Sofia . 2

Pedro não era corajoso o suficiente para dominar a aleatoriedade da vida, nem homem de fé para resignar-se tranquilamente ao desígnio de uma amada entidade superiora, aceitando as orientações impostas por opções e prioridades alheias. Mas não se deu sempre mal. Os seus sucessos eram justamente invejados, mas sentia-se sempre a reacção de outros actores, conformando-se num mal menor de outras decisões, como se fosse um especialista tático na resolução dos problemas quotidianos, mas nem fosse ouvido, ou não se fizesse ouvir, ou nem sequer falasse, nas grandes decisões estratégicas do mundo em geral, e da sua vida em particular.
Vezes sem conta decidira acabar discretamente com o enfado do desgaste do conduto que lhe era imposto, mas sempre adiava com o mesmo beneplácito com que aceitava as regras.
Da última vez, quase foi longe demais, ao ponto de lhe perderem o rasto. Desapareceu, mudou de nome, apagou contactos, encerrou contas. Qualquer investigador a meio tempo descobriria-o facilmente, mas não ser seguido nem procurado deu-lhe paz. Confirmou-lhe que aparentemente já ninguém o queria. Foi como se tivesse morrido. Deve ter ficado como memória num qualquer episódio medianamente cómico, em que estorvou alguém, ou como aquele “que é feito dele?” que fica sem resposta num comentário a uma fotografia esbatida encontrada no fundo de uma gaveta.
Agora era um quase sexagenário, ou já sexagenário, não interessa, perdeu a conta; instrutor de vela na primavera, passeador de turistas pelas Cíclades, no verão, no seu Blues Siren II, o pequeno veleiro de doze metros, guardador e cuidador de barcos no inverno.
O outono era a sua época de descanso. Com o início das aulas, rareavam os clientes de instrução, normalmente jovens adolescentes, os turistas dos passeios já tinham regressado às suas cidades frias, e os barcos dos marinheiros de verão ainda mal tinham sido atracados, para as limpezas e manutenções de inverno. Era o tempo para si. Viajava sozinho, procurava novas paragens, novas ilhas e enseadas, novas paisagens, outros alvoreceres e entardeceres, na incansável procura do sentido da vida. Também voltava a pequenos portos conhecidos, para rever casas e gentes, cheiros e ruídos familiares, depois do bulício do verão.
Ancorou na baía de Faros, Sifnos, um dos pousos certos, nas suas deambulações, desde que se radicara na vizinha Milos. Pouco passava do meio da tarde. Era um bom local para passar a noite,
Chrysóstomos saltou primeiro do barco para o bote de borracha, para se deslocar a terra.
-Ok! Queres ir, vais.
Largou a amarra, puxou a corda de arranque do pequeno motor Honda, e partiram ruidosamente para terra, numa baforada de fumo azul.
Chrysóstomos pulou para terra, logo ao primeiro encosto, e correu para longe da vista, em busca de todos os cheiros e excitações. Durante quase meia hora não valia a pena chamar ou procurar. Era o seu momento de introspecção e convívio com a natureza, farejar cães, gatos, todos os animais, aliviar-se, marcar território.
Pedro deixou a malga de alumínio cheia de água fresca no cais, junto à amarração, como sempre, para ele se refrescar quando quisesse.

