-Se me pagares, podes fazer de mim o que quiseres.
-Qual é o teu preço?
-É muito razoável, mas não tens que chegue para mim.
-E se eu me endividar?
-Arruinas-te por mim. Isso é opção?
-Se estou disposto a dar vida por ti, é-me indiferente se estou arruinado.
-Dás nada, estás a testar-me. Sacrificavas-te por mim?
-Só quero fazer-te feliz.
-E se o sacrifício for deixares-me ir à minha vida?
-Se isso te fizer feliz, seja. Não quero nada mais do que isso.
-E se o sacrifício for aturares-me até ao fim da tua vida?
-Qual é mesmo o preço?
Josefina Madeira . 12
Entraram na vila, nas últimas centenas de metros já em terreno plano, a meio da extensa reta, antes da estrada voltar a subir, lá ao fundo, para mais curvas, mais vinhas, mais montes, outras vilas, cada vez mais esparsas para o interior.
A placa de cimento, em bandeira, com o autocarro estilizado a preto e branco, marcava a paragem da carreira e apontava para a esquerda, para o início da rua que descia suavemente até ao rio.
Não havia movimento naquele fim de manhã. Também nunca haveria grande rebuliço. A terra era muito pequena e pouco comércio por lá passava. A igreja, a escola, a câmara municipal, a venda de secos e molhados, que também fazia de tasco e casa de pasto para viajantes, e alguns pequenos comércios, como o sapateiro, o alfaiate e pouco mais. O médico atendia em casa e ele próprio dispensava as mezinhas. Farmácia, só a alguns quilómetros de distância, longe demais para ir a pé.
A rua principal corria paralela ao rio, entre rua marginal e a estrada nacional, intercetava a rua perpendicular, que ia da paragem na estrada ao rio e, depois, atravessava a ponte para o apeadeiro na outra margem, numa pequena praça redonda, com a escola, a câmara e a igreja.
Quem descia da estrada em direção ao rio, encontrava a escola do lado esquerdo, logo à entrada da rotunda, em frente à câmara, e do outro lado da praça, ao lado direito, ficava igreja, com a sua porta aberta, preparada para receber o sol poente, quando chegasse a tarde.
As aulas decorriam na escola. Duas janelas grandes, com a haste de bandeira sobre a do lado esquerdo, porta ao fundo, à direita, junto à casa de banho exterior, de onde espreitaram discretamente, pelo vidro. A professora era nova, pouca mais velha do que Sebastian, falava alto e passava entre as crianças sentadas, que escreviam na lousa. A professora Dulce reformara-se há cerca de cinco anos e faleceu pouco depois, já lhes tinha contado D. Maria.
Sebastian olhou em silêncio, a sala, os quadros, os mapas, a fotografia de Salazar, as crianças e o pequeno pátio exterior onde tanto brincara.
“-Vamos à igreja!”.
Atravessaram a praça em silêncio e entraram na igreja. Estava vazia, iluminada pelo sol nos vitrais e algumas velas devotas. Era uma igreja como tantas outras no interior de Portugal, de finais do século XVIII, com talha dourada, no altar, a bordejar Cristo crucificado, anjinhos bochechudos pintados em azulejos, e várias figuras de santos nas laterais. Um pequeno altar, destacava-se à direita, iluminado com algumas velas e pelo vitral da lateral da entrada. Era o do padroeiro da terra. Josefina reconheceu-o imediatamente. A cara de menino, as cordas e as setas. Cutucou o cotovelo de Sebastian e aprontou. Ele sorriu, curvou-se e e sussurrou-lhe “-Persegue-me. St. Sebastian persegue-me”.
Ficaram alguns minutos sentados na igreja. Josefina não percebeu se Sebastian orava ou só descansava. Olhava em frente. Talvez só recordasse tempos passados.
Fez-lhe sinal e saíram.
“-O padre Rogério vive já aqui atrás. A esta hora deve estar em casa.”
Viraram à direita, entraram na rua que descia ao rio, e logo ali, paredes meias, estava a casinha tal e qual Sebastian havia descrito.
A chaminé fumegava, preparava-se o almoço. Bateram à porta.
Um homem de camisa branca, forte mas sem ser gordo, cerca de cinquenta anos, cabelo cinzento, abriu a porta, fixa os olhos em Sebastian alguns segundos, inexpressivo, tempo demais, como se baralhado de um reconhecimento possivelmente desagradável, porque só somos agradáveis para desconhecidos ou com quem controlamos as emoções, mesmo a hipocrisia. O homem como que balbucia qualquer coisa, entre a obrigação de algo dizer e o embaraço de não saber o quê.
“-Father Roger…”, disse Sebastian.
“-Meu Deus, és mesmo tu.”
Apertou-lhe as mãos, puxou-o. Sebastian sorria.
O padre estava genuinamente emocionado.
“-Eras tão pequenino. Há quanto tempo?”
Abraçaram-se, e voltaram a olhar-se nos olhos.
“-Estava baralhado. Conheci-te imediatamente mas…. Ainda tens cara de miúdo mas agora estás maior do que eu.”
O padre Rogério era um homem alto, tinha quase um metro e oitenta, mas tinha de olhar para cima.
“-Entrem, entrem! E tu, minha menina, quem és? A noiva do Sebastião?”
Josefina nem conseguiu responder porque Sebastian antecipou-se, em jeito de justificação.
Explicou rapidamente que ela era empregada da William Richardson & Co., estava ali a estagiar com ele, estavam hospedados uns dias na quinta, com Maria, e que ela era muito jovem, tinha treze anos.
“-Minha filha, peço imensa desculpa. Vi-os juntos, e com a sua pose, tão adulta, de senhora, pensei que eram da mesma idade. Mais uma vez, peço desculpa.”
Josefina ficou embaraçada, primeiro, depois aliviada. Mas também ficou envaidecida. Sentir-se ao nível de Sebastian, passar por noiva de Sebastian, mesmo por colega próxima, que seja, da mesma igualha, fazia-a sonhar. Ele era aquele homem jovem, dinâmico, inteligente, culto, trabalhador. E bonito. Era capaz de ficar horas junto dele, a ouvir, a aprender. A voz dele acalmava-a, era confiante. Nos últimos dias apercebeu-se que também ficava bem com ele calado. Junto dele era sempre bom. Noiva. Com ele.
