Os livros são como as pessoas

Os livros são como as pessoas. Há os solenes, os de capa rija, os flexíveis, os de bolso, os ilustrados e chamativos, os rudes e ásperos, os pesados de folhas grossas em contraste com os de papel fino quase transparente, os velhos e desgastados, os que perdem brilho, os maltratados, vincados e sublinhados ou manchados e os outros que foram sempre pegados com duas mãos, cuidados e amados, os esquecidos no fundo duma gaveta e os relidos sempre com gosto, os de quem se fala e os de quem já ninguém se lembra, os ardidos nos incêndios e os imortalizados na memória digital, os especializados e os que mesmo cheios de letras parecem em branco.


As pessoas são como os livros. Só as conhecemos quando se abrem e deixam folhear, manusear, virar, sujar, rasgar, apreciar e amar, quando se deixam ler. Antes disso, passam por nós, trocamos palavras, partilhamos quotidianos de circunstância, mas não passam de lombadas decorativas numa prateleira esquecida.

Josefina Madeira . 22

O cargueiro acelerava para norte, deixava o conforto da costa e lançava-se no escuro Atlântico adentro, rompendo as vagas, em sucessivas explosões de espuma.

Sebastian agarrava a amurada e olhava o horizonte. Finisterra, fim da terra, fim do mundo romano, terra de Santiago, de Pelayo, dos reis de Leão, de nevoeiro, morrinhas e bruxas, de encontro com a redenção na peregrinação, para os que vêm de lá para cá, até Muxia, e com a eternidade, para os que esbarram, de cá para lá, na Costa da Morte.
Embarcara a Bessie no porão, entre barricas e caixas de garrafas de vinho, azeite, cortiça e conservas, bem oleada e agasalhada com um toldo, amarrada ao chão, para aguentar a agitação e salitre do ar, ocupando um pouco de espaço cedido pelo armador, em consideração pelo importante cliente produtor de vinho, com destino a Southampton. Três a quatro dias de viagem, dependendo das correntes e dos humores do tempo.
A rotina embarcada era muito simples. Pequeno almoço, almoço e jantar em horas fixas, com a tripulação, às seis horas, meio dia e seis horas da tarde, longas horas na cabine destinada a passageiros, que ocasionalmente fazem a viagem em navio mercante, mesmo ao lado da do comandante, escrevendo sobre tudo o que sabe, o que julga saber e o que gostaria de aprender, e longas caminhadas pelo convés, da popa à proa, de bombordo a estibordo, tempo mais do suficiente para acertar as ideias sobre o que haveria de vir.

Desde o princípio, sabia que o seu futuro não passaria pelo vinho. Foi um desafio que aceitou pela aventura e pela oportunidade de desenvolver um sector tradicional e conservador, pondo em prática a formação e experiência que obtivera na vida militar, primeiro na escola de formação logística do exército britânico, a Royal Logistic Academy, em Camberley, Surrey, e depois na preparação e execução do assalto a Port Said, com a 16 Divisão Aerotransportada, em 1956, onde o jovem Sebastian fora um dos responsáveis pelo planeamento e organização da logística, de deslocação e abastecimento.
A sua formação era bastante sólida, porque a organização logística militar britânica desenvolvera-se bastante na Segunda Guerra Mundial, fazendo escola, exemplarmente liderada pelos generais John Dill e Andrew Goslett.
Depois, foi o tirocínio no Egipto. Embora a guerra do Suez tenha sido um desastre político, a operação militar foi exemplarmente executada, tanto a nível operacional, como organizacional.


O verde da ilha de Wight, a correr ao lado do barco, despertava-lhe a memória e vontade de cavalgar a BSA de sul para norte, qual Alfred, rei dos saxões ocidentais, à conquista de Jórvík, o Yorkshire da sua infância, que já não via há mais de cinco anos.
O verde inglês, o verde de combate, o verde das lutas e das corridas, o verde das florestas e do musgo, um verde intenso, de cheiro forte, de esperança, de tantas saudades deste céu de chumbo e nuvens baixas, da humidade a ensopar-lhe a lapela, a sentir o regresso a casa, guiado por faróis e roncas, respondidos pela intermitência da sirene do barco, a entrar na estreiteza do Solent, por Portsmouth até às águas calmas das fozes do Itchen e do Test, misturadas nas Southampton Waters.