Sofia bendizia o tempo mais ameno de outono. Já podia sair de casa, depois de um almoço ligeiro, e fazer a habitual caminhada de uma hora por trilhos poeirentos, descendo até a borda de água, para uma leitura com café, no Captain George.
Os cães ficavam, tomavam conta entre si e cuidavam da casa aberta. Para não a seguirem, bastava dar a ordem a E, o mais dinâmico e nervoso, mas também o mais obediente. Onde ele estivesse, D seguia-o sempre, B ficava com a maioria, e o grande A olhava-a triste, vendo-a afastar-se, porque a sua maior felicidade era dormir na sua casa, aos pés de Sofia, com os três amigos por perto. Das três condições contentava-se com a conjugação de duas, fossem quais fossem: com Sofia em casa, com Sofia e os três amigos, ou em casa com os amigos, como agora.
O trilho até à costa era especialmente agradável na primavera. Encontrava alecrim, tomilho, lavanda, mirto, hibisco, oleandros, murtas e amoras silvestres, mas num outono seco, como este, deliciava-se com o cheiro a caril da perpétua das areias, nas pequenas dunas junto a Faros.
O Captain George era como uma venda de aldeia de apoio aos marinheiros. Vendia fruta, legumes, conservas variadas, produtos de higiene e limpeza, latas de óleo para motores a dois ou quatro tempos, ceras e parafinas, servia sanduíches, gelados caseiros, tostas, café glacé, o melhor expresso do mediterrâneo oriental, além de vasta variedade de bebidas alcoólicas e cocktails. Tudo primeiras necessidades.
No verão, já começava a ter turistas de calções e sandálias a autofotografarem-se com o pequeno casario e barcos de pesca como cenário de fundo, que chegavam de motoretas e carros alugados à saída do ferry de Kamares, mas em outubro só sobravam os locais e velhos marinheiros passeantes, reformados de outras vidas.

Sofia tinha pena de nunca se ter habituado a livros digitais, pela economia e racionalidade da transmissão de conhecimento por kbytes. Tinha particular gosto em folhear papel. Havia livros muito bons mas também de histórias banais, medianamente escritos, de que se lembrava do sabor especial das folhas ou do cheiro das tintas. Já começara a empilhá-los, já não cabiam nas estantes. Não precisava de ordená-los. Conhecia-os pela cor e letras das lombadas, sem as ler ou sequer recordar-se dos títulos. O grafismo das lombadas despertava-lhe as emoções que sentira a ler os livros. Uma biblioteca emocional. Emocionava-se com os livros, os que lia e os que escrevia. Lia os que comprava online; uma dádiva do progresso, que lhe permitia receber em casa livros das melhores editoras e livrarias do mundo. Os que escrevia publicava no seu blog; alguém leria. Felizmente não precisava disso para viver.

Na mesa ao lado, quase de frente para si, estava um casal britânico a falar com um homem mais novo, de costas para ela. Mais novo é um eufemismo. Tinha cabelo grisalho e já expunha o couro craniano entre a cabeleira que já tinha sido farta, mas seria vinte anos mais novo do que os velhotes.
Falavam de ventos e correntes, conversa habitual entre desconhecidos no Captain George. Ele não era inglês. Falava relativamente bem, mas com o sotaque internacional comum. Deveriam ser daqueles dois veleiros que abanavam o mastro no meio da baía.
Ela distraiu-se e embrenhou-se no seu livro, enquanto agitava as pedras de gelo no café. Estava bem escrito e com o ritmo certo, que nos puxa ansiosamente para o capítulo seguinte.

Pedro levantou-se e despediu-se dos seus amigos de circunstância. Ficava sempre espantado com a destreza e coragem destes velhos marinheiros. O casal estava a iniciar o trajecto de regresso a Plymouth, via Sicília, Sardenha, Baleares, Málaga, Algarve, Lisboa, Vigo, Corunha, Cantábria e Bretanha. No ano seguinte voltariam, para mais três meses no Egeu.
Regressou ao bote e Chrysóstomos já estava lá dentro. Sentado, a abanar a cauda com os olhos vivos que mal se viam no meio de tanto pêlo preto encaracolado. A malga já estava vazia. Pedro pegou nela e desamarrou a corda.
-Hei! Esse cão é meu!, ouviu num grito de mulher atrás de si.
O mais surpreendente não foi o berro no pacato silêncio calmo de Faros. O que o surpreendeu é que o ouviu num idioma que já não ouvia há muito tempo: em português.
-Ladrão! Roubaste-me o cão!

