As Berlengas

“Se houvesse justiça no planeta, eu já tinha sido nomeado governador deste castelo, onde vivem três veteranos que de velhos criaram musgo ou pelo menos faroleiro. Como sou um contemplativo, o lugar convinha-me perfeitamente. Os homens devem ser felizes diante deste espectáculo sempre igual e sempre renovado. De Inverno nenhum barco atraca às Berlengas. Só e Deus no mais belo sítio da costa portuguesa….. Atrevo-me a falar a um velho musaranho, de focinho arreliador, que está metido no farol, de costas para o mar, fingindo que me não vê, a esfregar e a polir os metais reluzentes.
– Hein?…
– Hum!…
Rosna e não diz palavra que se entenda.
– Olá!
Olha-me com desprezo e continua a polir os metais já polidos, como se eu não existisse. Mas não desanimo facilmente e teimo:
– Que beleza, han?!…
Toquei-o. O homem sacode os ombros, levanta-se, atira o pano fora, encara-me de frente, com os bigodes assanhados entre as rugas e um olho azul de faiança cheio de cólera:
– Que beleza o quê? Que beleza?… Isto?! – E ri-se. O vento e o mar! sempre o vento e o mar! O vento, que no Inverno não me deixa chegar à porta, e o mar todo o dia, toda a noite a bramir! O mar desesperado, o vento desesperado… Eu não sou um faroleiro – sou um náufrago. Que beleza, hein?… Nem posso dormir! nem dormir! Toda a noite o vento uiva, toda a noite o mar ecoa, ameaçando submergir esta ilha do diabo!…
Julguei-me autorizado a interrompê-lo:
– Mas no Verão é esplêndido…
– Nem olho. Só me resta uma esperança – fugir. Se não me mudam, endoideço. O amigo sabe quantos endoideceram já? Três!…
E atirando os braços para o ar:
– Uma calamidade! Aqui não se sabe nada, aqui não chega nada. Nunca! nunca! Nem a pneumónica aqui chegou. E não posso ter uma couve, não posso ter uma abóbora… Os coelhos devoram tudo. É uma praga!
– Dê-lhes tiros.
– Tiros?!  – E ri-se com dois dentes e desprezo. –  Quando quero um coelho, ato um anzol a um pau, meto o pau na lura e tiro o coelho para fora; quando quero um peixe, ato um anzol a uma linha e deito a linha à água… Mas o que eu quero é fugir! fugir! fugir para muito longe, para onde não ouça o mar, para onde não veja o mar!
Roncou… Percebi que repetia com escárnio: Que beleza, han!… – E voltando-se, outra vez com o pano na mão, continuou a esfregar e a polir com desespero os metais – de costas viradas para o mar…”

(in Os Pescadores, Raul Brandão)

Josefina Madeira . 19

Já passava das quatro da tarde, quando desciam para a adega no silêncio do cansaço da longa jornada.
Desde manhã cedo, fizeram praticamente o mesmo percurso de cinco anos antes, com as mesmas paisagens, as mesmas subidas e descidas, paragens, apontamentos, fotografias, mas, agora, os horizontes alargavam-se, os limites estendiam-se, a quinta tinha quase o dobro do tamanho, embora, para Josefina, o espaço parecesse quase igual, até mais confinado, estreito e acessível, contrabalançado pela natural redução de escala, da perspetiva dos olhos que se tornaram adultos.
Os Richardson tinham comprado vários terrenos contíguos, pequenas vinhas desgarradas, de produções familiares, aumentando substancialmente a capacidade e rentabilidade, por economia de escala, sem reforçarem, nem sequer mudarem, os procedimentos de trabalho. A adega e os armazéns tinham dimensão suficiente para processar as novas necessidades, só contratando mais mão de obra para podas, tratamentos e colheitas, aquando do seu tempo. E o plano para os próximos anos era de contínua expansão. Havia mais áreas disponíveis para incorporar e mais adega para rentabilizar.

O processo produtivo, da vinha à mesa do cliente, era o mais eficiente da região e assentava em três pilares, a saber.
O sucesso de George Richardson no mercado inglês, de longe, o mais importante do negócio, conseguia manter um nível de procura elevado, com significativa valorização do produto, vendendo caro. Para isso, não terá sido alheio o bom trabalho efetuado no período de guerra, quando as vinhas dos concorrentes dos outros países continentais estavam a ferro e fogo.
O vinho dos Richardson nunca deixou de fluir e o seu consumo ficou associado a tempos sombrios mas finalmente vitoriosos, numa associação feliz de consumo com emoção, para momentos especiais, celebrações gloriosas, ou simplesmente saborear pacificamente em família.
Também nesses tempo de guerra, aproveitaram para entrar no capital de vários distribuidores locais, fragilizados pela economia de guerra e pela falha de fornecimento de vinhos franceses, italianos e espanhóis, numa estratégia arriscada de financiamento dos seus próprios clientes, capilarizando o controlo da entrega até à loja de bairro e beneficiando de parte dos lucros da distribuição.
No fim da guerra, muitos destes clientes recompraram a posição e voltaram a deter a totalidade do negócio, mas as relações mantiveram-se, com reconhecimento e confiança.

Outro pilar era o retorno do forte investimento na mecanização da produção feito nos últimos anos.
Dos bons contactos que a família tinha com clientes da velha fundição do Yorkshire, como produtores de camiões e de outros veículos de transporte, John Richardson conseguiu aproveitar e adaptar ferramentas e projetos do tempo de guerra, adaptando-os para tratores e outras máquinas especialmente dimensionadas para o trabalho em socalcos, possibilitando o transporte rápido e sem esforço de toneladas de uvas, ou calda de tratamentos, pelos íngremes desníveis, num formidável progresso face ao tradicional trabalho braçal.
Nos anos a seguir à guerra, a indústria metalomecânica britânica havia entrado numa crise profunda. Tinha-se dimensionado para os enormes volumes de equipamento de guerra e para as suas especificidades, com encomendas constantes do governo, em quantidades crescentes. De um momento para o outro, com a paz, viu-se a braços com a sobredimensão e obsolescência de enormes linhas de fabrico e montagem de canhões, tanques, aviões e navios.
Num interessante trabalho de engenharia, John buscou todo o tipo de material novo, por estrear, abandonado, que pudesse adaptar à sua atividade, comprado a preço de sucata, desvalorizada pela abundante oferta.
O seu maior sucesso era o pequeno trator, com reboques acopláveis em comboio, com potência mais do que suficiente para atrelar um ou vários pequenos mas robustos vagões com pneus, estreitos o suficiente para circular nos socalcos. Nas vindimas, enchiam um por socalco, numa passagem rápida, que era logo substituído por outro vazio, num contínuo carrossel, entre vinhas e adega, de vários tratores e dezenas de vagões.
Quem via o trabalho nem imaginava a origem de tão estranha maquinaria. Estes pequenos tratores e vagões mais não eram do que os transportadores de bombas para os bombardeiros de guerra. Cada bomba pesava cerca de quinhentos quilos e cada avião levava até vinte ou trinta unidades, pesando até dez toneladas ou mais. O carregamento era feito por baixo do avião, entre rodas, elevando uma a uma, pela escotilha ventral. O socalco da vinha não era mais estreito do que os rodados, nem mais alto do que a boca de bombas do Lancaster, reparou John Richardson.
Com o mesmo espírito inventivo, também adaptou cisternas rebocáveis, concebidas para combustível, para aspergir cauda bordalesa. As cisternas baixas e pequenas o suficiente para circular por debaixo das asas dos aviões, pareciam à medida das vinhas, bombando e aspergindo o, agora, mais pacífico sulfato de cobre, numa verdadeira revolução agro-industrial na viticultura local.

O terceiro pilar do sucesso era o nível de organização logística, com elevada eficiência no armazenamento, transporte, engarrafamento e embalamento, com total conhecimento e controlo de existências e fluxos, promovido por Sebastian, e por mim já bem descrito.

