Josefina Madeira . 16

Os dias, semanas, meses, passaram numa sucessão tranquila e ordenada, naquela forma suave que percebe as rotinas, hábitos, gostos, impulsos e limitações que compõem a moldura de personalidade e circunstancialismo dos outros, sem atritos nem inquirições.
Josefina não fazia perguntas mas na proximidade de várias horas diárias de trabalho e organização, conhecia cada vez melhor o homem responsável pela mudança na sua jovem vida.
Sebastian dormia grande parte das noites no pequeno quarto contíguo ao seu gabinete, de forma tão discreta que nunca deixava qualquer vestígio de desarrumação nem objectos pessoais expostos, durante o dia, como se a mobília estivesse pregada ao chão e a coberta da cama fosse rígida, evitando deslocações noturnas para casa dos primos, nos curtos dias de inverno em que trabalhava até tarde e levantava cedo.
No verão, mais descontraído, também acabava por ficar várias vezes a dormir no seu quarto de trabalho, ao fim de semana. Gostava de se divertir na boémias dos bares e casas de fado ribeirinhos. Bebia demais e deitava-se tarde, entre cantorias e discussões de bêbados com marinheiros de navios de várias nacionalidades, que todos os dias aportavam no cais, e conversas inconfessadas com espanholas de companhia. Não era de exageros, nem de passar vergonhas. Falava-se disso entre o pessoal, à boca pequena, mas, na verdade, ninguém sabia de conflitos ou faltas de respeito. Nesses dias era um embriagado com personalidade.
Josefina começou a ouvir essas histórias e notou o crescendo de episódios. O que seria novidade, ou excentricidade, passou a regra semanal. Como se Sebastian escondesse uma dupla personalidade, da qual não se orgulhava, que irrompia a horas certas num grito de alerta do marasmo da disciplina e racionalidade quotidianos, contraditório porque ele mantinha a afabilidade no trato e a competência no trabalho.
Em momento algum se percebia a saturação ou o cansaço, mas a intuição, cada vez mais madura, fazia-a perceber o tumulto naquele espírito fascinante e imprevisível, despertando-lhe um instinto maternal que a surpreendia.

Pelas onze horas da manhã, saía ruidosamente da garagem, na sua Bessie, para jogar a partida de golfe diária, e voltava pelas três da tarde. A Bessie era o orgulho de Sebastian, a sua BSA Gold Star 350 Highland Green.
Fazia a estreita estrada marginal, junto ao rio, pelos armazéns e estaleiros, até à foz, cruzava a aldeia dos pescadores, divertido, com as crianças a correr atrás dele por entre estendais de roupa a secar ao sol e ao vento, acelerava por estradões de terra entremeados com troços de asfalto e empedrado, atravessando os pinhais junto mar, até chegar ao bairro de traçado geométrico das casas burguesas e dos dois sanatórios, onde doentes acamados nas varandas soalheiras de helioterapia, acenavam na sua passagem pontual, despertados pela emoção e ruído do potente motor monocilíndrico.
Sebastian jogava a volta completa de nove buracos, aproveitava o balneário para o banho diário e muda de roupa, comia uma sande no club, e voltava pelo mesmo trajeto, na repetição de acenos convalescentes e infantis corridas, a tempo do meio dia da tarde de trabalho.

No julho do ano seguinte, Sebastian fez as visitas às vinhas, à adega e, claro, a Dona Maria, deixando Josefina com a responsabilidade total do armazém de expedição. Não lhe deu qualquer indicação ou recomendação. Avisou na noite da véspera que no dia seguinte embarcava rio acima, para verificar produções e condições de vinificação. Foi tudo tão natural e descontraído que ambos surpreendeu. Josefina dominava os procedimentos de armazém e mostrava-se habilitada a gerir tranquilamente rotinas e imprevistos.

Sebastian descontraía-se como se se desinteressasse do trabalho, na tranquilidade de saber que Josefina, miúda com recentes dezasseis anos, já quase podia substituí-lo, se necessário fosse, nas rotinas e responsabilidades do trabalho.
Na escola comercial, ela também demonstrava a capacidade que ele lhe reconhecera de início, passava provas sem sobressaltos e com valores acima de bom, adquirindo conhecimentos a revelarem-se úteis no trabalho diário.

Os filmes sucediam-se no cinema ao ar livre. No verão seguinte, um deles marcou a audiência, os irmãos Marx no circo, e teve de ser repetido duas vezes, com a mesma agitação e gargalhadas. Outro passou despercebido, mas ficou a ser o filme da vida de Josefina.
Viu-o com Sebastian, das poucas vezes que se encontraram fora do trabalho, por convite e insistência dele. Ele queria revê-lo.
A história rodava em torno de uma mulher fatal casada com um gangster, envolvida com o subalterno do marido, traições, enganos, mortes forjadas, política, ameaças e violência, com elegância natural.
“-Pareces-te com ela!”, sussurrou-lhe Sebastian, com um sorriso tímido, já a meio da segunda parte, na primeira e única vez em que se referiu à sua figura.
Uma mulher de uma beleza magnética, pouco óbvia, olhos penetrantes, cara angulosa, olhar altivo, voz quente. O cabelo da atriz era parecido com o de Josefina, que no preto e branco do cinema confundia o seu castanho claro como o ruivo do ecrã.
Pela primeira vez sentiu-se mulher, desejada e apreciada, como aquela atriz americana. Não percebeu bem a história, nem se interessou. Só atendeu à pose, à voz, ao jeito, ao penteado, à fatalidade, que iria copiar e seguir toda a sua vida.
Gilda. Rita Hayworth, leu e memorizou, no genérico final.