Vazio

Houve um tempo que os bancos ocuparam os cafés na indignação de Manuel António Pina, mas agora o vazio enche-os no intervalo de fugazes imobiliárias de bairro e postos quase móveis de colecção de análises.
A cidade esvai-se.

Josefina Madeira . 24

Era um mundo diferente do que ele conhecia. Na verdade, além de Josefina, Sebastian não lidava com pessoas mais novas, e a realidade portuguesa, onde ele tinha vivido nos últimos seus anos, era muito diferente da que se lhe deparava agora.

Chegara a Manchester ao fim da tarde, de um dia cansativo de chuva e trânsito, entrando nos arredores sul da cidade pela A34. Depois da Oxford Road, passou o Victoria e o Whitworth Park, e avistou “The Queen’s Arch, Bed and Breakfast, Garage”, em frente ao “Café en Seine”. Pareceu-lhe perfeito. Cama e pequeno almoço, garagem para a Bessie, e um café parisiense para jantar.
Chamava-se “The Queen’s Arch” mas podia ser Metropol ou Central ou outro qualquer nome vulgar de hospedaria de cidade. Ia buscar o nome à pequena praça quase defronte, com um pequeno arco de pedra num jardim relvado, e nada tinha de clássico ou majestático. Entrava-se por uma porta de vidro e metal para o topo de um longo e estreito corredor paralelo à garagem onde guardara a mota. A pequena portaria ficava à direita, debaixo das escadas para o andar superior, guardada por um rapaz indiano que fazia questão de não mostrar os dentes. Não que se importasse, mas apreciava alguma atenção e simpatia.
O edifício não era propriamente a seu gosto, numa construção citadina recente, de paredes rebocadas a branco e quartos com mobiliário em fórmica, pretensamente modernista, luzes pálidas, mas suficientemente confortável e limpo para uma noite de descanso de viajante.
Pousada a bagagem, refrescou-se e desceu, para atravessar a rua, dificultado pelo trânsito na chuva do fim de tarde, para o café de Paris.

Nunca esteve em Paris, mas, como qualquer um que se interesse por literatura ou cinema, estava habilitado a reconhecer monumentos e ambientes, a ponto de julgar já não se perder numa caminhada pela cidade luminosa.
Uma porta branca, ao lado da montra aberta à rua, de vidro martelado com as letras “Café en Seine” em caligrafia francesa, a meia altura e a toda a largura, e com um debruado romântico florido, encaixilhada num rebordo de madeira do mesmo branco, abria para uma pesada cortina vermelho sangue, protetora do quente e enfumaçado ambiente interior, que se afastava para entrar.
As paredes espelhadas, dois enormes candeeiros de tecto, de vidros a imitar cristais, ementa escrita a giz em vários quadros de lousa, mesas redondas de tampo de mármore rodeadas de cadeiras de madeira escura sem estofo, um balcão do mesmo mármore iluminado por cima com pequenos focos ocultos entre copos pendurados, rótulos resplandecentes na barreira dupla de garrafas semi-abertas encostadas ao espelho de fundo. Ao lado, uma abertura despachava serviço, da movimentada cozinha.
Sebastian ficou parado, de pé, a olhar em volta. O café estava cheio e barulhento. Seria estranho se tivessem reparado nele. Muita juventude. Falavam alto, principalmente as raparigas. Várias raparigas. O espaço não era amplo, não seriam muitos, mas falavam entre si, entre mesas, com louça nas mesas, de café, chá e copos de vinho. Aqui bebia-se vinho. Que bom, já tinha saudades.
Encontrou uma mesa junto ao balcão, com uma única cadeira. As outras já tinham sido tiradas para reforço de algum dos grupos.
Atrás de si, um quadro de cortiça fixava algumas dezenas de velhas fotografias. A maior parte de clientes no café, pessoas jovens que seriam agora importantes, ou frustradas nos alçapões da sorte, ou simplesmente pessoas, mas uma foto, em destaque, chamou-lhe a atenção. Um militar com a farda do exército britânico posava com uma jovem, na Pont Neuf, com o Sena atrás, e a silhueta da Torre Eiffel ao fundo por cima dos telhados da margem esquerda. Eram as caras dos adultos no café. Quarentões, ele, atrás do balcão, sério, servia bebidas e atentava ao movimento da sala e da cozinha, ela uma senhora bonita e roliça, de saia preta e camisa branca, com pequeno avental também branco à cintura, corria entre as mesas com simpatia maternalmente autoritária e um delicioso sotaque francês tão forçado como eficientemente divertido. Ele, mancunian de gema, ela, parisiense, reunidos nos acasos da guerra, estabelecendo, com gosto, a cultura dela no noroeste industrial da Inglaterra dele.
O exotismo do romantismo francês, na cinzenta Manchester de bairros operários de tijolos vermelhos enegrecidos pela fuligem do carvão, resultou bem na vizinhança da Victoria University. Cruzava o velho espírito revolucionário francês, de boémia e coragem cultural, com os novos tempos libertários dos baby boomers ingleses num movimento estudantil em polvorosa, de música rock e contestação. Um ambiente exótico para Sebastian, que ele seguia à distância dos jornais, com atenta curiosidade.

