No início século XV, o mundo grego não se cingia ao extremo sul dos Balcãs e ilhas, como hoje, mas extendia-se pelo império romano do oriente, ou bizantino, no ocidente da actual Turquia, costas da Ásia menor, ilhas dos mares Egeu e Jónico, Peloponeso, Ática e Macedónia na Grécia continental.
Por essa altura, a grande cidade grega, a mais populosa, a capital dos gregos e da civilização grega, era Constantinopla, batizada, havia mais de mil anos, em honra do imperador Constantino.
A queda da cidade, tomada pelos turcos otomanos, em 1453, vindos dos confins da Ásia, foi um choque tremendo para todo o mundo ocidental, um ponto de viragem, convencionando-se esse ano como o fim da Idade Média europeia.
A Hagia Sophia ser hoje uma mesquita é um engulho para os ortodoxos, como seria, para os católicos romanos, se a Capela Sistina, basílica de São Pedro e todo o Vaticano, louvassem Alá. Não era cenário impossível de imaginar, perante o avanço otomano, que chegou às portas de Viena.
O trauma Constantinopla pesa no mundo cristão ortodoxo, grego e russo. A tensão entre Grécia e Turquia vem desse tempo, alimentado pela guerra da independência grega, do século XIX, e pelos conflitos seguintes, no fim do império otomano, a seguir à derrota na Grande Guerra. As pretensões da Rússia na Crimeia e no Mar Negro também vêm do eterno conflito com os otomanos na, nunca escondida, vontade russa de reunir o mundo ortodoxo, de Moscovo a Constantinopla, do Ártico ao Mediterrâneo.
Escassos cinquenta anos após a dramática queda de Constantinopla, Maquiavel teorizou sobre o vazio de poder e como ele pode ser perigoso para a estabilidade política, contrapondo com o recente, à época, exemplo otomano, no exercício e consolidação do poder, com uma clarividência e certeza, espantosamente válidos quinhentos anos depois.
Diz-nos, no quarto parágrafo do terceiro capítulo, do seu Príncipe:
“Mas quando se adquirem estados numa provincia de lingua, costumes e ordens diferentes, aqui é que estão as dificuldades e é preciso ser muito afortunado e muito industrioso para os deter. E um dos maiores e mais eficazes remédios seria a pessoa que os adquire ir para lá habitar; isto faria mais segura e mais duradoura aquela possessão, como fez o Turco na Grécia: mesmo observando todas as outras ordens para deter esse estado, se não tivesse ido para lá habitar, não teria sido possível detê-lo. Porque, estando lá veem-se nascer as desordens e depressa se podem remediar; não estando lá, dá-se por elas quando já são grandes já não há mais remédio. Além disso, a província não é espoliada pelos seus funcionários, os súbditos ficam satisfeitos por recorrer de perto ao príncipe, pelo que têm mais motivos para o amar, se quiserem ser bons, e para o temer se quiserem ser de outra maneira. Quem de entre os estrangeiros quiser atacar esse estado terá mais cautela. Pelo que habitando lá, só com grandissima dificuldade o pode perder.”
Os turcos souberam ganhar Constantinopla.
O poder conquista-se pela força, das armas ou dos votos, mas a soberania só se mantém pela presença física e efectiva.
As migrações internas, como em Portugal, do interior para o litoral ou para a emigração, estão a criar vazios populacionais, ocos de gente. A Europa também está a tornar-se um continente de velhos, não se reproduz, não ocupa terras, não explora.
Diz a história que, quando os turcos já cercavam as muralhas da cidade, os bizantinos, convencidos da inexpugnabilidade, entretinham-se com teologia, debatendo acaloradamente o sexo dos anjos. Expressão que chegou até nós.
No século XXI, nós, europeus, banhamo-nos, de férias, no mesmo Mediterrâneo, olhados pelos do outro lado, indecisos sobre qual casa de banho se enquadra com o nosso género interior.






