em todos os livros que ainda não li – centenas deles, milhares deles.
Tanta coisa pela frente!”

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