O resultado é que tinham a produção toda tomada, o mercado absorvia os sucessivos aumentos anuais, conseguiam entrar nos patamares mais altos, de preço, do mercado mais sofisticado da época, o inglês. A sua produtividade era a mais elevada da região e estavam a conseguir ombrear com outras regiões de morfologias e climas mais favoráveis, ou seja, ganhavam bom dinheiro por cada garrafa vendida. Por último, o nível de eficiência logística permitia-lhes responder rapidamente às solicitações, tanto em variedade como quantidade, sem aumentar existências nem espaço de armazenagem.
George, no mercado, John, na mecanização e Sebastian, na logística, tinham desenvolvido a empresa ao ponto de a tornar um modelo que começava a ser cobiçado e imitado.
Mas também, nada disto teria sido possível sem as particularidades do clima e do terroir, sem o revolucionário conhecimento oitocentista trazido pelos engenheiros franceses, no início do século, e sem o esforço e dedicação disciplinada de Francisco, na adega, e José, nas vinhas, no seguimento da melhor tradição dos seus antecessores, encarregados e feitores.

Josefina ouvia deliciada a descrição pormenorizada do estabelecimento do negócio. Sebastian tinha todo o processo na cabeça, fluxo produtivo, estrutura de custos, posicionamento no mercado, margens e estratégia.
“ – O futuro imediato está alicerçado na rentabilidade da mecanização e logística, e na solidez do mercado inglês, a manter a todo o custo.
Mas a médio prazo terá de ser suportado por um novo investimento na química. Tudo o que fazemos vem de conhecimento com muitas décadas, mas o século vinte está a correr muito depressa. Há descobertas novas todos os dias, a biotecnologia já é uma realidade de laboratório que vai saltar para os nossos campos.
No vinho, tenho sabido de experiências muito interessantes que se têm feito na Austrália.”
“ – Outra vez a Austrália?”
“ – Sim. A inovação vai chegar de lá.
Eles estão a fazer muita investigação na enologia e verdadeiros milagres com matéria prima, as uvas, de qualidade inferior à nossa, mas com resultados surpreendentes.
Os mercados mais inovadores estão muito atentos.
Vamos ter de investir nisso e ir lá ver como é, aprender.

O outro grande passo vai ser abrir o mercado americano. Temos de colocar os nossos vinhos nos filmes de Hollywood, filmar uma perseguição de barco por este rio acima, criar um suspense de crime nas vinhas. Familiarizar os americanos cinéfilos com uma paisagem de sonho que vão querer visitar, naquela ronda europeia, naquela viagem que fazem uma vez na vida, e recebê-los como se estivessem na casa dos avós distantes, em que, aturdidos pela excitação das sensações que lhes proporcionamos, confundem as memórias dos filmes com as contadas à lareira, na mesma infância.
E vender-lhes muito vinho, para depois recriarem a emoção em casa, num desarrolhar de cortiça portuguesa.”

Sebastian sorria, entusiasmado, enquanto ornava as palavras com gestos e movimentos de corpo, na descrição dos esses da corrida no rio, o dedo indicador da pistola do crime, o rodar do pulso no saca rolhas, e o estalo de lingua da abertura da garrafa.
Seguia descontraído porque vira a vinha cuidada, os tratamentos aplicados, as ervas apanhadas. Receara que o aumento de área pudesse ter prejudicado a harmonia da centenária quinta, mas não aconteceu.
Parecia mesmo que nada se tinha alterado. Quem não soubesse nem suspeitava que quase metade da área tinha sido adicionada à propriedade há menos de cinco anos.

Chegaram à adega, onde Francisco e José os aguardavam.
Cumprimentaram-se rapidamente e Sebastian iniciou uma longa volta pelo armazém, mas agora em silêncio. Observou tudo cuidadosamente, fez alguns apontamentos e reviu notas.
Josefina seguiu a seu lado, um passo atrás. Os outros dois seguiam-nos a alguns metros, apreensivos.
Atentamente, ela procurou perceber o que ele olhava e o que pensaria, e não teve grandes dúvidas.
Atentou à limpeza e arrumação geral, verificou a disposição das máquinas e ferramentas, a etiquetagem das cubas e barris, abriu os livros de inventários, folhas de obra e calendário de trabalhos, registos passados, cadernos de campo, dispensa de produtos químicos, até o estojo de primeiros socorros.
Depois de tudo visto, abeirou-se da porta e parou. Em silêncio quase teatral, olhou em volta, sério:
“-Vou à casa de banho.”
Josefina não conteve a gargalhada.

Sebastian presenteou-os com rasgados elogios, que eles a princípio estranharam, por não contarem nem estarem habituados, até se incharem de vaidade.

José foi felicitado pelo primoroso trabalho que tivera na composição das vinhas. Principalmente no sentido estético, porque tecnicamente Sebastian não duvidava da sua competência.
Alguns pequenos arranjos nos muros e caminhos, trabalho da sua autoria e iniciativa, harmonizaram a propriedade, incorporando os novos domínios.
“-Esta quinta sempre foi muito bonita. Agora está crescida organicamente, não parece que foi acrescentada. Muito bem. Parabéns pelo trabalho”, disse cumprimentando José, que, com os olhos a marejar de emoção orgulhosa, quase traiu a sua contenção e timidez.

“-Francisco! Não estou surpreendido.
Está tudo no lugar, arrumado, catalogado e limpo. Melhor do que na última vez. Muito bem.
Vejo que seguiu bem as minhas indicações e sugestões, e o aumento de produção foi bem acolhido no esquema que temos montado.
Mas o que eu tenho mesmo de felicitá-lo é pela limpeza da casa de banho, a água quente do chuveiro e o papel higiénico na sanita. Agora, sim!”

Sebastian estendeu-lhe a mão e Francisco agarrou-a com as duas mãos, abanando-a fortemente, com um sorriso rasgado a mostrar os dentes grandes com um intervalo ao meio, que juntamente com a monocelha e o cabelo preto penteado para a frente, fazia lembrar, a Josefina, a figura do Zé Povinho a fazer manguito ao fiado.
“-Muito obrigado, Senhor Sebastião.”

Despediram-se e caminharam em silêncio até casa. Sebastian seguia mais calado do que habitual. Talvez cansaço.

Maria estava na cozinha, em amena cavaqueira com Alzira – tinham sempre conversa animada e em voz alta – agora casada e já mãe de um rapaz.
Combinaram jantar para as sete e meia e subiram aos quartos. Um retemperador banho quente de espuma aguardava Josefina.
Habituar-se-ia facilmente a esta vida no campo.

Mais cedo ou mais tarde

Não sendo catastrofista nem apóstolo do fim dos tempos, vejo chegar o momento em que dificilmente avançaremos sem deixar alguns para trás.

A luta contra a globalização, a coberto do combate ao capitalismo e na defesa da classe operária confortada do ocidente, pretendia condenar os milhões do terceiro mundo à mendicidade piedosa e à pobreza da simples extração das matérias primas do seu subsolo.
A mesmo luta repete-se, agora, na xenofobia contra o desafio da imigração de gente que vê, na sua barraca sem água e de esgotos vertidos na rua, as mesmas notícias e a mesma Netflix, difundidos pelos mesmos satélites, e se imagina rico a disputar um lugar num transporte público de subúrbio ou numa sala de espera de centro de saúde.

O simpático activismo jovem das ações climáticas colide de frente com o bloqueio de tratores da agricultura moderna, que alimenta milhões, com preços estabilizados por excedentes de produção subsidiados, e com a indústria dos manifestantes de colete amarelo, num embate para já apartado, mas inevitável, entre urgências, a ambiental ou a civilizacional, qual delas a mais importante.

A esquerda refugia-se na esgrima arrogante da razão que sempre julgou sua, enquanto a direita reforça-se e alimenta-se na demonstração das evidentes e inconsequentes contradições marxistas.
E os outros, os do meio, provavelmente virtuoso, enleados em preguiças e facilidades mal disfarçadas de incompetências e corrupção, animados por lutas tanto justas como unânimes, mas igualmente fátuas, terão de acordar, mais cedo, para calear as mãos, ou mais tarde, para as ensanguentar.

