Twist

Reformar a nossa vida é como fazer um bolo.
Temos ovos, farinha, açúcar e fermento, queremos um bolo saboroso, mas não sabemos ao certo como fazer, não queremos ter trabalho, não nos queremos sujar, e, principalmente, não queremos correr o risco de o bolo sair mal e ficarmos sem ovos e sem bolo.

Património

Olhou-me no olhos e disse-me sentir um enorme vazio. Não percebi porquê. Comparado com a minha, tem uma vida preenchida de trabalho, filhos, netos e uma mulher bonita como eu nunca tive. O olhar continuava vazio. Ficamos longos minutos em silêncio.
– Estou velho, disse-me.
– Isso é bom, tens saúde, experiência, memórias boas, respondi.
– Já não sou eu. O meu corpo não responde com dantes. Desiquilibro-me, canso-me, suo, vejo e ouço mal, mas o pior é por dentro. Enfarto-me com o que como, ressaco com o que bebo, o intestino tem humores e gases como nunca.
– Isso pode ser divertido.
– Não tem piada. Agora, tudo tem o seu tempo, não é só o intestino. Funciona quando e como quer, e não quando é preciso.
– Acontece com todos. E a medicina tem boas soluções, tanto para o físico como para mente.
– Não gosto disso. Sempre fui autossuficiente. Sempre me controlei.
– Ninguém é autosuficiente quando precisa realmente de ajuda.
Estivemos calados mais outros longos minutos.
– Já mal me conheço. Olho-me ao espelho e vejo o meu pai. Acontece-me muitas vezes. Nunco me achei parecido com ele, já morreu há décadas, mas agora vejo os olhos dele, enrugados, e as peles caídas debaixo do queixo e dos braços. E para me ver ao espelho tenho de pôr os óculos. Já nem me consigo ver, sem óculos. Até o meu cheiro é diferente. Cheiro estranho, na minha roupa, pareço outro.
– Mas tudo a tua volta é bom. Família, trabalho, carreira. Fizeste carreira, é apreciada.
Olhou-me fixamente. Olhou à volta como que a ganhar coragem e voltou a fixar em mim.
– Queria ter a minha mulher de volta. Senti-la e desejá-la como dantes. É a minha companheira de sempre, amiga, parceira e confidente, mas agora parece uma sócia, como se dividíssemos o táxi da vida. Até já pegamos com pequenas coisas, vamos perdendo a paciência
– Disparate.
– É verdade. Não encontrarei outra como ela, não me excito com estranhas, nunca me entusiasmei com novidades. Percebes? Mas queria, sei lá, pelo menos sentir isso. Mudava de vida, se calhar. Se sentisse adrenalina do perigo, da aventura, do risco, qualquer coisa. Mas nada. Cada vez mais pareço um velho boi de carga, capado, pacífico, cansado.

Contador

A tua vida é um contador indiano cheio de gavetas, umas maiores, outras mais pequenas, algumas com chave. Guardas tudo o que passaste e que te lembras. O que não te lembras também está lá, mas no fundo, por baixo do que consegues ver, às vezes maior e mais pesado do que pensas, custa a abrir a gaveta, não sabes porquê, espreitas e só vez ideias levezinhas, mas voltas a esquecer porque já te distraíste com outro pensamento qualquer. Algumas estão fechadas à chave. Sabes bem quais são. São os segredos preciosos e mais dolorosos. Bem fechados.
A mim, só mostras o que queres. Coisas fáceis e agradáveis, normalmente. Outras difíceis, reveladas a custo, mas com sentido. Sabes que sou curioso e gosto de ti, vejo com atenção tudo o que me mostras, às vezes um dos segredos guardados com chave. Também vejo as portas fechadas do que não me mostras. Vemos os dois, não pergunto e aprecias o meu respeito.
Mas o que gosto mesmo é da confiança com que me deixas junto do teu contador. Ausentas-te, vais aos teus afazeres, e fico ali, junto de todas as gavetinhas da tua vida. Não toco nem abro, fico a apreciar o exterior do teu ser, lembrando-me do que és, do que mostras e do que me vais esconder para sempre, a aguardar que me voltes a dar atenção.
Conquistas-me quando me mostras que também estiveste atenta às minhas gavetas, viste o que quiseste ver, e não perguntaste pelo que não quis mostrar. E seguimos de mão dada.

Cidades

A cidade é encontro e renovação. As pessoas vêm e vão, as gerações mudam, as paredes ficam. Os velhos desaparecem sem darmos conta envergonhados pelo desinteresse a coberto do recato que pretendemos manter, mas chegam novas gentes, famílias, crianças, hábitos,  ruídos, sotaques. Mudam cortinados, candeeiros, pinturas, jardins, novos carros à porta. Surgem comércios, forasteiros e turistas. É a vida da cidade, em permanente mudança e ebulição, ennriquecendo ao sabor dos negócios e das migrações, expulsando uns e acolhendo outros. Há milénios que é assim. Quando não foi, só sobraram as paredes.

Fotografar

“Ela descobrira este impulso contrário em si mesma no casamento da prima Charlotte, aquele trabalho gratuito em 1955 que se tinha tornado uma exuberante orgia de três horas e meia de fotografia frenética, à medida que ela girava pela multidão, liberta das restrições da preparação laboriosa e mergulhada num rodopio de composições velozes, uma fotografia a seguir à outra, instantes efémeros que tinham de ser apanhados precisamente naquele momento ou então nunca, parava-se um segundo e a foto desaparecia, e a ferocidade de concentração exigida naquelas circunstâncias tinha-a lançado para uma espécie de febre emocional, como se cada rosto e corpo na sala estivesse a precipitar-se para ela ao mesmo tempo, como se cada pessoa ali estivesse a respirar dentro dos seus olhos, não mais do outro lado da câmara mas dentro dela, uma parte inseparável de quem ela era.”

Paul Auster, “4321”, cap. 2.3

Sobrevivos

“Anos mais tarde, a mãe confessou-lhe que também para ela o início tinha sido menos difícil do que o que veio a seguir.
… Com tantas decisões práticas e urgentes, a tomar, a questão de vender a casa e o negócio em New Jersey, de encontrar uma casa para viver em Nova Iorque, de mobilar essa casa enquanto tratava de pôr Ferguson numa escola adequada, o súbito massacre de obrigações que caiu sobre ela durante os primeiros tempos da sua viuvez tinha sido mais uma distração agradável do que um fardo…
Sem dúvida que ela tinha andado meio louca durante aqueles meses, disse ela, uma maluca alimentada a cigarros, café e impulsos constantes de adrenalina, mas depois de as questões da casa e da escola terem sido resolvidas, o furacão amainou e então parou completamente, e ela caiu num longo período de pensamento e reflexão, dias horríveis, noites horríveis, um tempo de torpor e indecisão em que pesava as possibilidades e tentava, a custo, imaginar onde queria que o futuro a levasse…”

Paul Auster
4321, cap. 2.3

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