Estava com fome, cansado da viagem fria à chuva, e não resistiu à oferta da sopa de cebola gratinada e do boeuf bourguignon. Deveria ser comida a mais, mas hoje era um dia especial, o último de viagem antes de chegar a casa e reencontrar a mãe.
A mãe não cozinhava muitas vezes, nem sempre comiam juntos nas poucas vezes que estava em casa, nos intervalos lectivos. Entre trabalho na fábrica, beneficência e compromissos vários que ele nem compreendia, ela deixava prontas ou meio prontas a maior parte das refeições. Sebastian não se importava, solitário, entre livros e longos passeios de bicicleta pelos moors até à costa e a pé nos promontórios e areal. Apreciava as longas horas de pensamento, sonho e imaginação, pilotando a sua bicicleta como se fosse um Spitfire na sua imaginação. Mas a mãe era boa cozinheira e gostava de seguir receitas de cozinha francesa. Dizia que se era para ter trabalho, ao menos que valesse a pena. Deixou-lhe o gosto.

As raparigas usavam as saias muito curtas, com os joelhos à mostra e às vezes muito mais do que isso, no cruzamento das pernas, que ele fingia não reparar, entre duas garfadas e um gole de vinho tinto. A desenvoltura delas surpreendia e divertia-o. Falavam alto, mais do que eles, exibiam-se, mostravam e expunham o que pensavam. Uma delas destacava-se. Christine.
Percebeu o nome porque era assim que os outros chamavam. Era o centro das atenções, uma líder a quem todos gostavam de agradar e seguir as opiniões. Sebastian percebia os novos tempos, uma mulher a liderar um grupo em que a maioria, por muito pouco, ainda era masculina. A única vez que se recorda de ver algo assim parecido tinha sido em sua casa, mas lá era só a sua mãe e ele, e ele era uma criança.
Christine era uma mulher bonita, embora num padrão quase vulgar e estereotipado em Inglaterra. Era assim como um modelo natural para pintura ou escultura da deusa Britânia. Cabelo louro apanhado, mas com um franja negligenciada sobre a face, cara suavemente angulosa mas proporcionada, nariz afilado, boca de lábios finos mas com o inferior, mais grosso, a sobrepor-se ao superior, num tique nervoso de irritação quando discordava do que ouvia, que lhe dava um charme particularmente original.
Ela sabia do impacto sobre os outros e sobre Sebastian. Reparava nele, sem grande constrangimento, entre gestos e argumentações, não porque ele fosse bonito ou particularmente interessante. Ele era um eco do passado. Não era operário, nem camponês, nem pobre ou simplório, era uma personificação, ainda jovem, da geração dos pais deles. Sebastian vestia-se e comportava-se como a geração dos pais daqueles jovens ter-se-á comportado, de uma pequena elite rural ou burguesa, do tempo de antes da guerra.
Christine percebeu isso e conduziu a conversa de forma ameaçadoramente provocante. Os outros talvez não tenham percebido, mas os olhares dela, os jeitos e o sorriso docemente cínico, fazia-o sentir-se o centro das atenções.
Naquele pequeno ambiente, ele tornou-se o alvo da revolta de uma geração, não porque estivessem contra ele, mas porque pretendiam mudar o mundo.
Falaram de tudo. Dos Beatles, da música popular, das drogas, da liberdade sexual, de aborto, de política, de pacifismo, de racismo, da guerra, até de Marx e Engels, que cem anos antes escreveram os fundamentos do comunismo naquela mesmo Manchester. Uma pequena minoria daqueles estudantes, dois rapazes, e uma rapariga de calças e cabelo curto, assumiam-se como comunistas, para surpresa e curiosidade de Sebastian.
Ele sentia-se o alvo da comunicação, como se representasse toda a sociedade conservadora que era preciso transformar.