E alguns vão mesmo ficar para trás.

Rua 10 de Março

Cada cidade tem a sua rua de restaurantes, competindo avidamente pela freguesia.
Tuga não foge à regra.

À entrada da rua 10 de Março, na esquina do lado esquerdo, fica o maior e mais bem sucedido restaurante da cidade, o Rosa.
Dois andares, amplo salão, um histórico, agora com nova gerência, liderado pelo jovem Pedro, cheio de ambição, depois da anterior se ter afastado, por problemas com as autoridades. Aliás, o Rosa tem um longo historial de problemas e contas com a justiça, mas a ementa tradicional, a boa amesentação e um serviço sólido e eficaz, tem fixado e satisfeito a sua fiel clientela.
Pintado de fresco, apresenta novos pratos, embora mantendo as suas especialidades tradicionais, junta modernas opções vegetarianas e orientais, num fusão que ainda está por provar. Para isso, contratou reforços para a cozinha, juntando-os à sua velha equipa.
Veremos como Pedro gere as várias tendências à frente do mesmo fogão. Os críticos estão muito atentos.

Mesmo em frente, na esquina do lado direito, fica o grande rival do Rosa, o Setas, com gerência, há cerca de dois anos, de Luís, ainda a tentar impor-se.
O Setas chegou a ser o restaurante mais bem sucedido da rua, quando teve um chef de cozinha algarvio, que revolucionou a gastronomia da cidade, mas nos últimos trinta anos só beneficiou da preferência dos clientes nos dois períodos em que o Rosa esteve quase para fechar portas, com os seus problemas.
Luís remodelou tudo, da decoração à oferta gastronómica, contratou reputados chefes, dos mais inovadores da praça, e apresenta novas soluções com base na tradição. Tem todas condições para o sucesso, mas a sua pessoa tem um defeito que, sendo menor, impede o reconhecimento geral: não cativa o freguês. Tem pequenos tiques e expressões que desagradam. Como quando lhe dizem “Queria dois cafés!” e não resiste a responder “Queria? Já não quer?”, com a melhor das intenções e simpatias no seu sorriso plastificado.
Para piorar, recentemente estourou um escândalo na sua filial, o Setas de Madeira. Ainda se está a apurar as consequências, para o negócio, das notícias que chegam de intoxicação alimentar e diarreia generalizada, provocada pelo chef local, Miguel Riscaomeio.

Ao lado do Setas, instalou-se o mais recente estabelecimento da cidade, o Paragem.
Gerido pelo dinâmico André, saído do Setas e levando alguns colegas consigo, impõe-se pelo dinamismo, ambiente despretensioso, algo barulhento, é certo, mas que tem atraído juventude e novos clientes.
Os críticos apontam a pouca imaginação na concepção dos pratos, por serem mais tradicionais e pesados, de digestão difícil. No entanto, o efeito novidade tem marcado posição e mossa na concorrência, em especial no Setas.

Em frente, ao lado do Rosa, encontramos o Canhoto e o Foice.
O Foice é o mais antigo restaurante da cidade, ininterruptamente em funcionamento há mais de cem anos. Passou por várias fases, inclusivamente uma clandestina, porque não cumpria com a regulamentação da época, quando só servia refeições para amigos, à porta fechada, e outra de grande pujança, quando a sua cozinha datada, de inspiração no leste europeu, fazia furor internacionalmente.
Hoje em dia é frequentado por saudosistas dessa culinária que já rareia em todo mundo.

A seu lado, o Canhoto, liderado por Mariana, pretende manter viva a tradição oriental do Foice, onde foi buscar inspiração e alguns colaboradores, cuidando de se apresentar mais jovem e inovador, com resultados ainda por provar.

Ao fundo da rua, em franca concorrência entre si, mas sem a dimensão e impacto dos restantes, abrem à rua o Liberitas, o Libero e o Pum.
Mau grado a semelhança no nome, na gerência de dois Ruis, e na ambição desmedida, Liberitas e Libero são estabelecimentos completamente diferentes.
O primeiro é gerido pelo Rui, dissidente do Canhoto, serve uma culinária de inspiração oriental, e não esconde a ambiciosa pretensão de vir a gerir ou substituir o grande Rosa.
De igual forma, o Libero é gerido pelo outro Rui, igualmente dissidente mas, neste caso, do Setas, copiando-lhe a cozinha, embora mais forte e temperada. Também não esconde a ambição de substituir ou ocupar a casa mãe.
No topo da rua, pretendendo não estar à esquerda nem à direita, o Pum surgiu com uma inovadora oferta vegetariana. Não passando despercebido, veremos que impacto ainda terá no mercado e na concorrência.

Josefina Madeira . 18

“-Mãe! Vou estar fora dois ou três dias no final da semana. Tenho de ir à quinta dos patrões, organizar coisas.”
“-Sim, filha. Vai.”
“-Vou com Sebastian.”
Maria continuou na sua lide, como se não desse atenção.
“-Ele, depois, vai para Inglaterra, dois ou três meses, tratar de coisas dele, e vai deixar-me a cuidar do armazém.”
A filha já não era um problema para Maria.
“-Não quero que haja problemas. Quero ir lá com ele, para anotar tudo o que for preciso.”

A mãe ouvia o entusiasmo da filha com a serenidade de quem já tinha cumprido a sua obrigação de criação.
Josefina, aos dezoito anos, já ganhava, num mês, mais do dobro do que ela ganharia em trinta dias de doze horas de lavandaria pesada, sem folgas. Trabalhava muito, é certo, em coisas que ela não compreendia, tinha estudado coisas difíceis, cheias de números. Tinha gosto e vontade de prosseguir.
O negócio do vinho também progredia bem. Sabia pelo Ernesto e por conhecidas que trabalhavam nos engarrafamentos sazonais. Havia cada vez mais trabalho.
A filha já era de quem se falava. Andava sempre com os ingleses, principalmente com o rapaz chefe dela. Ouvia-se más línguas, dizia-se coisas, por ser mulher entre homens, ou coisas piores, por andar sempre de calças, mas o trabalho dela já apagava tudo isso. Até já se dizia que parecia que era ela que mandava neles.
Maria não queria saber disso. Sentia-se fraca, com ataques de tosse nos últimos meses. Já evitava ir para o tanque nos dias mais frios, mas insistia em trabalhar. Não querendo depender da filha, tinha de ganhar para renda da casa e para o seu sustento, mas sentia um grande alívio em ver a progressiva independência dela.

“-Vai, minha filha.”
“-Mas a mãe fica bem? Agasalha-se e tome o xarope?”
“-Tem juízo! Tratas-me como uma velha. E são só dois dias…
Vai tratar da tua vida. Tem-la toda pela frente.”

Na quarta-feira, Josefina foi trabalhar com um pequeno saco de viagem. Desencontrara-se de Sebastian, na véspera, e não esclarecera se iam nesse dia ou no seguinte. Na dúvida, levou bagagem e avisou a mãe, que encolheu os ombros na incompreensão da descontração da gente nova.
“-Que não te percas no caminho.”

Esse dia foi mais complicado do que previam.
Grande parte do vinho já chegava por camião. As estradas e os veículos tinham melhorado muito, nos últimos anos, tornando o transporte rodoviário mais eficiente do que o fluvial. Um camião transportava o triplo da carga de um barco, mais rapidamente, de armazém a armazém, sem perdas nos cais, só ocupando um motorista por viagem. O investimento no camião era mais elevado mas amortizava-se rapidamente, sendo, também, mais fácil de subcontratar externamente.
Quando o grosso do transporte era feito por barco da empresa, os horários eram relativamente fixos, e sabiam que quantidade chegava por dia. Agora, quando calhava de juntar dois camiões, por vicissitudes dos transportadores, era como se chegassem seis barcos ao mesmo tempo. Não era um drama, mas, entre descargas e colocação nos sítios certos, tiveram de trabalhar quase seguido desde manhã cedo até às duas da tarde, com pouco tempo para conversas.
Quando acalmou, Josefina comentou com Sebastian
“-A que horas vamos amanhã?”
“-Pela hora do almoço… Acho que está bem.”
“-Não sabia se íamos hoje, e trouxe mala feita”, disse Josefina a sorrir.
Sebastian olhou para o relógio.
“-Tens mala feita? Podes ir hoje?”
“-Sim. Mas como é que vamos?”
“-Vamos é já! Esta semana não há engarrafamentos, e o que estava para chegar veio todo hoje.
Anda comigo, traz o teu saco!”