Durante largos minutos, estivera absorta nos seus pensamentos. Entraram, sentaram-se os dois à mesa, ela no sofá. Eles falavam de pessoas que ela não conhecia, de outros tempos. O crucifixo estava lá. Cristo de latão olhava para baixo, em sofrimento. O aparador continuava com as chávenas e pires de serviços desirmanados, dentro das portas de vidro de correr. Um dos vidros estava quebrado. A esquina debaixo do lado esquerdo. Como se tivesse forçado algum travão, ao fechar, no trilho metálico. Sebastian não lhe falara disto, quando descrevera os vidros gravados com flores. O acidente deve ter sido depois. Ele tinha feito uma descrição pormenorizada, teria falado do vidro escanado. Também reparou que as paredes precisavam de ser pintadas. Já não eram daquele branco ofuscante que ele dissera. Passaram quinze anos, no vidro e nas paredes.
Noiva. Do sonho de menina, da filha do sapateiro e da lavadeira com todo o mundo por descobrir e aprender, acordou para a realidade.
Tinham chegado em cima do almoço, que o padre já preparava no seu fogão a lenha, na cozinha ao lado da sala. De vez em quando levantava-se para ir ver como estavam as suas batatas. Estava a cozer batatas, couves e um chispe de porco. Cheirava bem. Aproveitou a cozedura, acrescentou quatro ovos, cortou várias fatias grossas de um presunto que tinha dependurado na chaminé por cima do fogão, que disse terem-lhe oferecido os pais da noiva num casamento que celebrou nessa primavera, foi buscar azeitonas a um pote de barro, abriu um chouriço que estava guardado em azeite e partiu meia broa de milho. Também trouxe uma garrafa de vinho, mas esse bebeu-o sozinho, porque ainda tínham um longo caminho de volta. Tudo isto improvisado e partilhado, porque não os deixou sair sem almoçar.
Falaram, riram-se, recordaram peripécias
“-Que se passa com o teu pé? Coxeias.”
“-Foi um acidente. Acho que vai melhorar “
“-Um acidente de quê? Como é que fizeste isso?”
“-Uma aventura mal calculada. Nada de especial.”
“-Mas não podes ir assim, a pé para casa.”
“-Claro que posso. Já contava com isso.”
“-Não. Vou-vos arranjar uma boleia.”
Josefina estranhou as evasivas de Sebastian. Era de poucas palavras, mas respondia sempre diretamente ao que lhe perguntavam. Se estava curiosa sobre a lesão no pé, ainda mais ficou.
Josefina era muito nova mas era sensível e atenta. A conversa fora animada e sentida, genuína e fraterna, mas se Sebastian contou ao padre como chegara a casa, em Grosmont, em 1945, a sua relação com a mãe, a vida no colégio interno, o que aprendeu lá, e que lhe valeu o que aprendeu com o padre e a professora Dulce, como era a vida dele agora, nos vinhos, mas omitiu parte da sua formação e vida de jovem adulto. Josefina reparou porque tinha muita curiosidade em saber onde é que ele estudou e trabalhou, e, claro, se tinha namorada, projetos, ambições. Coisas que a enchiam de curiosidade, mas não tinha coragem perguntar e também não tivera oportunidade. Ao padre, terão passado despercebidas, por falta de interesse ou distração.
“-Senhor Padre, tão dinâmico, culto e popular nos paroquianos, está há tantos anos nesta terra, quase há vinte. Nunca quis sair daqui, mudar-se? Não contava ainda encontrá-lo por cá.”
A cara do padre fechou-se e ficou calado numa pausa prolongada.
“-Sabes que estudei no seminário, em Braga, ordenei-me padre e fui para Roma. Aprendi mais, lá, mas o chamamento da aventura, ajudar os pobres e evangelizar o mundo, levou-me para África. Fiquei lá alguns anos, o melhor tempo da minha vida, mas rebentou a guerra na Europa, não se sabia até onde podia ir. Era cada um por si. De início fui chamado a Lourenço Marques, mas logo de seguida meteram-me num barco para a metrópole. Cheguei aqui em 1941, provisoriamente, para substituir um padre que falecera repentinamente. Os tempos eram difíceis, tempos de guerra. Havia fome por estas terras. Pouco trabalho, racionamentos. Também não sabíamos o que iria acontecer. A guerra espanhola tinha acabado há pouco, ainda havia por aqui refugiados, republicanos escondidos nos montes. O mais certo seria Franco alinhar com Hitler. Quando isso acontecesse, mantivéssemos neutrais ou alhinhássemos com os aliados ou com Franco, a nossa independência desaparecia, a bem ou a mal. Salazar percebeu isso e tentou manter a vida rural o mais normal possível. Segurou os padres nas vilas e aldeias, manteve a produção agrícola o mais que pode, para fixar as gentes às terras. Também era preciso alimentar a população e manter uma reserva de gente para o que desse e viesse. Ele também não queria migrações internas. Lisboa já estava cheia de judeus e outros fugidos do resto da Europa. Naquela altura éramos todos salazaristas. Queríamos estar longe dos horrores da guerra e manter a nossa vida o mais normal possível. E estávamos a conseguir.
A partir de 1943, a guerra começou a virar a nosso favor. Salazar percebeu os novos ventos e cedeu os Açores aos aliados. Foi uma enorme alegria para mim. A liberdade a vencer a barbárie, e nós do lado certo da história.
O fim da guerra foi o momento de maior esperança da minha vida. Júbilo, alegria e planos para futuro. Enchi as homilias de palavras como fraternidade, liberdade e liberdade, como as da velha revolução. Prometi que as injustiças tinham acabado, iria haver trabalho justo para todos. O futuro seria radioso.