As formalidades desembarque foram rápidas – ninguém implica com um motociclista de regresso a casa, e Sebastian fez-se rapidamente à estrada, conduzindo da maneira que mais gosta: sem mapa, de memória, por instinto, a perguntar quando calha, com bússola na ausência de sol, sempre por estradas secundárias, entre muros, vilas e aldeias, alguns estradões de terra, camionetes, carroças e rebanhos. O caminho numa ilha, mesmo nas grandes, é simples: sempre para nordeste, nesta, e só se pára se se chegar à Escócia ou ao mar.
Passou por Salisbury, e pela sua catedral, fotografou-se em Stonehenge com a mesma perplexidade que sentira nas pirâmides de Gizé perante tanta história desconhecida e incompreendida, aproximou-se de Swindon. Percorrera cerca de sessenta milhas, por estradas secundárias e vilarejos, já estava cansado, o dia cinzento escurecia e não queria conduzir de noite.
“The White Horse Inn 2 miles”, leu numa placa a apontar para a direita. O nome parecia-lhe bem. Precisava de um banho retemperador, um bom jantar e uma cerveja, não necessariamente por esta ordem.

O cavalo branco estava pintado, sobre a porta em arco de tijolos vermelhos da frente da casa branca com telhado de várias águas de lousa preta, bem pronunciadas para invernos chuvosos, num desenho simples de letreiro de pub, desses que invariavelmente têm uma cabeça, um cavalo, uma armadura, ou um abade, quando não o próprio rei, na estética do século dezassete, o da gloriosa revolução, a correr da direita para a esquerda, sob o pôr de sol num prado verde.
Entrou.
Não conteve o sorriso pela lareira acesa em Julho, a aquecer e secar o ambiente, neste dia de verão húmido que não passou dos dezasseis graus, defronte a três grandes sofás com folhas verdes e flores rosa sobre fundo branco, estampadas num pano grosso e áspero, a convidar a serão lente e descansando. Do outro lado da sala, à esquerda, meia dúzia de mesas e cadeiras de madeira escura, onde dois homens conversavam separados por uma barreira de copos vazios, e outro, noutra mesa, procurava silencioso conselho no último terço da pint entre mãos. Ao fundo, o balcão da mesma madeira castanha escura, furado por tubos de torneiras de várias cervejas, coberto com algumas toalhas sorvedouras de espumosos corrimentos e do telhado de copos invertidos secados ao ar, servidos por um obeso desconfiado de forasteiros que chegam sem aviso.
“- Olá! Tem quarto para uma noite?”
“- Sim”
“- Então queria uma pint de Guiness, por favor.”
“- Percebo a urgência”, respondeu com uma sonora e descontraída gargalhada, olhando com condescendência para a roupa molhada e para o alforge e capacete, enquanto pousava o copo vazio debaixo da torneira.

Sebastian subiu ao quarto por uma escada estreita ao lado do bar, decorada com motivos de caça, quadros a lápis de cavaleiros, sisudos e altivos, e matilhas em corrida à raposa, e velhas espingardas ferrugentas, até ao primeiro andar. Seis portas, de quartos numerados de um a cinco, e o WC de serviço. O seu era o número dois, virado para frente, como pedira, para que a Bessie não se sentisse sozinha. Era grande, devia ser o melhor. Se calhar os outros estavam vazios.
Após um banho quente e roupa seca, desceu à sala. Já estava composta de gente a falar alto, alguns nas mesas, mas quase todos ao balcão. A lareira já quase tinha apagado, com tanta gente já não era necessária.
“- Que tem para jantar?”
“- A sair, carne estufada com cenouras e batatas. O resto, tenho de ver.”
“- Então uma pint…”
“- Também temos”.
“… e um prato dessa carne especial!”

Sebastian sentou-se numa mesa vazia, com o copo, e apreciou os outros clientes enquanto aguardava o serviço.
Uma dúzia de pessoas, dos quais só duas mulheres. Uma pouco falava, mas a outra percebia-se que era importante, pela importância que os outros lhe davam na discussão, não se lhe sobrepondo como é normal numa conversa informal de bar ou café. Pareciam pequenos agricultores, quase todos, mas dois ou três seriam de serviços da aldeia, o comerciante, o veterinário ou o carteiro, pensou Sebastian. A conversa era sobre política e seus escândalos.