Já era tarde. Tinha de se deitar para acordar cedo, para a jornada final do dia seguinte. Pagou, levantou-se e atravessou a sala ruidosa sob o olhar atento de Christine, a quem saudou com uma pequeno aceno de cabeça. Ela retribuiu com um sorriso simpático mas vitorioso, de olhar fixo, de quem sabia que havia conquistado mais um para a sua luta.
Ela não sabia, mas ele era um alvo fácil.

Sofia.1

Todos os dias, ao passar das sete horas, sentia o focinho húmido de B no seu braço. Mesmo que estivesse acordada, deixava-o satisfazer o despertar, recompensado com afago apreciado com mimo.
D era o primeiro a querer sair, junto à porta. Sério, sem olhar diretamente, orgulhosamente dissimulado.
A era o mais fiel e monótono. Sentado, grande, olhava-a fixamente, aguardando pacientemente o começo de um novo dia.
Impaciente, E rondava o quarto e a sala, procurando todos os dias o buraco da casa o deixasse entrar e sair sem horários nem concessões.
Sofia levantava-se, passava rapidamente na casa de banho, e saía com a pequena sacola, a tiracolo, com a maçã, as bolachas e a velha máquina fotográfica digital, que retratava sempre a mesma paisagem, ao longo do ano, nas várias estações, num registo gráfico do relógio celeste. Os cães corriam pelo monte acima. E sempre à frente, D logo atrás, B indeciso entre a aventura com os amigos ou o conforto de Sofia, e A a seu lado, como uma sombra, pesadão, não se percebendo se protector se medroso.

Sofia vivia com os seus quatro cães. Eram quatro porque quatro é o número que lhe permite variar a companhia, como uma pequena multidão, sem dispersar a atenção que qualquer um deles precisa. Eram todos diferentes, gostava de cada um por igual, cuidava-os e atendia-os, queixava-se de uns aos outros, confortava-se no grupo perante a doença ou pequenos acidentes.
Já tinha tido um cão, Tobias, solitário, que lhe fez companhia quase dez anos. Quando morreu, decidiu ter muitos ou nenhum. Nenhum, para nunca mais sofrer, ou muitos, para partilhar as alegrias que lhe proporcionavam, e diluir os inevitáveis dramas dos seres viventes. Como não conseguia ter nenhum, escolheu o número quatro.
Batizou-os com letras, pela ordem com que lhe entraram em casa. Um nome marca a personalidade, como se a impuséssemos; uma letra, ou um número, não. Os seus cães seriam livres, nesta paisagem agreste, de pedras, arbustos e velhos socalcos construídos por agricultores que há muito emigraram para outras paragens menos duras, rodeada do eterno azul deste mar de segredos guardados desde os primeiros marinheiros.
C era um desses segredos. Provavelmente caído da falésia numa das suas imprudentes explorações que duravam dias, embora Sofia desejasse e acreditasse que tivesse sido roubado numa incursão de piratas, e que, agora, atravessava o Egeu de focinho levantado, na proa de um velho galeão espanhol apresado numa ruidosa batalha de canhões e espadachins.