Atravessaram o armazém até ao escritório. Josefina aguardou enquanto Sebastian foi ao seu pequeno quarto. Ela ouvia-o abrir gavetas e portas de armário, remexer e exclamar:
“-Ok! Tenho cá tudo.”
E voltou para o escritório com dois pequenos capacetes, dois blusões e um alforje.
“-Vamos viajar. Anda!”, e saiu, em passo acelerado, para o corredor longitudinal à fachada do edifício, que dava acesso ao escritório e aos vários gabinetes e salas da administração, com vista para o rio, até às escadas que desciam à entrada principal.
Josefina nunca tinha descido estas escadas, de uso exclusivo da administração e convidados.
Dois lanços em curva, um de cada lado, com degraus de madeira escura e corrimões trabalhados, desciam do corredor até se encontrarem, frente a frente, com a porta envidraçada, deixando ao meio um amplo espaço no chão de mármore, em xadrez diagonal, para uma ninfa de tamanho natural, também de mármore, branco, receber os visitantes com um cântaro de vinho ao ombro.
Sobre a ninfa, no corrimão do corredor do primeiro andar, um grande relógio de ponteiros pretos, com o nome da firma manuscrito no mostrador branco, compassava o tempo para quem entrava, iluminado pela luz natural da clarabóia, redonda, ao centro do teto da sala.
Uma discreta porta lateral dava para um amplo pavilhão no rés do chão, ao nível do ancoradouro. Tinha quase metade da área do andar de cima, mas, além de estar limitado por dispersas colunas de suporte, o pé direito muito baixo também limitava a utilização funcional, e estava sujeito a cheias, que, por mais de uma vez, nas últimas décadas, o tinham alagado. Servia de garagem.
A nave estava vazia à exceção de um MGB verde, um Jaguar XK cinza e a BSA Gold Star 350.
Josefina sentiu excitação com a viagem prestes a inciar.
Sebastian amarrou o alforje e acomodou o saco de Josefina no seu interior.
Apertaram os casacos de pele castanha com gola de pêlo.
“-Para que precisamos de casacos tão quentes, no verão?”
“-Para proteger do vento. Em andamento não sentes calor.”
Colocaram os capacetes. Abertos na cara, rígidos na parte de cima coberta de pele castanha escura, que se prolongava, flexível, para a cobertura da nuca e orelhas.
Ela amarrou o cabelo com um laço e ele apertou-lhe um lenço branco ao pescoço, com folga suficiente para poder subir e proteger a face, na viagem. Também lhe arranjou uns óculos escuros de massa preta.
Ele colocou os seus óculos, apertou o lenço ao pescoço e calçou umas luvas pretas.
Estavam prontos para a viagem.

O estrondo do enorme monocilíndrico ecoou na velha cave, com o salto de Sebastian sobre o pedal de arranque. Josefina acomodou-se no selim com o à vontade de quem já não o fazia pela primeira vez. Arrancaram lentamente, saíram pelo portão aberto para a marginal e viraram à direita.
O par não passava despercebido e todos sabiam quem eram, para orgulho de Josefina.
Subiram à cota alta da vila, pelo rua do Torres que chegou a general na defesa da serra durante a guerra civil, entraram na avenida principal, para sul, até ao cruzamento com a estrada nova, inaugurada cinco anos antes pelo almirante presidente da república, que se abria para nascente, para o interior de curvas e montanhas, ainda passando por baixo dos arcos que, em tempos, levaram água para os conventos da cidade, encerrados pela vitória do mesmo Torres liberal.
A partir daí foi uma sucessão de bouças e pinhais, terras pequenas, e muitas curvas. Divertido mas cansativo.
Pararam várias vezes, fotografaram paisagens, consultaram o mapa, lancharam pelo caminho. Não tinham pressa. Sebastian avisara Maria para ter os quartos prontos, mas não marcou hora, nem sequer dia certo.

Chegaram à quinta pelo sentido contrário da estrada que descia dos montes para a vila, pelas oito horas da noite.
Já na sombra do sol poente, a casa surgia entre vinhas, abaixo da estrada, junto ao rio, numa exposição exatamente oposta à da primeira visita de Josefina. A altivez que a impressionara antes, chegada no pequeno barco, quase pedindo licença para acostar nos degraus ribeirinhos, minguou, mostrando-se agora acolhedora, pequena, expondo vulneráveis telhados de várias águas.
Viraram à esquerda e desceram as últimas centenas de metros da tarde, pelas curvas do estradão de terra entre vinhas.
A adega já estava fechada. O pessoal já tinha ido embora.
Pararam à porta de Maria, que nem foi preciso chamar, alertada pela estranheza do ruído, de motor de mota potente, por aquelas paragens.
“-Ai, menino! Veio de mota?
Ainda bem que não me disse. Tenho tanto medo dessas coisas barulhentas.
E a menina Josefina também veio? Aí que bonita que está! Uma mulher!
Que bom! Vou já preparar alguma coisa para o vosso jantar”.
Falara sem parar, na excitação da receção ruidosa do casal motociclista.
“-Não, Maria. Não é preciso nada.
Trouxemos jantar connosco. Compramos pelo caminho. Bola de carne, broa de milho e doces, raivas e melindres.
Aceito, talvez, umas fatias do seu famoso presunto, se é que ainda sobra algum.
E também sei onde está o vinho.”

Sebastian abraçava-a sem tirar o capacete, os óculos nem as luvas. Josefina também já desmontara e soltava os cabelos.
“-Meninos, vou já lá a casa abrir janelas, arejar. Podiam ter avisado.”
“-Agora não. Não faça nada.
Amanhã de manhã, vamos sair pelas sete horas, para ir às vinhas. E agradeço que prepare qualquer coisa coisa para comer de manhã e para levar, para merendar.”
“-Claro, menino. Deixe por minha conta.
Sabem ligar a água quente? A caldeira?”
“-Sim, Maria.”
Virou-se para Josefina e agarrou-lhe as mãos.
“-Está tão bonita! Não a via há quanto tempo? Três anos?”
“-Cinco.”
“-Credo!
Quer dizer então que já tem.. dezoito anos?”
“-Feitos em abril.”
“-Meu deus! Como o tempo passa.
Lembro-me bem. Era uma miúda espevitada. De treze aninhos.”, Maria de sorriso aberto, a olhar para cima.
“-Maria! Só preciso da chave e do pequeno almoço.
Agora, deixe-se estar que nós tratamos de tudo.”
“-A sério, menino?
Então, vou lá dentro. Esperem!”.
Deu meia volta e entrou rapidamente em casa.

“-Ficas bem com o que compramos, não ficas?”
“-Claro que sim.
Fazemos um piquenique no terraço.”
“-Boa ideia.
À luz da vela. Para afastar os mosquitos.”

Maria saiu com uma chave, numa argola, e dois embrulhos de pano branco.
“-Aqui está o presunto.
É um bom naco.
Comam o que quiserem. Não se estraga.
O que não comerem, embrulhem outra vez neste pano.
Também trouxe um queijo. É do leite das cabras do Vitorino”, como se eles soubessem quem era o pastor.
“-Obrigado, Maria.
Vamos lá.
Josefina, levas isto na mão? Eu levo a mota.”
“-Sim, claro”.
“-Até amanhã, Maria.”
“-Até amanhã”
“-Até amanhã“

Josefina caminhou os pouco mais de cem metros até à casa grande, enquanto Sebastian montou a mota, pô-la a trabalhar e levou-a a estacionar no terraço, junto ao Tritão, depois de circundar a fonte.
“-Ficas bem aqui.
Toma bem conta dela, pá!”

