Josefina divertia-se a ouvir a descrição da vida de várias gerações, passadas e futuras, do século dezanove ao século vinte e um, encadeadas como se o mundo fosse um contínuo temporal de tarefas e desafios, trabalhos herdados e deixados, em que nenhuma se podia gabar do êxito sem se lembrar e agradecer a todas as que lhe antecederam, fundaram e cimentaram as bases do que lhe sucedeu.
Para Sebastian, tudo tinha uma origem, um propósito, uma causa primordial, que se concretizava com uma probabilidade proporcional ao talento e ao trabalho, e à sorte que, estando sempre presente, só é lembrada, injustamente, quando ausente.
Ela não lhe reconhecia ambição, desmesurada ou outra, em especial, e inveja também não. Não tinha preguiça, mas mostrava um desapego por bens materiais ou prazeres mundanos, quase monástico, missionário ou militar.
Falava como se fosse um espectador da sua vida, descrevendo-se na terceira pessoa como um interveniente secundário, um zelador a quem se atribui tarefas de manutenção. A sua vida movia-se pelo utilidade. Tudo tinha de ser útil e ordenado, como uma engrenagem complexa ou uma pedra de um dominó terminado. Mas nada era estático. Cada movimento resultava de um passado conhecido, e antecipava um futuro previsível.
“- Mais do que isso não sei. Ainda não nasceram os que vão decidir o que fazer depois de já não haver vinho ou vontade de o beber. Só temos de nos preocupar em manter o que temos, melhorar o que herdamos, deixar opções em aberto para que quem vier possa viver e escolher o que achar de melhor para si.”
Falavam nas suas cadeiras do terraço virado ao rio. A noite estava quente, estrelada, de lua nova.
Tinham jantado, na cozinha, vitela com batatas em azeite e cebola, em assadeira de barro preto, com a arroz também assado em alecrim, num barro preto mais pequeno, no forno de tijolo à parede onde noutros tempos, antes do padeiro fazer entregas na sua nova carrinha Bedford branca, cozia-se o pão de milho de casa.
O jantar foi animado. Sebastian estava satisfeito, o dia tinha corrido bem, e Maria e Alzira tinham sempre histórias divertidas do povo da terra. Não é que as histórias fossem particularmente cómicas ou, mesmo, interessantes, mas elas contavam-nas com apoteoses de ópera bufa.
Beberam vinho tinto. Josefina reparou que Sebastian ria com mais extroversão do que o habitual. Já iam a mais de meio da segunda garrafa e ela pouco bebera. Maria, na ciranda do despacho, como de costume, para não atrasar a saída para casa, não se apercebera, e também não era ela que punha o vinho na mesa.
Quando acabaram de jantar, Sebastian serviu-se de um velho uísque da garrafa do armário de vidro junto ao fogão da sala.
“- Queres provar? É mais velho do que eu e passou dezasseis anos em casco de carvalho.”
Josefina não quis. Serviu-se de uma garrafa já aberta, sem rótulo, de um pouco de vinho generoso da produção da casa, e um copo de água.
Desceram o degrau da porta corredoira da sala para o pátio varandado ao rio, e sentaram-se sob as estrelas
“- Vivo preso no passado, como se estivesse a viver numa sucessão de acontecimentos, e o futuro fosse previsível, num cenário com pequenos detalhes casuísticos, esporádicos, num grande plano há muito desenhado.
Mesmo o maior drama, a maior fatalidade, já aconteceu na vida de alguém, que já o teve de enfrentar. As imprevisibilidades são estatisticamente previsíveis, como se tudo já tivesse acontecido.”
Sebastian falava ininterruptamente. Já se servira segunda vez da garrafa que trouxera com ele. O discurso era emotivo, mas claro. Não entramelava como um vulgar homem bebido, mas pautava uma emoção que ela nunca tinha reparado.
“- Nada me surpreende. As pessoas tomam sempre as mesmas decisões, com base nas mesmas ambições e pressupostos, desde a antiguidade. Cometem sempre os mesmos erros, na ingenuidade da sua liberdade e individualidade, na arrogância do eu é que sei, agora é que vai ser…”
Josefina ganhou coragem e interrompeu-o.
“- Somos livres para decidir a nossa vida. Posso querer ficar ou partir, falar ou calar, e isso pode mudar completamente o meu futuro imediato, e enviar-me para um cenário, dos tais que falas, completamente diferente do que estava previsto.
Eu, por exemplo, hoje, não devia estar aqui.”
“- Não devias estar aqui porquê?”
“- A esta hora, estaria nas lides de casa, cansada do dia de esfrega de roupa no tanque, já casada com um tanoeiro ou calafate, se calhar grávida ou já mãe de filhos, nos primeiros dias de uma sucessão interminável de dias iguais, monótonos, infelizes e esgotantes, a subjugar-me aos desejos do homem para lhe retribuir o esforço da jorna que põe o pão diário na mesa.
Se não tivesse acontecido o que ainda não percebi muito bem como aconteceu, em vez de estar aqui, nesta casa, sentada neste cadeirão, ao serão, a ouvir as palavras sábias de Mr. Coleman, estaria lá…”
“- Aconteceu estudares e esforçares-te”
“- Não! Aconteceu estar no sítio, na hora em que não havia um rapaz disponível para fazer o seu trabalho de homem jovem, e escolheste o que sobrou. Uma pobre rapariga que tentava fugir ao seu destino.
Se não fosse eu, era outra. Era a que estivesse naquele dia, naquela porta.”
