“Só progrides se eu te saltar à espinha”.
Esta violência foi descrita num relato na primeira pessoa, na antena de uma rádio nacional, por uma professora universitária, figura pública, descrevendo uma situação passada nos primeiros anos da sua vida na academia.
Disse que não apresentou queixa. Conseguiu progredir e seguiu carreira. Mais de vinte anos depois, não é difícil, para quem for do meio, identificar o fraco autor do dito.
Ouvi isto há cerca de dois anos.
Esta semana, voltei a ouvir uma expressão parecida, outra vez relatada na primeira pessoa, descrevendo uma situação em contexto laboral. O lamento de uma mulher que está a sofrer, arranja forças para avançar, não quer passar vergonhas e também não quer pôr nome ao autor. Fica na dúvida se é assim mesmo, se tem de ser.
Não tem de ser.
O problema do assédio, do avanço não consentido, tem várias vertentes e manifestações.
– o caso clinico, do predador irracional, que pode resvalar rapidamente para a violência. Necessita de intervenção policial e tratamento médico, com reabilitação ou não.
– o exercício de poder amoral, comummente nas baixas chefias e de muita proximidade, do pequeno domínio, que leva ao abuso e assédio moral ou sexual. Eram histórias correntes nas grandes confecções do norte. As chefias superiores, sindicatos e comissões de trabalhadores têm especial responsabilidade no controlo e prevenção, impondo-se na forma como se criam equipas e se dispõem locais de trabalho.
– a dependência emocional ou económica, em casa ou no namoro, que levam ao abuso. São os mais difíceis de detetar e combater. A vítima esconde e nega quase sempre.
– nas relações comerciais assimétricas, ou com trabalhadores independentes, em que há grande dependência económica de quem contrata ou dá serviço. O problema é idêntico ao da relação laboral mas é pior, por ser desregulamentado.
– os problemas causados pelas diferenças culturais, com repercussão a longo prazo, das migrações de povos com outros princípios, vivências e religiões. Merecem investigação mas a propagação destes relatos também está a ser incentivada com objetivos políticos.
– entre pares, por falta de civismo e educação, quando, quem avança acha que não tem consequências, julga mal e pensa que está a perder a oportunidade, ou, pior ainda, acha que se não avançar fica mal visto pela(o) visada(o). É a interiorização cega do estava mesmo a pedi-las.
A situação menos grave mas mais difícil de combater é esta última.
Não acontece num ambiente de dependência económica ou hierárquica, mas emana da própria cultura da sociedade, de uma menorização do intelecto e da crescente objetificação e sexualização do corpo, cada vez mais exposto na publicidade e redes sociais. Corpo delas e deles.