Pousaram a comida na cozinha e combinaram o jantar para daí a uma hora.
Sebastian verificou tudo, da toalha a talheres, antes de subiram aos quartos.
Josefina entrou no corredor, enquanto Sebastian continuou a subir ao torreão, e sentiu uma familiaridade reconfortante. O tapete grosso, o papel florido na parede, os candeeiros entre as portas, a janela de vidro ao fundo a mostrar a noite que já se punha.
O último quarto, do lado direito, virado ao rio. Sentia-o como seu. A decoração estava igual, as toalhas dispostas da mesma forma, as almofadas à cabeceira, a casa de banho no mesmo mármore. Era o seu quarto, embora agora tudo parecesse diferente. Mais pequeno e natural.
Já não era a criança de treze anos.

Josefina Madeira . 17

As ruas da cidade enchiam-se na noite mais curta de ano, a do início do verão, a noite de São João. Fogareiros à porta, sardinhas e febras das brasas para fatias de broa, vinho a jorrar de garrafões para malgas e canecas brancas, preparavam a noitada de rusgas, saltos à fogueira e alhos porros, erva cidreira e plumas perfumadas, dados a cheirar.
Já há algumas semanas que a mãe de Josefina emagrecia com tosse e, por querer descansar e recatar-se, deixou-a sair sozinha. Não que carecesse de autorização especial para chegar mais tarde a casa, agora já com dezoito anos, responsável, senhora de si, escola comercial terminada com distinção, profissional empenhada, orgulho de mãe, mas pela novidade de, pela primeira vez, sair sem ela na noite dos excessos populares.
Não ia fazer mais do que nos outros anos. Descer a rua até ao bailarico da praça do mercado com as outras miúdas da sua criação, em grupo, protegendo-se de afoitices ébrias, dançar, saltar, fugir das ervas de cheiro.
A secreta esperança, tão secreta que ela própria fazia por ignorar, era encontrar Sebastian. Divertida, olhava em volta, uma e outra vez, na procura da cabeça loira a pairar mais de vinte centímetros acima das outras. Ela sabia que ele andava por ali, ouvira-o falar disso, mas, com certeza, estaria na outra margem, por outra praça, outro bailarico.
O relógio da igreja apontava para os dez minutos para as duas horas. Não tinha obrigação de ir já para casa, a noite era curta e viva até madrugar, mas o cansaço de um dia de trabalho, as corridas e saltos à fogueira, e o cuidado necessário com cada vez mais, e mais pesados, bêbados, levavam-na a pensar em retirar.

“-My dear woodpecker”, ouviu por trás de si, com arrepio e borbulhar no estômago.
Sebastian sorria enquanto tirava a melena de cima dos olhos, num gesto que cultivava com estilo e vaidade.
Estava com outro rapaz, igualmente louro, igualmente alto, de calções, botas e meias altas, e camisa branca de manga curta e dois bolsos.
“-Olá, meninas! Meu nome é Sebastian e apresento-vos Dirk, o meu amigo holandês. Dirk, the flying dutchman”, disse, levemente eufórico, levantando o olhos acima de Josefina.
As miúdas ficaram com um sorriso de espanto, estático, envergonhado, porque nada sabiam que dizer perante aqueles dois homens jovens, altos, distintos, que não tinham nada a ver com a sua simplicidade.
Dirk também ficou a pairar. Não porque tivesse qualquer embaraço, mas porque já tinha corrido quilómetros e parado para experimentar todas as novidades nos tascos do caminho. Os olhos vidravam e já pouco falava.
“-Tenho de o levar ao hotel. Está hospedado no grande hotel e não sabe ir para lá.
É first officer na KLM, e tem voo amanhã.”
“-É o quê?”
“-É piloto, é aviador. Normalmente voa de Amsterdam para Jakarta, mas tiveram de vir cá, de avião, num serviço especial. Por isso é que vem com esta roupa ridícula, colonial”, ria-se Sebastian, sem reparar que também ficava excêntrico, com as suas calças de golfe.
“-Fomos colegas em Ampleforth College”.

“-Vou levá-lo ao hotel. Por hoje já chega de caminhada.
Querem vir connosco? É só atravessar a ponte subir lá cima e descer a escadaria. É divertido, a esta hora. Corremos e saltamos mais fogueiras.”

Joana tomou a liderança das miúdas.
“-Vai com eles, Josefina. Não te preocupes. Falas inglês, ele é teu amigo e teu chefe. É bom rapaz”, com um sorriso discreto.
“-E a minha mãe?”
“-Ela fica bem. E amanhã digo que chegámos tarde e que estiveste sempre comigo.”

Atravessaram a ponte, cruzaram o túnel, subiram a estação e chegaram rapidamente ao Grande Hotel.
Não havia grande movimento na rua. O ambiente era mais sossegado numa zona de comércio convencional. Não havia moradores nem comes e bebes.
Entraram na recepção, para se despedirem. Josefina nunca tinha entrado ali. Já tinha visto aquela porta giratória, sempre com vontade de experimentar, mas os olhos do porteiro de cartola mantinham-na ao largo. Hesitou mas entrou atrás deles. Entrou como se fosse tragada por uma grande boca de vidro. A meio, teve de empurrar e coordenar o andar, para não tropeçar. Não era difícil mas teve de pensar.
Lá dentro, eles os dois chegaram-se ao balcão e ficaram a conversar em voz baixa. Josefina deixou-se afastada e arregalava os olhos.
Era sítio de reis e príncipes. Estátuas de mármore de mulheres de ombros à mostra, bustos de homens barbudos, jarras de pé alto, cortinas azuis escuras, sofás de couro preto impregnadas de cheiro a tabaco, parede de livros usados, candeeiro de cristais luzidios, chão de xadrez preto e branco a dar vontade de jogar à macaca.
Dirk entrou para o elevador de ferro, de portas gradeadas. Nem se despediu dela. Não é que ela esperasse. Ele mal reparou nela e em toda a gente.

“-Vamos! Temos de ir embora. Já começa a ficar tarde.”
“-Tarde para quê? Daqui até casa é rápido.”
“-Vem comigo!”

Desceram pelo mesmo caminho até à estação, depois ao mercado, à bolsa e viraram para a alfândega, junto ao rio. Sebastian falava sem parar. A ponte e o caminho de casa eram para o outro lado. Descrevia o solstício de verão, a translação da Terra e a inclinação do seu eixo. Havia luzes, fogueiras, acordeões e cantoria no casario das arcadas. A tradição dos celtas, a mitologia, nórdica, o fogo e a fertilidade. Novos e velhos, ninguém se deitava até o raiar do sol e já não faltava muito. Andaram sempre em direção à foz. Os banhos de mar purificadores. Saltavam todas as fogueiras que encontravam, de mãos dadas. Passaram o jardim e o castelo, já raiava a madrugada quando chegaram ao areal, virado ao mar. Não eram os únicos. Grupos de novos ou mais velhos, alguns casais, agarrados, talvez com frio, vinham acalmar a folia no alvorecer na praia.
Sebastian deitou-se na areia de braços abertos. Josefina sentou-se junto a ele. Olhava à volta. Sentiu frio.
“-Anda cá!”. Puxou-a e ela deitou-se a seu lado, com a cabeça pousada no ombro dele. Ele passou o braço de volta a aquecê-la.
Ela sentiu o atrevimento. Nunca tinha estado deitada tão próxima de um homem. Calor. Confortável.
Ele falava. Apontava a estrela da manhã, a nascer à frente do sol. Vénus.
“-Tem fases como a lua. Veem-se bem com um monóculo. Um dia vou lá num foguete. O planeta está coberto de nuvens mas é quente como nos trópicos. Tem lagos de águas cálidas, palmeiras e ninfas a tocar harpa.”