Josefina Madeira . 23

Sebastian saiu cedo, depois do pequeno almoço combinado, tratado e pago de véspera.
Quando desceu, às sete horas, tinha mesa posta só para si. Deveria ser mesmo o único hóspede desse dia. Deu sinal de si à miúda de ar tímido, atrás do balcão, que mal balbuciou “ Good morning!”. Sentou-se por indicação dela, aguardou uns minutos a folhear o jornal da véspera, e veio um tabuleiro com um prato de feijão branco com molho de tomate, dois ovos estrelados, bacon frito, salsichas, tomate frito às rodelas, um cesto de pão torrado, compotas e manteiga, e uma caneca de café fumegante. O suficiente para se satisfazer e ainda sobrar para a sanduíche do almoço.

A manhã estava fresca mas o sol já aquecia e secava a humidade da véspera chuvosa, num dia relativamente limpo, com farrapos de nuvens de verão no azul anil. A previsão era de melhoria para os próximos dias, embora tímida, mas sempre tão incerta que fazia tema de início de qualquer conversa.
Seguiu para norte sem olhar para o mapa. Contava lembrar-se da sucessão de terras aprendidas nos mapas das linhas de caminho de ferro, gozava a condução sem grande atenção, até passar Cirencester e surgir-lhe um cartaz de madeira com letras brancas elegantemente manuscritas, “Welcome to the Costwolds”.
Entrou num cenário cuidado de colinas ondulantes verde esmeralda, aldeias de ruas estreitas, casas e igrejas centenárias de calcário cor de mel dourado pelo sol bordejadas por jardins floridos de verão. Não chegou a parar, mas apreciou, reduzindo a velocidade durante vários quilómetros, a passar Cheltenham, cidade de termas reais, edifícios neoclássicos da Regência, e corridas de cavalos. Divertiu-se a pensar que talvez um dia tivesse tempo ou estatuto para se passear por lá, o que chegasse primeiro.
Ao fim da manhã, parou num amplo descampado sobranceiro a Worcester, terra das luvas e do molho de carne, mas também da recente renovação urbanística, demolidora da herança medieval, que se escusou a ver, numa boa hora para tratar das sobras do pequeno almoço.
À tarde, prosseguiu viagem, sempre para norte. A região das West Midlands era bastante mais densa, numa sucessão de povoações, indústrias e trânsito, tornando o passeio mais cansativo e monótono. Pequenas camionetas e camiões, ciclistas e motociclistas, carros, gente a pé, charretes e cavalos, cruzando passagens de nível, numa mistura desordenada de indústria, agricultura e habitação, de dois séculos de revolução industrial, mineração intensiva e imigração irlandesa, enchendo os campos de chaminés fumegantes rodeadas de bairros operários de tijolo vermelho, entupindo as estreitas estradas rurais, numa já evidente decadência prestes a explodir, ou implodir, dependendo do ponto de ignição da inevitável rotura de libertação das forças sociais, e se se der de dentro para fora, ou ao invés.