Mas nada disto aconteceu. Os proprietários voltaram às terras, depois de se terem refugiado nas cidades, o poder e opressão manteve-se, continuaram as jornas miseráveis, a GNR veio ressalvar a ordem. Eu não me calei e, de vez em quando, tinha homens estranhos nas minhas celebrações. Polícias à paisana na nossa igreja para ouvir o que eu dizia ao povo. A terra é pequena. Toda a gente sabia.
Em maio fui de comboio ao Porto, para ver e ouvir o General Humberto Delgado. É um aviador que viveu, nos últimos cinco anos, em Washington e pretende substituir o Salazar e fazer de nós uma nação moderna. Foi uma emoção enorme. Senti-me livre. Ouvi o que nunca ouvira, falamos entre nós, na multidão, milhares de pessoas, gritamos. O homem é formidável, ouvi-o a discursar. Mas é claro, roubaram-lhe as eleições do mês passado. Mas isto agora vai na mesma. O mundo fascista já é passado. Sobra aqui e em Espanha, mas é por pouco tempo.
Mas sabes, fui acompanhado, no comboio até ao Porto, por dois facínoras de casaco preto e chapéu, sentados dois bancos atrás do meu. Lá, não os vi, mas estavam à minha espera, em São Bento, e vieram até cá, outra vez. Como se eu não reparasse.
Passados uns dias, fui chamado ao bispo. Para me dizer que não queriam padres vermelhos. Eu, comunista? Nunca fui. Só não suporto injustiças e exploração dos trabalhadores. Fui aconselhado a calar-me senão poderiam necessitar de mim outra vez em África. Como se eu me importasse. Moçambique também já era a minha terra. Mas eles não me querem lá. Aqui controlam-me melhor. Os tempos estão a mudar outra vez, e está a começar por África. Os europeus estão a recuar em força de todas as colónias. Vem aí uma vaga de autodeterminação e independências. Os franceses e ingleses já se estão a retirar, derrotados…”
“-Senhor padre, temos de ir embora. Já é tarde “. Sebastian levantou-se intempestiva e nitidamente alterado. “Temos um longo caminho para casa e não queria chegar de noite.”
“-Então? Podem ficar mais tempo. Hoje de tarde, não tenho nada marcado. Ninguém me chamou, em caso de urgências ou confissões, vêm-me bater aqui à porta. E só tenho o Terço, logo às seis horas.”
“-É, mas o caminho é duro e a subir”, disse coçando a perna lesionada.
“-Se esperarem pelo fim da tarde, arranjo-vos boleia. E também há a carreira das seis e meia. Passa lá à porta.”
Sebastian insistiu na pressa. Pouco passava das três horas. Josefina não percebia o que se passava. Não tinham compromisso da parte de tarde, o plano era passear o dia todo, visitar a vila, ver as pessoas, ir à escola e à igreja, os locais da meninice. Ele esboçava um sorriso mas mal disfarçava o incómodo. Seria a dor na perna ou no pé? Mas se fosse isso, não fazia sentido o regresso à pressa, a pé.
O padre cedeu. Sebastian era teimoso e não queria ficar ali nem mais um minuto. Despediram-se com afeto, mas a alegria já não era a mesma. O padre parecia não compreender, mas, ao fim ao cabo, mal conhecia este adulto. Tratava-o como a criança que vira pela última vez quinze anos antes. Ele, agora, tinha vontades, medos, defesas, limitações aparentemente incompreensíveis, de que a experiência e sensibilidade do padre se apercebia, embora sem compreender.
Sebastian precisava de espaço, silêncio, tranquilidade, calma. Sentiu-se oprimido naquela sala cada vez mais fechada. O padre Rogério não tinha culpa mas monopolizara a conversa, entusiasmou-se com a política, não deixou mais ninguém falar. Argumentou e julgou à sua maneira. Mas algo tocara fundo nas convicções do jovem, que não tivera força nem coragem para enfrentar o homem que fora o seu mestre da infância.
Despediram-se e saíram para o caminho.
Rapidamente chegaram à estrada, sempre em silêncio, caminhando lado a lado. Josefina tentou conversar sobre detalhes da paisagem, a puxar pelo conhecimento de Sebastian. Uma árvore, uma cultura, uma casa, a propriedade de uma quinta do outro lado do rio, o barco que passava, mas ele respondia sempre com monossílabos. Agora coxeava muito pouco, como se a dor tivesse quase desaparecido.
Na verdade, pouco sentia o pé, numa dormência de decisão e vontade, mas quando o declive da estrada se acentuou, o passo começou a ficar irregular, num esforço de dor evidente.
Josefina deu-lhe o braço. Sentiu um abuso de confiança, mas, embora Sebastian se mostrasse impassível, a dureza do rosto demonstrava toda a contenção da dor. Ele aceitou o apoio. Ela era mais baixa mas, ainda assim, o braço dado aliviava-lhe a dor e a pressão no calcanhar.
Ainda não tinham chegado a meio do caminho, e ela apertou-lhe a mão. Praticamente segurava-o de um lado.
Já viam o cimo da estrada, antes de começar a descer para a quinta, mas ainda faltava quase um quilómetro.
“-Quer sentar um bocadinho, numa pedra? Aliviar o pé?”
“-Agora não.Está tudo quente. Se arrefecer, depois não consigo andar mais.
Josefina olhou-o e pareceu-lhe ver os olhos marejados de dor. Sem dizer nada, abraçou-o e passou o braço dele por cima dos seus ombros, sem lhe largar a mão. Ele deixou e não disse nada. Os seu corpos seguiam agora, lado a lado, abraçados. Josefina era forte e suportava bem parte do peso de Sebastian. O alívio foi quase imediato mas a dor era persistente. O orgulho de Sebastian não o deixaria ser amparado por uma miúda, mas sentira o alívio e ele sabia que ela suficientemente robusta para o segurar.
Josefina ia num baralhar de sentimentos. Temera ser demasiado audaciosa em lhe dar a mão e abraçar, mas também sentia orgulho em ser prestável e poder ajudar um homem em dificuldades. E ele não era um homem qualquer. Nunca estivera tão perto dele e nunca se sentira tão bem. Sentia-lhe o calor e os músculos. Levavam o passo ritmado e os corpos esfregavam-se a cada metro. Nunca sentira isso. Queria que faltassem ainda mais quilómetros. O braço dele, por cima dos ombros dela, fazia com a sua face encostasse no peito dele. A camisa era macia como nunca sentira. A humidade e o odor do corpo suado, do esforço dorido, parecia-lhe estranhamente agradável. Estava a gostar muito. Como nunca sentira.