Ela aconchegou-se.

“-Vou ter de partir para Inglaterra.
Tenho de visitar a minha mãe. Temos assuntos para tratar. Não sei quanto tempo fico. Talvez três meses.
Não tenho receio de deixar o trabalho, aqui. Tu sabes quase tudo. O verão é mais tranquilo.
Estou a pensar ir no meio de julho. Vou de barco, no cargueiro do vinho, e levo a Bessie. Já falei com a companhia de navegação, autorizam, e o capitão é meu amigo. É o que dá ser dos melhores clientes.”

Disse tudo de seguida a olhar para o raiar rosa das luzes da madrugada.
Josefina já estava de olhos fechados, sonolenta e tudo lhe parecia um sonho. Viagens, barcos, estrelas, motas, verão. Tudo distante. Sonhava que ia com ele. Adormeceu.
Ele também.

Acordou, já o sol ia alto. Devia passar das nove da manhã. Sebastian dormia na mesma posição em que a tinha embalado no sono.
Olhou em volta. Pessoas dormiam, outras conversavam, baixo, na rouquidão da noite mal dormida, pequenos grupos, alguns casais, rapazes chapinhavam a tomar banho.
Tinha de o acordar. Já era demasiado tarde.
Só mais um pouco. Tentava-se. Pousou a cabeça.
O sono dele era tranquilo, de respiração profunda. Uns têm sono feio, babam-se, ressonam, fazem caretas, abrem a boca.
Ele era sereno e bonito.
Apetecia-lhe beijar-lhe a face. Alterou-se com a ideia, sentiu um arrepio de excitação.
Queria ficar ali para sempre, aproveitar cada minuto.

Vou acordá-lo. Tenho de ir embora. Como é que eu vou? Há elétrico. Estará a funcionar? Hoje é feriado.

Ele mexeu-se. Está a acordar.

“-Estava a dizer que na próxima semana vou à quinta, verificar tudo para a próxima colheita. Vens comigo”, começou a falar como se não tivesse adormecido.
“-Agora tenho de ir para casa.”
“-Espera um pouco!”

Levantou-se, andou até à linha da água, desapertou a camisa, descalçou os sapatos e as meias, olhou à volta, ninguém reparava nele, ou assim julgava, tirou as calças mesmo a tempo de Josefina virar a cara, envergonhada, e mergulhar no mar, com as suas cuecas brancas pelo joelho.
Deu várias braçadas e acenou-lhe.
Ela sentia uma imensa vergonha por estar com um homem a tomar banho em cuecas, orgulho por ser o par do rapaz mais bonito da praia, e diversão pela traquinice.
Para não parecer mal, ela sentou-se de lado, virada como se não o conhecesse. Mas sempre a olhar pelo canto do olho. Ria-se e corava.
Ele saiu da água. Ela fixou o olhar nos rochedos, mais a norte, séria e compenetrada.
Ele vestiu as calças sobre as cuecas molhadas e caminhou para ela com os sapatos, as meias e a camisa nas mãos, sério, de queixo levantado a olhar o horizonte, a andar como Charlot.
Ele não vai vestir a camisa?. Pensou ela. Vem assim meio despido, para a minha beira? Nervosa, não conseguia conter o riso.

“-Vamos! Vou-te levar a casa”, e passou por ela, a pantominar pelo areal até às escadas de pedra que subiam para a rua marginal.
Sentou-se nos degraus e calçou as meias e os sapatos.
“-Sabes nadar?”
“-No rio. No mar também sei, mas é para crianças.
E também salto da ponte”, respondeu Josefina, em desafio.
“-A sério?”
“-Um dia ensino-te os truques das marés e das correntes, para nadar no rio. Se não souberes, desapareces e só o Duque é que te encontra.”
“-Quem?”
“-Não queiras saber.”

Foram interrompidos pelo roncar majestoso dos dezoito cilindros dos motores Wright do Lockheed Super Constellation prateado e azul, que traçavam quatro leves riscos de fumaça negra numa curva ascendente sobre a foz, do mar para o interior, sobre a margem sul do rio.
“-Olha! Dirk Van Beek vai para casa. Ele disse-me que ia pilotar a descolagem.” Sebastian ficou parado a ver a bela silhueta de golfinho do Lockheed, a ganhar altitude.
“-Ele é inglês?”
“-Não! É holandês. Não vês pelo nome?”
“-Pois… Já me tinhas dito.”
“-Foi meu colega no Ampleforth College. O pai tinha sido piloto da RAF. Pilotava Spitfire com os belgas e os polacos do esquadrão internacional, baseados no aeródromo lá perto. Desapareceu no Canal no início de 1945, com a guerra quase a acabar, provavelmente abatido.
Quando fui daqui para lá, no fim do verão, demo-nos bem, por solidariedade, acho, porque ambos tínhamos perdido os pais na guerra. Eu, muito antes, ele, há pouco. Ouvia-me. Eu era o único que ele respeitava, por isso. Era órfão. A mãe e os avós maternos dele tinham morrido na guerra, no bombardeamento de Roterdão, em 1940. Só lhe sobrava os avós paternos, que viviam em Aruba. Sustentaram-no e pagaram toda a formação em Inglaterra. Ele nunca quis ir para junto dos avós. Quis seguir a carreira do pai. Com dezoito anos foi para a Real Força Aérea Holandesa, chegou a pilotar F-84. Um jacto. Agora pilota aquela coisa linda e já está em formação para Boeing 707.”

Iam andando pela esplanada, deixaram o mar lá trás, contornaram o castelo, chegaram ao jardim do passeio das casas mais bonitas da cidade. Sebastian apertava a camisa.
“-Tenho inveja dele, confesso.”

Josefina começava a preocupar-se com sua mãe. Tinha de ir para casa, passava do meio da manhã, e o caminho ainda era longo.
“… Ele veio de lá, agora, de Aruba. Quando vai lá, visita os avós. No regresso, costumam fazer escala em Santa Maria, mas o mau tempo empurrou-os para aqui. Calhou bem. Quando chegou, ligou-me e encontramo-nos.”
O avião já tinha desaparecido atrás dos montes lá adiante.

Ele parou na esquina de uma rua estreita, à esquerda, que subia, entre casas, desde o jardim à beira rio.
“-Vamos por aqui”.
“-Eu tenho de ir para casa. A minha mãe já deve estar preocupada.”
“-E vais. Mas a pé são quase duas horas”.
“-Deve estar a passar o elétrico.”
“-Anda comigo”, disse a sorrir.

Começaram a subir a rua estreita, empedrada, de casas bonitas, antigas, geminadas, daquela riqueza discreta que se nota no cuidado da pintura da madeiras das portas, na limpeza da pedra da fachada, no polimento dos metais dos puxadores e batentes das portas, no branco limpo das cortinas que tapam a vista da rua nos vidros das janelas térreas e nos quadros das paredes e dos cristais dos tetos que se mostram nas cortinas entreabertas do primeiro andar.

Ele parou num portão largo de madeira verde escuro, numa casa de dois andares, entre outras, com outra porta, da mesma cor, mais estreita, ao centro, e uma janela, a seguir, de guilhotina, com seis vidros quadrados em cada lâmina, a abrir luz para uma sala de visitas confortável, por onde se espreitava dois sofás, uma mesa baixa e uma lareira apagada, que nos invernos sombrios deveria aquecer os recém-chegados a descapotarem-se para o bengaleiro.
Ele puxou do chaveiro com a pouca destreza de quem está mais habituado a que lhe abram portas, escolheu a chave maior, daquelas pretas, com argola e dentes retos, e abriu o portão de cinco folhas, verticais, a dobrarem-se lateralmente. Lá dentro, brilhava a Bessie, entre uns sacos de batatas, garrafeira, ferramentas e mercearia.