Josefina Madeira . 15

Faltava menos de um mês para as vindimas, já havia espaço na adega da quinta para as pipas do vinho novo, o armazém da cidade já estava arrumado com o que entretanto viera rio abaixo, e o calor do pino do verão não aconselhava engarrafamentos.
Josefina aproveitava para verificar todos os barris, vertimentos e arrolhamentos, e, principalmente, se estavam bem calçados. Ela já deveria ter martelado todas as cunhas do armazém duas ou três vezes, nos meses que levava de trabalho. Levava a obrigação muito a sério. Nem queria imaginar o desperdício de um barril quebrado no chão ou o risco de um desmoronamento, para si e para os outros trabalhadores.

Toque-toque-toque, ouvia-se a martelar todo o dia, nas últimas semanas. Toque-toque-toque com tanto esmero que valeu-lhe alcunha posta por Sebastian: “Woody Woodpecker”, o pica-pau vivaço que escapa sempre dos apertos.
Josefina não conhecia o pica-pau personagem de desenho animado, mas poderia saber, como sabia do Mickey, que passava nas projeções na praça do mercado da beira rio nas noites dos sábados de verão, por iniciativa do fotógrafo da avenida, que obteve autorização para apontar o seu animatógrafo portátil à parede lateral da igreja, num cinema improvisado ao ar livre de cadeiras de jardim e lugares de pé, negócio de donativos recolhidos no momento e patrocínio dos cafés da praça.
As sessões já eram famosas. A cultura cinéfila crescia a entre a população ribeirinha. O género preferido era o western, mas também se apreciava a justiça moral sobre nazis, gangsters de Chicago na disputa do mercado do uísque, exploradores em subida pelos rios africanos, beduínos a lutar por oásis, Tarzan entre os leões. Aplaudia-se sapateados e assobiava-se as pernas das bailarinas. Nem todos sabiam os nomes dos atores mas as faces de James Cagney, Humphrey Bogart, Edward G. Robinson, Johnny Weissmuller, Fred Astaire e Ginger Rogers, Cary Grant ou John Wayne, passaram a ser tão familiares como as de qualquer caixeiro viajante, cobrador, ou outro forasteiro, dos muitos regulares que passavam por lá.
Toque-toque-toque.
O pica-pau enérgico e decidido nunca passara no cinema de ar livre da praça do mercado, mas morava na imaginação de Sebastian, do fundo da sua memória de infância.

Todos os dias, de manhã cedo, verificavam documentos de transporte e ordens de serviço, planeavam movimentações e marcavam horários de operação. Sebastian vigiava e orientava os trabalhos, produzia documentos e relatórios. Josefina executava tarefas e orientava trabalhos.

“-Tens treze anos e seis anos de escolaridade. Quero que vás fazer o curso comercial no horário noturno. Quero que vás estudar.”
Foi assim de rompante, mais imperativo do que sugestivo, numa segunda feira do princípio de setembro, que Sebastian decidiu o futuro imediato de Josefina.
“-Estás aqui há pouco mais de seis meses e gosto do teu trabalho. Aprendes rapidamente, és curiosa e trabalhadora. A evolução do teu inglês é formidável, muito melhor do que o meu português, e isso é um ótimo indício da tua capacidade de aprendizagem.”
“-Mas eu não sei se sou capaz. Tem coisas difíceis, é preciso estudar muito.
Eu gosto de trabalhar…”
“-Gostas de trabalhar mas tens de evoluir. Não vais passar a tua vida toda na adega. É um desperdício.”

Ela ouvia, mas não se entusiasmava. Não se imaginava a perder tempo a estudar matérias abstratas que nunca viria a necessitar na sua vida, coisas que ninguém do seu trato conhecia.
Saber ler e escrever e fazer contas, sim. Saber linhas do comboio, rios e serras, também.
Gostou de aprender francês. No ano anterior, na pensão, tiveram de a chamar, a ela, simples lavadeira, ao salão, para perceber um estrangeiro que só falava francês. Pouco adiantou mas o homem sentiu-se mais confortável por se fazer entender.
Saber medidas de peso, distância e volume também é necessário, mas decorar aquelas coisas das ciências naturais já lhe parecia tão difícil como desnecessário.
Também não queria passar os serões de inverno fora de casa, na escola. É escuro, frio e cansativo. Chegar a casa depois das onze horas da noite e ter de levantar antes das sete horas da manhã.
Estudar para quê? Já tinha um trabalho bom e de certeza que ninguém lhe iria dar um muito melhor do que este, por mais que estudasse.
“-Quero que aprendas dactilografia, contabilidade, economia, direito comercial, além de matemática, português, mais inglês, e outras disciplinas que tenhas”.
Josefina não estava a conseguir travar o entusiasmo dele.
“-Vão ser anos cansativos…”
“-Não vai ser nada.
Eu deixo-te sair às cinco horas, para ires a casa e começares as aulas às seis e meia. Depois também te deixo, de manhã, chegar depois das oito meia. Se for preciso estudar, se precisares de dias para exames, também se arranja.”
Ela começou a perceber que o incentivar do estudo não era um capricho dele ou uma benesse de chefe. Era uma obrigação, uma ordem. Ele estava a ordenar o estudo.

Nessa noite falou com a mãe.
“-Vais estudar para quê? Sabes ler, escrever e contar, tens boa cabecinha e falas bem estrangeiro. Tens um bom emprego, és apreciada pelos patrões e respeitada pelos colegas. Se calhar podes chegar a encarregada, como o Ernesto, coisa nunca vista numa mulher, para mais, filha de lavadeira.
Isso é coisa de ingleses, que não precisam de trabalhar para viver.

No dia seguinte, ao fim da tarde, Sebastian acompanhou Josefina a casa.
“-Dona Maria, venho aqui pedir-lhe autorização para inscrever a sua filha na Escola Comercial.
Ela é inteligente e trabalhadora, tem capacidade para progredir na vida.
O mundo está a mudar muito depressa. Temos de aprender coisas novas todos os dias. Mas, para isso, precisa de estudar, adquirir conhecimentos que a prática, só no trabalho, não lhe proporciona.”

