As ruas da cidade enchiam-se na noite mais curta de ano, a do início do verão, a noite de São João. Fogareiros à porta, sardinhas e febras das brasas para fatias de broa, vinho a jorrar de garrafões para malgas e canecas brancas, preparavam a noitada de rusgas, saltos à fogueira e alhos porros, erva cidreira e plumas perfumadas, dados a cheirar.
Já há algumas semanas que a mãe de Josefina emagrecia com tosse e, por querer descansar e recatar-se, deixou-a sair sozinha. Não que carecesse de autorização especial para chegar mais tarde a casa, agora já com dezoito anos, responsável, senhora de si, escola comercial terminada com distinção, profissional empenhada, orgulho de mãe, mas pela novidade de, pela primeira vez, sair sem ela na noite dos excessos populares.
Não ia fazer mais do que nos outros anos. Descer a rua até ao bailarico da praça do mercado com as outras miúdas da sua criação, em grupo, protegendo-se de afoitices ébrias, dançar, saltar, fugir das ervas de cheiro.
A secreta esperança, tão secreta que ela própria fazia por ignorar, era encontrar Sebastian. Divertida, olhava em volta, uma e outra vez, na procura da cabeça loira a pairar mais de vinte centímetros acima das outras. Ela sabia que ele andava por ali, ouvira-o falar disso, mas, com certeza, estaria na outra margem, por outra praça, outro bailarico.
O relógio da igreja apontava para os dez minutos para as duas horas. Não tinha obrigação de ir já para casa, a noite era curta e viva até madrugar, mas o cansaço de um dia de trabalho, as corridas e saltos à fogueira, e o cuidado necessário com cada vez mais, e mais pesados, bêbados, levavam-na a pensar em retirar.
“-My dear woodpecker”, ouviu por trás de si, com arrepio e borbulhar no estômago.
Sebastian sorria enquanto tirava a melena de cima dos olhos, num gesto que cultivava com estilo e vaidade.
Estava com outro rapaz, igualmente louro, igualmente alto, de calções, botas e meias altas, e camisa branca de manga curta e dois bolsos.
“-Olá, meninas! Meu nome é Sebastian e apresento-vos Dirk, o meu amigo holandês. Dirk, the flying dutchman”, disse, levemente eufórico, levantando o olhos acima de Josefina.
As miúdas ficaram com um sorriso de espanto, estático, envergonhado, porque nada sabiam que dizer perante aqueles dois homens jovens, altos, distintos, que não tinham nada a ver com a sua simplicidade.
Dirk também ficou a pairar. Não porque tivesse qualquer embaraço, mas porque já tinha corrido quilómetros e parado para experimentar todas as novidades nos tascos do caminho. Os olhos vidravam e já pouco falava.
“-Tenho de o levar ao hotel. Está hospedado no grande hotel e não sabe ir para lá.
É first officer na KLM, e tem voo amanhã.”
“-É o quê?”
“-É piloto, é aviador. Normalmente voa de Amsterdam para Jakarta, mas tiveram de vir cá, de avião, num serviço especial. Por isso é que vem com esta roupa ridícula, colonial”, ria-se Sebastian, sem reparar que também ficava excêntrico, com as suas calças de golfe.
“-Fomos colegas em Ampleforth College”.
“-Vou levá-lo ao hotel. Por hoje já chega de caminhada.
Querem vir connosco? É só atravessar a ponte subir lá cima e descer a escadaria. É divertido, a esta hora. Corremos e saltamos mais fogueiras.”
Joana tomou a liderança das miúdas.
“-Vai com eles, Josefina. Não te preocupes. Falas inglês, ele é teu amigo e teu chefe. É bom rapaz”, com um sorriso discreto.
“-E a minha mãe?”
“-Ela fica bem. E amanhã digo que chegámos tarde e que estiveste sempre comigo.”
Atravessaram a ponte, cruzaram o túnel, subiram a estação e chegaram rapidamente ao Grande Hotel.
Não havia grande movimento na rua. O ambiente era mais sossegado numa zona de comércio convencional. Não havia moradores nem comes e bebes.