Aproximava-se da grande Birmingham e procurava um poiso confortável para comer e dormir. Passou por vários, que não lhe agradaram, até que, já bastante cansado, decide parar no “The Black Horse Inn”, ironicamente o segundo cavalo do dia.
Os pequenos pubs de província, disponibilizando quartos para viajantes, não eram muito diferentes entre si, proporcionando comida confortável e pouca imaginativa, apropriada a quem não está com disposição para grandes invenções e experiências. Este cavalo preto era bem mais modesto do que o cavalo da manhã, reflexo da zona do país que atravessava, mas era suficientemente confortável para descansar num quarto do primeiro andar, e jantar sossegado numa mesa de canto do pub, repetindo o programa da véspera, nesta imersão na relembrança da vida e paisagens britânicas.
Sebastian pousou rapidamente a bagagem no quarto estreito, de cama de solteiro, e desceu.
O chão junto ao balcão cheirava a azedo de anos de cerveja vertida no soalho de madeira escura, em conversas, distrações, pequenos acidentes ou discussões. As paredes destes pubs confessionaram décadas ou séculos de histórias, de vitórias e derrotas, medos e bravatas, numa evolução orgulhosa do génio britânico.
Pegou na Guiness e sentou-se na mesa livre junto à coluna. Abriu o mapa depois de molhar os lábios na espuma morna. Localizou Birmingham, a nacional A38, os subúrbios a sul da cidade, a linha de comboio, e identificou a sua localização: Longbridge.
Reconheceu imediatamente o nome. Longbridge, a sede da Austin e da linha de montagem do orgulho do engenho inglês: o Austin Mini, que desde há cinco anos inundava as estradas da Europa. Confirmou a localização ao pedir a segunda Guiness.
“- A entrada da fábrica é ao fundo da rua, à esquerda. São os meus melhores clientes. Mais meia hora, há mudança de turno, e enchem-me aqui o bar antes de irem para casa.”
E assim foi. Não vieram todos os milhares de trabalhadores da fábrica, mas duas ou três dezenas entraram, em pequenos grupos.
Sebastian manteve-se em silêncio, com a sua pint, a observar e divagar sobre as gentes deste grande país. Eram todos homens, encarregados, técnicos e administrativos. O copo diário do fim de tarde não era acessível aos operários. Pela idade seriam veteranos da guerra mundial, experientes e orgulhosos do sucesso comercial do Mini, exportado para toda a Europa, batendo-se com Fiat 500 e o Volkswagen nas mesmas paragens onde eles tinham marchado vitoriosos vinte anos antes.
O ambiente era diferente dos outros pubs. Não discutiam política ou desporto, antes exaltavam peripécias da sua rotina de trabalho, orgulhosos das virtudes do seu pequeno carro conquistador, com produção tomada por vários meses. Sebastian conhecia bem as virtudes do Mini, dos jornais ingleses, que não se coibiam de elogiar o genial projecto de Alec Issigonis, e da correspondência trocada com o seu amigo John Pelham.

Pelham, engenheiro e militar, que fora responsável pela manutenção dos veículos e equipamentos na aventura do Suez, passara à vida civil e entrara na vaga de quadros Ford para a instalação da novíssima fábrica de Liverpool, que desde 1961 produzia o promissor Anglia 105E. Correspondiam-se regularmente. Apreciador e conhecedor de vinhos, mostrara-se sempre muito interessado pela aventura vitivinícola de Sebastian
Pelham transpirava cultura Ford, de desportividade e eficiência, mas não conseguia esconder, nas suas cartas, a inveja pelo genial e inovador concorrente projecto Mini, com motor transversal e tração à frente, pequenas rodas de dez polegadas amarradas a suspensões de cones de borracha sem volumosas e pesadas molas, abrindo espaço para quatro adultos e bagagem, num fundo plano dos pedais ao parachoques traseiro. Mas confortava-se amargamente repetindo que a Austin perdia dinheiro em cada Mini saia da linha de montagem. Trinta libras por cada unidade, segundo relatórios internos da Ford.