Perante o silêncio de incompreensão, ignorância e desconfiança mal disfarçada, prosseguiu.
“-Em nada será prejudicada.
Vou permitir que saia meia hora mais cedo, todos os dias, para poder vir a casa jantar e chegar a tempo à escola. De manhã, também poderá chegar meia hora mais tarde, para descansar.
Depois, quando tiver exames, vou autorizar horas para estudar.”

Sebastian percebia que não era convincente. Ia repetir o discurso, quando Maria falou de supetão, sem tirar os olhos do chão
“-Ela faz bem o que faz. Se vai estudar, pode perder-se e não conseguir. E os senhores podem pôr um moço no lugar dela. E depois nem estuda e perde o trabalho, volta para o tanque, subir e descer a rua com o cesto da roupa à cabeça. Os outros que fizeram o trabalho dela, não estudaram. Desde a minha meninice que venho homens a tratar das pipas. Porque é que a minha Fina tem de saber mais do que os outros, trabalhar mais ou estudar? Não quero que ela se perca do trabalho.”
“-Não tem de fazer mais do que os outros.
Ela é mais do que os outros. Não de pode desperdiçar isso.”

Maria mantinha a expressão dura e olhos baixos. Tinha medo das mudanças. O seu mundo era o de sempre. Desde o tempo da sua avó que havia ingleses no vinho, barcos no rio e comboios na estação. Carvão, fruta e bacalhau descarregados nos muros de amarração, estaleiros na praia, burros e carros de bois rua acima. A escola não era para elas, mulheres do povo. Ficavam nas limpezas e trabalhos menores.
Mal sabia ler e a sua filha já tivera de ficar na escola até aos dez anos. Mais do que suficiente para saber muito mais mais do que ela aprendera.
O liceu era para os filhos dos fidalgos. A professora da filha ainda a convencera a fazer a sexta classe, a trabalhar ao mesmo tempo, até aos doze anos. Já muito tinha feito.

Vendo que nada conseguia, Sebastian atalhou a conversa.
“-Ela precisa de estudar para continuar a trabalhar. Se não estudar, não a quero a trabalhar.
A escola começa no mês que vem. Amanhã, vou lá com ela, matriculá-la. Mas depois, preciso que a Dona Maria vá lá comigo.”

Sebastian foi duro, mas sorria.
“-Muito obrigado, Dona Maria.”
Despediu-se com uma vénia e saiu, decididamente, como sempre.

Josefina Madeira . 14

O sol do fim da manhã inundava o terraço onde Josefina aguardava, sentada, com a bagagem ao lado, o pequeno saco de lona da cor da farda, bebericando a limonada que Maria fizera entre elogios ao limoeiro abrigado à porta da cozinha, orgulhosamente plantado por si há muitos anos, de cujos limões extraira o suco, e que nunca a tinha deixado mal, de tão sumarentos e saborosos.
As horas passavam, as onze já se tinham ido, os barqueiros mostravam ansiedade, o farnel de Maria embrulhado no cesto de vime para a viagem esperava em cima da mesa e Sebastian não aparecia.

Na feição da corrente, a viagem seria mais rápida, mas nunca menos de seis horas e meia.
Embora podendo aproveitar todas as horas de sol de um longo dia de julho, o piloto não queria adiar mais a partida para não correr o risco de chegar na penumbra, atrasado por um qualquer imprevisto da navegação.
O barco não partia sem Sebastian e ele tinha dito que vinha mesmo. Após a segunda escalada do piloto para tentar confirmar a partida, preocupado porque não queria sair depois da uma, já passada a meia hora da tarde, Josefina toma a decisão de embarcar, carregar a sua bagagem e a de Sebastian, que entretanto ficara pronta no hall ao fundo das escadas, despedir-se de Maria e trazer o farnel.
Josefina sentou-se descontraidamente no banco corrido da barcaça, junto à cabine, cruzou a perna e ajeitou o chapéu. Quando piloto já olhava para o último minuto antes da uma, no relógio de navegação do barco, um ciclista assoma na entrada da quinta, iniciando rapidamente a descida sinuosa.
“-Ligue o motor, que já se faz tarde!”, ordenou Josefina, na sua primeira manifestação de autoridade, não usurpada porque já havia sido concedida por Sebastian por mais de uma vez, com o impacto da sua juventude nos dois homens, que também não perceberam por qual canal etéreo se correspondera a miúda com o inglês.
Sebastian largou a bicicleta à porta de casa, deu um abraço a Maria, que o esperava, numa despedida breve de quem não vai ficar longe por muito tempo, chapinhou provocadoramente o Tritão na passagem pela fonte, e desceu as escadas do cais, em corrida e sem coxear.

“-Won’t you wait for me?”
“-Course not”.
Sebastian sorriu
“- … arrived just in time.”
“- I know the priest had an appointment at one o’clock.”
“-How do you… Forget!”, com um gargalhada.

Passaram a ponte do comboio, já o sol se punha atrás da cidade alta, para lá da foz.
A viagem tinha sido tranquila, quase monótona, numa repetição de paisagem, agora invertida, já sem a expetativa da novidade, na conformação do regresso da festa.
Sebastian passou quase todo o tempo a escrever páginas no seu caderno, algumas vezes texto corrido, de virar folhas, outras de caligrafia trabalhada como se desenhasse calmamente. Se calhar desenhava. Josefina não consegui ver o que fazia.
Sentado em cima da escotilha de madeira, larga, de acesso ao pequeno porão, encostado à cabina, escrevia contra os joelhos dobrados em suporte ao caderno. Se ele quisesse mostrar, tê-lo-ia feito. Seguia distraído do rio e das margens, como se já não lhe interessasse a rever a paisagem, ou como se outra coisa mais importante lhe tivesse acontecido. Josefina sabia que a disposição aliviada vinha da conversa com o padre.
Estava em paz porque desabafara a sombra que pairara da conversa da véspera e revelara parte da sua vida que o formou, marcou e condiciona a vida.