Entraram na recepção, para se despedirem. Josefina nunca tinha entrado ali. Já tinha visto aquela porta giratória, sempre com vontade de experimentar, mas os olhos do porteiro de cartola mantinham-na ao largo. Hesitou mas entrou atrás deles. Entrou como se fosse tragada por uma grande boca de vidro. A meio, teve de empurrar e coordenar o andar, para não tropeçar. Não era difícil mas teve de pensar.
Lá dentro, eles os dois chegaram-se ao balcão e ficaram a conversar em voz baixa. Josefina deixou-se afastada e arregalava os olhos.
Era sítio de reis e príncipes. Estátuas de mármore de mulheres de ombros à mostra, bustos de homens barbudos, jarras de pé alto, cortinas azuis escuras, sofás de couro preto impregnadas de cheiro a tabaco, parede de livros usados, candeeiro de cristais luzidios, chão de xadrez preto e branco a dar vontade de jogar à macaca.
Dirk entrou para o elevador de ferro, de portas gradeadas. Nem se despediu dela. Não é que ela esperasse. Ele mal reparou nela e em toda a gente.
“-Vamos! Temos de ir embora. Já começa a ficar tarde.”
“-Tarde para quê? Daqui até casa é rápido.”
“-Vem comigo!”
Desceram pelo mesmo caminho até à estação, depois ao mercado, à bolsa e viraram para a alfândega, junto ao rio. Sebastian falava sem parar. A ponte e o caminho de casa eram para o outro lado. Descrevia o solstício de verão, a translação da Terra e a inclinação do seu eixo. Havia luzes, fogueiras, acordeões e cantoria no casario das arcadas. A tradição dos celtas, a mitologia, nórdica, o fogo e a fertilidade. Novos e velhos, ninguém se deitava até o raiar do sol e já não faltava muito. Andaram sempre em direção à foz. Os banhos de mar purificadores. Saltavam todas as fogueiras que encontravam, de mãos dadas. Passaram o jardim e o castelo, já raiava a madrugada quando chegaram ao areal, virado ao mar. Não eram os únicos. Grupos de novos ou mais velhos, alguns casais, agarrados, talvez com frio, vinham acalmar a folia no alvorecer na praia.
Sebastian deitou-se na areia de braços abertos. Josefina sentou-se junto a ele. Olhava à volta. Sentiu frio.
“-Anda cá!”. Puxou-a e ela deitou-se a seu lado, com a cabeça pousada no ombro dele. Ele passou o braço de volta a aquecê-la.
Ela sentiu o atrevimento. Nunca tinha estado deitada tão próxima de um homem. Calor. Confortável.
Ele falava. Apontava a estrela da manhã, a nascer à frente do sol. Vénus.
“-Tem fases como a lua. Veem-se bem com um monóculo. Um dia vou lá num foguete. O planeta está coberto de nuvens mas é quente como nos trópicos. Tem lagos de águas cálidas, palmeiras e ninfas a tocar harpa.”
Ela aconchegou-se.
“-Vou ter de partir para Inglaterra.
Tenho de visitar a minha mãe. Temos assuntos para tratar. Não sei quanto tempo fico. Talvez três meses.
Não tenho receio de deixar o trabalho, aqui. Tu sabes quase tudo. O verão é mais tranquilo.
Estou a pensar ir no meio de julho. Vou de barco, no cargueiro do vinho, e levo a Bessie. Já falei com a companhia de navegação, autorizam, e o capitão é meu amigo. É o que dá ser dos melhores clientes.”
Disse tudo de seguida a olhar para o raiar rosa das luzes da madrugada.
Josefina já estava de olhos fechados, sonolenta e tudo lhe parecia um sonho. Viagens, barcos, estrelas, motas, verão. Tudo distante. Sonhava que ia com ele. Adormeceu.
Ele também.
Acordou, já o sol ia alto. Devia passar das nove da manhã. Sebastian dormia na mesma posição em que a tinha embalado no sono.
Olhou em volta. Pessoas dormiam, outras conversavam, baixo, na rouquidão da noite mal dormida, pequenos grupos, alguns casais, rapazes chapinhavam a tomar banho.
Tinha de o acordar. Já era demasiado tarde.
Só mais um pouco. Tentava-se. Pousou a cabeça.
O sono dele era tranquilo, de respiração profunda. Uns têm sono feio, babam-se, ressonam, fazem caretas, abrem a boca.