Chegaram ao cume, atravessaram os tranqueiros de granito da entrada, começaram a descer para casa. Mantiveram agarrados, a descida também era difícil, mas quando chegaram perto da adega, já em terreno plano, naturalmente afastaram-se. Sebastian ganhou um novo equilíbrio e força, sempre orgulhoso.
Entraram em casa, pela cozinha, em silêncio. Josefina não se atrevia a dizer nada. Não estava ninguém. Beberam água e subiram as escadas. Sebastian subiu como se nada fosse. No corredor do primeiro andar, combinaram descansar um pouco, antes de jantar.
“-Thank you”, disse, dando-lhe um beijo na face, sentido e envergonhado.
Virou costas e subiu o lanço de escadas, para o seu quarto da torre, agarrado ao corrimão.
Sebastian tinha um pequeno estojo médico, de campanha, no quarto. Trazia-o sempre consigo. Tomou dois comprimidos de Tylenol e esfregou o pé com um óleo de amêndoas, gérmen de trigo e azeite, que já trazia preparado.
Deitou-se a descansar o corpo, com o espírito atormentado pela conversa com o padre. Tinha um assunto por resolver. A vida por resolver.
Josefina encheu a banheira de água. Um luxo de água quente e espuma. Era o quarto e casa de banho mais luxuoso que já vira. Só conhecia o seu e outros do cinema. Este era como os do cinema. Para melhor, porque era real.
Mergulhou na água. Sentiu a calor envolvê-la. Foi o dia mais importante da sua vida tenra de treze anos. Mais um. Sentia o que nunca sentira. Sentia-se confiante, dona do seu corpo, protegida e segura.
Maresia #2346
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Sete dias, sete músicas
O pinga amor
Recorda-se de cada uma delas, dos nomes, dos locais, dos tempos, dos sentimentos. Tem preferidas, não foram todas iguais, mas guarda igual carinho por cada uma delas, na memória daquele instante de partilha que vale um vida. Nunca prometeu o que não podia dar, não convenceu, não enganou. Cada uma soube que levou tudo o que tinha para levar, mais novas, mais velhas, ansiosas ou resolvidas, cada uma foi uma história.
Recorda-se de A., mulher madura de seios voluptuosos, casada com um médico, segundo dizia, de poucas falas, de gemido intenso, tacto e gula atrevidos, a trair o pudor que pretendia mostrar. Também se lembra de M., bem mais jovem, anca estreita, quase andrógina, a ponto de o pertubar com dúvidas sobre a sua orientação, mas memorável nas artes de Afrodite. E as outras, todas as outras, que lhe preencheram dias, semanas, meses, animando a vida monótona de celibatário funcionário público, quadro superior da Direção Geral de Agricultura.
Só as colegas lhe escaparam. Não se cospe na mesa que nos serve.
Nunca foi um homem bonito mas sempre se cuidou. Elegância discreta, moda feita por si, cabelo aparado a cada quinze dias, alimentação regrada, exercício físico regular, mãos tratadas desde que ainda jovem estudante se obrigou a nunca mais roer unhas e peles.
Na entrada da meia idade, marcou-se-lhe a mudança gradual que o seu corpo sofreu, a perda dos equilíbrios, do controlo e sensibilidade. Os cansaços e amolecimentos que lhe impediam proporcionar o prazer que se habituara a despender, embora parcialmente resolvidos com os milagres químicos da ciência moderna, mas já sem a excitação e entusiasmo da juventude
Nunca se confessou e raramente entrou numa igreja, talvez por que demasiado tivesse para contar, mas encontrou o seu templo no cabeleireiro, e o consolo espiritual no toque da manicure.
Não fala e envergonha-se do que pensa. O ligeiro arrepio na pele, pequena ereção e humidade que sente quando a cabeleireira lhe acaricia suavemente o cabelo, com as pontas das unhas, no triângulo entre a nuca e as orelhas. E a massagem cremosa nos nós dos dedos, relaxante, após cuidar de cada dedo, um a um, é quase o êxtase.
Nunca pensou realizar-se com esta idade.
Sempre foi um homem de novidades, experimentou quase tudo na sua longa vida, mas agora esperemos que o seu coração aguente mais uma forte prova: marcou pedicure para a próxima semana.
Maresia #2345
Sete dias, sete músicas
Maresia #2344
Sete dias, sete músicas
Lembras-te de mim?
Ouviu a pergunta numa improvável fila de espera de reclamações de clientes.
Lembras-te de mim?
Claro que se lembrava da cara, dos olhos, do sorriso, da face com menos rugas e pintura.
Lembras-te de mim?
Claro que se lembrava das juras, das promessas, da intensidade, da paixão, do calor, da pressa, do cheiro, de cada milímetro do corpo, mas não se lembrava do nome nem de onde.
Lembras-te de mim?
Forçou um sorriso, atrapalhado com a sucessão de nomes na memória, na esperança de apanhar algo que lhe desembaraçasse a situação.
Lembras-te de mim?
Lembrou-se claramente da voz, a mesma voz, a dizer que não queria que chegasse o dia em que ele se esquecesse dela.
Lembras-te de mim?
Claro que me lembro, mentiu, sem convicção, porque ela percebeu e já não perdoou nem se descaiu.
Não te lembras de mim?
Não me lembro, confessou, sem perdão, tornando-se numa cretina desilusão de promessas esbatidas, de homem maduro de várias vidas passadas, preferindo assim ficar, numa reserva, para si, da sua senil e envergonhada degradação.
Estou aqui a reclamar o quê? O que é que comprei?