Dividiam-se na discussão de responsabilidades do julgamento do caso que abalava a estrutura do governo e parlamento britânico, havia dois anos. O governo conservador, do primeiro ministro Harold Macmillan, fora arrastado para um escândalo de espionagem por causa de um triângulo mais sexual do que amoroso envolvendo uma jovem de dezanove anos, Christine Keeler, o adido naval soviético, capitão Yevgeny Ivanov, e o Secretário de Estado da Guerra, John Profumo.
Para ânimo da discussão, o novo líder trabalhista, Harold Wilson, mostrava um dinamismo que não se via desde que os Labours  sofreram a primeira de três derrotas consecutivas, em 1951.
O grupo representava a proporcionalidade da sociedade inglesa, ou o que Sebastian entendia como tal, e dividia-se entre três conservadores, apoiantes fervorosos de Macmillan, dois trabalhista entusiasmados com Wilson, depois deste substituir o já desacreditado Hugh Gaitskell, que entretanto falecera inesperadamente no início do ano, e outra meia dúzia mais silenciosa, mas atenta, que ouvia e apoiava ou apupava os argumentos esgrimidos, consoante o juízo do momento.
Nesse verão de 1963, o país passava um dos momentos mais complexos e revolucionários dos últimos séculos.
Acabado de sair vencedor da desgastante segunda guerra mundial, a inesperada vitória eleitoral trabalhista, em 1945, sob a liderança de Clement Attlee, destronando Winston Churchill, faz o Reino Unido rasgar com o passado e entrar numa fase completamente nova da sua existência. Até 1948, são nacionalizados grandes serviços e indústrias, como bancos, siderurgias, minas, energia e caminhos de ferro, dá-se a independência da Índia, cria-se o Serviço Nacional de Saúde e implementa-se o inovador princípio de bem estar social, do berço até ao túmulo. Os conservadores de Churchill, ganham as eleições de 1951 por uma estreita margem, e ironicamente beneficiam da popularidade das políticas sociais trabalhistas, que entretanto tinham aceitado e adoptado, enquanto os labours se desgastavam em disputas internas, já históricas, entre radicais de esquerda e moderados.
O escândalo sexual no partido conservador rebenta num período em que o império britânico já não existe, a guerra fria está ao rubro, com a crise dos mísseis em Cuba, disparavam os gastos com o armamento, e as políticas sociais exigem cada vez mais das finanças públicas, dividindo a meio a sociedade, entre saudosistas da estabilidade da velha ordem e os atrevidos proclamadores da permanente inovação britânica.

Sebastian decidiu não intervir na conversa, enquanto saboreava o saboroso guisado de vaca com cenouras e batatas. O tema era complexo, do nível de infiltração da espionagem soviética, ao financiamento do estado social, passando pelos desafios económicos e sociais da nova realidade das ilhas sem império. À sua frente, esgrimiam-se argumentos vários, interessantemente fundamentados, que qualquer um aceitaria como válidos nestes tempos de indefinição e progresso acelerado, de poucas certezas e demasiados riscos.

“- Vocês, homens, falam de economia, armas, emprego e dinheiro, mas estão a esquecer-se da grande revolução em curso”, destacou-se a senhora que já havia chamado a atenção de Sebastian. De meia idade, elegante, cabelo claro, curto, vestia calças justas e jaqueta. Se estivesse um cavalo à porta, seria dela, com certeza.
“- Falam dessa gente toda sem repararem que tratam a miúda como prostituta gananciosa, oportunista, sem considerarem a sua inocência. O que é que ela lucrou com isto? Espiou ou foi usada? Não terá sido uma armadilha? Ou foi por vontade?
É sempre a mesma história da culpa, do pecado, da fragilidade masculina perante a perfídia feminina, e ninguém questiona se ela não quis mesmo dormir com eles.
A figura de um ministro inglês ou de um militar soviético desperta a líbido de uma jovem mulher. Pode ter-se envolvido nisto por vontade, ou vocês não acreditam na libertação sexual das mulheres?”

As palavras incomodaram os homens e praticamente acabaram com a discussão. Mais uns minutos, palavras vagas e inconclusivas, e começaram a debandar, um a um. Também já era tarde e Sebastian já estava cansado
Foi só balcão acertar as contas e satisfazer a curiosidade
“- Esta senhora, que acabou de sair, mora aqui na terra?”
“- Lady Winterton-Rhees. Vive no castelo Winterton-Rhees, a duas milhas daqui.
É viúva. O marido, Major John Wnterton-Rhees morreu na Birmânia, massacrado pelos japoneses.
Cria cavalos, com muito sucesso, dá emprego a muita gente e é a maior benemérita da terra.
Tenho o gosto de a receber aqui regularmente. Vem sempre com a sua assistente, Miss Merrick, que vive lá no castelo com ela.”
Sebastian quis perceber uma ligeira ironia preconceituosa nas palavras do estalajadeiro, mas, desta vez, na verdade, ele manteve-se impassível, com certeza pelo respeito que devia a Lady Winterton-Rhees.


Romancista como vocação

“Na vida, todos tivemos uma fase em que queríamos ser cool. Pouco antes de acabar o secundário, tomei a decisão de expressar apenas metade do que sentia. Já não me lembro do que me levou a isso, mas, nos anos que se seguiram, pus a minha teoria em prática. Um belo dia, descobri que me convertera numa pessoa que só era capaz de revelar aos outros metade do que lhe ia na alma.”