Ele era sereno e bonito.
Apetecia-lhe beijar-lhe a face. Alterou-se com a ideia, sentiu um arrepio de excitação.
Queria ficar ali para sempre, aproveitar cada minuto.
Vou acordá-lo. Tenho de ir embora. Como é que eu vou? Há elétrico. Estará a funcionar? Hoje é feriado.
Ele mexeu-se. Está a acordar.
“-Estava a dizer que na próxima semana vou à quinta, verificar tudo para a próxima colheita. Vens comigo”, começou a falar como se não tivesse adormecido.
“-Agora tenho de ir para casa.”
“-Espera um pouco!”
Levantou-se, andou até à linha da água, desapertou a camisa, descalçou os sapatos e as meias, olhou à volta, ninguém reparava nele, ou assim julgava, tirou as calças mesmo a tempo de Josefina virar a cara, envergonhada, e mergulhar no mar, com as suas cuecas brancas pelo joelho.
Deu várias braçadas e acenou-lhe.
Ela sentia uma imensa vergonha por estar com um homem a tomar banho em cuecas, orgulho por ser o par do rapaz mais bonito da praia, e diversão pela traquinice.
Para não parecer mal, ela sentou-se de lado, virada como se não o conhecesse. Mas sempre a olhar pelo canto do olho. Ria-se e corava.
Ele saiu da água. Ela fixou o olhar nos rochedos, mais a norte, séria e compenetrada.
Ele vestiu as calças sobre as cuecas molhadas e caminhou para ela com os sapatos, as meias e a camisa nas mãos, sério, de queixo levantado a olhar o horizonte, a andar como Charlot.
Ele não vai vestir a camisa?. Pensou ela. Vem assim meio despido, para a minha beira? Nervosa, não conseguia conter o riso.
“-Vamos! Vou-te levar a casa”, e passou por ela, a pantominar pelo areal até às escadas de pedra que subiam para a rua marginal.
Sentou-se nos degraus e calçou as meias e os sapatos.
“-Sabes nadar?”
“-No rio. No mar também sei, mas é para crianças.
E também salto da ponte”, respondeu Josefina, em desafio.
“-A sério?”
“-Um dia ensino-te os truques das marés e das correntes, para nadar no rio. Se não souberes, desapareces e só o Duque é que te encontra.”
“-Quem?”
“-Não queiras saber.”
Foram interrompidos pelo roncar majestoso dos dezoito cilindros dos motores Wright do Lockheed Super Constellation prateado e azul, que traçavam quatro leves riscos de fumaça negra numa curva ascendente sobre a foz, do mar para o interior, sobre a margem sul do rio.
“-Olha! Dirk Van Beek vai para casa. Ele disse-me que ia pilotar a descolagem.” Sebastian ficou parado a ver a bela silhueta de golfinho do Lockheed, a ganhar altitude.
“-Ele é inglês?”
“-Não! É holandês. Não vês pelo nome?”
“-Pois… Já me tinhas dito.”
“-Foi meu colega no Ampleforth College. O pai tinha sido piloto da RAF. Pilotava Spitfire com os belgas e os polacos do esquadrão internacional, baseados no aeródromo lá perto. Desapareceu no Canal no início de 1945, com a guerra quase a acabar, provavelmente abatido.
Quando fui daqui para lá, no fim do verão, demo-nos bem, por solidariedade, acho, porque ambos tínhamos perdido os pais na guerra. Eu, muito antes, ele, há pouco. Ouvia-me. Eu era o único que ele respeitava, por isso. Era órfão. A mãe e os avós maternos dele tinham morrido na guerra, no bombardeamento de Roterdão, em 1940. Só lhe sobrava os avós paternos, que viviam em Aruba. Sustentaram-no e pagaram toda a formação em Inglaterra. Ele nunca quis ir para junto dos avós. Quis seguir a carreira do pai. Com dezoito anos foi para a Real Força Aérea Holandesa, chegou a pilotar F-84. Um jacto. Agora pilota aquela coisa linda e já está em formação para Boeing 707.”
Iam andando pela esplanada, deixaram o mar lá trás, contornaram o castelo, chegaram ao jardim do passeio das casas mais bonitas da cidade. Sebastian apertava a camisa.