“-Qual guerra? A guerra passaste-a aqui e eras miúdo”, perguntara-lhe o padre, horas antes.
“- A guerra nunca acabou, só mudou de lugar, baixou de intensidade e tornou-se subversiva.
No Egito, Nasser anda a brincar connosco, às voltas com o Suez.
O canal foi construído por franceses, mas foi cuidado e financiado por nós.
O que trouxe o canal até aos nossos dias foi o financiamento, em 1875, negociado por um dos nossos mais brilhantes primeiros-ministros, Benjamin Disraeli, por sinal descendente de judeus sefarditas portugueses.
Naquela altura, o canal estava falido, gerido por egípcios e franceses corruptos, e os únicos interessados éramos nós, para a ligação do Mediterrâneo ao Índico, para ligar a Europa à Ásia, a Inglaterra à Índia. Unir a civilização.
Disraeli dispôs de meios e tropas para manter a navegabilidade em segurança, que perdurou por mais de um século. Se tivesse continuado entregue aos egípcios e otomanos, provavelmente assoreava-se por desleixo ou destruir-se-ia em atentados nas múltiplas revoltas da decadência dos mamelucos.
Eu não tenho nada contra autonomia e independência dos povos do Império, mas os nossos investimentos devem ser salvaguardados em proveito mútuo, as leis devem ser aplicadas e a justiça entregue a tribunais justos.”
O padre olhava-o atentamente, apreciando a argumentação mas sem concordar.
“-Sabes que a minha visão não é essa.
Eu acredito que um povo deve ter o direito de viver na sua terra, ser senhor dos seus domínios e decidir livremente o seu futuro. Se os egípcios querem o canal e se o canal é no Egito, os colonizadores só têm de o largar o mais rápido possível. É assim que tem de ser.”
“-Mas eu não estou a discutir a posse só pela posse.
O que eu sei é que de todas estas novas nações, que estão a nascer neste processo de independências em curso, apadrinhado pelos americanos e pela ONU, poucas têm capacidade de se governar. O que vai acontecer é que ingleses, franceses e portugueses vão ser expulsos das suas colónias e substituídos por russos ou por grandes companhias americanas, a explorar recursos energéticos e minerais. Vai ser o substituir de um pelo outro, com perda cultural e identitária das novas nações.
A propriedade pode passar para os locais, mas a gestão e controlo do negócios vai ser entregue a estrangeiros, com novos hábitos e desligados da realidade, de grandes companhias americanas ou apparatchik.
O que aconteceu na Índia foi uma afronta, e agora repete-se no Egito. Nós só estamos a ser substtuídos nas administrações.”
“-Disseste que estiveste na guerra?”, perguntou o padre, para soltar o imbróglio argumentativo.
“-Eu saltei de paraquedas sobre Port Said, com a 16ª Brigada Aerotransportada.”
“-Na crise do Suez?”, perguntou o padre surpreendido.
“-Sim. Operação Musketeer. Vai fazer dois anos a 5 de novembro”.
Sebastian referia-se ao assalto de paraquedas da 16ª Brigada Aerotransportada Britânica, onde cerca de 2000 homens e 200 toneladas de equipamento, em 100 aeronaves, numa operação conjunta de franceses e ingleses, tomaram controlo de Port Said e do canal do Suez, na noite de mau tempo de 5 de novembro de 1956.
A operação foi um sucesso militar. A 16ª Brigada permaneceu em Port Said até a sua retirada, em março de 1957, por pressão dos Estados Unidos, União Soviética e da ONU. Foi um desastre político.
“-Não fazia ideia de que foste militar.”
“-Ninguém sabe. Aqui, só os meus primos, e reservam-se.”
Sebastian falava com amargura. O padre olhava-o com curiosidade.
“-Não fomos bem recebidos no regresso da missão. Em Inglaterra, há cada vez mais gente a pensar como o senhor, mas nós estávamos certos. Fomos traídos por Eisenhower.”
“-Passaste lá o tempo todo?”
“-Vim embora no final de janeiro. Fui ferido numa emboscada. Um sniper. Provavelmente um terrorista da Irmandade Muçulmana. Matou um camarada meu. Eu fui atingido no calcanhar esquerdo.”
“-Por isso coxeias?”
“-Não é nada. A bota quase aguentou o projéctil. Os sapatos ingleses são os melhores do mundo.”
“-Mas feriu-te.”
“-Tive de fazer uma pequena cirurgia. O médico disse que recuperava num ano. Já vai a meio do segundo, mas há-de passar.”
O padre apreciava o rapaz. Decidido, culto, inteligente, corajoso, trabalhador, mas também idealista e orgulhoso. Um romântico fora de tempo.