(Haruki Murakami)

Josefina Madeira . 21

Acordou com uma ligeira dor de cabeça. Nada a que não estivesse habituado, nem que não se resolvesse. As réguas venezianas da janela, a nascente, filtravam a luz do sol da manhã de verão, refratada nas ondas da cortina branca transparente.
Ligeiramente indisposto, mas com uma sensação agradável. Como se estivesse bem, correu bem, passou bem, bebeu demais, nada de estranho.
Lembra-se de se levantar, ainda no terraço. Levantou-se e inclinou para esquerda, como se tivesse o giroscópio avariado. Agarrou-se para não cair. Agarrou-se, não, agarraram-no. A doce e fiel Josefina. Que vergonha! A miúda teve de segurar-me. Também gosto de ti, lembra-se de ouvir. Ela disse-me mais de uma vez. Gosto de ti. Repetiu porque lhe perguntei, com certeza. Que vergonha. Que mais lhe terei dito? Ela a segurar-me e eu a incomodá-la. Que mais lhe terá dito, para ela lhe falar assim, na memória vaga? Ela ajudou-o a subir as escadas. Até onde? Com certeza foi só até ao corrimão, depois ele conseguiu. De certeza. Não se lembra.
Continuava deitado. Olhava o tecto do quarto. Estava tudo sereno. Nada de especial deve ter acontecido. Estava no quarto, deitado. Bebera demais, mas acha que se controlou. Talvez algum calor de emoção. Sabia que lhe dava para o sentimento. O uísque ajuda. Nada deve ter acontecido.
Desviou os olhos do tecto, olhou em volta. O quarto estava arrumado, os sapatos ao canto, junto do saco. O relógio de pulso na mesinha de cabeceira. Tudo normal. A aterragem na cama tinha sido tranquila. A roupa da véspera nas costas da cadeira. Olhou outra vez. Não pode ser. Não se lembra de ter pousado a roupa. Nunca o fazia quando se deitava meio desalinhado. Às vezes ficavam mesmo pelo chão. Agora estavam ali as calças, dobradas longitudinalmente, esticadas, a camisa aberta por cima das calças, como num criado mudo, e o pulôver dobrado no assento.
Não pode ser, nunca fazia isso e Maria ainda não tinha ido quarto.
Continua na cama tentando perceber o que tinha acontecido. A hipótese Josefina começava a envergonhá-lo. Teria passado das escadas, da provação do corrimão ondulante como uma cobra? Recorda-se do corrimão não parar quieto. Maldita escada de caracol. Teria vindo ao seu quarto?
Outra constatação sobressaltou-o. Estava de pijama vestido. Calças de pijama e camisa de dormir com todos os botões apertados. Alguém o vestira. Despertava cada vez mais com a surpresa do que se passava.
Tinha a cabeça pousada na almofada de fronha branca. Era a almofada mais fofa, mais confortável para dormir. Tinha outra, mais dura e mais alta, de fronha castanha, que estava mesmo ao lado, encostada à sua. As duas almofadas, lado a lado. Poderia tê-la usado, poderia ter preferido um apoio mais firme, ou elevar a cabeça para ler, mas não. Nem se lembra de lhe ter pegado.
A almofadas castanha estava mesmo ao lado da sua. Estava amassada. Uma cabeça tinha estado ali, alguém dormira ou, pelo menos, se deitara a seu lado.
Sentiu vergonha e receio do que se teria passado, do que terá dito ou prometido, do que expora, fizera e como. Não fora um sonho.
Tenho medo, pensou para si. Tenho medo do que disse e fiz. Tenho medo.