Josefina Madeira . 11
Saíram de casa pelas nove horas, fazendo-se ao caminho pela única estrada, se é que se pode chamar estrada a um estradão de terra ainda que bem cuidado, que dava saída dali para fora, ou de lá para dentro, consoante a vontade ou conveniência, subindo curva à esquerda, curva à direita, repetidas em frustrantes ganchos intercalados por curtas retas de inclinação suave, à maneira de ultrapassar declives, montes e montanhas, com pouco dispêndio de calorias por cada hora percorrida.
O sol, já erguido, aquecia e recuava as sombras dos montes sobre o rio escuro e majestoso, e sobre casa onde já refletia na água corrente do tridente do filho de Poseidon.
Tinham feito aquele mesmo caminho na antevéspera, na volta das vinhas, mas agora parecia diferente, com outra orientação solar. As horas mais bonitas do dia são as primeiras e as últimas, e devem ser vividas e sentidas à sua maneira, na glória promissora da alvorada ou na tranquila melancolia do pôr do sol.
Sebastian parava várias vezes para fotografar, agora não as plantas, mas sim a paisagem. Não parava de falar, a recordar-se dos seus tempos de menino refugiado da guerra. Privilegiado mas, na mesma, menino assustado.
Parecia que falava para si, só, num monólogo egoísta. Não aguardava resposta e até parecia que ignorar Josefina, mas, quando os olhares se cruzavam, os olhos dela, curiosos e atentos, incentivava-no no discurso da sua memória.
Para ela, era a continuação da abertura de um mundo cheio e distante, que a fascinava, para mais, da vida de um homem ainda tão jovem, rapaz alto e desengonçado.
William havia-lhe reservado um lugar numa turma do colégio inglês, da cidade, mal soubera que Sebastian vinha pelo Natal. Ainda chegou a lá ir, quase uma semana, no início do segundo período. Não conhecia ninguém, os meninos eram ingleses mas eram diferentes dele. Conheciam-se bem entre si, eram filhos e netos de amigos de William, praticavam equitação, ténis e críquete no mesmo clube, ali perto, mas vestiam roupa muito diferente da dele e até o sotaque estranharam.
Sebastian sempre vivera sozinho, não tinha irmãos nem amigos chegados, nunca fizera grandes amigos na escola de Grosmont. Era tempo de guerra, havia poucos meninos, a mãe não o queria internado num colégio longe de casa. A turma era pequena, de filhos de operários, de ferroviários e de famílias de granjeiros das redondezas.
O que mais gostava era dos longos passeios de bicicleta até ao mar, por caminhos quase vazios, de sobe e desce colinas, da urze e flores silvestres ao vento, do roncar dos aviões a partirem para a guerra, lá longe, do outro lado do mar.
Estranhara a cidade. O céu de inverno era tão escuro e húmido como o dos Moors mas faltava-lhe o espaço e o vento.
A casa de William era grande, de vários andares, ligados por umas escadas de madeira escura, com corrimão trabalhado, que subiam em caracol entre os vários patamares, com um vão largo ao meio que deixava entrar a luz da clarabóia, no telhado, até ao piso de pedra, no rés do chão, Encaixada no meio de outras casas escuras, paredes meias, todas seguidas e de um lado e doutro, a abrir porta, janela e portão de garagem, estreito, diretamente para a estreita e sinuosa rua, de empedrado húmido e escorregadio, em rampa desde a beira-rio até ao jardim lá acima, do colégio e do mercado.
O rés do chão da casa tinha um pequeno hall, para a porta da rua e janela, de onde acedia às escadas. Ao lado ficava a garagem, por onde também se passava por um corredor de serviço, oculto, para o armazém de carvão e mantimentos, nas traseiras, para cozinha, para as caldeiras e para o quarto das criadas. As traseiras abriam para um pequeno pátio.
No primeiro andar, virado para a rua, ficavam o salão de estar e sala de jantar. Soalho de madeira a ranger, tapetes persas, lustres de cristal, espelho na parede, porcelanas em armários de vidro, pratas, candelabros, retratos de família, cortinas pesadas, mesa comprida, doze cadeiras forradas, sofás, mesa de jogo, carrinho de chá, cinzeiros, grafonola e piano. No mesmo piso, para trás, ficava a copa, ligada à cozinha por um pequeno elevador elétrico que fascinava Sebastian.
No segundo andar ficavam os aposentos privados. Duas suítes viradas para a frente e dois quartos para as traseiras, onde dormiu Sebastian.
O terceiro andar não tinha utilização definida. Era de quartos para hóspedes ou arrumos. William usava o da frente, para escritório de casa.
William vivia só, com duas criadas e o motorista, desde que os filhos, John e George, tinham ido para Inglaterra, servir a pátria. As criadas fardavam vestido preto, avental branco e cabelo apanhado. A mais velha era autoritária, falava alto, em português, percebia inglês, quando William lhe dava ordens, mas fingia nunca entender o que Sebastian dizia. A mais nova, nem vinte anos teria, magra, nariz comprido, quase sem queixo, pouco falava. O motorista conduzia o carro do patrão e fazia serviços de expediente na William Richardson & Co. Dormia num quarto das águas furtadas, lá para o quarto andar, para onde passava por uma porta furtiva, no patamar do terceiro andar, para umas escadas íngremes e estreitas. Também era de poucas falas.
Passavam os limites da quinta, marcados por dois imponentes tranqueiros de granito, e começaram a descer para a vila, a três quilómetros a partir dali. Já seguiam na via pública, de polido empedrado, e Sebastian continuava a contar os seus primeiros dias na quinta.
Como se estava a dar mal na solidão da casa da cidade, e como fora quase adotado por Maria, naqueles poucos dias que por lá passavam, William decidiu deixar a formação escolar para mais tarde, e privilegiar a estabilidade emocional, por algumas semanas ou meses, para consolar a criança longe da mãe e da sua casa.
Maria e Sebastian não falavam a língua um do outro, mas entendiam-se divertidamente entre gestos e desenhos. Ao fim de uns dias, depois de William partir, Maria resolveu levar o menino a passear à vila e passar na escola, por sua iniciativa. Maria sabia que um rapaz de sete anos precisava de escola, mesmo em tempo de guerra, num vale recôndito de um periférico país neutral. Não tinha forma de pedir autorização ou opinião ou, sequer, informar William, tutor legal do miúdo, da sua decisão, mas também achou que a escola não faria mal ao rapaz. Ia-lhe escrever, é certo, mas com a ida e vinda do correio, a resposta chegaria perto do fim do mês.