“-Vou-te levar a casa!”
Josefina assustou-se.
“-Mas eu não sei andar de mota. Nunca andei.”
“-É fácil. Basta sentares-te e agarrares-te a mim.”
Puxou do seu enorme lenço branco, impecavelmente limpo e ainda perfumado, dobrou-o em triângulo e cobriu-lhe a cabeça, amarrando-o sob o queixo dela. Colocou uns óculos escuros, de aviador, e puxou a mota reluzente para a luz do dia. Fechou o portão, sentou-se no selim, rodou a chave no pequeno canhão e saltou com todo seu peso em cima do kick starter, numa explosão de barulho e fumo. Sorriu, desceu os dois pedais traseiros e fez sinal com a cabeça, em jeito de convite, para que Josefina se sentasse atrás.
Ela sentou-se apreensiva mas também ligeiramente excitada. Receio, não tinha. Não era medrosa, sempre tinha tido vontade de andar de mota e com ele era quase perfeito, porque tinha ganho uma confiança quase cega. Faria tudo o que ele dissesse, iria para onde e como ele quisesse, independentemente do perigo ou desconforto, porque sabia que tudo o que lhe propusesse era para seu bem. Se calhar era isto o amor. Confiança, lealdade, honestidade e bem estar, até ao fim do mundo. Devia ser, juntando aquele formigueiro que sentia na barriga.

Desceram a rua, pararam e viraram à esquerda, suavemente pela pequena reta marginal. Fizeram a primeira curva e foi quase assustador. A rua e as casas inclinaram-se como num cenário torcido. Passaram a praia dos pescadores, outra curva, parecia fácil, sempre com o rio do lado direito, emocionante, e ele acelerou na reta maior.
A mota vibrava, ela chegou-se mais à frente, encostou o peito nas costas dele, apertou-o no meio das suas pernas, abraçou-o completamente. Ele sorriu-lhe, com o cabelo ao vento. Ela teve vontade de lhe beijar o pescoço. Beijou-lhe o ombro, sem ele se aperceber. Julgou ela.

Josefina Madeira . 16

Os dias, semanas, meses, passaram numa sucessão tranquila e ordenada, naquela forma suave que percebe as rotinas, hábitos, gostos, impulsos e limitações que compõem a moldura de personalidade e circunstancialismo dos outros, sem atritos nem inquirições.
Josefina não fazia perguntas mas na proximidade de várias horas diárias de trabalho e organização, conhecia cada vez melhor o homem responsável pela mudança na sua jovem vida.
Sebastian dormia grande parte das noites no pequeno quarto contíguo ao seu gabinete, de forma tão discreta que nunca deixava qualquer vestígio de desarrumação nem objectos pessoais expostos, durante o dia, como se a mobília estivesse pregada ao chão e a coberta da cama fosse rígida, evitando deslocações noturnas para casa dos primos, nos curtos dias de inverno em que trabalhava até tarde e levantava cedo.
No verão, mais descontraído, também acabava por ficar várias vezes a dormir no seu quarto de trabalho, ao fim de semana. Gostava de se divertir na boémias dos bares e casas de fado ribeirinhos. Bebia demais e deitava-se tarde, entre cantorias e discussões de bêbados com marinheiros de navios de várias nacionalidades, que todos os dias aportavam no cais, e conversas inconfessadas com espanholas de companhia. Não era de exageros, nem de passar vergonhas. Falava-se disso entre o pessoal, à boca pequena, mas, na verdade, ninguém sabia de conflitos ou faltas de respeito. Nesses dias era um embriagado com personalidade.
Josefina começou a ouvir essas histórias e notou o crescendo de episódios. O que seria novidade, ou excentricidade, passou a regra semanal. Como se Sebastian escondesse uma dupla personalidade, da qual não se orgulhava, que irrompia a horas certas num grito de alerta do marasmo da disciplina e racionalidade quotidianos, contraditório porque ele mantinha a afabilidade no trato e a competência no trabalho.
Em momento algum se percebia a saturação ou o cansaço, mas a intuição, cada vez mais madura, fazia-a perceber o tumulto naquele espírito fascinante e imprevisível, despertando-lhe um instinto maternal que a surpreendia.

Pelas onze horas da manhã, saía ruidosamente da garagem, na sua Bessie, para jogar a partida de golfe diária, e voltava pelas três da tarde. A Bessie era o orgulho de Sebastian, a sua BSA Gold Star 350 Highland Green.
Fazia a estreita estrada marginal, junto ao rio, pelos armazéns e estaleiros, até à foz, cruzava a aldeia dos pescadores, divertido, com as crianças a correr atrás dele por entre estendais de roupa a secar ao sol e ao vento, acelerava por estradões de terra entremeados com troços de asfalto e empedrado, atravessando os pinhais junto mar, até chegar ao bairro de traçado geométrico das casas burguesas e dos dois sanatórios, onde doentes acamados nas varandas soalheiras de helioterapia, acenavam na sua passagem pontual, despertados pela emoção e ruído do potente motor monocilíndrico.
Sebastian jogava a volta completa de nove buracos, aproveitava o balneário para o banho diário e muda de roupa, comia uma sande no club, e voltava pelo mesmo trajeto, na repetição de acenos convalescentes e infantis corridas, a tempo do meio dia da tarde de trabalho.

No julho do ano seguinte, Sebastian fez as visitas às vinhas, à adega e, claro, a Dona Maria, deixando Josefina com a responsabilidade total do armazém de expedição. Não lhe deu qualquer indicação ou recomendação. Avisou na noite da véspera que no dia seguinte embarcava rio acima, para verificar produções e condições de vinificação. Foi tudo tão natural e descontraído que ambos surpreendeu. Josefina dominava os procedimentos de armazém e mostrava-se habilitada a gerir tranquilamente rotinas e imprevistos.

Sebastian descontraía-se como se se desinteressasse do trabalho, na tranquilidade de saber que Josefina, miúda com recentes dezasseis anos, já quase podia substituí-lo, se necessário fosse, nas rotinas e responsabilidades do trabalho.
Na escola comercial, ela também demonstrava a capacidade que ele lhe reconhecera de início, passava provas sem sobressaltos e com valores acima de bom, adquirindo conhecimentos a revelarem-se úteis no trabalho diário.

Os filmes sucediam-se no cinema ao ar livre. No verão seguinte, um deles marcou a audiência, os irmãos Marx no circo, e teve de ser repetido duas vezes, com a mesma agitação e gargalhadas. Outro passou despercebido, mas ficou a ser o filme da vida de Josefina.
Viu-o com Sebastian, das poucas vezes que se encontraram fora do trabalho, por convite e insistência dele. Ele queria revê-lo.
A história rodava em torno de uma mulher fatal casada com um gangster, envolvida com o subalterno do marido, traições, enganos, mortes forjadas, política, ameaças e violência, com elegância natural.
“-Pareces-te com ela!”, sussurrou-lhe Sebastian, com um sorriso tímido, já a meio da segunda parte, na primeira e única vez em que se referiu à sua figura.
Uma mulher de uma beleza magnética, pouco óbvia, olhos penetrantes, cara angulosa, olhar altivo, voz quente. O cabelo da atriz era parecido com o de Josefina, que no preto e branco do cinema confundia o seu castanho claro como o ruivo do ecrã.
Pela primeira vez sentiu-se mulher, desejada e apreciada, como aquela atriz americana. Não percebeu bem a história, nem se interessou. Só atendeu à pose, à voz, ao jeito, ao penteado, à fatalidade, que iria copiar e seguir toda a sua vida.
Gilda. Rita Hayworth, leu e memorizou, no genérico final.

Josefina Madeira . 15

Faltava menos de um mês para as vindimas, já havia espaço na adega da quinta para as pipas do vinho novo, o armazém da cidade já estava arrumado com o que entretanto viera rio abaixo, e o calor do pino do verão não aconselhava engarrafamentos.
Josefina aproveitava para verificar todos os barris, vertimentos e arrolhamentos, e, principalmente, se estavam bem calçados. Ela já deveria ter martelado todas as cunhas do armazém duas ou três vezes, nos meses que levava de trabalho. Levava a obrigação muito a sério. Nem queria imaginar o desperdício de um barril quebrado no chão ou o risco de um desmoronamento, para si e para os outros trabalhadores.