Justiça talvez fosse o sentimento mais forte no guiamento da sua vida, não no sentido de ânsia de compensação, muito menos vingança, mas, sim, como reconhecimento e valorização do esforço e trabalho de muitos anos, primeiro com sua mãe e depois por si mesma, bem como o semear e cultivo de valores, imediatos, como a honestidade e a gratidão aos outros, a Deus ou à sorte, e contingentes, como a paciência e a perseverança, fruto da experiência quotidiana.
Aos dezoito anos, Josefina sentia maturidade e confiança, como se nada a surpreendesse nem assustasse, mas sabia o seu lugar no mundo e na sociedade, do seu estatuto menor, de mulher, para mais sem dote nem apelido casadoiro. Tinha confiança em si, vontade de aprender, discernimento, mas sentia o peso da sua condição de rapariga humilde e conhecia as barreiras que lhe impunham e ainda lhe imporiam mais à frente.
Atingia a maioridade com uma descontração natural que só para si não era estranha. Tinha consciência que o seu espírito já tinha rompido os limites do casario natal encasquetado nas encostas do rio de tortuosas ruas engorduradas de esgoto corrente na pendente, de pregões matinais e rixas noturnas.
Nos últimos cinco anos, Sebastian fora o tutor, mestre, chefe, instrutor, mas também um amigo próximo, companhia de muitas horas, cheio de defeitos que só se perdoam a quem dá muito mais do que estraga, generoso, respeitador e encantadoramente enigmático, com certeza ignorando que a sua figura masculina, mais velha e excêntrica, moldava em definitivo a personalidade de moça, na sua perspectiva e apreensão, no relacionamento com os rapazes da sua criação. Se ela, já de si, pelas leituras que devorava, se distanciara das demais meninas da escola primária, a frequência da escola comercial, com miúdas de outros bairros, outras famílias, outras classes sociais, abriu e moldou-lhe interesses muito para além da sua condição de filha do sapateiro e da Maria lavadeira, obrigando-a a esforço para não se alhear do seu meio, mas, mesmo assim, espaventando rapazes, para seu inconfessado alívio. Confiança que lhe permitia conduzir-se entre solicitações e importunações, curiosidade e desejo, numa segurança tranquila sem certeza de vir a ser recompensada, no amor, no romance ou na estabilidade do casamento. Não tendo pressa, nem sequer um fito traçado, deixava-se levar no caminho emparedado pela moral e pelo despertar hormonal, sem vergonha, nem receio. Dizia e fazia o que queria, quando e como lhe apetecia, numa reserva pública tão natural, que até para si relativizava e perdia importância na banalidade.
Na inocência da sua adolescência, de corpo generosamente moldado, que causava a inveja delas e a cobiça deles, sabia do efeito que causava nos homens, dos rapazes imberbes aos velhos maduros, pelos silêncios tímidos, olhares subtis, uns, lascivos, outros, piropos importunos. Percebia, num despudorado cinismo que não a envergonhava, que a sua bela fragilidade feminina, desde que aplicada no ponto certo, poderia ajudar a erguer, qual alavanca arquimediana, a sua experiência e formação na escola e no trabalho, para uma vivência adulta que vislumbrava do cinema, e do que lhe contavam. Já não era criança e chegara o momento de ser mulher adulta.

Soldadinhos de chumbo, estáticos há muitos anos, recriavam um momento de alguma batalha que ela desconhecia, vermelhos em frente a azuis, com chapéus altos, mosquetes, espadas e porta-bandeiras. Ao lado, um modelo, cinzento, de um avião com quatro hélices, um bombardeiro, apontado como se aquecesse os motores para correr até ao fundo da estante de madeira escura. Livros, muitos livros, deliciosamente gastos do manuseio de várias gerações. Um mapa-múndi amarelado e com cantos gastos cobria a parede acima, com setas, cruzes, pontos marcados, nomes de cidades sublinhados a lápis, no centro da Europa, norte de África, Itália e todo o Pacifico, um diário de guerra de registo de miúdo. Um velho rádio preto a válvulas, com dois enormes botões castanhos e um mostrador transparente com nomes de terras estranhas entre os das capitais conhecidas, selecionados por um ponteiro branco, pousado na mesa de canto, ao lado de um ursinho de peluche Merrythought, que guardara os sonos de miúdo. No outro canto do quarto, um lavatório de louça branca pintada a azul, numa estrutura de ferro forjado, com uma toalha branca pendurada de lado, e um jarro de água da mesma louça e mesmos padrões azuis, na prateleira inferior, sob a pia. Pelo chão o saco, roupa, sapatos.
Era o quarto de criança, como um quarto de brinquedos com cama ao meio, de um rapaz agora feito homem, forte, inteligente, tão frágil e sensível como só os melhores sabem ser.
Josefina nunca se sentira tão amada, tão bem, tão confortável, tão útil, tão desejada, tão adulta, tão necessária no apaziguamento do tumulto despertado naquele espírito contido de timidez, e insuspeito medo dos outros, até o repouso da respiração profunda e pausada anunciar a paz.

Sorte

O amor é forte e atrela promessas e compromissos, possessões e fidelidades. Faz-se dele um problema, mas o verdadeiro é muito simples: é fazer o bem pelo bem, sem estragar, nem esperar nada em troca.
O amor é aleatório, inesperado, e nem todos o merecem. Calha em sorte. Alguns têm sorte.