Maria não sabia como se poderia ensinar um menino estrangeiro no Portugal rural, mas achou que à professora Dulce, que tinha sido sua professora e de bem mais de metade dos habitantes da vila, e das aldeias vizinhas, veterana de várias gerações, não haveria de faltar solução.
Maria levou-o à escola primária da vila, por este mesmo caminho, por esta hora também, num frio dia de sol, de janeiro de 1943.
Na escola, o problema que se pôs é que a professora ainda sabia menos inglês do que Maria, que tinha prática de ouvir as conversas dos patrões e sabia vocabulário de sobrevivência caseiro. Sem comunicação, nada feito. Mas a professora Dulce lembrou-se do improvável anglófilo da terra, o Padre Rogério. Recordara-se de uma receção, na câmara municipal, a propósito da inauguração do coberto do lavadouro público, em que, em conversa, a propósito de literatura, constataram que as individualidades da terra, edil, juiz, professor, médico e padre, conseguiam entabelar conversa rudimentar em francês, mas surpreenderam-se com os dotes linguísticos do padre, que, além do francês da escola e do latim da missa, conseguia ouvir a BBC em direto, na onda curta da telefonia, e traduzir-lhes simultaneamente, em voz alta, as últimas da guerra.
Ficaram a saber que o padre, na juventude, fora missionário em Moçambique, no Tete, interior de confluência das Rodésias, do norte e do sul. O desterro do lugar e a proximidade das colónias inglesas, nesses oito anos, desenvolvera-lhe a fluência em inglês.
Desciam as curvas da estrada, viam a vila, a ponte, os vinhedos a ladear o rio. Nesta meia hora que levavam, não tinha passado qualquer carro ou carroça. Sebastian não se queixava, falava com entusiasmo, mas parecia, a Josefina, que o coxeio dele acentuava-se. Não quis perguntar.
Sebastian fazia este caminho todos os dias, de bicicleta, para ir para a escola.
Nos primeiros dias, Maria foi com ele a pé, levá-lo e trazê-lo, cinco quilómetros para cada lado, de manhã cedo e a seguir ao almoço. Depois, com a resposta por carta, de William, viera a aceitação da solução de escola local, mas com a ordem de que Jerónimo, o velho feitor, levasse e trouxesse o menino na camioneta da quinta.
Sebastian não queria andar com Jerónimo, não gostava dele, e convenceu Maria a deixá-lo ir de bicicleta. Passou a ser o segredos deles, o primeiro. Fizesse chuva ou fizesse sol, Sebastian ia de bicicleta para a escola. Quando chovia, levava uma capa de chuva e botas de borracha, de trabalho da quinta. Nunca se molhava e sentia a liberdade que teve no Yorkshire.
Caminhavam por entre vinhas, na descida para a vila. O declive deste lado era mais suave. Via-se o rio, a ponte, o casario de um lado e do outro, a igreja, a escola, na pequena quadrícula paralela ao rio, de avenida marginal, rua de trás, terceira rua quase descampada, que era a continuação da estrada para o concelho seguinte, e quatro transversais, uma das quais ligava a estrada nacional à ponte, passando pela pequena praça do município, de calçada e jardim, em torno do pelourinho. A vila desenvolvera-se na pequena porção de terra plana, entre o rio e o início do monte ensocalcado.
Naquele primeiro dia, aguardaram o fim da escola, ao princípio da tarde, e foram os três procurar o padre. Estava em casa. Respondeu-lhes de uma das janelas e mandou-os entrar. A porta estava aberta.
Esperaram uns minutos que se arranjasse. Era uma casa modesta, térrea, austera, encostada às traseiras da igreja. Entrava-se para uma pequena sala, de paredes brancas, recém pintadas, com uma mesa de jantar e quatro cadeiras, do lado direito, um sofá de dois lugares puído, do outro lado, e um pequeno aparador com portas de vidro de correr, onde se viam algumas chavenas de café, de serviços diferentes. Enquanto esperavam, Sebastian distraia-se com pormenores. Estava nervoso. Nunca tinha estado na casa de um padre. A mãe era católica mas não era muito de missas. Lembra-se de ter ido com ela algumas vezes à igreja católica de Saint Hedda, em Egton Bridge, a mais perto de casa deles. Era grande e bonita, velas, vitrais e imagens de santos. Contava as chávenas e os pequenos desenhos de flores, cinzelados no vidro. Desviava o olhar do crucifixo de madeira que enchia a parede. Não enchia pelo tamanho, era pequeno, mas era o único acidente nas quatro paredes muito brancas. De madeira escura, com um Cristo de latão polido a olhar o chão, em sofrimento. Sempre sofrera com as imagens dos mártires da igreja. Ouvira as histórias do sofrimento voluntário e tinha vontade de pegar naquelas imagens e levá-las com ele, libertá-las. Tivera pesadelos com um Saint Sebastian que vira na igreja, um santo com o nome dele, novo, cara de miúdo, despido e amarrado, espetado com setas, a chorar lágrimas de sangue. Aquele Cristo crucificado também sofria. Contava as chávenas, quase todas diferentes. Quantas diferentes?
O padre entrou. Não vinha de batina, como esperava, mas de casaco cinzento sobre uma camisa preta e gola clerical branca. As calças também eram pretas. Parecia mais um pastor anglicano. Se o visse na rua, não diria que era padre. Todo ele era civil. A postura, a roupa, o corte de cabelo. Era simpático.
Falavam entre si. Sebastian não percebia que diziam. Por duas vezes o padre pousou-lhe a mão na cabeça, sem olhar para ele. A certa altura falaram no nome dele. O padre deu um passo atrás, para o ver melhor, e falou-lhe em inglês, com ligeiro sotaque:
“-Olá, Sebastian! És o meu novo paroquiano?”