“- Enganas-te!
Estás aqui porque falas inglês, és esperta, bem educada, esforçada e interessada.
Nada disso é sorte.”
“- E quantas pessoas, mulheres, não são como eu, dotadas, com dizes, e acabam a vida a calear as mãos na pedra do tanque?”
“- Dás-me razão, então.
Os teus cenários estavam desenhados e montados. Seriam três ou quatro diferentes, não mais do que isso, do pior, mais básico, ao melhor, mais sofisticado.
O teu destino seria, ou melhor, é, incerto, marcado pelas incertezas do viver e do morrer, dos desencontros, das distrações e coincidências, mas as alternativas foram, e são, marcadas pelas tuas opções e acções.
O que tu decides e fazes, marca-te o futuro.”
Sebastian fez uma pausa teatral.
Serviu-se outra vez. Josefina começava preocupar-se com o à vontade e consequências do ritmo da bebida, mas ele não aparentava particular alteração, num surpreendente domínio emocional sobre o álcool, daqueles de que se fala que alguns têm mas que na realidade emborracham-se como os outros.
“- Mesmo que não seja imediato e óbvio, se estiveres atenta, e com um pouco de imaginação, consegues perceber até onde podes chegar e onde te podes espalhar.
Não consegues prever o futuro, mas consegues saber, em cada instante, as opções que tens, nos dados que lanças no jogo diário com Deus.”
“- Não concordo”, insistiu Josefina. “Acho que todos temos um mau destino e, depois, num golpe que bafeja alguns, acontecem acasos que não dominamos.”
Sebastian não respondeu.
Calaram-se longos minutos.
Josefina não lhe via a cara, no escuro da noite, apenas o contorno da face no contraste da parca luz estelar. Estava imóvel, como que adormecido.
Levou o copo aos lábios, fugazmente, e recomeçou a falar num tom mais grave.
“- Vamos por maus caminhos e ninguém quer saber, enredados nos seus pequenos interesses, egoísmos e rotinas. Às vezes parece que só eu é que me interrogo e questiono os destinos do mundo, como se estivesse naquele rio, ali embaixo, a nadar contra a corrente.
Mas depois sou arrogante e desinteresso-me.
Poucas coisas me irritam mais do que ver pessoas, indivíduos ou massas, seguirem percursos por satisfação instantânea ou moda. Poderia enfrentá-los e catequizá-los, mas não. Se têm comportamentos irracionais, não me interessam.
Mas depois, esta arrogância deixa-me isolado. Isolo-me, só.
Nos piores momentos, quando preciso de ânimo, que me incentivem, peço ajuda, mas só me dão mais esforço. Que tenho de fazer, ir, que sou preciso. Mas eu é que preciso dos outros. Sou uma desilusão para mim na medida em que iludo os outros e não posso desiludir ninguém.
Eu gosto das pessoas, interesso-me, aprendo, divirto-me, sinto prazer com algumas conversas, mas as pessoas irritam-me, quase sempre me desiludem.
Gostava de confiar nas pessoas, na sua boa vontade, no seu trabalho, competência, brio e honestidade, mas acho que andamos todos a olhar pela nossa vidinha, o nosso umbigo, a fazer de conta que se faz alguma coisa, a iludirmo-nos.
…
Detesto barulho, ruídos, movimento, excitações. Começo a não querer aproximar-se de ninguém, para não sofrer, manter uma distância de reserva, com regras e etiqueta, para não ter de retroceder, mas não resisto muito tempo. Tanto que, por vezes, sinto-me a mais, como se fosse dependente do que me rodeia, a precisar de cuidado e amor dos outros para sobreviver.”
“- As pessoas gostam de ti. Mesmo que não concordem contigo, seguem-te o fio de raciocínio e contrapõem com respeito e admiração. Tu pensas bem. Analisas e conceptualizas o mundo, consegues racionalizar comportamentos e tendências…”
“- Fico comovido com isso que me me dizes”.
“- Então tens razões para te animar. Isso é um incentivo para mudar o mundo.”
“- Já disse que gosto de ti?”
Josefina sentiu-se surpreendentemente confortável com esta brusca revelação. Uns dias ou semanas antes ter-se-ia apoquentado com a estranheza de tal confissão e, principalmente, com as intenções do homem mais velho, mais forte, alterado pelo álcool, e com real poder sobre a sua vida e futuro, na vulnerabilidade daquele momento no escuro isolado.
Deixou-o sem resposta. Sebastian abria-se-lhe com uma fragilidade racional que não a desiludia. Era um homem triste, desanimado, solitário, mais justo do que bondoso. Fazia o bem, mais pela justiça e compensação do que por misericórdia. No seu lamento, não se vitimizava nem pedia compaixão ou solidariedade, num amargo de vida prolongado, num estranho desajuste com o mundo.
“- Passamos toda a nossa vida em busca de estabilidade, da felicidade que julgamos encontrar na previsibilidade da rotina do dia a dia, mas encontramos o nosso sentido de viver na surpresa com que nos desembaraçamos das dificuldades que surgem inevitavelmente, nesse sentimento de vitória, quase sempre uma pequena vitória, do ultrapassar mais um obstáculo.
Acordo de manhã sem saber como vai acabar o dia, onde e com quem, ou se vou mesmo acabá-lo.
Viver é uma corrida arriscada. Se não arriscares, não vives.”
“- Já disse que gosto de ti?”
“- Acho que sim, mas não te lembras.”