Segredo

Segredos solitários, coletivos, de grupo restrito ou alargado, a dois, pequenos embaraços, grandes ofensas, comerciais, de estado, prescritos ou por descobrir, há de todos os tipos. Alguns são revelados em memórias póstumas, a maior parte é apagada num suspiro final, atormentando o último sobrevivente, cúmplice, e no respeito pelo silêncio dos que já não mais falarão, até ao fim dos seus dias.

Um tonto

Não se encontram todos os dias porque ele não lhe quer parecer mal e ansioso, preservando a estabilidade que guarda de si e que julga ser a mostrada aos outros, não suspeitando que, a um olhar mais atento, revela-se um homem sensível e vulnerável, camuflado na presunção de pairar acima de convenções, expondo-se na forma inocente como a abraça e lhe pega a mão, na ânsia de esclarecer e declamar ao que vem, ao dizer que gosta dela, sem pressão nem o convencimento da vantagem do vulgar jogo emocional dos corteses, aparentando coragem e decisão, que mal disfarça a sua inconsequente fragilidade.
Chamam-lhe amor.

Um tonto, digo eu, invejoso e impaciente, num dos meus dias menos bons.

Josefina Madeira . 20

Josefina divertia-se a ouvir a descrição da vida de várias gerações, passadas e futuras, do século dezanove ao século vinte e um, encadeadas como se o mundo fosse um contínuo temporal de tarefas e desafios, trabalhos herdados e deixados, em que nenhuma se podia gabar do êxito sem se lembrar e agradecer a todas as que lhe antecederam, fundaram e cimentaram as bases do que lhe sucedeu.
Para Sebastian, tudo tinha uma origem, um propósito, uma causa primordial, que se concretizava com uma probabilidade proporcional ao talento e ao trabalho, e à sorte que, estando sempre presente, só é lembrada, injustamente, quando ausente.
Ela não lhe reconhecia ambição, desmesurada ou outra, em especial, e inveja também não. Não tinha preguiça, mas mostrava um desapego por bens materiais ou prazeres mundanos, quase monástico, missionário ou militar.
Falava como se fosse um espectador da sua vida, descrevendo-se na terceira pessoa como um interveniente secundário, um zelador a quem se atribui tarefas de manutenção. A sua vida movia-se pelo utilidade. Tudo tinha de ser útil e ordenado, como uma engrenagem complexa ou uma pedra de um dominó terminado. Mas nada era estático. Cada movimento resultava de um passado conhecido, e antecipava um futuro previsível.

“- Mais do que isso não sei. Ainda não nasceram os que vão decidir o que fazer depois de já não haver vinho ou vontade de o beber. Só temos de nos preocupar em manter o que temos, melhorar o que herdamos, deixar opções em aberto para que quem vier possa viver e escolher o que achar de melhor para si.”

Falavam nas suas cadeiras do terraço virado ao rio. A noite estava quente, estrelada, de lua nova.

Tinham jantado, na cozinha, vitela com batatas em azeite e cebola, em assadeira de barro preto, com a arroz também assado em alecrim, num barro preto mais pequeno, no forno de tijolo à parede onde noutros tempos, antes do padeiro fazer entregas na sua nova carrinha Bedford branca, cozia-se o pão de milho de casa.
O jantar foi animado. Sebastian estava satisfeito, o dia tinha corrido bem, e Maria e Alzira tinham sempre histórias divertidas do povo da terra. Não é que as histórias fossem particularmente cómicas ou, mesmo, interessantes, mas elas contavam-nas com apoteoses de ópera bufa.
Beberam vinho tinto. Josefina reparou que Sebastian ria com mais extroversão do que o habitual. Já iam a mais de meio da segunda garrafa e ela pouco bebera. Maria, na ciranda do despacho, como de costume, para não atrasar a saída para casa, não se apercebera, e também não era ela que punha o vinho na mesa.

Quando acabaram de jantar, Sebastian serviu-se de um velho uísque da garrafa do armário de vidro junto ao fogão da sala.
“- Queres provar? É mais velho do que eu e passou dezasseis anos em casco de carvalho.”
Josefina não quis. Serviu-se de uma garrafa já aberta, sem rótulo, de um pouco de vinho generoso da produção da casa, e um copo de água.
Desceram o degrau da porta corredoira da sala para o pátio varandado ao rio, e sentaram-se sob as estrelas

“- Vivo preso no passado, como se estivesse a viver numa sucessão de acontecimentos, e o futuro fosse previsível, num cenário com pequenos detalhes casuísticos, esporádicos, num grande plano há muito desenhado.
Mesmo o maior drama, a maior fatalidade, já aconteceu na vida de alguém, que já o teve de enfrentar. As imprevisibilidades são estatisticamente previsíveis, como se tudo já tivesse acontecido.”