O barco acostou na margem, já a sombra da cidade cobria o rio com luz de fim de tarde. Josefina pegou na sua pequena bagagem e no cesto ainda meio cheio que Maria recheara. Sebastian juntava o seu cadernos, lápis e folhas soltas, no saco verde cilíndrico que lhe fazia de mala.
“-Até amanhã, Josefina.
Espero que tenha sido proveitoso e agradável”.
Josefina sorriu.
Além dos ensinamentos que recolhera, sobre vinhas, tratamentos e vinificação, que lhe encheram o caderno de notas, tinha crescido na sua maturidade no relacionamento com as pessoas.
Nos poucos dias ou horas que estivera na quinta, percebera um pouco o que era uma vida de privilégio e conforto, a diferença entre exercício da autoridade por hierarquia e delegação e a sua imposição natural por sabedoria e experiência, o temor e reverência que o poder provoca na perspetiva de quem manda, a responsabilidade da consequência das ordens que se dá, a necessidade de tudo saber, nas três perguntas que Sebastian repete sem parar – o quê? como? e para quê?, a necessidade de pensar os grandes problemas com mais de uma década de antecedência, inovar e imaginar soluções para resolver o que provavelmente vai acontecer, fazer pensar, explicar e melhorar.
“-Muito obrigado”.
Josefina não conseguia verbalizar os pensamentos e sensações que lhe passavam na alma.
Sebastian olhava-a fixamente, com um sorriso, de pé, no cais junto ao armazém, cabelos louros em pala sobre a testa esvoaçantes à luz vermelha do poente, enorme saco verde tropa, cilíndrico, a tiracolo na vertical, como chegado da guerra.
Ele sabia exatamente o impacto da sua presença e palavras numa criança inteligente, já endurecida pela dureza da vida e necessidade de sobreviver pelo trabalho.
“-Peço desculpa por algum excesso, mas, como compreende, voltar lá foi muito exigente emocionalmente.”
Foi maravilhoso, obrigado. Foi o que Josefina pensou mas não conseguiu dizer.
“-Amanhã, às oito horas, estamos aqui outra vez.”
“-Obrigado”. Foi apenas o que disse.
Despediram-se com uma vénia.

Josefina subiu a Rua Direita, que agora ainda lhe parecia mais torta, desviando-se das sujidades orgânicas que escorriam para o rio, com passos largos e decididos, com o saco sobre o ombro direito e o cesto de Maria na mão esquerda, ainda com a maior parte de farnel intacto que Sebastian insistiu dar-lhe.
Cruzou alguns vizinhos que cumprimentou apertando a pala do chapéu, naquele gesto rápido de quem simula tirá-lo, com o sorriso e voz colocada do emigrante bem sucedido chegando a casa.

“-Ai, minha filha. Não tenho nada para o teu jantar”, exclamou na sua instintiva preocupação maternal, “Não te esperava”, num rápido abraço.
“-Não se preocupe. Trago comida para as duas.”
“-Trataram-te bem? Comeste?”, já numa observação atenta da nutrição e de outros indícios só perceptíveis às mães.
“-Muito bem, mãe. Foi muito bom”, com uma desenvoltura e disposição que abafou a preocupação dos últimos dias, mas despertou para uma pequena alteração que a mãe ainda não compreendia. A filha olhava-a de frente, descontraída e feliz.
Maria já vira muito do mundo e desconfiava de homens mais velhos, de outras paragens. A sua menina estava diferente. O seu pensamento não saía do temor do abuso do poder e ilusão, no mais básico das relações humanas, e só não queria que a filha se perdesse aos seus treze anos num equívoco que marcaria a sua vida, naquele meio de gente simples como ela, naquela meia milha do rio ao apeadeiro.

Josefina Madeira . 13

Josefina desceu para jantar. Maria e Alzira conversavam animadamente, da festa de São Lourenço, que seria daí a duas semanas.
Ofereceu-se para ajudar, mas o jantar já estava adiantado e mesa posta. Mandaram-na sentar e aguardar, com a autoridade de quem serve e trabalha, e assim fez com a naturalidade que se ganha com respeito.

Embora o santo padroeiro da terra fosse Sebastião, com celebração sentida e festa rija, a vinte de janeiro, o dez de agosto de São Lourenço aproveitava o estio e anoitecer tardio para juntar gentes na festa da sua capela, virada ao rio e à vila, do cimo do cume com o mesmo nome.

O frio de janeiro da festa do São Sebastião obrigava a samarras, capotes, chapéus e gorros, aquecidos à volta da fogueira na praça central da terra, onde se cozia carne de porco e batatas em panelas de ferro com três pernas, para o tradicional almoço comunitário de agradecimento ao santo pela proteção contra a fome, a peste e a guerra, desde que, após forte devoção, uma chuvada providencial derrocara a estrada de Chaves, poupando-os à passagem dos exércitos de Soult, em março de 1809.
Estendia-se a mesa e servia-se a carne e batatas com broa de milho, vinho corrente das pipas, num trabalho comunitário de oferendas juntadas entre todos, vilões e forasteiros, até ao fim da tarde recolherem-se a casa, corridos pelo frio que anoitece.

O verão de São Lourenço atraía juventude, crianças, festa, animação, petiscos e vinho, e, com o acordeão do Albino, desgarrava-se e dançava-se até altas horas, no adro da capela.
A fama da festa chegou a concelhos vizinhos, pela farra e alegria, mas também pelo temor e assombro do espetáculo das lágrimas de São Lourenço, fenómeno natural e científico, explicado e desvalorizado pelo padre, mas associado pelos jovens casadoiros a bons augúrios de felicidade e fertilidade.
Entre finais de julho e meados de agosto, a translação da Terra intercepta a órbita de detritos do cometa Swift-Tuttle que, queimados na alta atmosfera, provocam a ilusão de uma chuva de meteoros, que no seu pico de intensidade, na noite de dez de agosto, chegam a sessenta episódios por hora, um por minuto.
Diz a tradição que cada lágrima é um pedido concedido, recebido com júbilo e devoção pelos casais tementes, uns sentados, outros ajoelhados, no terreiro da capela.

Josefina ouvia, divertida, o entusiasmo de Alzira com os pedidos a São Lourenço, para o seu futuro com Armando, entrecortado com a troça madura de Maria. O que pediu não dizia, mas descrevia como iriam assistir a todas as lágrimas, de mãos dadas, contando que uma delas seria a sua.
Lá no escuro, segura-lhe bem as mãos, aconselhava Maria, olhando de soslaio para Josefina, que fingia não perceber.

Sebastian entrou na cozinha, aparentemente muito melhor do seu pé, sob efeito do analségico, com certeza, saudando e elogiando o aroma que enchia o ar.
Josefina sorriu-lhe, mas não foi retribuída, nem foi olhada. O embaraço do jovem era evidente, mas o não lembrar, não perguntar nem referir a fragilidade, perante as outras senhoras, foi apreciado, com reserva, por ele.