Toque-toque-toque, ouvia-se a martelar todo o dia, nas últimas semanas. Toque-toque-toque com tanto esmero que valeu-lhe alcunha posta por Sebastian: “Woody Woodpecker”, o pica-pau vivaço que escapa sempre dos apertos.
Josefina não conhecia o pica-pau personagem de desenho animado, mas poderia saber, como sabia do Mickey, que passava nas projeções na praça do mercado da beira rio nas noites dos sábados de verão, por iniciativa do fotógrafo da avenida, que obteve autorização para apontar o seu animatógrafo portátil à parede lateral da igreja, num cinema improvisado ao ar livre de cadeiras de jardim e lugares de pé, negócio de donativos recolhidos no momento e patrocínio dos cafés da praça.
As sessões já eram famosas. A cultura cinéfila crescia a entre a população ribeirinha. O género preferido era o western, mas também se apreciava a justiça moral sobre nazis, gangsters de Chicago na disputa do mercado do uísque, exploradores em subida pelos rios africanos, beduínos a lutar por oásis, Tarzan entre os leões. Aplaudia-se sapateados e assobiava-se as pernas das bailarinas. Nem todos sabiam os nomes dos atores mas as faces de James Cagney, Humphrey Bogart, Edward G. Robinson, Johnny Weissmuller, Fred Astaire e Ginger Rogers, Cary Grant ou John Wayne, passaram a ser tão familiares como as de qualquer caixeiro viajante, cobrador, ou outro forasteiro, dos muitos regulares que passavam por lá.
Toque-toque-toque.
O pica-pau enérgico e decidido nunca passara no cinema de ar livre da praça do mercado, mas morava na imaginação de Sebastian, do fundo da sua memória de infância.

Todos os dias, de manhã cedo, verificavam documentos de transporte e ordens de serviço, planeavam movimentações e marcavam horários de operação. Sebastian vigiava e orientava os trabalhos, produzia documentos e relatórios. Josefina executava tarefas e orientava trabalhos.

“-Tens treze anos e seis anos de escolaridade. Quero que vás fazer o curso comercial no horário noturno. Quero que vás estudar.”
Foi assim de rompante, mais imperativo do que sugestivo, numa segunda feira do princípio de setembro, que Sebastian decidiu o futuro imediato de Josefina.
“-Estás aqui há pouco mais de seis meses e gosto do teu trabalho. Aprendes rapidamente, és curiosa e trabalhadora. A evolução do teu inglês é formidável, muito melhor do que o meu português, e isso é um ótimo indício da tua capacidade de aprendizagem.”
“-Mas eu não sei se sou capaz. Tem coisas difíceis, é preciso estudar muito.
Eu gosto de trabalhar…”
“-Gostas de trabalhar mas tens de evoluir. Não vais passar a tua vida toda na adega. É um desperdício.”

Ela ouvia, mas não se entusiasmava. Não se imaginava a perder tempo a estudar matérias abstratas que nunca viria a necessitar na sua vida, coisas que ninguém do seu trato conhecia.
Saber ler e escrever e fazer contas, sim. Saber linhas do comboio, rios e serras, também.
Gostou de aprender francês. No ano anterior, na pensão, tiveram de a chamar, a ela, simples lavadeira, ao salão, para perceber um estrangeiro que só falava francês. Pouco adiantou mas o homem sentiu-se mais confortável por se fazer entender.
Saber medidas de peso, distância e volume também é necessário, mas decorar aquelas coisas das ciências naturais já lhe parecia tão difícil como desnecessário.
Também não queria passar os serões de inverno fora de casa, na escola. É escuro, frio e cansativo. Chegar a casa depois das onze horas da noite e ter de levantar antes das sete horas da manhã.
Estudar para quê? Já tinha um trabalho bom e de certeza que ninguém lhe iria dar um muito melhor do que este, por mais que estudasse.
“-Quero que aprendas dactilografia, contabilidade, economia, direito comercial, além de matemática, português, mais inglês, e outras disciplinas que tenhas”.
Josefina não estava a conseguir travar o entusiasmo dele.
“-Vão ser anos cansativos…”
“-Não vai ser nada.
Eu deixo-te sair às cinco horas, para ires a casa e começares as aulas às seis e meia. Depois também te deixo, de manhã, chegar depois das oito meia. Se for preciso estudar, se precisares de dias para exames, também se arranja.”
Ela começou a perceber que o incentivar do estudo não era um capricho dele ou uma benesse de chefe. Era uma obrigação, uma ordem. Ele estava a ordenar o estudo.

Nessa noite falou com a mãe.
“-Vais estudar para quê? Sabes ler, escrever e contar, tens boa cabecinha e falas bem estrangeiro. Tens um bom emprego, és apreciada pelos patrões e respeitada pelos colegas. Se calhar podes chegar a encarregada, como o Ernesto, coisa nunca vista numa mulher, para mais, filha de lavadeira.
Isso é coisa de ingleses, que não precisam de trabalhar para viver.

No dia seguinte, ao fim da tarde, Sebastian acompanhou Josefina a casa.
“-Dona Maria, venho aqui pedir-lhe autorização para inscrever a sua filha na Escola Comercial.
Ela é inteligente e trabalhadora, tem capacidade para progredir na vida.
O mundo está a mudar muito depressa. Temos de aprender coisas novas todos os dias. Mas, para isso, precisa de estudar, adquirir conhecimentos que a prática, só no trabalho, não lhe proporciona.”

Perante o silêncio de incompreensão, ignorância e desconfiança mal disfarçada, prosseguiu.
“-Em nada será prejudicada.
Vou permitir que saia meia hora mais cedo, todos os dias, para poder vir a casa jantar e chegar a tempo à escola. De manhã, também poderá chegar meia hora mais tarde, para descansar.
Depois, quando tiver exames, vou autorizar horas para estudar.”

Sebastian percebia que não era convincente. Ia repetir o discurso, quando Maria falou de supetão, sem tirar os olhos do chão
“-Ela faz bem o que faz. Se vai estudar, pode perder-se e não conseguir. E os senhores podem pôr um moço no lugar dela. E depois nem estuda e perde o trabalho, volta para o tanque, subir e descer a rua com o cesto da roupa à cabeça. Os outros que fizeram o trabalho dela, não estudaram. Desde a minha meninice que venho homens a tratar das pipas. Porque é que a minha Fina tem de saber mais do que os outros, trabalhar mais ou estudar? Não quero que ela se perca do trabalho.”
“-Não tem de fazer mais do que os outros.
Ela é mais do que os outros. Não de pode desperdiçar isso.”

Maria mantinha a expressão dura e olhos baixos. Tinha medo das mudanças. O seu mundo era o de sempre. Desde o tempo da sua avó que havia ingleses no vinho, barcos no rio e comboios na estação. Carvão, fruta e bacalhau descarregados nos muros de amarração, estaleiros na praia, burros e carros de bois rua acima. A escola não era para elas, mulheres do povo. Ficavam nas limpezas e trabalhos menores.
Mal sabia ler e a sua filha já tivera de ficar na escola até aos dez anos. Mais do que suficiente para saber muito mais mais do que ela aprendera.
O liceu era para os filhos dos fidalgos. A professora da filha ainda a convencera a fazer a sexta classe, a trabalhar ao mesmo tempo, até aos doze anos. Já muito tinha feito.

Vendo que nada conseguia, Sebastian atalhou a conversa.
“-Ela precisa de estudar para continuar a trabalhar. Se não estudar, não a quero a trabalhar.
A escola começa no mês que vem. Amanhã, vou lá com ela, matriculá-la. Mas depois, preciso que a Dona Maria vá lá comigo.”

Sebastian foi duro, mas sorria.
“-Muito obrigado, Dona Maria.”
Despediu-se com uma vénia e saiu, decididamente, como sempre.

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