O padre Rogério, a professora Dulce e Maria foram os responsáveis pelo bom período que Sebastian passou lá, naqueles dois anos e meio no Portugal rural, em tempo de guerra mundial.
Combinaram um plano especial de estudos. Estudos em tempo de guerra, estudos para um pequeno refugiado.
Sebastian passava as manhãs na escola primária. Aprendeu a fazer contas como adição, subtração, multiplicação, divisão, mas também frações e geometria. Nas ciências, aprendeu os princípios de biologia, física e química. Da história de Portugal, mal percebia os textos, mas a professora Dulce teve o cuidado de cruzar a cronologia portuguesa com a história universal e as datas inglesas mais importantes. Da geografia, adorou as montanhas, rios, linhas de caminho de ferro, tanto da metrópole como das colónias. E começou a aprender português.
Comia na escola a merenda que Maria lhe preparava e ia ter com o padre Rogério, à igreja ou a casa. O padre nem sempre podia estar com ele mas deixava-lhe sempre leituras e trabalhos. Iniciou-o nos clássicos e falavam de tudo, de sociedade, cultura, até política em tempo de guerra. Era viajado, estudou em Roma, passou anos em África, tinha histórias caricatas e interessantes sobre tudo e todas as situações. Era claramente anti-nazi e anti-fascista e ficara impressionado com a história de Sebastian, sua mãe e o destino trágico de seu pai, em El Alamein.
O padre tinha uma biblioteca reduzida, mas interessante, fascinante para um miúdo curioso. Primeiro apresentava as obras, enquadrava o tema e a história, alertava para que alguns pontos importantes, liam alguns capítulos juntos, em voz alta, e depois Sebastian corria na bicicleta para casa, sobe e desce, com pressa de ler mais e desvendar o que vinha a seguir.
O primeiro que leram foi “The Jungle Book” de Rudyard Kipling. Sentiu-se Mowgli, criado na selva, por lobos, amigo do urso Baloo, da pantera Bagheera e do tigre Sheere Khan.
Depois leram “Ivanhoe” de Walter Scott. Sebastian entusiasmou-se com a Inglaterra do século XII, a luta do saxão Sir Wilfred of Ivanhoe pela restauração de Richard The Lionheart, contra a opressão dos normandos, a descrição dos torneios, e o amor proibido de Lady Rowena.
Leram vários livros, revistas, jornais, ouviam rádio, falavam de política, da guerra, da sociedade, do futuro. Estas tardes em inglês formavam o jovem Sebastian e mantinham o contacto com a sua cultura natal. A sua cabeça andava pelo mundo todo. Na rádio, ouviam os discursos de Churchill, os relatos do desembarque em Itália, da guerra no Pacífico e na Rússia, enquanto o padre mostrava as terras num velho mapa-mundi.
William ficou preso aos negócios, na cidade, sem a ajuda dos filhos, que estavam em Inglaterra, e só voltou à quinta pela Páscoa de 1943. Não estava muito preocupado, pois ia sendo informado pelas cartas semanais de Maria, relatando o dia a dia da criança, onde ela juntava umas folhas escritas em inglês do menino, a quem William respondia da mesma forma. Ela não sabia o que eles se correspondiam mas não deveria ser lamentos e más notícias, a ver pelo contentamento do rapaz e pela simpatia das palavras que o patrão lhe dirigia.
No dia do nono aniversário de Sebastian, o padre Rogério disse que não tinha mais livros em inglês mas tinha chegado a altura de dar o grande passo. Pousou em cima da mesa um velho volume de capa dura. Sebastian pegou, abriu, eram poemas e não conseguiu ler nenhum.
“-Esta é a obra fundamental da nossa civilização. A Eneida, de Virgílio. Não é obrigatório ler no latim original, mas é a única versão que tenho. Vais aprender latim ao mesmo tempo que vais seguir Eneias, desde a derrota de Tróia, quando enfrentou Aquiles e foi salvo da morte por Poseidon, até à fundação de Roma. Está aqui tudo o que sabemos e conhecemos, neste nosso mundo, como o destino, o dever, o nacionalismo, a coragem, a perseverança e a conexão entre os deuses e os mortais. E vais aprender a ler na verdadeira língua da sabedoria.”
“-Tu falas latim, como os padres?”, perguntou Josefina com admiração.
“-Claro que não”, respondeu divertido, “mas sei ler quase tudo. Abre-nos as portas do passado. Ainda vou aprender grego, quando tiver tempo, depois do vinho.”
Maresia #2343
Sete dias, sete músicas
Josefina Madeira . 10
“-Foi na fábrica do seu pai que aprendeu estas coisas, de gerir negócios?”
Foi assim de rompante que Josefina entrou na conversa do serão, junto ao rio, que já se tornava um hábito, como qualquer ato se torna hábito quando se repete com agrado e conforto, mesmo que seja só pela segunda vez, na repetição do lugar, do momento, os cadeirões confortáveis, o rio, o agasalho, com emoção e satisfação.
“-A fábrica não era do meu pai. O meu pai não era de Grosmont.”
Sebastian fez uma pausa. Parecia que estava a pensar no que dizer, como se não se lembrasse exatamente como tinha sido ou lhe tinham contado, mas, na realidade estava indeciso sobre o rumo da história. Ou melhor, sobre o ramo da história: se o da via materna, se o da paterna.
A história pesava-lhe, não no orgulho dos feitos dos antepassados, ou na vergonha dos registos de maldades e traficâncias, que todas as famílias com passado têm, mas pelo que lhe ensinava no testemunho do reviver de consequências que se repetem, por gerações, na ignorância de erros de causas passadas.
“- O meu tetravô, Arthur Thompson, era um modesto proprietário rural. As charnecas são terreno pobre e barato. Tinha gado e cultivava alguns cereais, além da forragem para os animais. Já há algumas gerações que sabiam que vivam sobre um monte de pedra preta. Quando se faziam escavações, em trabalhos na terra, poços ou minas, a poucos metros de profundidade aparecia a pedra preta. Sabiam bem que era hulha, boa para o inverno. Traziam uma carrada dessas pedras escuras e luzidias e tinham aquecimento para a noite toda. No verão, às vezes, havia problemas, com fogueiras e queimadas. Alguns filões afloravam à superfície e incendiavam-se. Também podia ser espontâneo. Não era perigoso, o fogo era muito lento, muito localizado e sem chama, mas também era persistente. Não se consegue apagar com água. Só abafando com terra e demorava dias, a fumegar, até apagar a brasa.