“-Sebastian, já viu as lágrimas de São Lourenço?”, perguntou Josefina.
“-Claro que sim. As Perseidas são sempre um grande espetáculo.”
“-As quê?”
“-As Perseidas. Uma chuva de meteoros que vem da direção da constelação de Perseu. É no princípio de agosto, por alturas do São Lourenço. Estavam a falar disso? Cheguei a ir lá cima ver, à festa, com a Maria. Era pequenito.”
Baixou a voz e aproximou-se
“-Mas vê-se em todo lado. Até em Grosmont.
Depois mostro-te.”

Maria pousou na mesa a assadeira de barro vermelho com uma posta de vitela assada com batatas, um pote de barro preto de arroz de forno, uma travessa branca com grelos cozidos passados por azeite e alho, um cesto de broa de milho e uma garrafa de vinho tinto, mas só para provarem, como dizia.
A conversa continuou animada, sobre as festas da terra, enquanto comiam e elogiavam o assado, na pequena mesa da copa que, mesmo que quisessem, não dava cabimento para os quatro.
Maria e Alzira faziam comida para mais do eles os quatro, serviam Sebastian e Josefina, arrumavam tudo rapidamente, e recolhiam às suas casas, ainda a tempo de partilharem a ceia, com o muito que sobrava e levavam dali. Assim também ficavam todos mais à vontade.

Depois do jantar, despediram-se das senhoras, que praticamente já tinham tudo arrumado na pressa de recolher cedo a casa, ainda com a animação da conversa das festas, e foram sentar-se nas cadeiras de verga do terraço virado ao rio, como na véspera e antevéspera, já com as primeiras estrelas a despontar no céu.
Sebastian já não coxeava. Ficou de pé, num silêncio prolongado, a distinguir a curva do rio, na crescente escuridão, e o contorno dos montes em redor, no contraste do céu estrelado.
A curiosidade de Josefina era tão grande como o receio de deitar tudo a perder, na precipitação de querer saber o que parecia não querer ser dito.
“-Ainda não te disse. Vamos embora amanhã. Íamos ficar até ao final da semana, mas amanhã sai um barco para baixo, pela hora do almoço, e o nosso trabalho ficou composto hoje. Fiz relatórios, não encontrei incongruências, não me suscita grandes dúvidas. Ficar é perda de tempo. Temos muito que fazer lá em baixo.”
“-Sim, claro. Se está feito.”
Josefina concordou, naturalmente, mas não disfarçou a desilusão na face e tom de voz. Calaram-se.

Não terão passado mais de cinco minutos, mas o peso do tempo do silêncio esmaga a percepção da realidade.

“-Hoje foi um dia estranho. Desculpa!
Estava cansado, dorido e portei-me mal com o padre Rogério.”
Josefina não assentiu nem sequer reagiu. Não era assunto dela. Não compreendia o mal estar de Sebastian. Tudo era novidade: o local, as pessoas, a circunstância, o comportamento dele. Não tinha de ter opinião nem lhe competia ter opção. Estava ali em trabalho, às ordens do chefe, em condições que uma empregada da sua condição jamais almejaria.
“-Não sei para onde vamos”, continuou depois de mais um silêncio de longos minutos.
“Amanhã preciso de falar com o padre. Tenho de falar com ele e pedir desculpa pelo meu comportamento. Eu sei que tenho razão mas vou ter de lhe falar.”
Ficou pensativo mais um tempo.
“Amanhã às 11.00 horas, encontramo-nos aqui em baixo, de malas feitas. Eu vou arranjar maneira de falar com ele.
Vamos dormir?”

Josefina quase não falou e foi-se deitar desiludida, por não ficar mais dias, mas também por não compreender a tensão de Sebastian. Sentia-se protegida e acarinhada, no seu paternalismo, ele falava abertamente, contava histórias, explicava, ensinava, mas não dizia nada da sua vida adulta, dos planos e frustrações, porque era tão carinhoso e distante, ao mesmo tempo, com um travão que tanto a frustrava como fascinava.
A pouca experiência e juventude não lhe permitiam sequer compreender as dúvidas que tinha, mas a intuição despertava-lhe curiosidade e imaginação por caminhos e pensamentos audazes que a faziam corar na intimidade.

Josefina desceu pouco passava das nove horas. Cozinha deserta, porta aberta, cesta de pão na mesa, com compotas, queijo e manteiga, cafeteira e fervedor de leite mantendo-se quentes pousados na borda do fogão a lenha.
Sentou-se com à vontade para se servir. O lugar de Sebastian tinha algumas migalhas de quem já se tinha aviado, sem esperar por ela.
Maria entrou com um sonoro bom dia, abraçada a um molho de couves acabadas de colher.
“-Bom dia, menina Josefina. Ainda bem que se serviu. Estava aí tudo para si.
O menino Sebastian foi à vila, tratar não sei de quê. Saiu muito cedo, mal falei com ele Levou a velha bicicleta lá da adega”

Sebastian sabia da velha bicicleta. Estava no rol de existências da adega. Raramente era usada. Já não era a do seu tempo, mas era igualmente velha, e servia para o feitor deslocar-se, ou mandar alguém, às vinhas, para levar água, mantimentos ou instruções para o pessoal.
De manhã cedo, abriu o portão da adega com a chave que sabia guardada no chaveiro do hall de casa, e procurou a bicicleta atrás do velho tonel à entrada, do lado direito. Limpou o assento, atestou os pneus com a bomba de ar, lubrificou a corrente com a almotolia que o inventário dizia estar na segunda gaveta do armário do outro lado da porta, e montou a máquina. Felizmente os pneus não estavam furados.
Subir o estradão de terra, pelo meio das vinhas, ao nascer do sol, fez-lhe recordar os tempos difíceis mas infantilmente felizes de quinze anos atrás.
Pedalar era confortável. Não lhe magoava o tornozelo ferido.