Sebastian falava ininterruptamente. Já se servira segunda vez da garrafa que trouxera com ele. O discurso era emotivo, mas claro. Não entramelava como um vulgar homem bebido, mas pautava uma emoção que ela nunca tinha reparado.

“- Nada me surpreende. As pessoas tomam sempre as mesmas decisões, com base nas mesmas ambições e pressupostos, desde a antiguidade. Cometem sempre os mesmos erros, na ingenuidade da sua liberdade e individualidade, na arrogância do eu é que sei, agora é que vai ser…”

Josefina ganhou coragem e interrompeu-o.
“- Somos livres para decidir a nossa vida. Posso querer ficar ou partir, falar ou calar, e isso pode mudar completamente o meu futuro imediato, e enviar-me para um cenário, dos tais que falas, completamente diferente do que estava previsto.
Eu, por exemplo, hoje, não devia estar aqui.”
“- Não devias estar aqui porquê?”
“- A esta hora, estaria nas lides de casa, cansada do dia de esfrega de roupa no tanque, já casada com um tanoeiro ou calafate, se calhar grávida ou já mãe de filhos, nos primeiros dias de uma sucessão interminável de dias iguais, monótonos, infelizes e esgotantes, a subjugar-me aos desejos do homem para lhe retribuir o esforço da jorna que põe o pão diário na mesa.
Se não tivesse acontecido o que ainda não percebi muito bem como aconteceu, em vez de estar aqui, nesta casa, sentada neste cadeirão, ao serão, a ouvir as palavras sábias de Mr. Coleman, estaria lá…”
“- Aconteceu estudares e esforçares-te”
“- Não! Aconteceu estar no sítio, na hora em que não havia um rapaz disponível para fazer o seu trabalho de homem jovem, e escolheste o que sobrou. Uma pobre rapariga que tentava fugir ao seu destino.
Se não fosse eu, era outra. Era a que estivesse naquele dia, naquela porta.”
“- Enganas-te!
Estás aqui porque falas inglês, és esperta, bem educada, esforçada e interessada.
Nada disso é sorte.”
“- E quantas pessoas, mulheres, não são como eu, dotadas, com dizes, e acabam a vida a calear as mãos na pedra do tanque?”
“- Dás-me razão, então.
Os teus cenários estavam desenhados e montados. Seriam três ou quatro diferentes, não mais do que isso, do pior, mais básico, ao melhor, mais sofisticado.
O teu destino seria, ou melhor, é, incerto, marcado pelas incertezas do viver e do morrer, dos desencontros, das distrações e coincidências, mas as alternativas foram, e são, marcadas pelas tuas opções e acções.
O que tu decides e fazes, marca-te o futuro.”

Sebastian fez uma pausa teatral.
Serviu-se outra vez. Josefina começava preocupar-se com o à vontade e consequências do ritmo da bebida, mas ele não aparentava particular alteração, num surpreendente domínio emocional sobre o álcool, daqueles de que se fala que alguns têm mas que na realidade emborracham-se como os outros.

“- Mesmo que não seja imediato e óbvio, se estiveres atenta, e com um pouco de imaginação, consegues perceber até onde podes chegar e onde te podes espalhar.
Não consegues prever o futuro, mas consegues saber, em cada instante, as opções que tens, nos dados que lanças no jogo diário com Deus.”
“- Não concordo”, insistiu Josefina. “Acho que todos temos um mau destino e, depois, num golpe que bafeja alguns, acontecem acasos que não dominamos.”

Sebastian não respondeu.
Calaram-se longos minutos.
Josefina não lhe via a cara, no escuro da noite, apenas o contorno da face no contraste da parca luz estelar. Estava imóvel, como que adormecido.

Levou o copo aos lábios, fugazmente, e recomeçou a falar num tom mais grave.

“- Vamos por maus caminhos e ninguém quer saber, enredados nos seus pequenos interesses, egoísmos e rotinas. Às vezes parece que só eu é que me interrogo e questiono os destinos do mundo, como se estivesse naquele rio, ali embaixo, a nadar contra a corrente.
Mas depois sou arrogante e desinteresso-me.
Poucas coisas me irritam mais do que ver pessoas, indivíduos ou massas, seguirem percursos por satisfação instantânea ou moda. Poderia enfrentá-los e catequizá-los, mas não. Se têm comportamentos irracionais, não me interessam.
Mas depois, esta arrogância deixa-me isolado. Isolo-me, só.
Nos piores momentos, quando preciso de ânimo, que me incentivem, peço ajuda, mas só me dão mais esforço. Que tenho de fazer, ir, que sou preciso. Mas eu é que preciso dos outros. Sou uma desilusão para mim na medida em que iludo os outros e não posso desiludir ninguém.
Eu gosto das pessoas, interesso-me, aprendo, divirto-me, sinto prazer com algumas conversas, mas as pessoas irritam-me, quase sempre me desiludem.
Gostava de confiar nas pessoas, na sua boa vontade, no seu trabalho, competência, brio e honestidade, mas acho que andamos todos a olhar pela nossa vidinha, o nosso umbigo, a fazer de conta que se faz alguma coisa, a iludirmo-nos.