Ouvi estas histórias dezenas de vezes, da minha avó. Eu nunca vi estes incêndios. Agora já não há hulha à superfície.”
“-Isso é estranho. Montes a arder por dentro.
Já não arde? Conseguiram tapar a hulha toda?”, perguntou Josefina.
“-Tapar? Não!
Escavamos, gastamos e vendemos quase toda!”, disse Sebastian, a sorrir.
“-Grosmont é muito perto de Whitby. Na altura, Whitby era um pequeno porto de pesca. Tinham estaleiros, faziam os seus próprios barcos e pescavam. O principal sustento era a caça da baleia. Estavam ligados ao mundo pelo mar, de barco, e por pequenos e tortuosos caminhos de terra pelos moors, onde chegavam até Middlesbrough e York, a cavalo e de charrete. Mas a Inglaterra estava a mudar muito depressa, com o carvão e a máquina a vapor.
Em 1835 surgiu a Whitby and Pickering Railway, a W&P, que pretendia ligar o porto de Whitby a York e à rede de caminho de ferro nacional, até Leeds e todo o país. As linhas foram construídas atravessando as terras dos Thompson, que negociaram da melhor maneira. Mas o grande negócio foi a exploração da hulha para a florescente indústria. O velho Arthur, de granjeiro a barão do carvão, ficou rico em pouco tempo.
Em 1840, a W&P teve de furar um monte para escavar um túnel, nas terras de Arthur. De centenas de homens a trabalhar nessa obra, que vieram de outras paragens, com suas famílias, estabelecendo-se em casas de madeira improvisadas, nasceu uma pequena cidade, que lá ficou, depois dos trabalhos, no progresso do caminho de ferro. Começou por se chamar Tunnel, prosaicamente, mas foi rebatizada de Grosmont, em 1895. Os Thompson, agora, também eram landlords.
Por essa altura, nas escavações do túnel, descobriram, também, terras ricas em minério de ferro. Ferro e carvão é a base da metalurgia. Em 1910, o meu avô funda a Thompson, Foundry & Iron Works. Durante a Grande Guerra, ganhou bom dinheiro a fabricar peças para navios, tanques e canhões.
A Thompson era tão conhecida que, em 1940, foi o primeiro alvo da Luftwaffe, no North Yorkshire. Pouco se estragou, recuperaram rapidamente, mas esse bombardeamento causou grande impacto na cidade. A minha mãe nunca mais me deixou aproximar da fábrica. Tinham um vigia permanente, a olhar os céus. Sempre que se aproximavam aviões, tocava a sirene e fugiam todos para o campo.
Ela vivia em pânico, com a ideia da guerra chegar até ali, um desembarque e invasão dos alemães. Boatos, havia muitos. Uma vez, fizemos a mala à pressa porque diziam que os alemães estavam em Whitby e já havia combates de rua. Afinal era uma rixa de bêbados, com pancadaria. No fim, para comemorar o alívio, acabou tudo no pub, com muitos cânticos mas sem porrada.”
Fez uma pausa, como se a organizar as ideias.
Josefina já não se surpreendia.
“- Acho que foi a primeira vez que entrei num pub. Fui com a minha mãe. Também estavam lá outros miudos. Tinha seis anos. Com essa idade não podia, mas nesse dia valeu tudo. Parecia que tínhamos ganho a guerra, numa invasão que nunca existiu.”
A memória fez-lhe reviver a sua maior paixão.
“-Os aviões passavam constantemente sobre as nossas cabeças. Havia dois aeródromos da Royal Air Force muito perto, em Linton-on-Ouse e Wombleton. De lá saíam bombardeiros carregados de bombas para a Noruega, Holanda e Alemanha. Eu gostava de ver a escolta que os Spitfire faziam aos Lancaster. Uma vez cheguei a ver dois Spitfire a perseguir um Messerschmitt, sobre o mar, em frente a Robin Hood’s Bay. O alemão fugiu.”
Pôs-se de pé, sem olhar para Josefina.
Quando estava nestas memórias, nunca a olhava nos olhos. Como se estivesse outro mundo.
“-Sempre quis ser piloto de Spitfire.
No fim do colégio, com dezassete anos, apresentei-me na RAF para ser piloto. Não me aceitaram. Meio a brincar, meio a gozar, fui rejeitado logo no primeiro dia, alegando que com 1,90 m não conseguiam fechar a carlinga do Spitfire.
Era grande de mais para caber num avião de caça.”
Ficou calado bastante tempo, sério.
Parecia que recordava algo duro.
Após longos minutos, foi Josefina que falou.
“- Deve ter sido giro, nascer em Grosmont, crescer nos moors, com esse passado e recordações.”
“-Recordações de lá, tenho muitas. De miúdo, antes de vir para cá, e depois, nas férias, dos dez aos dezessete.
Quando voltei a Inglaterra, em 1945, a minha mãe mandou-me para um colégio interno, como acontecia a todos os miúdos da minha condição.
Tive de fazer um exame especial, porque tinha passado três anos em Portugal, longe da guerra e das escolas inglesas. Mas tudo correu bem, estava bem preparado.”
Virou-se para ela.
“-Amanhã temos folga do trabalho. Vamos visitar o padre Rogério. Maria disse-me que ele ainda está por cá. Não precisamos de levantar tão cedo.
Agora vamos dormir. Preciso de descansar.”
Pegaram nas almofadas dos cadeirões, para as guardar, e diirigiram-se para a porta envidraçada de correr, que acedia ao salão.
Ele parou à entrada.
“-Eu não nasci em Grosmont.”
Fez uma pausa teatral.
“-Nasci no Cairo, em 1935. Mas isso só conto amanhã.”