A missa das sete era a mais concorrida do dia, antes do trabalho começar. Sebastian chegou pouco antes da hora e sentou-se no antepenúltimo banco, discretamente, como se fosse possível. Ninguém o conhecia mas todos sabiam quem era o menino Sebastian, da quinta grande, que estava por lá, e também estranhos, por ali, não havia muitos
No final da cerimónia saiu e dirigiu-se à porta lateral, por onde saía o padre, com a bicicleta pela mão.
“-Bom dia senhor padre. Preciso de falar consigo.”
“- Sebastião, que bom ver-te”, e abraçou-o com um sorriso largo, como se já o aguardasse. “Se estás aqui a esta hora da manhã é porque é assunto sério”.
“-Não lhe quero tomar muito tempo.
Estou em falta consigo e tenho de lhe pedir desculpa, que me perdoe a minha impertinência, da forma como lhe falei ontem.”
“-Nem reparei”, mentiu piedosamente. “Conheço-te de miúdo. Enérgico e decidido, com todas as certezas do mundo. Não gostas de ser contrariado nas tuas decisões. Isso é uma qualidade nos tempos que correm, sabias? Faltam-nos homens inteligentes e com convicções. Corajosos, também. Vires aqui falar é um acto de coragem e de respeito para comigo.
Anda, vamos ali a casa. Tenho algum tempo disponível.”
Contornaram a igreja até à casa do padre e entraram.
Sentaram-se nos mesmos lugares da véspera.
“-Espera! Vou buscar café que tenho ali feito. Ainda deve estar quente, do fogão.”
Pousou duas canecas, a cafeteira e um prato com biscoitos doces.
“-Então que te traz aqui tão cedo?”
“- Senhor padre, estou para lhe falar há muito. Já estive para lhe escrever”.
O padre não reagiu. Curioso com o início de conversa, sem saber para onde ela evoluiria, mas suspeitando do que se seguiria.
Sebastian fez uma pausa, como que a ganhar coragem. O padre, sabedor das angústias das almas, deu-lhe tempo e espaço para se compor, sem a pressão de quem tem pressa, pouca paciência ou julga saber a solução de um problema de que nem ouviu.
“- Ontem fiquei triste com as suas palavras. Perdoe-me dizer-lhe que me desiludiu. Contava mais contenção e serenidade da sua pessoa, de um padre católico de um país nobre e conservador, e surpreendeu-me a ligeireza com que encara a nossa sociedade e o sucesso das nações.”
“-Vens dar-me lições de contenção? Não te imaginava um conservador. Tu? Porquê tu?”
“- Não sou conservador. Tenho é receio do que pode vir a seguir à libertação descontrolada das amarras e normas, caducas mas ainda assim formadoras que nos regem. As erupções descontroladas resultam em pior do que os processos evolutivos. E desconfio muito da bondade dos que se dizem progressistas.”
“- Também leste George Orwell?”
“- Claro. The Animal Farm foi tema de discussão no colégio. Nós, os alunos, sentíamo-nos os porcos revoltados. Fazia parte da nossa conduta de adolescentes revoltados com o rigor das pesadas regras. Mas os líderes da revolta, que nunca chegou a ser, eram piores do que os contínuos mais severos. As praxes e castigos de quem não seguia as regras revolucionárias eram muito mais violentas do que as normas vigentes.”
“- Isso é normal, na convivência entre jovens confinados num internato.”
“- Mas a discussão nasceu pela circunstância de sermos minorias dentro da minoria. O colégio era católico, o Ampleforth College, no Yorkshire.
Lá, a maior parte dos alunos era de uma grande minoria, os católicos ingleses. Mas também tínhamos anglicanos, claro, e vários alunos das colónias, de várias raças: africanos, indianos, árabes, judeus e caribenhos.
Em 1945, no fim da guerra, quando lá entrei, o ambiente em torno dos temas racial, religioso e social, naquele pequeno universo, estava explosivo. Durante a guerra, tudo fora prometido. Agora tudo era esperado. Para adensar o ambiente, o Animal Farm sai nesse ano e torna-se um sucesso imediato. O diretor chegou a proibir que se abordasse as questões polémicas nas aulas, mas dúvidas eram muitas e as cópias circulavam por todos os dormitórios.
Eu sei que a história é uma sátira à revolução bolchevique de 1917, mas encaixa-se em qualquer ambiente de rigor e regras apertadas, onde uma revolta leva quase inevitavelmente à corrupção do poder e traição dos ideais revolucionários.
O colégio era confessional mas não exclusivo. Eu tinha colegas judeus, árabes e indianos, tanto hindus como muçulmanos.
Em Agosto de 1947, dá-se a independência da Índia e do Paquistão. Eram todos indianos mas deixaram de se falar nessa altura.
Mas o pior foi em 1948, com a fundação de Israel. Para judeus e árabes, que chegaram a fazer pandã, antes, contra o mandato britânico, a partir dessa data foi o fim do mundo. Os judeus acabaram mesmo por abandonar o colégio.
Quando eu saí, em 1952, praticamente só sobravam africanos e caribenhos, além de ingleses. Os outros tinham saído quase todos, entretanto, em conflito.
Havia um ambiente de revolta e vingança. Não tinha de ser assim, os fins nem sempre justificam os meio, mas as sementes estavam lá todas. Árabes, judeus, indianos e pasquistanes estavam em conflito entre si e contra nós.
Mas o exemplo vinha de cima. Durante a guerra, o Mufti de Jerusalém, Amin al-Husayni, esteve em Berlim. Foi procurar apoio nazi para a causa palestiniana, sabendo do ódio dos alemães aos judeus. Eu compreendo que, por vezes, o inimigo do meu inimigo torna-se meu amigo. Mas isto foi um exagero.
Também da Índia, Subhas Chandra Bose foi a Berlim, em 1942, procurar apoio para a sua causa independentista. Criou uma aliança com a Alemanha Nazi e o império japonês. Os alemães até prepararam uma brigada de combate, a Indische Legion.
De um momento para o outro, já não podíamos confiar nos indígenas, nem planear o futuro do império britânico.”