Detesto barulho, ruídos, movimento, excitações. Começo a não querer aproximar-se de ninguém, para não sofrer, manter uma distância de reserva, com regras e etiqueta, para não ter de retroceder, mas não resisto muito tempo. Tanto que, por vezes, sinto-me a mais, como se fosse dependente do que me rodeia, a precisar de cuidado e amor dos outros para sobreviver.”
“- As pessoas gostam de ti. Mesmo que não concordem contigo, seguem-te o fio de raciocínio e contrapõem com respeito e admiração. Tu pensas bem. Analisas e conceptualizas o mundo, consegues racionalizar comportamentos e tendências…”
“- Fico comovido com isso que me me dizes”.
“- Então tens razões para te animar. Isso é um incentivo para mudar o mundo.”
“- Já disse que gosto de ti?”

Josefina sentiu-se surpreendentemente confortável com esta brusca revelação. Uns dias ou semanas antes ter-se-ia apoquentado com a estranheza de tal confissão e, principalmente, com as intenções do homem mais velho, mais forte, alterado pelo álcool, e com real poder sobre a sua vida e futuro, na vulnerabilidade daquele momento no escuro isolado.
Deixou-o sem resposta. Sebastian abria-se-lhe com uma fragilidade racional que não a desiludia. Era um homem triste, desanimado, solitário, mais justo do que bondoso. Fazia o bem, mais pela justiça e compensação do que por misericórdia. No seu lamento, não se vitimizava nem pedia compaixão ou solidariedade, num amargo de vida prolongado, num estranho desajuste com o mundo.

“- Passamos toda a nossa vida em busca de estabilidade, da felicidade que julgamos encontrar na previsibilidade da rotina do dia a dia, mas encontramos o nosso sentido de viver na surpresa com que nos desembaraçamos das dificuldades que surgem inevitavelmente, nesse sentimento de vitória, quase sempre uma pequena vitória, do ultrapassar mais um obstáculo.
Acordo de manhã sem saber como vai acabar o dia, onde e com quem, ou se vou mesmo acabá-lo.
Viver é uma corrida arriscada. Se não arriscares, não vives.”

“- Já disse que gosto de ti?”
“- Acho que sim, mas não te lembras.”

Algarve

“A habitação primitiva é um cubo com uma porta e uma janela. Em cima a soteia, para onde se sobe por degraus de tijolos, e muitas vezes sobre a soteia o mirante. Entro num e noutro destes buracos com as telhas assentes em canas. Todos eles reluzem de cal. Dois compartimentos: a chaminé, que é o nome da cozinha, e a casa de fora. Uma esteira no chão, uma cama com uma colcha de seda que só serve nos dias de festa, uma cómoda e um bancal de renda. A um canto um pote e o indispensável pincel. Caia-se tudo. Caia-se o lar e os degraus. Caia-se sempre. É um delírio de branco. Subo à soteia – a melhor parte da casa. O homem de Olhão tem por ela uma paixão entranhada. Se um vizinho a ergue, ele nunca fica atrás – levanta-a logo mais alto. É que a soteia é o seu encanto: sítio esplêndido para respirar, eira para a alfarroba e o figo, e quarto para dormir no Verão sob um pedaço de vela.

… Teria aqui uma casa numa das vielas fedorentas mais escusas. Para o exterior um muro sem uma janela, um muro velho, com um postigo mais velho ainda para entrar. Aberta a porta, seria um deslumbramento: no pátio caiado, só luz e folhas gordas, da variedade dos cactos que dão flor vermelha, humedecidas de água sempre a escorrer. Teria duas escravas para me servirem frutos translúcidos acabados de apanhar. Teria um barco para o contrabando nos mercados de Gibraltar e de Marrocos, satisfazendo assim os meus velhos instintos de pirata. E de noite, a este luar que tem não sei o quê de mulher, de pele de mulher, de seios duros e brancos de mulher, dormiria na soteia sob as estrelas, grandes como fogachos. Era viver num meio adormecimento, seduzido pela luz, fora de todos os interesses e realidades, em Portugal e no Sonho…”

(in Os Pescadores, Raul Brandão)

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