“-Tenho inveja dele, confesso.”
Josefina começava a preocupar-se com sua mãe. Tinha de ir para casa, passava do meio da manhã, e o caminho ainda era longo.
“… Ele veio de lá, agora, de Aruba. Quando vai lá, visita os avós. No regresso, costumam fazer escala em Santa Maria, mas o mau tempo empurrou-os para aqui. Calhou bem. Quando chegou, ligou-me e encontramo-nos.”
O avião já tinha desaparecido atrás dos montes lá adiante.
Ele parou na esquina de uma rua estreita, à esquerda, que subia, entre casas, desde o jardim à beira rio.
“-Vamos por aqui”.
“-Eu tenho de ir para casa. A minha mãe já deve estar preocupada.”
“-E vais. Mas a pé são quase duas horas”.
“-Deve estar a passar o elétrico.”
“-Anda comigo”, disse a sorrir.
Começaram a subir a rua estreita, empedrada, de casas bonitas, antigas, geminadas, daquela riqueza discreta que se nota no cuidado da pintura da madeiras das portas, na limpeza da pedra da fachada, no polimento dos metais dos puxadores e batentes das portas, no branco limpo das cortinas que tapam a vista da rua nos vidros das janelas térreas e nos quadros das paredes e dos cristais dos tetos que se mostram nas cortinas entreabertas do primeiro andar.
Ele parou num portão largo de madeira verde escuro, numa casa de dois andares, entre outras, com outra porta, da mesma cor, mais estreita, ao centro, e uma janela, a seguir, de guilhotina, com seis vidros quadrados em cada lâmina, a abrir luz para uma sala de visitas confortável, por onde se espreitava dois sofás, uma mesa baixa e uma lareira apagada, que nos invernos sombrios deveria aquecer os recém-chegados a descapotarem-se para o bengaleiro.
Ele puxou do chaveiro com a pouca destreza de quem está mais habituado a que lhe abram portas, escolheu a chave maior, daquelas pretas, com argola e dentes retos, e abriu o portão de cinco folhas, verticais, a dobrarem-se lateralmente. Lá dentro, brilhava a Bessie, entre uns sacos de batatas, garrafeira, ferramentas e mercearia.
“-Vou-te levar a casa!”
Josefina assustou-se.
“-Mas eu não sei andar de mota. Nunca andei.”
“-É fácil. Basta sentares-te e agarrares-te a mim.”
Puxou do seu enorme lenço branco, impecavelmente limpo e ainda perfumado, dobrou-o em triângulo e cobriu-lhe a cabeça, amarrando-o sob o queixo dela. Colocou uns óculos escuros, de aviador, e puxou a mota reluzente para a luz do dia. Fechou o portão, sentou-se no selim, rodou a chave no pequeno canhão e saltou com todo seu peso em cima do kick starter, numa explosão de barulho e fumo. Sorriu, desceu os dois pedais traseiros e fez sinal com a cabeça, em jeito de convite, para que Josefina se sentasse atrás.
Ela sentou-se apreensiva mas também ligeiramente excitada. Receio, não tinha. Não era medrosa, sempre tinha tido vontade de andar de mota e com ele era quase perfeito, porque tinha ganho uma confiança quase cega. Faria tudo o que ele dissesse, iria para onde e como ele quisesse, independentemente do perigo ou desconforto, porque sabia que tudo o que lhe propusesse era para seu bem. Se calhar era isto o amor. Confiança, lealdade, honestidade e bem estar, até ao fim do mundo. Devia ser, juntando aquele formigueiro que sentia na barriga.
Desceram a rua, pararam e viraram à esquerda, suavemente pela pequena reta marginal. Fizeram a primeira curva e foi quase assustador. A rua e as casas inclinaram-se como num cenário torcido. Passaram a praia dos pescadores, outra curva, parecia fácil, sempre com o rio do lado direito, emocionante, e ele acelerou na reta maior.
A mota vibrava, ela chegou-se mais à frente, encostou o peito nas costas dele, apertou-o no meio das suas pernas, abraçou-o completamente. Ele sorriu-lhe, com o cabelo ao vento. Ela teve vontade de lhe beijar o pescoço. Beijou-lhe o ombro, sem ele se aperceber. Julgou ela.