Fez uma pausa para beber o café que já não estava quente.

“-O meu pai morreu a defender o Egipto e a Palestina do jugo racista nazi. Hitler chegando lá, se conseguisse, não sei se ia exterminar só judeus.”
“- E em que parte é que entras em conflito comigo?”, perguntou o padre, desafiador.
“-Mal ou bem, o problema já está criado no Médio Oriente e na Índia. Judeus e árabes, de um lado, e paquistaneses e indianos, do outro, já se começaram a matar. Mas agora o mal vai para outras paragens. Os franceses já estão em guerra, na Indochina, e vão ter grandes sarilhos na Argélia. Num lado como noutro, guerrilheiros comunistas instigados por russos e chineses.”
“-Mas queres perpetuar a ordem colonial?”
“-Claro que não. Mas acho que só se deve dar independência com um referendo a todos os residentes, europeus e locais.”
“-Mas ao longo de séculos, os territórios foram retirados pelos europeus aos locais.”
“-Mas também levaram civilização, lei, ordem e progresso.”
“-Não é assim, Sebastian. Nos tempos que correm, temos de repor os direitos dos povos, compensar os saques de séculos.”
“- E nos Estados Unidos, Brasil ou Austrália? Os brancos também devem sair de lá?
“-São casos diferentes. Os brancos são em número muito elevado e as independências já foram há muitos anos.”
“-É só uma questão de tempo e número? Qual é a moral? Para isso, os portugueses estão há mais tempo em África, ou na Índia, do que os ingleses na América ou na Austrália. Também lá estão em número significativo. Mas os americanos acham que têm de sair e, inocentemente apoiam grupos terroristas.
O General Eisenhower foi agora eleito presidente. Ele, como bom americano, é completamente a favor das rápidas autodeterminações dos povos. São uns ingénuos, manipulados por Estaline. Todos os movimentos revolucionários são instigados e financiados pelos soviéticos. Quando acordarmos, a Ásia, África e América Latina serão todas exploradas pelos soviéticos.
Os povos estão a ser manipulados por pequenos grupos, bem organizados e financiados por Moscovo, com o objetivo de ocupar o poder esvaziado pela retirada dos europeus. Ao mesmo tempo, as sociedades europeias estão a ser instrumentalizadas para aceitar a bondade das intenções soviéticas, cedendo e facilitando a emergência destes grupos armados como legítimos representantes do povo, sem eleições nem sequer formação cívica adequada. Estes poderes nacionalistas, mas ao mesmo tempo internacionalmente socialistas, vão tomar o poder pela força e enriquecer a explorar minérios e combustíveis. Vai acontecer uma usurpação e substituição dos poderes coloniais, por outros poderes de matriz desconhecida e controlados por uma potência, a União Soviética, com valores e leis muito diferentes dos nossos. O que vai acontecer é só uma substituição de poder. Nós vamos perder mas os povos indígenas vão perder muito mais.”

O padre olhava-o atentamente. Mais do que aceitar ou discordar, estava surpreendido com o activismo político do jovem. Nada fazia prever que atrás daquela capa de tranquilidade, rigor e trabalho, também estivesse uma personalidade tão interessada e incisiva no governo do mundo. Rogério era um homem viajado, atento à evolução, aberto aos novos ventos de mudança. Nascido num ambiente de pequenos proprietários e funcionários públicos de cidade de província, viajara pela Europa de entre guerras, estivera em Paris nos anos vinte das revoluções sociais e culturais, mesmo sem perceber exatamente o que estava a acontecer, e assistira à ascenção e consolidação do poder de Mussolini, em Roma, com apreensão. Regressado a Portugal, em plena crise europeia do final de 1929, não de encaixou no ambiente conservador e militante da ditadura militar instaurada anos antes com a cumplicidade dos católicos mais conservadores.
Foi quando surgiu a oportunidade da missão em Moçambique. Lá, conheceu a realidade colonial portuguesa de Lourenço Marques e o atraso endémico do interior de África, de subnutrição e doença, mas em liberdade e comunhão com a natureza. Também viajou pela Rodésia colonial e pela jovem república da África do Sul, onde viu racismo e exploração. Solidarizou-se com a necessidade e ingenuidade daqueles povos autóctones que nunca eram ouvidos nas decisões de soberania.

Sebastian continuou.
“-Não concordo com a sua visão do mundo. Com o que acha ser o melhor para as pessoas.
Se percebo e aceito que devemos dar o voto democrático às populações, temos de ter a certeza de têm o conhecimento e liberdades suficientes para decidir corretamente.”
“-É assim que achas que deves actuar? Manifestares-te a reclamar ao vento?”.
O padre já não escondia a sua irritação.

“-Estive na guerra. Voluntário.”

O padre levantou o sobrolho. Não sabia do que é que ele falava. Qual guerra? Já tinha acabado há mais de dez anos, quando ele era miúdo.

Volta ao mundo

Aconcheguei-te no beliche da cabine fria no cargueiro agitado pelo Atlântico, babaste-me o ombro num sono solto de boca aberta no comboio noturno dos Andes, cobri-te de toalhas húmidas no calor sufocante do hotel barato de Manila, fui a tua almofada na relva do Central Park. Do resto não me lembro.

“O amor não se manifesta no desejo de fazer amor, mas através do desejo de partilhar o sono.”
Milan Kundera

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