Sebastian observava estes homens orgulhosos do seu trabalho, enquanto molhava as chips que acompanhavam o fish em ketchup e maionese, numa saborosa ianquização do tradicional frito inglês. Eram de uma geração mais velha do que a sua, a mais sacrificada e esforçada de todas, orgulhosos das suas conquistas, montados num sucesso inovador que fazia moda – não havia artista ou actor que não tivesse um Mini colorido, mas também alheios a um futuro que já estava aí: o mundo da rentabilidade e da competitividade. Os britânicos desenhavam as máquinas do futuro com a mentalidade do passado, confiantes que a velha estrutura social do império lhes garantisse o mercado.
Pelham escrevia-lhe que a Ford já olhava para o mundo global, encarava os europeus com admiração, engenhosos e sofisticados, mas a atenção recaía sobre as novas técnicas de produção e controlo de qualidade, da escola americana de Joseph Moses Juran, aplicadas nas fábricas japonesas da exótica Toyota.
Detroit previa, e até receava, uma revolução na indústria automóvel, enquanto Longbridge exaltava com um sucesso que talvez nunca chegasse.

Um dia vamos deitarmo-nos lado a lado de mãos dadas, testa com testa, e vamos partilhar todos esses sonhos e medos que nos tolhem, que guardamos por indecisão, vergonha, ou falta de coragem.

O mar

“O mar sempre o atraíra como um íman. Ver o oceano, apreciar sua cor e o seu cheiro, o seu mistério insondável, transmitiam-lhe enorme sensação de empatia e de descontração. De promessas de liberdade, mais do que de limite e de encerramento. Durante anos, há muito tempo, quando sonhava mais frequentemente com a possibilidade de se dedicar à escrita de histórias despojadas e comoventes como as de Salinger, usando palavras afiadas como navalhas, ao estilo de Hemingway, o sonho de ter uma casa modesta e fresca frente ao mar fora um dos seus anseios mais recorrentes. Escrever pelas manhã, banhar-se na praia à tarde, pescar à noite, fazer amor com uma bela mulher de madrugada, respirando o aroma do salitre, embriagado pelos murmúrios do oceano. Um postal idílico e insuperável. Mas a sua vida pessoal e a vida do seu país, conduzidas, cada uma delas, à sua maneira e ritmo próprios, embora em dolorosa confluência, esfumaram aquela cálida aspiração, relegando-a para um canto da memória onde acumulava as quimeras não realizadas. E, algumas delas, já definitivamente irrealizáveis.”

(Leonardo Padura, “A Transparência do Tempo”)

Um sábio muito entendido em tragédias e livros

“Havia na mesa um homem sábio e de bom gosto, que apoiou o que a marquesa dizia. Falou-se em seguida de tragédias. A dama perguntou por que razão havia tragédias que eram representadas algumas vezes, mas que ninguém conseguia ler. O homem de bom gosto explicou muito bem como é que uma peça podia ter algum interesse e não possuir quase nenhum mérito. Provou em poucas palavras que não bastava apresentar uma ou duas dessas situações que se encontram em todos os romances e que sempre seduzem os espectadores, mas que o autor deve ser inovador sem ser ridículo, muitas vezes sublime e sempre natural; deve conhecer o coração humano e pô-lo a falar, ser um grande poeta sem que nenhuma das personagens pareça poeta, conhecer muito bem a língua, falá-la com pureza, com uma harmonia constante, sem que a rima seja feita em detrimento do sentido.

Quem não observar todas essas regras acrescentou pode fazer uma ou duas tragédias aplaudidas no teatro, mas nunca fará parte da lista dos bons escritores; há muito poucas tragédias boas; umas são idílios em diálogos, bem escritos e bem rimados; outras são discursos políticos que fazem dormir ou são amplificações que entediam; outras são sonhos de energúmenos, em estilo bárbaro, frases interrompidas, com longas apóstrofes aos deuses, porque não sabem falar aos homens, máximas falsas e lugares-comuns cheios de retórica.

Cândido ouviu atentamente estes comentários e ficou com muita consideração pelo orador.”

(in Cândido ou O Otimista, cap. XXII, Voltaire)

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